A Batalha De Alcatraz
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Considerando que a maioria dos fãs da saga estão acostumados com a versão grega dos deuses, aí vai uma pequena lista do que precisam saber das versões romanas:
Mercúrio - Hermes
Hércules - Herácles
Ceres - Deméter
Juventas - Hebe
Juno - Hera
Júpiter - Zeus
Saturno - Cronos
Marte - Ares
Netuno - Poseidon
Acho que é o suficiente.
Acordei um tanto sobressaltado. Olhei em volta, sentado na cama, e demorou mais ou menos uns três segundos para eu reconhecer o quarto parcialmente iluminado pelo Sol da manhã. Ainda não havia me acostumado com minha nova residência. Faz só três semanas que cheguei ao Acampamento Júpiter.
“Está tudo bem?” perguntou-me Gus, meu companheiro de quarto “você parece meio mal, cara...”
Respondi um “sim” não muito convincente. Eu realmente estava meio mal por causa do sonho que tive naquela noite. E na anterior também, e na outra antes dessa. Eu não o entendia muito bem. Só o que eu compreendia é que eu estava em algum lugar assustador, fedido (bem fedido, a propósito) e úmido, mas era escuro demais pra eu identificar o que havia à minha volta. ‘É só um sonho’ eu pensava... Mas os sonhos de semideuses nunca são somente sonhos.
Sim, é isso mesmo que você entendeu. Sou um semideus. Aliás, o Gus também é um. Bem como a maioria das pessoas no Acampamento Júpiter, onde estou morando agora. O Acampamento Júpiter é uma espécie de acampamento de verão que recebeu um “upgrade” divino. Nós, filhos dos deuses romanos (sim, que nem nos mitos), somos trazidos para cá pela deusa-loba Lupa (depois de algum tempo de treinamento de sobrevivência em uma matilha de lobos – acredite, não é nada divertido) e treinamos para matar monstros/criaturas mitológicas. É, ser um semideus num acampamento desses é divertido. Quer dizer, atividades de um acampamento de verão mortal não são nada quando comparadas a duelos de espada, Jogos de Guerra, treinamento físico intensivo e festivais pagãos! Por outro lado, quando você sai do acampamento, o seu cheiro atrai todo o tipo de monstro que quer te matar simplesmente por diversão – essa parte não é NADA legal. A propósito, o meu nome é Benjamin.
Bom, vou continuar a história, ok?
Eu e o Gus trocamos de roupa (colocamos nossas super-estilosas camisetas roxas, o uniforme dos campistas) e fomos para o pavilhão do refeitório. As mesas já estavam lotadas de campistas falantes sendo servidos pelas aurae – espíritos do vento – que pareciam sempre saber o que eles queriam comer. Nós nos sentamos à mesa destinada à terceira Coorte, da qual fazíamos parte, em quanto recebíamos sorrisos amigáveis e desejos de bom dia dos nossos companheiros. Num instante, o vazio do meu prato deu lugar a torradas crocantes e ovos e antes que eu pudesse começar a comer, Gus já havia devorado metade do café da manhã dele.
“Cara, desse jeito você vai morrer engasgado” eu disse, rindo.
“Bor guê?!” ele perguntou, comendo fatias de bacon, meio pão e bebendo um gole de leite, tudo ao mesmo tempo.
O pessoal a nossa volta riu, mas Gus não se importou (e continuou comendo como se fosse a primeira e última refeição da sua vida). A comida estava realmente ótima. Era melhor, pelo menos, do que a maior parte das refeições que fiz em toda a minha vida.
Vivi quase toda a minha vida na rua. Pelo menos, não tenho nenhuma lembrança de uma casa nem nada do tipo. Nasci em uma pequena cidade em Nebraska e vim para San Francisco quando eu tinha mais ou menos 11 anos (hoje tenho 16), na traseira de um caminhão. Cresci na rua, roubando comida dos bares e restaurantes e roupas das lojas. Sempre tive muita facilidade para convencer e enganar as pessoas quando eu precisava roubar alguma coisa. Não é um passado do qual eu me orgulhe, mas também não o escondo. Foi o jeito que dei para sobreviver... Bom, há alguns meses, quando eu estava nos arredores da cidade fugindo dos policias, encontrei a matinha de Lupa. Foi assim que descobri que sou filho de um deus, apesar de ainda não saber qual deles é meu pai. Sei que não é uma deusa, pois eu tive uma mãe (ela morreu há muito tempo...).
Eu estava pensando exatamente nisso naquela manhã, enquanto tomávamos café. Quanto tempo pouco um ano quando o pai dele, Hércules, o reclamou. Foi logo após ele ter se tornado um legionário (deixando de ser um probatio, como eu sou agora). O cara é filho de Hércules! Tipo, O HÉRCULES! Vocês viram o filme da Disney, não viram? Bom, eu não sei vocês, mas eu acho isso MUITO legal. O Gus é tipo, super-forte e tudo mais, que nem o pai dele. Ele me contou que é um dos poucos filhos de Hércules (o único, atualmente, no Acampamento Júpiter), já que só faz alguns milênios que o pai dele morreu e se tornou um deus. Além disso, parece que sua madrasta, Juventas, é tão ciumenta quanto Juno!
‘É por isso que ele come tanto’ pensei ‘deve precisar de muita energia pra ser super-forte’.
Nosso café-da-manhã foi rápido e relativamente tranqüilo. Todos no pavilhão estavam bem animados devido à recente vitória dos legionários. Parece que um pouco antes de eu chegar aqui no acampamento, os campistas atacaram a base dos titãs (SIM, OS TITÃS QUE NEM DO FILME DO HÉRCULES) no Monte Tam. Foi uma grande batalha, aparentemente. O nosso pretor, Jason Grace, filho de Júpiter, lutou com o próprio Crio. Além disso, ele e Reyna destruíram o trono de Saturno, fazendo com que a base dos titãs caísse em ruínas. Isso foi há mais ou menos um mês, mas como foi uma das maiores vitórias da Décima Segunda Legião Fulminata, os campistas ainda estavam eufóricos por causa dela. Desde essa vitória, o Senado tem se reunido praticamente diariamente e, pelo menos duas vezes por semana, mandado pequenos grupos em missões para acabar com os monstros que sobreviveram à batalha. Pelos comentários de Hank, nosso centurião, o Senado se reuniria mais uma vez naquele dia para debater as previsões altamente secretas que o nosso leitor de augúrios, Octavian, tinha tido enquanto estripava bichinhos de pelúcia. Parece que alguma medida definitiva seria tomada para acabar de vez com os monstros que restaram do exército dos titãs.
Eu já estava descendo a colina em direção ao Campo de Marte quando ouvi Gus perguntando.
“Ben! Onde você está indo?”
“Ah é! Estamos sem armas!” eu disse, já partindo em direção ao pavilhão de armamento.
Gus riu.
“Hoje é o nosso dia de limpeza” ele disse “vamos cuidar dos templos hoje”
Eu tinha me esquecido! Cada dia útil da semana, uma das coortes é responsável por limpar e cuidar da manutenção de alguma parte do acampamento. Era quarta, portanto, o dia da Terceira Coorte. De acordo com a programação, nós limparíamos a Colina dos Templos.
Subimos a colina em fila e, quando atingimos o topo, Hank nos dividiu em grupos menores. Eu e os outros probatios, Lizzie e Rob ficamos responsáveis pelo templo de Netuno. Pelo o que eu sei os romanos não eram muito fãs do deus dos mares (mesmo tendo dominado toda a região do Mediterrâneo, o Mare Nostrum, que é parte dos domínios de Netuno) e, portanto, era natural que os probatio ficassem encarregados do templo dele. Lizzie e Rob não pareciam muito satisfeitos com isso, mas eu não me importei. Recebemos tudo o que poderíamos precisar: baldes, vassouras, panos, rodos, produtos de limpeza e fomos ao trabalho. De tempos em tempos, o Hank aparecia para “coordenar”, ou seja, ficar olhando e balançando a cabeça, ocasionalmente mandando um de nós fazer alguma coisa;
Quando as trombetas anunciaram o almoço (mais parecia um ataque de cavalaria), nós estávamos limpando a escadaria que dava acesso ao templo. Lizzie ajudou a tirar a espuma de sabão que havia se espalhado pelos meus cachos escuros. Rob teve que passar no alojamento, pois sua camiseta estava completamente ensopada. Eles eram legais, a Lizzie e o Rob. Ela era filha de Ceres, o que dava a ela um ar de delicadeza, como uma flor. Tinha os cabelos ruivos cortados na altura dos ombros, olhos verdes e o rosto coberto por sardas. O Rob, por sua vez, era filho de Apolo. Era alto, de olhos e cabelos castanhos escuros. Ele tinha o péssimo hábito de falar em rimas, mas acho que era algo involuntário.
Após o almoço, voltamos para a Colina terminar o serviço. Já era fim da tarde quando voltamos para o acampamento. Minhas costas, braços e pernas estavam moídos de encerar o piso do templo de Netuno (por sorte, é um templo pequeno). De qualquer forma, depois de um banho relaxante nas termas e de um jantar delicioso, nós todos fomos convocados para o fórum, em Nova Roma. Nova Roma é uma espécie de vilarejo construído às margens do Pequeno Tibre que serve de lar para campistas formados, semideuses mais velhos e suas famílias. O Acampamento Júpiter fica na colina mais próxima à Nova Roma, guardando a cidade que mantêm vivos os costumes romanos. Depois da inspeção minuciosa de Término, deus-estátua que guardava os limites da cidade, todos nós nos reunimos no fórum para ouvir o anúncio do Senado.
A cidade inteira e toda a legião estavam lá. No total, deviam ser mais de seiscentas pessoas amontoadas em algumas centenas de metros quadrados, em frente ao majestoso prédio do Senado. As coortes se posicionaram bem em frente ao edifício, onde os senadores e Octavian aguardavam que todos se acomodassem.
Jason, o pretor, começou.
“Senatus Populusque Romanus” ele disse.
Um coro de seiscentas pessoas repetiu as palavras de Jason. Reyna colocou-se ao lado dele.
“Caros campistas e cidadãos de Nova Roma” disse ele, com e eloquência que somente um líder nato teria “o Senado esteve em reunião a tarde inteira, debatendo as medidas que serão tomadas para agradar à vontade dos deuses e manter seguro o nosso mundo. Antes de anunciarmos nossas decisões, Octavian fará uma breve explicação dos augúrios que nos levaram à sessão de hoje”
Octavian sorriu, satisfeito com a introdução de Jason para o espetáculo principal, ele mesmo (pelo menos, era assim que ele pensava, é claro). Ele tomou o lugar dos pretores e começou seu discurso nem um pouco breve, falando sobre nossas recentes conquistas e como os deuses confiavam em nosso acampamento para manter a ordem e a segurança no mundo mítico e mortal. Blá, blá, blá... Enfim, depois de mais ou menos quinze minutos de enrolação, Octavian chegou ao ponto principal da reunião: os deuses haviam ordenado que o acampamento eliminasse definitivamente as criaturas sobreviventes do exército dos titãs de San Francisco, já que até mesmo os mortais já estavam notando as atividades estranhas que vinham acontecendo na cidade. Nesse ponto, Reyna e Jason (graças à todos os deuses) retomaram a palavra.
“Assim, de forma a não comprometer a segurança do Acampamento Júpiter e de Nova Roma e também cumprir o dever que nos foi dado pelos deuses, o Senado decidiu que um número mínimo de legionários serão enviados para essa missão” disse Reyna, fitando-nos com seus olhos de gelo.
Jason continuou.
“Detectamos cinco grupos principais de monstros agindo sobre San Francisco nesse momento. Portanto, cada coorte enviará um grupo de três campistas para um desses cinco focos de ação” ele disse “Porém, ao invés de enviarmos legionários, o que nos deixaria com poucos desses e colocaria em risco a segurança do acampamento, enviaremos grupos compostos por apenas um legionário e dois campistas em probatio”.
Em outras palavras, eles não gastariam legionários habilidosos e bem treinados em uma missão perigosa e de segundo plano como aquela. Perder um probatio era, definitivamente, bem melhor do que perder um legionário experiente.
“Só lembrando” dessa vez, era Reyna quem falava “que os probatio que sobreviverem a essa missão serão promovidos à legionários, sem necessariamente já terem cumprido um ano de serviços”
‘Pelo menos isso’ pensei.
Em seguida, cada centurião convocou três de seus campistas para a missão. Hank não teve dúvidas.
“Augustus, legionário, filho de Hércules. Elizabeth, probatio, filha de Ceres. E Benjamin, probatio, ascendência indefinida”
Gus, Lizzie e eu nos entreolhamos. Eu não sabia se ria ou chorava. Cara, eu era campista a tipo, três semanas e EU IA SAIR EM UMA MISSÃO. Muito legal! Muito assustador! Enfim, quase imediatamente depois dele dizer meu nome, um símbolo azul brilhou sobre minha cabeça. Eu não sabia o que era aquilo. Era tipo uma haste/bastão/cajado, só quem com asas. E tinha umas cobras enroladas nele.
“O caduceu” sussurou alguém à minha direita. Hank sorriu.
“E Benjamin, probatio, filho de Mercúrio” ele corrigiu.
Acordamos um pouco mais cedo do que o normal no dia seguinte. Houve mais uma reunião no fórum e dessa vez somente os campistas da missão, os senadores, os pretores e Octavian estavam presentes. Eu estava me sentindo bem enjooado e agradeci a todos os deuses que eu conhecia por não ter comido nada naquela manhã (quer dizer, ainda eram cinco horas, não dá para considerar isso manhã!). Bom, de qualquer forma, recebemos armamentos e suprimentos. Lizzie escolheu uma faca longa de Ouro Imperial. Eu peguei duas adagas do mesmo tamanho, pois imaginei que eu seria ágil o suficiente para usá-las ao mesmo tempo. Gus já tinha seu arco e flecha, mas pegou uma espada, só por garantia. Recebemos uma boa quantidade de ambrosia e néctar, além de outros equipamentos básicos de sobrevivência (corda, lanternas, etc.).
“Escutem bem” disse Hank, fazendo um sinal com a mão para nos aproximarmos “é preciso muito cuidado lá fora, os monstros vão sentir o cheiro de vocês à quilômetros de distância, então fiquem atentos”.
Todos assentiram. Os olhos de Hank eram sérios. Eu não sabia se ele realmente se importava com a nossa vida ou se não queria que envergonhássemos a coorte ou algo do tipo. Eu achava que era a segunda opção.
“Há algum tipo de atividade estranha ocorrendo perto de Alcatraz” ele continuou “é para lá que vocês vão”
“A prisão de Alcatraz?” perguntou Lizzie, incrédula. Era mais uma pergunta retórica, na verdade, por isso, Hank continuou:
“Alguns legionários estiveram lá e parece que a Névoa está muito intensa naquela região” ele disse “isso quer dizer que tem alguma coisa que precisa de muita Névoa para se esconder dos mortais. Talvez algum monstro. Ou até algo pior”
Eu não conseguia pensar em nada pior, mas resolvi não perguntar por que estava com muito medo da resposta. Ao invés disse, perguntei:
“Como vamos chegar lá?”
“Nós não temos como fornecer transporte” foi a resposta de Hank.
Ele deu de ombros.
“Vocês terão que dar um jeito. O pessoal da primeira e da segunda coorte já partiu. Vocês são os próximos”.
Gus, Lizzie e eu fomos conduzidos por Hank até o túnel Caldecott. Antes de sairmos, Hank nos desejou boa sorte. “Que os deuses estejam do lado de vocês” ele disse. E eu realmente esperava que estivessem.
Do outro lado, dois legionários guardavam a entrada do túnel, mas bastou alguns passos em direção à estrada para que tudo (os dois guardas e porta) desaparecesse. Nós três nos entreolhamos. Estávamos sozinhos, fora da segurança do acampamento, numa estrada deserta.
“O que fazemos agora?” perguntou Lizzie.
“Precisamos dar um jeito de chegar à cidade” respondi “precisamos chegar até Píer 41, é de onde saem os barcos para Alcatraz”
Gus assentiu e Lizzie deu de ombros.
“E como você pretende fazer isso, Senhor Conheço-o-mapa-de-San-Francisco-de-cabeça?”
“É fácil” eu disse. Na verdade, não era tão fácil assim, mas eu tinha algo em mente.
Subimos a pequena colina, sob a qual o túnel para o Acampamento passava. Nesse meio tempo, alguns carros passaram pela estrada, mas nenhum adequando para os meus planos.
“Prepare uma flecha” eu disse para o Gus.
“Pra que...” começou Lizzie, mas eu a cortei pedindo silêncio.
Ficamos à espreita por quase meia hora, até que, finalmente, um caminhão passou por onde nós estávamos. Era um caminhão de uma companhia de colchões. Perfeito.
“Atire na roda dianteira” falei para o Gus “depressa!”
Ele atirou. A flecha atingiu a roda dianteira esquerda e o caminhão derrapou um pouco antes de parar. Eu puxei os dois colina abaixo (descemos praticamente rolando). Em silêncio, nos posicionamos atrás do caminhão.
“Dá pra chegar até a cidade?” perguntava alguém dentro do caminhão.
“Sim” respondeu uma voz masculina. Era o motorista que havia descido e estudava o pneu furado “se formos depressa”
Não tínhamos muito tempo. Estudei o fecho da carroceria. Havia um cadeado que mantinha presa a porta. Somente. Seria bem fácil.
“O que vai fazer agora, gênio?” murmurou Lizzie.
“Vou colocar a gente aqui dentro” eu disse, sem desviar os olhos do cadeado.
Bastou um toque e um pouco de concentração. Eu já havia feito aquilo antes. Agora eu entendia porque eu era capaz de fazer isso. Sou filho de Mercúrio, deus dos ladrões. O cadeado se abriu com um ‘clique’ e, delicadamente, abrimos a porta da carroceria. Pilhas e pilhas de colchões nos esperavam do lado dentro. Entramos sem fazer nenhum ruído, fechando a porta atrás de nós, ao mesmo tempo em que ouvi o veículo sendo ligado ruidosamente. O caminhão arrancou com força, nos fazendo cair sobre as pilhas de colchões. Bom, pelo menos era confortável.
O Sol já estava alto quando chegamos à Oakland Bay Bridge. Gus e Lizzie estavam ofegantes, mas eu realmente não me sentia cansado. Nós tínhamos andado exatamente três quilômetros e trezentos e vinte sete metros e eu não fazia idéia de como eu sabia disso.
"O Píer 41 é do outro lado da ponte" eu disse "é de lá que saem os barcos para Alcatraz.”
Gus estava apoiado nos joelhos, tentado recuperar o fôlego.
"Cara, você decorou o mapa de San Francisco ou isso é algum tipo de poder paranormal dos filhos de Mercúrio?”
Bom, eu vivi boa parte da minha vida nas ruas de San Francisco, então acho que é natural que eu soubesse chegar a qualquer lugar na cidade. Por outro lado, acho que poderia fazer isso mesmo que tivesse chego naquele dia na cidade. Além disso, no tempo em que estive nas ruas, eu sempre encontrava os caminhos para onde eu queria/precisava ir. Aliás, de alguma forma definitivamente sobrenatural, eu tinha guiado o grupo até onde estávamos na Rua Shellmound. Descemos do caminhão quando esse parou num grande posto de gasolina, onde aparentemente havia serviço de troca de pneus de veículos de 150 000 quilos! Como o motorista estava falando com o cara do posto, nós conseguimos sair sem que ninguém percebesse. Tudo estava ocorrendo muito bem até nós percebermos que teríamos que percorrer o resto do trajeto à pé, porque não poderíamos pagar pela condução (o Acampamento Júpiter não nos forneceu dinheiro mortal, então só tínhamos denários – a moeda que usava-se na Roma Antiga). E, por algum motivo realmente assustador, eu soube exatamente cada rua, avenida e alameda que precisávamos pegar para chegar até aqui, mesmo sendo uma parte da cidade que não conheço muito bem.
Agora éramos três adolescentes largados à beira de uma rua relativamente movimentada de San Francisco. De um lado, um velho armazém sujo, do outro, a Lincoln Highway, a avenida que atravessava a ponte. Até agora, pelo menos, estava tudo relativamente tranqüilo. Apesar dos campistas afirmarem que o nosso cheiro é um farol para monstro, nada de anormal tinha acontecido.
"Que tal comermos alguma coisa?" sugeriu Lizzie, apontando para o outro lado da rua.
No lugar onde, há algumas semanas, havia um armazém velho e abandonado, uma enorme franquia da Bargain Mart ocupava todo o quarteirão. A construção estava completamente iluminada e coberta por diversos anúncios publicitários. De acordo com os outdoors, havia uma grande promoção de Enroladinhos de Queijo e Salsicha (de 4,99 por 2,99). Parecia delicioso! De repente, meu estômago roncou. Eu não tinha percebido que estava com tanta fome!
“Enroladinhos de Queijo e Salsicha, aqui vou eu!” disse o Gus enquanto cruzávamos a rua em direção ao Bargain Mart.
O que poderia dar errado?’ eu pensei. Claro que, quando você é um semideus, tudo o que você faz no mundo mortal tem pelo menos 85% de probabilidade de dar errado. Mas é claro que, quando entramos na loja e o cheiro de comida que entope deliciosamente as artérias nos atingiu, nós não notamos nada de errado. Quando nós pedimos dúzias e dúzias de Enroladinhos de Queijo e Salsicha, não notamos nada de errado. Quando a atendente trouxe nosso pedido com uma camiseta que dizia ‘COMO SEMIDEUSES NO ALMOÇO’ por baixo do avental da Bargain Mart, nós não notamos nada de errado. Foi só depois de comer como loucos, até ficar tão cheios que nem dava para se mexer que percebemos que havia algo de errado com uma atendente com cabelos de cobra correndo na nossa direção.
“GÓRGONA” gritou Lizzie enquanto desviava de um golpe da bandeja que a mulher dos cabelos de cobra usou como arma.
Eram AS GÓRGONAS, CARA! Tipo, as irmãs da MEDUSA! Nós estávamos LUTANDO com monstros com cabelo de cobra, irmãs de um dos monstros mais famosos da mitologia greco-romana. A da bandeja atacou Lizzie de novo, mas ela se esquivou e sacou sua faca, investindo na górgona. O Gus sacou sua espada e eu preparei as adagas. Outra ‘mulher’, praticamente igual a que lutava com Lizzie, corria na nossa direção.
“Aquela ali é Esteno” disse ele, apontando com a espada para a górgona da bandeja “a que está vindo para cá é Euríale. Vá ajudar Lizzie, eu cuido dessa”
Lizzie estava tendo problemas. Mesmo com apenas uma bandeja, Esteno parecia estar conseguindo defender-se bem das investidas de Lizzie, e suas unhas já haviam deixado marcas bem feias no braço da garota. Eu corri na direção das duas, atacando Esteno por trás. Ela desviou, lançando a bandeja contra mim. Caí em cima de uma mesa cheia de amostras grátis de Enroladinhos.
“Por que não pega um deles querido?” ofereceu Esteno “são gratuitos e contém sangue de górgona”
Eu não sabia o que o sangue de górgona faria, mas pela forma que ela falou, não devia ser coisa boa. Esteno largou a bandeja e investiu contra mim com unhas e dentes. Ela segurou meus braços de forma que eu não conseguia golpeá-la de forma eficiente com as adagas. Suas unhas afundaram na carne do meu braço. Nesse momento, a figura monstruosa de Esteno se desfez em pó. A faca de Lizzie estendia-se por onde, um segundo antes, estava o abdômen do monstro.
“Obrigado” agradeci.
Lizzie estendeu a mão e corremos para ajudar Gus. Ele e Euríale estavam lutando na cozinha, atrás do balcão de pedidos. Quando entramos no cômodo de azulejos brancos, repleto de máquinas gastronômicas enormes, Euríale tentava colocar a cabeça de Gus no olho fervente onde as batatas fritas eram fritadas. Ele segurava os braços do monstro com todas as forças, enquanto Euríale empurrava sua cabeça para dentro da fritadeira industrial. A espada de Gus estava jogada do outro lado do aposento.
Investimos juntos contra o monstro, mas Euríale chutou a bancada de aço, fazendo-a voar em nossa direção. Eu abaixei, mas Lizzie foi atingida, indo parar no balcão. Com um golpe, atingi o lado direito do corpo da górgona com minha adaga. O monstro urrou e soltou Gus, que rolou para o chão. Euríale virou-se e enfiou as garras em meu ombro e eu enfiei a outra adaga no seu. Recebi um golpe na barriga que me derrubou. A górgona me levantou pelo pescoço. Ela tinha um sorriso triunfante.
Foi nessa hora que Gus salvou minha vida. Com sua força sobre-humana, ele puxou Euríale e forçou a cabeça da górgona para dentro do fogão industrial. Lizzie já estava preparada e, assim que Gus colocou a cabeça cheia de cobras lá dentro, ela acendeu o fogo. E então, nós corremos.
Imagine a seguinte cena: três adolescentes com armas da Antiguidade, pingando sangue, correndo de uma franquia da Bargain Mart em chamas. Foi o que aconteceu depois de derrotarmos às górgonas. Gus, Lizzie e eu atravessamos a Oakland Bay Bridge correndo. Nós só paramos quando estávamos do outro lado.
“Estão todos bem?” perguntei, dessa vez ofegante, quando finalmente paramos do outro lado.
Lizzie tinha alguns arranhões no braço e Gus parecia intacto, sem ser pelas marcas das mãos de Euríale no pescoço dele. Por outro lado, as feridas das garras da górgonas em meu braço e em meu ombro pareciam meio feias. Lizzie pingou um pouco de néctar e, na meia hora em que aproveitamos para descansar, as feridas se fecharam.
“Precisamos continuar” lembrou Gus.
Voltamos à caminhada. A ponte terminava em frente ao Píer 48 e nós precisávamos chegar ao Píer 41. Em silêncio, percorremos a Hyde Street. Foi quando estávamos na altura do Píer 45 que percebi algo estranho. À nossa direita, na praia, um senhor de meia-idade pescava. Mas ele não usava uma vara ou uma rede, ele usava um tridente! Alguém do outro lado da rua gritou alguma coisa para o senhor e ele resmungou alguma coisa em resposta. O grito tinha vindo de uma construção pequena, de dois andares. Na porta, pendia uma placa com inscrições em algo que parecia grego, mas logo em baixo, dizia-se em inglês ‘Hotel Argonaut’.
“Vejam aquilo” eu disse, apontando para a placa.
“Hotel Argonaut” disse Lizzie, semicerrando os olhos para enxergar.
“O que há de errado?” perguntou Gus.
“Argonaut... Tipo dos argonautas” respondeu Lizzie “acho que devíamos ir lá... Eu sinto...”
Assenti. Atravessamos a rua em direção ao hotel. Ao lado da entrada, um homem sentado em uma cadeira de praia gritava coisas para o pescador do tridente na praia.
“Com licença senhor” disse Lizzie, aproximando-se “sabe me dizer a que distância nós estamos do Píer 41?”
“O que três jovenzinhos querem no Píer 41?” perguntou o homem.
“Estamos indo para Alcatraz” respondi sob o olhar reprovador do Gus.
O homem riu.
“Garoto, a ilha de Alcatraz está isolada à mais de...” ele parou bruscamente e seus olhos se arregalaram. O homem inclinou sua cabeça para dentro do edifício e gritou “Idmom! IDMOM! ELES ESTÃO AQUI!”
Gus, Lizzie e eu nos entreolhamos. Gus deu de ombros. Eu não sabia quem era aquele cara, mas ele parecia saber quem nós éramos. Outro senhor de meia-idade apareceu na entrada no hotel. Ele fez sinal para entrarmos e, contrariando todo e qualquer bom senso, nós entramos.
Eu tenho que admitir que mesmo depois de semanas em um Acampamento para semideuses e de lutar com monstros mitológicos no Bargain Mart, o que eu encontrei lá dentro me surpreendeu. Era um hotel simples, um albergue, por assim dizer. Havia uma espécie de sala de estar, com um balcão no fundo onde os hospedeiros deviam se registrar. Havia mais seis homens de mais ou menos uns quarenta ou cinqüenta anos na sala que, minutos depois, descobrimos serem os ARGONAUTAS. Primeiro górgonas, depois ARGONAUTAS. Eu não podia acreditar!
“O hotel é uma espécie de refúgio que Argo montou para nós no mundo moderno” disse o cara que estava lá fora, apontando para o homem atrás do balcão “é aqui que nós, heróis esquecidos, passamos nossa eternidade”
“Eternidade?” perguntou Gus.
“Sim” respondeu “a maioria de nós, quando morreu, ganhou a imortalidade como prêmio – ou castigo – dos deuses por nossos feitos heróicos”
“Apesar de ninguém mais se lembrar deles” completou um dos homens, sentado numa poltrona.
Eles eram, no total, nove. O que estava lá dentro era Laerte, pai de Ulisses ou Odisseu, o cara do Cavalo de Tróia; o que nos conduziu para dentro era Idmom, o adivinho filho de Apolo, parece que ele já sabia que nós estávamos vindo; também havia o avô materno de Ulisses, Autólico, filho de Hermes (que, aparentemente, é o nome grego do meu pai); Acasto, primo de Jasão; Peleu, pai de Aquiles, e seu irmão Télamon; Filoctetes, mestre de armas de Heracles (o nome grego do pai do Gus, Hércules); o Eufemo, filho de Poseidon, que estava pescando lá na praia; e Argo, que construiu a nau dos argonautas e o hotel em que estávamos. Todos eles já haviam sido famosos heróis um dia, mas suas façanhas tinham caído no esquecimento com o passar dos séculos.
“Bom, se querem sair vivos dessa missão, vão precisar da nossa ajuda” disse Laerte “Filoctetes, vá lá em cima buscar aquilo que Idmom pediu”
Filoctetes não hesitou. Em menos de um segundo, ele já havia desaparecido escada à cima.
“Vocês vão nos ajudar a enfrentar... seja lá o que estiver em Alcatraz?” perguntou Lizzie.
Laerte estremeceu. Foi Peleu quem respondeu.
“Não mocinha” ele disse, sério “Não diretamente, pelo menos”
“Não iremos com vocês, pois essa é a sua missão” completou Argo, sem desviar os olhos do balcão “mas podemos dar, hm... conselhos.”
“Vocês sabem o que há em Alcatraz” deduzi.
O silêncio se apoderou do cômodo. Laerte nos olhou com condolência. Dessa vez, Acasto se manifestou:
“Sim. Perses e seus irmãos estão lá” disse ele “Perses, Astreu e Palas. São os filhos de Crio”
Crio foi o titã que Jason derrotou na Batalha do Monte Tam há um mês. Então quer dizer que seus filhos ainda estavam por aí, escondidos na ilha de Alcatraz.
“Eles são titãs da segunda geração, mais fracos, mas ainda titãs” disse Télamon “Perses é o problema. Ele é inteligente. Subordinou os irmãos à ele e está juntando forças para reerguer outra vez o Monte Ótris”
Lizzie parecia meio pálida demais e Gus estava em choque. Eu me sentia uma criança a quem tinham dado uma tarefa de adulto. Como nós derrotaríamos três titãs. Tudo bem, eles não eram tão fortes quanto os titãs originais e deviam estar ainda mais enfraquecidos pela batalha há um mês, mas eram TITÃS. Foi quando Filoctetes desceu carregando algo ainda mais surpreendente. Era uma alijava cheia de flechas e um arco, ambos feitas de um material que parecia bronze.
“É bronze celestial” disse Filoctetes “é o metal que usávamos na Grécia Antiga para matar monstros. É muito raro”
Filoctetes se aproximou de nós.
“Qual de vocês é o filho de Heracles?” perguntou.
Gus, que estava vidrado na arma.
“Hércules” ele corrigiu.
“Ah sim... A forma romana” disse “esse era o arco dele. As pontas das flechas foram banhadas no sangue da Hidra de Lerna, é letal mesmo para os titãs”
Filoctetes estendeu a arma e Gus trocou a sua por aquela. Era bem maior, portanto deduzi que seria bem mais pesada. Mas isso não seria um problema para o Gus.
“Agora vocês precisam ir” disse Laerte.
Eufemo, o filho de Poseidon (como os gregos chamam Netuno), nos conduziu num pequeno barco a remo até a ilha. Ele nos deixou na costa e, após uma meia hora de caminhada, chegamos à temida prisão de Alcatraz. O Sol já estava se pondo e o prédio parecia cada vez mais sombrio à nossa frente. ‘Lá vamos nós... ’ pensei.
Até que demorou bastante para sermos capturados. Nós andamos por uma ou duas horas antes disso. Vagamos por corredores escuros, imundos e fedidos (aliás, reconheci o cenário do meu sonho). Quando o inimigo veio, nós nem tivemos chance. A aproximação foi tão rápida que, quando percebi, ele já estava em cima de mim. Lizzie gritou e ouvi alguém sacando uma espada. Então, o mundo se apagou.
Minha cabeça doía. O lugar onde acordei era bem mais iluminado. Tochas iluminavam o grande salão e Gus e eu estávamos bem no centro, amarrados pelas mãos, de costas um para o outro. O teto era sustentado por grossos pilares. Mais perto do fundo, sentado em um trono de ferro, um jovem de cabelos negros e olhos de gelo sorria com crueldade. Perses, pelo o que eu deduzi. Seus irmãos estavam mais próximos de nós, eu não sabia quem era quem, pois os dois eram exatamente iguais. Os dois também tinham os cabelos escuros e os olhos de gelo, mas traziam um sorriso meio abobado no rosto. Deu para entender porque Perses estava no comando. Do outro lado, perto da entrada, nossas armas estavam amontoadas. O arco estava lá. Não havia sinal da Lizzie.
“Você está bem?” murmurou Gus.
“Dentro do possível” respondi, sentindo a corda que prendiam nossas mãos atrás das costas “e você?”
“Meu braço” ele gemeu “acho que está quebrado”
Uma voz fria nos atingiu como uma navalha, ecoando por todo o salão.
“Não é educado ficar aos cochichos” era Perses.
“Não é educado manter as visitas amarradas” rebateu Gus.
Perses e seus irmãos riram. Um dos gêmeos disse ao outro que gostava de brincar com meio-sangues.
“Mantenha-os distraídos” eu murmurei para Gus “eu vou soltar a gente”
Meus dedos percorreram o nó. Era um nó realmente bem feito. Pela primeira vez na vida, rezei para o meu pai. ‘Pai... Er... Se o senhor está me ouvindo, que tal me ajudar com esse nó? Não sei se consigo soltá-lo sozinho’ Me senti meio idiota de falar sozinho em minha própria mente, mas eu realmente precisava da ajuda dele.
“Meus monstros estão atrás da amiguinha de vocês” provocou Perses, com sua voz cortante “em breve nós teremos os três”.
“E o que está esperando para nos matar?” perguntou Gus, ganhando tempo.
“Estamos esperando sua amiga” Perses respondeu “com o sangue de três semideuses, poderemos fazer o ritual para reerguer meu pai e o Monte Ótris”
Meus dedos corriam pelas cordas. Puxava aqui e ali, aparentemente desfazendo o nó. Gus riu, provocativo.
“Por quê? “ perguntou ele “para o destruirmos outra vez?”
O olhar de gelo de Perses ficou ainda mais cruel. Seu olhar carregado de ódio atingiu Gus. Os irmãos gêmeos bobões não pareciam muito felizes também.
“Astreu! Quebre o outro braço do filho de Hércules” ordenou Perses.
Astreu começou a se mover em nossa direção. Gus olhou-me com urgência. Se ao menos eu pudesse ver o nó! Meus dedos se mexiam a toda a velocidade. Um puxão aqui e outro acolá. Pronto! Estávamos soltos!
“Agora!” gritei para Gus.
Nós dois corremos a toda a velocidade até a pilha dos armamentos, na entrada do salão. Eu peguei minhas adagas e Gus sua espada. Mas o arco não estava mais lá! Não tivemos muito tempo para ficar surpresos. Gus e eu corremos para lados opostos. Astreu veio atrás de mim e Palas perseguiu Gus.
Investi com uma das adagas em Astreu, mas ele invocou uma espada de gelo e defendeu. O titã sorriu. Aproveitei seu segundo de distração para golpeá-lo no abdômen com a outra adaga. O icor dourado escorreu. Ele colocou o peso de seu corpo e, com um urro, derrubou-me no chão. Ele deferia golpes com a espada e eu me defendia com as adagas, rastejando pelo salão.
Do outro lado, Gus investia loucamente contra Palas, usando o braço bom, mas o deus defendia-se com a espada. O braço quebrado era uma grande desvantagem e Palas aproveitou-se disso para derrubar Gus. O filho de Hércules aproveitou-se dos momentos de confusão para deferir um golpe na barriga de Palas, enfiando sua espada o mais fundo que pode. O titã gritou e sua lâmina de gelo quebrou em duas a espada de Gus. Ele tirou o pedaço que ficara encravado em sua barriga e atirou longe. O icor fluiu. Gus estava no chão, desarmado, sob a fúria de um titã. Nesse momento, uma flecha atravessou o salão e atingiu a nuca de Palas. Ele caiu no chão, contorcendo-se e urrando. Seu corpo desfez-se em poeira.
“PALAS!” gritou Astreu, virando-se para onde estivera seu irmão.
Aproveitei-me da distração para pular sobre ele. Joguei todo o meu peso sobre o titã e o derrubei, ficando por cima de seu corpo frio. Golpeei com as adagas as costas de Astreu, até o icor formar uma poça sob o seu corpo. Quando percebi, Gus estava do meu lado. Ele levantou o que havia sobrado de Astreu e o segurou no alto, até que uma flecha atingiu a panturrilha do titã, transformando-o em poeira.
“Agora só sobrou você” disse Lizzie, surgindo detrás de uma das colunas.
Nós três nos posicionamos frente ao trono. Perses havia levantado e seu olhar de gelo percorria nossos rostos. Antes que pudéssemos agir, o titã estendeu os braços para o lado e seus olhos brilharam.
“Ainda não acabou” era a voz de Perses, mas parecia vir de todos os pontos da sala.
Todas as janelas do salão estouraram. O vento frio da noite soprou para dentro e o corpo do deus começou a perder forma. Em um segundo, Perses desapareceu, seu corpo transformado em uma névoa cor de gelo. Depois disso, silêncio.
Desabamos no chão, ofegantes. Gus apalpava seu braço e gemia de dor. Perses estava certo: a guerra não tinha terminado. Teríamos ainda muitas batalhas pela frente. Mas nós tínhamos sobrevivido à primeira. E, para aquela noite, essa foi uma grande vitória.
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