A Batalha Termina Agora
2 Capítulo 1
Notas iniciais
"Ficção, quando não estamos juntos
Confundida com uma visão
Algo de minha própria criação
Acordo sozinho" (The XX — Fiction)
________________________________________x____________
Uma garrafa de uísque vagabundo e algumas roupas. Nada mais que isso. Todo o resto seria deixado para trás, inclusive seus companheiros inseparáveis: a Handgun e o comunicador. Levaria somente o celular em casos emergenciais. Largar e esquecer, simples. Era de se lamentar que não conseguia aplicar essa regra quando se tratava de sentimentos, principalmente por uma certa espiã foragida da Justiça.
Sabe-se lá quantos nomes ela fora chamada. Ada Wong talvez não passasse de mais uma da lista. Apesar das incertezas, a última chama da esperança ainda permanecia acesa nele, firme e forte. A declaração em Raccoon. Dizem que à beira da morte caem as máscaras.
Ao ouvir um vento forte balançar a janela, Leon freou seus pensamentos e batendo firme a porta nas costas, jogou a mochila no banco detrás. Ligou o motor, e cantando os pneus, partiu dali sem rumo, deixando temporariamente para trás a vida de agente até encontrar a resposta e o que faria dessa conclusão, caso achasse uma.
Em algum lugar dos Estados Unidos.
Trânsito parado. Música entediante na rádio. Pessoas despreocupadas atravessando a rua. Francamente ele não sabia o que se passava na cabeça desses americanos. O presidente da maior potência mundial havia sido morto a menos de um mês e ninguém parecia dar a mínima importância. Será que o mundo se tornara tão indiferente e egoísta? Pensava ele enquanto mudava de estação. Infelizmente o narrador estava comentando naquele exato momento o que o nosso protagonista menos queria ouvir nessa face da Terra.
Bioterrorismo. Ataques continuam causando grandes estragos. Vítimas aparecem todos os dias. Farsantes, aproveitadores e hipócritas sacrificam seres humanos para criação de novas drogas. O único consolo foi a menção da TerraSave, uma Organização Não-Governamental formado por antibioterroristas que crescera bastante nos últimos anos. Trabalhos voluntários jamais foram tão requisitados na sociedade como no século XXI.
– E assim caminha a humanidade – ele concluiu o raciocínio em voz alta e pisando distraído no acelerador, freou bruscamente em seguida, evitando um estrago maior.
De repente, uma das jovens que escapou do atropelamento apareceu em frente ao seu capô, gritando protestos, nervosa. A salvação veio pela saudosa companheira sua de longos anos: Claire Redfield. Desde o incidente de Harvardville, um não havia cruzado o caminho do outro. Mais mulher, mais madura. Quem diria que ela sobreviveria sozinha ao seqüestro numa ilha deserta?*
Leon, surpreso com a coincidência feliz, sinalizou para as duas esperarem em uma calçada próxima e estacionando o carro, desceu ao reencontro da antiga parceira.
– Enfim nos encontramos de uma – A garota o interrompeu, revoltada.
– Hei hei o mínimo que deve a minha melhor amiga é pedir desculpas por quase só matar ela atropelada, quero dizer... “nos” matar atropelada – Ela afirmou, brava.
– Moira, please – Claire murmurou, retomando em seguida sua atenção ao antigo parceiro – Desculpa Leon, estávamos andando distraídas.
– Ela tem toda a razão – Leon concordou, desajeitado – me desculpem... eu realmente estava bem distraído.
– Vejamos, mister... – a menina rebelde espiou o rosto do Leon – handsome, você acabou de ganhar no meu conceito – e concluiu – mas nem pense em chamar ela num encontro sem meu consentimento, combinados?
– Wow desse jeito serei obrigado a convidar as duas, topam? – Leon viu elas se entreolharem e apontando com a cabeça em direção a cafeteria no outro lado da rua, insistiu – por favor ladies, aceitem como meu pedido de desculpas.
Os três sentaram na primeira mesa vazia e passaram seus olhos no cardápio: Bebidas cheias de misturas e nomes complicadas. No final das contas, todos chegaram a mesma conclusão e pediram o bom e velho café puro e amargo.
Apresentações aconteceram entre Leon e a ídola rebelde da ativista. Moira Burton. Filha mais velha de Barry. O pesadelo na ilha deserta transformara sua vida. Hoje, maior parte de tempo era dedicado ao ONG Salve-a-Terra.
Por outro lado, o membro da Divisão de Operação de Segurança resumiu toda a trajetória sua em Raccoon, o fazendo relembrar pela enésima vez as lembranças de uma noite de terror. O final infeliz da família Birkin. E principalmente... a traição da Ada Wong**. Tudo por causa daquele maldito G-Virus.
Nesse instante, tristes recordações foram interrompidas pelo celular da Moira: – Excuse me – Ela saiu para atender a chamada incessante.
Claire aproveitou a ocasião e trouxe o assunto ao presente para descontrair o ambiente pesado: — Me diga, o que está fazendo aqui?
– Eu peguei alguns dias de folga e digamos que... estou à toa – Leon resolveu abrir o jogo, vendo a colega desconfiada – okay... okay “fui afastado” do trabalho por tempo indeterminado.
– What? – ela franziu o cenho, intrigada.
– Long story – ele respondeu, e passando a mão na cabeça, continuou – a parte do “à toa” não é mentira, eu... de fato não sei onde ir já que eu nunca tive uma vida muito social e... – mudou o foco do assunto – você, como estão as coisas?
– Eu e Moira vamos partir para a Europa daqui uma semana – ela começou a explicar, notando o interesse crescer nos olhos do agente – Houve suspeitas que um vírus chamado Plaga esteja contaminando as Ilhas Canárias nas regiões mais pobres, tirando o sono dos residentes.
– Mas ali é um ponto turístico – Leon comentou mais para ele do que para os outros – Espera... Plaga?
– Eu imagino que esteja pensando quem poderia estar por trás disso ou qual a razão de toda essa maldade e outras mil e uma coisas.
– Teria algum problema se eu acompanhar vocês? – Leon perguntou e percebendo o olhar perplexo da ex-comparsa, tornou a falar cuidadoso – Não se preocupe, eu pretendo não me interferir em nada e além do mais – pausou – sempre quis conhecer a TerraSave de perto.
Antes que ela pudesse responder, Moira ressurgiu no falatório, e sentindo um ar sério, indagou curiosa: — Está tudo bem por aqui?
– Nós acabamos de ganhar um novo membro e ele viajará conosco – Claire acrescentou, desapontada – temporário, mas.
– Em compensação acabou de perder sua melhor assistente temporariamente por causa do Barry que quer ela em casa alguns dias até o dia da viagem – Moira disse, desapontada – e o pior, ela precisa voltar já.
– O que já conversamos sobre isso? – a ativista repreendeu – Não precisa se preocupar comigo, vá tranqüila e nos vemos lá.
– Ah mana... se o bonitão aprontar durante a minha ausência, grita que vou correndo te salvar – Moira alertou ela e desapareceu na entrada.
A novata acabara por desconcertar a seriedade de ambos, que cairam na risada. Moira tinha o que os dois haviam perdido no tempo e espaço: vida pessoal. Trabalhos e mais trabalhos. Pressão de tudo quanto é canto. Estresse por falta de viver sem peso nas costas. Suas rotinas resumiam exclusivamente em obedecer as autoridades, consertar erros, proteger os indefesos.
Um voltou a focar no outro, acertando os pormenores da ida As Canárias: horário, local de encontro e o vôo. Aquela seria a primeira escolha de livre e espontânea vontade do Leon. Uma viagem sem missões definidas, sem interferências externas. Uma verdadeira caixinha de surpresas. Ninguém sabia o que o aguardava naquela Ilha.
– Bom – Leon saiu da cadeira – eu vou indo porque ainda preciso encontrar um hotel qualquer para ficar até a nossa par – nessa hora, ela o impediu de continuar a fala.
– I have a deal – Claire soltou a proposta – O que acha de ficar no meu apartamento por esses dias em troca de alguns favores seus?
– Você está querendo me contratar como seu secretário temporário é isso? – O homem indagou, arqueando uma sobrancelha.
– Mais ou menos – Ela percebeu o clima duvidoso e disse – não é nada complicado, você só precisa me ajudar a organizar as papeladas, participar na reunião comigo amanhã às 20h referente os últimos preparativos da nossa estadia nas Ilhas Canárias e – Agora foi o recém-membro da ONG quem cortou os argumentos intermináveis da amiga.
– Eu topo – Leon falou, calmo – eu até prefiro ter coisas a fazer que o tempo pássa mais rápido.
Apartamento da Claire.
Papéis infinitos esparramados sobre a escrivaninha. No centro da mesa, um laptop ligado com texto inacabado e na beirada, um porta-retrato de uma menina abraçado ao seu provável irmão mais velho. Num canto, caixas fechadas que pareciam de mudança. Claire havia se mudado a um ano e ainda não conseguira abrir os pacotes devido a falta de tempo.
Intermediar as negociações políticas focadas em recursos financeiros para compras de mantimentos e remédios aos necessitados. Comparecer as conferências de paz. Recrutar novos reforços e combater os ataques bioterroristas. Em resumo: trabalhar para a TerraSave praticamente 24 horas e 7 dias por semana não era uma tarefa fácil. Tudo pelas vítimas do Bioterrorismo.
O arrependimento não fazia parte do dicionário dos Redfield. Ela, escolheu o notebook e os diversos meios de comunicação. Chris, as armas e munições. Recrutador e lutador. Caminhos distintos e um único objetivo. Óbvio que, colocada a uma situação de risco como o recente atentado na Ilha Deserta, Claire não teria escolhas a não ser... lutar e sobreviver.
A montanha de documentos fez Leon repensar sobre sua profissão. Tudo começara com a bendita proposta.
Metido numa sala de interrogatório. Frente a frente com uma autoridade. Ameaças e chantagens. Tudo pela segurança de alguém que não escolheu perder os pais.
– Deixe a Sherry em paz. Ela é inocente! – Ele rebateu a chantagem.
– Ela sabe demais – O homem não cedeu as investidas do policial novato e acrescentou – O teu caso é diferente. Você tem valor. É um bom acordo. Caso aceitar, deixamos a garotinha em paz, caso contrário... – e deu o ultimato – a escolha é sua.
Escolhas. Fazer uma seleção de algo. Ter preferência por uma coisa e não por outra. Leon Scott Kennedy não teve opção. Quem sabe o destino não estaria lhe dando a chance de mudar seu trajeto?
Os devaneios do agente foram interrompidos pela voz enérgica da Claire: — Não repara a bagunça – largou uma pasta abarrotada de arquivos – Ah se quiser água pega na geladeira que deve estar bem gelada e comida tem a pizza de ontem – indicou o corredor – se for usar o banheiro, fica na segunda porta à esquerda e as suas coisas pode jogar por aí.
– Sim senhora – Leon colocou seus pertences no chão e acomodando-se no sofá, perguntou em tom descontraído – hey boss, por onde podemos começar?
– O que acha então de começarmos com você me falando o verdadeiro motivo de nos seguir nessa viagem? – Claire jogou outra ducha fria – ou acha mesmo que eu não percebi na hora que citei Plaga e seus olhos ganharam um brilho diferente?
– Eu estive em Eslava a algum tempo e me mostraram um exemplar perfeito da parasita Plaga e... nada demais – respondeu, evasivo.
– Vejamos, deixo adivinhar – afirmou, seguindo o olhar esquivo do amigo – quem te mostrou atualmente está sendo caçada e você fugiu para se livrar dessa responsabilidade.
– Eu acredito em evidências e não boatos – disse – eu só quero deixar bem claro que não estou aqui só pelos meus motivos pessoais – concluiu num tom de voz firme – você sabe mais que ninguém, eu nunca traio um time.
– I know, but – falou, sério – me promete uma coisa – respirou fundo e prosseguiu – em hipótese alguma vai colocar em risco a vida das vítimas eventualmente se ela der as caras.
– I understood – respondeu, seguro.
– Tem mais uma coisa que preciso te dizer – alterou drasticamente sua voz, e falou, receosa – meu irmão está atrás dessa mulher.
– Mas quem garante que ela esteja lá? – indagou, desejando no fundo da alma que seus caminhos não se cruzassem nem na Europa, nem no fim do mundo.
Ilhas Canárias.
O celular tocou. A voz nervosa presente do outro lado era um mel nos seus ouvidos. A mulher simplesmente sorriu, irônico.
– Eu ainda não tive tempo de sentir saudades de você – ela disse com a maior tranquilidade do mundo – não se preocupe, logo ele estará em suas mãos.
– Você me prometeu que não demoraria miss Wong – o homem implorou, ansioso – eu preciso daquilo o mais rápido possível para... – Ada ignorou suas súplicas e encerrou a ligação, impetuosa.
– Alex Wesker – a espiã pensou alto – uma pena que esse não seja tão esperto quanto ao seu “irmão” – e seguiu caminhando rumo ao seu próximo alvo.
Continua...
Fale com o autor