Capítulo Dezesseis
Sereianos.
Logo após o teste, Tori foi levada direto aos cuidados de Pomfrey. De fato o tornozelo havia sido quebrado e a Curandeira deixou claro sua opinião sobre um esporte tão "violento" e temia pelo bem estar da menina.
— Sinto que vou te ver com mais frequência por aqui. — a mulher fechou um pouco a expressão.
— Não vai. Confie em mim, senhora Pomfrey, não vai me ver tanto. — falou e sorriu.
Após uma noite com poções de gosto péssimo e feitiços para selar o osso outra vez, Tori teve alta pela manhã e saiu caminhando tranquilamente logo após vestir seu uniforme. A sensação em ter outra vez um passo firme e sem dor era tão maravilhosa, que ela sorria sozinha enquanto começava a dar pulinhos para testar o tornozelo novo.
Estando repleta de fome, acabou correndo direto para o Salão Principal para o café da manhã e para encontrar os amigos. E ao chegar ao local, percebeu que estar no Time já surtia efeitos. Várias pessoas a cumprimentaram, outras deram Parabéns e outras desejaram Boa Sorte com um tom que a menina não gostou muito, mas agradeceu de forma educada.
— E ai, Artilheira. — Lino a cumprimentou pouco antes dela se sentar ao lado dele — Eu pensei que você fosse ruim com vassoura, mas me surpreendeu. Surpreendeu todo mundo! — e deu um gole de seu suco ao terminar de falar.
— Eu me esforcei bastante durante as férias e o Olívio me ajudou. Sem ele, eu nunca conseguiria sair do chão sem me arrebentar logo em seguida! — sorriu e procurou o amigo na mesa, não o encontrando.
— Tori, que bom que já está bem e espero que tenha mais sorte da próxima vez. Mas vem comigo, que o time acabou de começar uma reunião! — o garoto apareceu às costas dela de repente e a assustou.
— Mas eu estou com fome... — o encarou e depois encarou a torrada intacta em sua mão, onde estava prestes a comer antes de ser interrompida.
— Depois você come. Os treinos estão para começar e você sabe que ainda tem muito o que melhorar. — disse Olívio, todo certinho e sério como sempre falava ao se tratar de Quadribol.
— Ok. — Tori respondeu muito chateada ao ser contrariada e largou a torrada de volta ao prato, se levantando depois e acompanhando o amigo.
Assim que se sentou ao lado de Alicia e Jorge, que estavam concentrados na voz de Carlinhos, Tori ficou tentada com o cheiro de comida à sua frente. A conversa parecia não ter fim, assim como sua fome, e a menina passou a se concentrar em tentar pegar um pedaço de torrada e enfiar discretamente na boca.
Conseguindo quebrar um pedaço sem atrair a atenção de ninguém, ela o levou a boca e a fechou logo depois, ainda sem mastigar e agindo como se não estivesse fazendo nada. Mas na primeira mordida, um barulhinho aconteceu e alguns do time olharam para ela, que disfarçou paralisando a boca.
A reunião acabou muito mais rápido do que o imaginado, mas com o aviso de que teriam treino naquele mesmo dia, após todas as aulas. E com a deixa para enfim comer, Tori suspirou aliviada e encheu um prato, começando a devorar tudo muito rápido.
— Desse jeito não tem vassoura que te aguente! — debochou Jorge, ganhando uma leve cotovelada da amiga.
Todos pararam o que estavam fazendo quando o som de muitas asas surgiu ali no Salão. Os olhares se ergueram e um mesmo sorriso de ansiedade se abriu em muitos rostos ao reconhecer a típica visita matinal.
Além das muitas outras que se espalharam entre as mesas, cerca de quatro corujas vieram trazendo um pacote maior e Tori se levantou sorridente, enquanto se aproximavam da mesa onde ela estava. Chegando mais perto, as corujas soltaram o pacote e ela o pegou com a ajuda de Jorge, que estava ao seu lado, e Eli, que estava à frente.
Alicia e Faith abriram espaço na mesa, empurrando alguns pratos e jarros, até o fino e definido pacote caber no lugar.
— Finalmente! — vibrou, animada, enquanto rasgava a embalagem.
Aos poucos, uma vassoura foi desembrulhada e o seu brilho quase era capaz de cegar. Ela era bem comprida e com algumas ondulações, além de ser assim também nas cerdas extremamente organizadas. Logo no começo do cabo estava cravado em prata o nome Nimbus 1997.
— Uau, é a nova Nimbus. A Nimbus 1997! — exclamou Leon, que havia se levantado para olhar de perto.
— Você tem que testar agora mesmo! — ouviu Faith vibrar, super ansiosa.
— Posso dar uma volta antes do treino? — pediu Eli, encarando a vassoura com a boca meio aberta e a expressão abobada.
— Só depois da gente. — Fred falou e apontou para si e o irmão — Prioridade para laços de amizades mais fortes, sabe? — gabou-se.
— Ainda temos algum tempo antes da aula. Podemos ir ao pátio? Podemos? — suplicou Angelina, extremamente ansiosa.
— Tudo bem. — Tori assentiu e pegou sua nova vassoura.
Parte da mesa da Grifinória se esvaziou e todos seguiram a menina até o Pátio, que antes estava vazio e se encheu em um determinado espaço pela pequena multidão. Todos rodearam a menina enquanto ela montava, todos sem piscar enquanto encaravam a novidade.
Com um simples impulso, Tori saiu voando tão rápido que quase escapou da vassoura. Ela ouviu longe algumas exclamações de susto, antes de se recompor e apertar as duas mãos no cabo da vassoura, passando a aproveitar o passeio.
Passou pelo topo da Torre mais alta do Castelo, voou até o lago, viu o Salgueiro Lutador aparentemente inofensivo sem se mover, viu a cabana do Hagrid e se distraiu com alguma criatura pequena próxima a porta. Nisso, esbarrou nas folhas de uma árvore e foi caindo, enquanto era arranhada e tentava se recompor ao mesmo tempo.
Até que pouco antes de cair ela ainda conseguiu diminuir o impacto ao voar um pouco atrapalhada e baixa na vassoura, antes de cair de barriga para cima na terra. Ela soltou um gemido diante dos incômodos causados pelos muitos arranhões e ficou algum tempo parada no chão.
Quando juntou forças para levantar outra vez, Tori ergueu o corpo devagar enquanto tocava a cabeça ainda tonta por ter girado tanto antes de cair. Com a visão um pouco embaçada, ela viu um pequeno vulto correr em sua direção e teve tempo apenas de gritar, jogar o corpo para trás e usar as pernas para se defender. Ela conseguiu chutar algo para longe de si e logo em seguida voltou a se sentar para procurar o que era.
Seus olhos se arregalaram ao ver a criatura caída e um pouco desnorteada não muito longe dali.
— Totó! — abriu um enorme sorriso enquanto se levantava aos tropeços e corria para a criatura.
Parecendo também reconhece-la, o Barrete-Vermelho se levantou para recebe-la. Tori parou e se abaixou de costas, enquanto a criatura tocava seu cabelo ruivo com delicadeza.
— Eu senti tanto a sua falta. Pelo estrago que o... que aconteceu na Floresta, eu pensei que você estivesse morto, Totó! — fungou e encarou a criatura de lado.
As mãos magricelas se afastaram dos cabelos da menina e o lugar ficou silencioso, sem qualquer ruído outra vez. Estranhando a quietude repentina do Barrete, Tori se virou para olhar.
O encontrou caído no chão e imóvel.
— Totó! — arfou de susto e se virou rápido para examinar o amiguinho — Você está muito pálido, isso não pode ser bom... Tudo bem, eu vou resolver isso. Eu vou... O que vou fazer? — ficou de pé e andou de um lado para o outro enquanto tentava pensar em algo para ajudar.
Não poderia simplesmente entrar na Floresta e caçar por ele, não poderia matar algo usando magia ou estaria encrencada, também não teria tanta sorte ao tentar matar algo com as próprias mãos e ela quem se tornaria dieta de alguma criatura. Não poderia simplesmente chegar com um Barrete-Vermelho na Ala Hospitalar e tampouco pedir ajuda a Hagrid, apesar dele entender muito sobre criaturas.
Então quem poderia ajudá-los?
— Já sei! — gritou e correu para perto de sua vassoura, a pegando e então indo para perto de Totó — Aguente, amiguinho, que eu já vou procurar ajuda! — encostou a vassoura em uma árvore e começou a tirar a capa da escola, agora usando-a para envolver a criatura.
Depois de também amenizar o estrago em si, Tori montou na vassoura e saiu voando o mais rápido o possível, o que não era difícil se tratando de sua vassoura tão veloz.
Chegando de volta ao pátio, ela encontrou ainda o mesmo grupo de alunos ali a esperando e disfarçou a expressão para não preocupar ninguém.
— O que aconteceu? Cadê sua capa? — Alicia reparou e perguntou.
— Depois eu explico. — caminhou direto para Carlinhos e o puxou para um cantinho — Preciso de sua ajuda. Não faça perguntas, só suba na vassoura comigo. — sussurrou para o garoto.
— Ok. — ele não entendeu muito, mas obedeceu.
Recebendo muitos olhares confusos, os dois saíram voando muito rápido, com Carlinhos tendo que segurar muito firme na vassoura para não escorregar.
Quando pousaram, Tori logo se afastou e correu para o lugar que estava minutos atrás. Mas tudo o que encontrou foi sua capa jogada e o silêncio, mas sinal algum de Totó.
— Já posso perguntar o que está acontecendo? — Carlinhos atraiu a atenção da menina para si.
Enquanto pegava sua capa e tirava os vestígios de terra, Tori deu mais uma boa olhada em volta antes de se aproximar do garoto.
— Eu tenho um Barrete-Vermelho e o deixei desmaiado aqui. Ele estava muito mal, talvez faminto, eu não sei bem. Mas ele estava bem aqui! — explicou a apontou para um lugar específico no chão.
— Como assim você tem um Barrete-Vermelho? — ele riu de leve e cruzou os braços.
— Ano passado quando eu tinha treinamentos com o Bangles, eu fiz amizade com uma criatura que ele me apresentou. Bom... ela quase me rasgou ao meio, mas tudo bem. No fim das contas se rendeu e conseguimos uma amizade. Totó, um Barrete-Vermelho. — contou e suspirou — Mas era o Brangles que cuidava dele. Eu fui idiota em não ter me lembrado do Totó esse tempo todo. Eu sou uma péssima amiga. Agora ele está mal e não sei onde está para poder ajudar! — fungou.
— Ei, não fique assim. Vamos encontrar e ajudá-lo, ok? — Carlinhos garantiu e pegou a vassoura outra vez — Voltamos depois e mais prevenidos com coisas para ajudá-lo. Totó pode ser mais forte do que você sabe e ele vai aguentar. — falou.
— Tudo bem. — Tori se recompôs e ainda olhou uma última vez em direção à floresta, antes de montar na vassoura junto com o mais velho e os dois voarem rumo ao Pátio outra vez.
◾ ◾ ◾
Como um pedido muito complicado de Carlinhos, Tori tentou seguir as aulas agindo naturalmente. Acabou ficando mais quieta que o normal, mas ao menos conseguia disfarçar sua expressão quando buscava maneiras de se distrair.
— Então foi isso: eu pedi para o Olívio enviar uma carta ao tio Dom por mim, onde eu pedia para ele encomendar a nova Nimbus. Eu não pensei que viria tão rápido, mas acabou vindo. O bom é que já vou poder usar nos treinos. — resumiu aos amigos enquanto esperavam a professora Eileen chegar.
Além dos segundanistas da Grifinória, naquela aula também estavam os da Sonserina. Tori acabou reparando Adrian Pucey, seu rival da aula de Poções, encarando sua roda de amigos com certo desdém. Acabou mostrando língua para ele como uma criança sem modos, o que o fez revirar os olhos e focar em outra direção.
— Ela é muito linda, mas você já arranhou em algumas partes. — comentou Jorge, parecendo ofendido com o descuido da amiga com a vassoura nova.
— Vamos ver se dura até o primeiro jogo! — Fred assentiu para as palavras do irmão e os dois riram.
— Foi um pequeno incidente, não vai se repetir! — garantiu Tori, agora se virando para a frente ao ver a professora adentrar a sala.
Diferente do que costumava ser, os cabelos claros de Eileen agora possuíam um leve tom de lilás nas pontas. Observando-o, Tori teve a impressão de ter visto a cor aumentando sozinha aos poucos.
— Bom dia, turma. — Eileen sorriu para cada um e jogou os cabelos para trás.
Todos os meninos suspiraram.
— Bom dia, Eileen! — a sala respondeu, sendo a maior empolgação a dos meninos.
— Bom, como vocês me disseram uns dias atrás que o professor Bangles adiantou muita coisa, hoje vocês terão um teste surpresa lá no gramado, de frente para o lago. O espaço é bom e o tempo está bom também. — avisou e outra vez sorriu — Vamos, vamos, que temos muito o que fazer! — bateu palminhas enquanto todos se levantavam.
Um a um os alunos foram saindo da sala e seguindo a professora. Os meninos das duas casas apressaram os passos para acompanhá-la, sem disfarçar o esforço para isso e dando ombradas e cotoveladas uns nos outros vez ou outra para ficarem sempre mais à frente, mais perto da bela professora.
Saindo do Castelo, caminharam mais uns minutos até avistarem o Lago Negro. Em frente a ele havia apenas uma gaiola coberta por um pano, cujo se movia violentamente vez e outra. A professora parou próxima e então se virou para a turma.
— Eu vou soltar o que estiver aí dentro, que são criaturas bem bobas se comparadas às que o antigo professor apresentou. Quero que utilizem os ensinamentos dele para a tarefa, todos os feitiços praticados. Recolham tudo e fechem a gaiola outra vez, e então a tarefa estará finalizada. — ela explicou e tocou o pano.
Ao puxá-lo, pequenas criaturas de aproximadamente 30 centímetros, com asinhas e de cor azul foram vistas por todos. Era um grande grupo, cujo se agitavam muito na gaiola e pareciam ansiosas pela liberdade.
— Diabretes da Cornualha! — Fred pensou alto e sorriu animado.
— Legal. — Lino também sorriu e já tirou a varinha das vestes.
— Vai ser moleza! — gabou-se Jorge, também puxando a varinha.
— Dica número um para sobreviver ao ataque, seja contra quem for: não subestime seu adversário! — dito isso, a professora abriu a portinha e todas as criaturas saíram voando contra os alunos.
Também moveu sua varinha à sua volta algumas vezes e depois conjurou uma cadeira, onde se sentou e abriu uma edição do Semanário das Bruxas em uma determinada página, passando a ler o conteúdo ali de forma despreocupada. Um Diabrete tentou voar para o lugar onde ela estava e foi jogado para trás, como se por um feitiço.
Não muito longe dali, os alunos corriam pelo gramado tentando escapar das travessuras das criaturas, recebendo beliscões, puxões de cabelo e orelhas, o que dificultava o uso da varinha para se protegerem dos ataques.
Adrian foi o primeiro a cometer a loucura de tentar lançar um feitiço, acabando por perder a varinha assim que a tirou do bolso das vestes. Os Diabretes responsáveis por isso voaram com o objeto mágico até a beira do lago e o soltaram ali.
Tori e os amigos socavam o ar, sem conseguir se livrar do grupo de Diabretes que os encurralou. Lino conseguiu usar um feitiço para jogá-los longe, mas eles soltaram risinhos como se aquilo tivesse sido divertido e voltaram a todo vapor, puxando principalmente os dreads do cabelo do menino de maneira maldosa.
Tentando ajudar Angelina e Tori, que estavam em apuros tendo os cabelos e gravatas puxadas, Jorge conseguiu acertar um soco em um dos Diabretes, que esbarrou em outro e causou uma espécie de efeito dominó.
— Boa, Jorge! — Angelina gritou animada para o amigo.
Aproveitando sua breve liberdade, Tori puxou a varinha do bolso e escondeu na manga da blusa para evitar perdê-la antes de ter a oportunidade de usar. Depois, olhou em volta para procurar alguém para ajudar e encontrou Fred com a capa enrolada em volta da cabeça, mas tentando socar os Diabretes para se soltar e não acertando soco algum. Ela deu alguns passos com a intenção de ajudar o amigo, mas seu olhar virou para outra direção e notou Adrian na beirada do lago, parecendo tentar pegar algo da água. A Grifinória pensou em continuar seu caminho e ajudar seu amigo — que precisava e merecia —, quando viu um grupo de Diabretes voarem contra o rival e o surpreender com um empurrão em direção a água. O Sonserino gemeu em surpresa e logo depois caiu, afundando imediatamente.
— Adrian! — a menina gritou assustada, deu alguns passos apressados para frente e tirou a varinha do esconderijo — Imobilus! — gritou e atingiu o grupo causador da queda do segundanista, paralisando cada um deles no ar.
Enfiando a varinha outra vez no bolso, Tori correu para a beirada do lago e se ajoelhou, esforçando o olhar nas águas escuras para tentar encontrar o menino. Mas tudo o que encontrou foram apenas bolhas na superfície.
— Ele está se afogando... — observou enquanto se levantava e puxava a varinha outra vez — Imobilus! Imobilus! Imobilus! — atingiu outros Diabretes enquanto corria em direção a professora.
Eileen parecia não reparar em todo o caos a sua volta, distraída em folhear sua revista de maneira curiosa, parecendo enfim ter encontrado uma matéria que lhe prendeu a atenção.
Tori conseguiu diminuir o grupo de Diabretes e deixou o restante para os outros alunos, chegando enfim na proteção que desconfiava que a professora havia usado para se livrar das travessuras.
— Professora! Professora! — gritou — Um aluno está se afogando. Você precisa ajudar, rápido! — continuou a gritar, agora entre lágrimas amedrontadas.
Mas a adulta permaneceu no mesmo lugar, como se não ouvisse nada.
— PROFESSORA! — agora gritou em plenos pulmões, mesmo parecendo em vão.
Irritada por não ser ouvida e com medo do que poderia acontecer ao Adrian, ela deu um soco contra o que desconfiava ser um feitiço e imediatamente foi jogada para trás, caindo de costas na grama e confirmando suas interrogações. A professora havia mesmo usado feitiços de proteção, não só física quanto auditiva.
Levantando quase que em seguida e ainda mais chorosa, Tori começou a caminhar de volta para a beirada do lago. Durante o caminho foi retirando sua capa e gravata, deixando os sapatos por último. Ela colocou tudo em um cantinho na grama e enfiou a varinha dentro da meia da perna esquerda.
— O que pensa que vai fazer? — Fred surgiu correndo e parou ao lado da amiga, encarando-a com a expressão preocupada.
— Fazer o que sua queridinha não vai! — fungou e então pulou na água, logo voltando a cabeça para a superfície e puxando a varinha — Lumos Maxima! — conjurou luz forte antes de prender o máximo de respiração e mergulhar de novo.
Assim que afundou, Tori iluminou o caminho para tentar encontrar algum vestígio de Adrian. Ela encontrou algumas poucas bolhas não muito longe dali e decidiu que esse era o melhor caminho para começar sua procura.
Apertando a varinha um pouco mais na mão, ela usou a outra livre e os pés para nadar para o fundo, buscando o máximo economizar oxigênio.
Nadando um pouco mais ao fundo e com a ajuda de luz, a menina acabou encontrando o corpo quase inerte de Adrian, com a ponta da capa boiando um pouco mais acima de sua cabeça. Ele a encarou com os olhos cerrados e parecia prestes a perder a consciência, o que assustou a menina e a fez mergulhar imediatamente em direção ao rival para o resgate.
Ao chegar perto do garoto, em um ato desesperado para lhe dar mais tempo, Tori uniu seus lábios ao do Sonserino e soprou parte do oxigênio que guardava em sua boca. Isso fez com que o menino abrisse os olhos um pouco mais, porém ainda aparentava estar fraco demais para colaborar em mais alguma coisa. E afastando seu rosto outra vez, Tori passou o braço do rival por cima de seu pescoço e tomou impulso para cima, agora com dificuldade maior.
Mas para sua surpresa, outra pessoa pulou na água e nadou para eles. A luz da varinha revelou fios ruivos e uma carranca direcionada ao menino que estava sendo resgatado. Fred Weasley segurou em um outro braço de Pucey e os três começaram a nadar com mais facilidade.
Ao voltar à luz do dia e a superfície que tanto fez falta, os três tomaram muito fôlego e o resgatado sofreu uma pequena crise de tosse, provavelmente por ter ficado tempo demais sem respirar direito.
Com a ajuda de outros alunos, Adrian foi puxado para a grama outra vez, enquanto respirava com dificuldade e tremia muito. Fred foi ajudado logo em seguida e se virou para ajudar a amiga, que ainda estava na água.
— Cubram Adrian com minha capa, que está seca. — Tori apontou para suas roupas e colocou a varinha ali perto, livrando as duas mãos para tomar apoio e sair da água.
Além de Fred, Lino também surgiu e estendeu a mão para ajudá-la, que aceitou e guiou a sua primeiro para a mão de Jordan. Mas o contato mal aconteceu e algo puxou a menina pelos pés, fazendo-a afundar novamente.
Desesperada por não ter guardado oxigênio dessa vez, ela começou a se debater, piorando quando sentiu mãos geladas e viscosas em sua pele. Olhando um pouco para baixo, viu duas criaturas horríveis e idênticas, possuindo grandes olhos amarelos e dentes pontiagudos como pequenas agulhas. Mais ao fundo, um grupo maior se aproximava, alguns deles com lanças.
Tori sentiu os olhos queimando e notou que tentava chorar, além do corpo inteiro tremer em medo e agonia. Ainda assim, ela chacoalhou as pernas, mesmo sabendo que isso não surtiria os efeitos desejados, e ganhou arranhões doloridos onde suas meias começavam a escorregar.
No momento seguinte, alguém pulou na água. Virando o rosto para observar, Tori reparou se tratar de Eileen.
Finalmente.
Estava a salvo. A professora acabaria com essas criaturas e a resgataria.
Mas algo estranho aconteceu. A mulher não nadou em direção a aluna, permanecendo exatamente no mesmo lugar e estando inexpressiva, apesar da situação apavorante. A varinha estava em mãos, mas ela não se movia para usar.
Começando a ficar sem respiração, Tori olhou novamente para baixo e usou o restante de sua força para impulsionar suas pernas e conseguir escapar, deixando as meias para trás. Ela sabia que não era rápida o suficiente contra criaturas aquáticas, mas se esforçou para nadar até a professora, que permanecia parada como se estivesse petrificada.
Faltou poucos palmos para a Grifinória alcançar a mão da varinha da professora, quando novamente foi puxada para baixo. Ela se debateu, agora com água demais entrando por sua boca, e recebeu arranhões nas pernas em uma tentativa de ser contida.
Quando desistiu de lutar e esperar pelo resgate de Eileen, Tori amoleceu o corpo e começou a se dobrar para a inconsciência. Sentiu a dor da morte entrando por sua garganta e pensou em Harry, que ficaria sozinho de vez, sem sua proteção e amor, sem seu cuidado e deixado à própria sorte com os detestáveis Dursley.
Uma possível lágrima queimou em seus olhos enquanto estes se fechavam lentamente. Antes disso, outra pessoa pulou na água e a menina não conseguiu enxergar de quem se tratava, nem mesmo o que aconteceu depois.
◾ ◾ ◾
Relutando algum tempo contra o peso de seus olhos, Tori enfim conseguiu mantê-los abertos e encarou o teto que de imediato não reconheceu. Ela piscou algumas vezes e também demorou para perceber vozes cochichando ali por perto.
— Ela acordou! — uma voz conhecida comemorou e então o rosto corado de Aurora apareceu em frente a paciente.
Ainda confusa, Tori tocou as têmporas e depois pigarreou, sentindo a garganta tão seca que acabou tossindo algumas vezes.
— Água... — Tori murmurou e tocou o colchão para tomar o apoio necessário para se sentar.
Jorge e Lino foram mais rápidos e a apoiaram, aproveitando também para posicionar o travesseiro de um modo confortável para a menina. Enquanto isso, Aurora encheu um cálice com água em uma mesinha ao lado da cama e o aproximou da recente amiga, que o recebeu e bebericou com rapidez.
— Você é estranha, Tori. Quase morre afogada e ao acordar a primeira coisa que pede é água. — Jorge riu de leve.
— Afogada? — ela franziu o cenho, esforçando seu cérebro até conseguir se lembrar do que a levou até ali — Ah... o Lago Negro. — murmurou e esticou o braço para colocar o cálice de volta a mesinha, que reparou ser na Ala Hospitalar.
— Sim, o Lago Negro. Você não tem noção da confusão que deu por conta de dois alunos que foram parar na Ala Hospitalar, você e o Pucey. Pela primeira vez vi Dumbledore se exaltar e falar alto, mas foi em um idioma estranho para se comunicar com as criaturas do lago, os Sereianos, e ninguém entendeu nada. Mas enfim, nós ficamos preocupados. Você foi tirada da água inconsciente e permaneceu assim durante dez horas. — a Corvina explicou — Eu cheguei até a pensar que... — fungou uma vez e então lágrimas passaram a molhar seu rosto.
— Está tudo bem agora. Eu sobrevivi de novo e prometo tentar sempre fazer o possível para isso. — Evans sorriu de leve e esticou o braço para tocar a mão da menina.
— Quase morre por causa do babaca do Pucey. Eu nunca vou me conformar com isso! — Fred, que até então estava calado e sério, resmungou e lançou um olhar irritado para outra direção do quarto.
Só então Tori reparou em um corpo inerte quase escondido em amontoado de cobertores no lado oposto do quarto. Desconfiou se tratar do menino que resgatou, mas preferiu não perguntar para não ver o amigo Weasley se exaltar outra vez.
— Eu faria isso por qualquer pessoa que estivesse em perigo. Com o babaca do Pucey não seria diferente. — a menina argumentou.
— Mas eu não quero que você morra, Tori. Pior ainda, morrer por causa de uma pessoa que não merece! — o Weasley se alterou um pouco e deu as costas para a amiga, passando a mexer em um conteúdo da mesinha do outro lado.
— Fred... — tentou fazê-lo se virar o puxando pela capa, mas este se soltou.
Com o silêncio da Ala Hospitalar, foi possível ouvir alguém fungando. Tori encarou Aurora e percebeu que a menina já estava contida, passando a olhar também para Lino e Jorge, que apesar de abatidos, pareciam felizes pelo bem estar da menina.
— Fred, você está chorando? — perguntou ela, arqueando uma sobrancelha em confusão.
— Não! — Fred tentou responder firme, mas sua voz tremeu.
Jorge e Lino se entreolharam e apertaram as mãos na boca para abafar risinhos. Aurora acertou um tapinha na nuca de ambos e balançou a cabeça em negativa, desaprovando a atitude deles.
— Anda, vem aqui. — Tori chamou o amigo e esticou os braços para recebê-lo.
— Não! — novamente ele negou.
Por saber que o menino não estava disposto a virar o rosto para ela, Tori fez para os outros três amigos um gesto de silêncio, apertando um dedo indicador nos lábios, e então se esforçou para levantar sozinha. Ela afastou devagar o edredom e escorregou para fora da cama, caminhando devagar e de fininho para perto do amigo. O surpreendeu com um abraço pelas costas e o apertou quando este tentou se desvencilhar.
— Você é a coisa mais fofa que Hogwarts me presenteou, Frederico. — continuou a apertá-lo e sorriu largo — E eu não pretendo morrer, pois não quero abandonar esse presente. Pode confiar nisso. — desapertou um pouco e se arrastou para a frente do corpo do menino.
De fato o rosto de Fred estava vermelho e úmido. Os lábios tremeram quando ele tentou falar alguma coisa e mais lágrimas apareceram. Ele ergueu uma mão ao rosto e foi abraçado novamente.
— Não vai adiantar se pedirmos para você parar de tentar ser a heroína do dia, não é mesmo? — ele fungou e depois soluçou.
— Não. — Tori balançou a cabeça e ergueu uma mão até o rosto úmido do menino, passando os dedos para secar algumas lágrimas acumuladas.
— Tudo bem. Eu vou tentar conviver com isso, mas não me peça para te apoiar. — abriu um sorriso meio murcho e deu um passou para trás, usando as mangas da camisa para secar o rosto.
Aproveitando que o amigo já estava mais calmo, Tori caminhou de volta para a cama e sentou, cruzando as pernas e só então reparando nas muitas guloseimas aos pés de sua cama, tantos que formava uma enorme montanha. Haviam vários doces da Dedosdemel e isso fez com que o estômago da menina roncasse alto.
— Quem deu? — perguntou para os amigos e apontou para a comida.
— Alguns foram o pessoal do time, outros foram as meninas, Aurora também, um pessoal da Lufa-Lufa, incluindo o Diggory. — Jorge respondeu as dúvidas da amiga.
— Que gentileza. — abriu um sorriso doce e reparou também em um pequeno buquê por trás dos doces — E isso? — apontou.
Fred soltou um grunhido e se sentou na cama vaga ao lado.
— Adrian Pucey, como forma de agradecimento por você ter salvo a vida dele. Acredite, babacas podem ser doces de vez em quando. — foi Aurora quem respondeu, enquanto abria um sorrisinho e entregava as flores para a endereçada.
O buquê se tratava de flores verdes de um tipo que Tori não conhecia, mas as achou tão lindas quanto o gesto. Concordava com o que Aurora havia dito, mas ainda assim achou muito boa aquela demonstração de trégua entre os dois rivais de estudos.
— Bom saber que ele ficou bem. — sorriu e colocou o buquê no colchão — Mas preciso saber de outra coisa: Eileen já foi demitida? O senhor Dumbledore fez isso, não fez? — perguntou e recebeu olhares confusos dos outros quatro ali presentes.
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