Capítulo Doze
1 de Setembro.
Os últimos dias de agosto foram bem cansativos para Tori. Pareceu que saber que Aurora faria teste de Quadribol para o time da Corvinal a motivou a se esforçar e também entrar para o time da Grifinória. Só não tinha tanta certeza se conseguiria ser titular, pois sabia que Angelina e Alicia com toda certeza eram bem melhores do que ela.
Dia após dia a menina foi melhorando nos vôos e também descobriu que era muito boa em fugir. Certa vez recebeu a Goles e foi avisada de que teria que voar pelo campo sem perdê-la. E em uma tentativa de fugir de Fred e Jorge, que tentavam cerca-la, acabou dando um rodopio que a deixou de ponta-cabeça e com as pernas bem entrelaçadas no cabo da vassoura, e fez os dois meninos se bateram de frente e cair. Por sorte estavam voando baixo e ganharam apenas hematomas bem doloridos.
Quando amanheceu no dia 1 de setembro, Olívio a surpreendeu com um café na cama. A bandeja estava repleta de frutas, bolos, também tinha suco de laranja — que Tori apresentou aos anfitriões e eles gostaram muito mais do que o de abóbora.
— Para a futura Artilheira da Grifinória! — Olívio falou e depositou a bandeja no colo da menina.
— Exagerado. — revirou os olhos e riu de leve — Nem sabe se vou mesmo entrar. Eu acho que existem opções melh... hunf. — o garoto a calou enchendo a boca dela de bolo.
— Eu já disse que confio em você. E toda sua evolução em um único mês só mostra que é muito boa e merece essa chance. — pegou um guardanapo e entregou a ela.
— Se você diz... — murmurou após beber um gole do suco.
— Coma tudo, ou esses braços finos não aguentam nem meia hora de jogo. — Wood debochou e apontou para as frutas.
— Tenho bíceps muito fortes, obrigada. — Tori ergueu e dobrou os braços para forçar o músculo.
◾ ◾ ◾
Pouco antes da noite chegar, Tori se aprontou com o uniforme de Hogwarts e se demorou em frente ao espelho. Para a festa de início de ano letivo, a menina usou uma poção capilar feita por Lexus e se livrou dos cachos naturais que sempre tinha nas pontas do cabelo. As mechas caíram escorridas até o meio das costas e nem parecia que havia cortado em menos de dois meses.
Finalizou colocando seu chapéu pontudo e girou uma vez pelo quarto, dando uma última olhada para ver se havia deixado tudo organizado exatamente como estava quando chegou ali. Concluindo que sim, se despediu do cômodo e desceu.
A primeira pessoa que Tori encontrou ao chegar na sala foi Lexus. Ela sorriu enquanto observava a menina, que se exibiu dando uma voltinha.
— Adorei o seu cabelo, ficou ainda mais bonita. — se aproximou e arrumou o chapéu da menina, que havia caído um pouco para o lado, enquanto fungava algumas vezes.
Tori percebeu que, se ela não estava chorando, estava quase para acontecer.
— Se não for incômodo, eu volto mais vezes para visitar vocês, passar alguns dias das férias. Eu fui muito bem recebida, me senti muito mais acolhida do que qualquer outro lugar. — segurou as mãos da adulta de frente — Obrigada por todo o cuidado comigo, tia Lexus! — e puxou a mulher para um abraço.
— Quem é que morreu? — Dom apareceu na sala bem humorado e em companhia de Olívio, que também ria das duas choronas.
— Tio Dom... — Tori revirou os olhos enquanto ria e se afastava da adulta.
O Wood-pai se aproximou da menina e a apertou em um abraço, erguendo-a do chão por ser bem mais alto. O chapéu acabou caindo e ela riu disso.
— Querido, vai bagunçar ela toda! — Lexus se aproximou dos dois e livrou a menina do abraço de urso.
Foi Olívio quem pegou o chapéu da menina e se aproximou para colocar.
— Eu sei que eles me amam mais, então nem estou com ciúmes disso tudo aí. — brincou movendo os ombros algumas vezes.
— Quem garante? Eu sou mais legal do que você! — gabou-se a menina.
— Até parece. — gargalhou.
Ao sair do chalé, os dois alunos se separaram dos adultos. Enquanto os pais foram até a estação deixar os malões e corujas junto com as outras bagagens, Olívio e Tori seguiram calados por uma trilha pouco iluminada que a menina se lembrou de ter passado ao ter alta do St. Mungus e voltava para Hogwarts.
Em uma determinada parte do caminho, algo fez barulho na floresta e os dois alunos se trombaram de lado ao tentar recuar. Acabaram com as mãos unidas e seguiram todo o caminho assim, parecendo diminuir qualquer possibilidade de susto.
Quando chegaram diante das muitas carruagens, Tori se aproximou da primeira, enquanto via Olívio parecer brincar com os animais invisíveis. Ela ficou o observando por muito tempo, tempo até demais que nem percebeu quando os veteranos começaram a chegar.
— Vem, vamos pegar uma carruagem. — o garoto a assustou surgindo de repente ao lado dela.
— Eu quero esperar o pessoal, pois não quero perdê-los de vista no salão. — avisou e se virou para vasculhar os rostos que iam se aproximando.
Cerca de cinco carruagens rumaram ao Castelo, quando Tori enfim encontrou seus amigos. Para variar, Fred estava com Aurora, além de Jorge e Lino um pouco mais à frente, enquanto Rita, Alicia e uma Angelina aparentemente irritada estavam logo atrás.
— Oi Aurora, Jorge e Lino. — Tori os cumprimentou, fazendo questão de ignorar o quarto conhecido.
— Olá, Tori. — eles responderam sorridentes.
— Oi para você também, chata. — Fred a provocou ao passar por ela e subir em uma carruagem vaga.
A menina se virou e ficou encarando Aurora subir logo em seguida e Jorge e Lino encarando as costas dela com interrogações. Depois, olharam para a amiga e lamentaram em silêncio.
— Parece que alguém resolveu ser inconveniente aqui também. — Angelina falou alto para que a novata ouvisse — Todo mundo sabe que o quarteto de Hogwarts é Fred, Jorge, Lino e Tori, aí a bonita vai e tomar o lugar da menina! — continuou.
Fred revirou os olhos para a provocação, enquanto Aurora nem parecia se abalar. A carruagem rumou à Hogwarts enquanto Tori encarava os amigos se afastando.
— O que eu perdi? — Tori se virou para as três e sorriu de leve.
— Angelina chegou no Expresso afiada, pois soube da novata que estava forçando com todo mundo. Ela simplesmente expulsou Aurora da cabine que nós estávamos e ficou mais irritada ainda quando Fred foi atrás dela. — Rita tagarelou, enquanto Alicia soltava risinhos logo ao lado.
— Ela não é tão ruim assim, coitada... — a Evans lamentou, mas acabou soltando um risinho discreto.
— Mas é forçada. E eu não engulo toda essa paz e amor dela que estão fazendo propaganda! — resmungou Angelina, revirando os olhos.
— Acho que deveria dar uma chance à ela. — sugeriu Tori, mas recebeu um olhar feio da amiga — Ou não... — arregalou os olhos.
O papo deu uma pausa quando as quatro meninas foram embarcar na carruagem. Depois, Alicia conseguiu mudar de assunto e eles iniciaram um papo aleatório sobre o cabelo de Tori, a carruagem arrastada por ninguém e a expectativa em ter mais primeiranistas para a Grifinória do que para a Sonserina.
Ao chegarem ao Castelo, as quatro subiram as escadas que levavam ao saguão e seguiram apressadas para o Salão Principal, que já começara a se tornar barulhento. A expressão de Angelina melhorou quando se lembrou que na festa de abertura todos deveriam se sentar na mesa de suas casas, o que significava que Aurora estaria bem longe.
Assim que Tori se sentou no mesmo lugar de sempre, entre Lino e Fred, ela rumou o olhar até a mesa da Lufa-Lufa e encontrou o rosto de Cedrico virado para ela. Mas ao trocarem um primeiro olhar, o menino desviou e começou uma conversa descontraída com uns amigos.
— Ele me odeia... — sussurrou para as meninas, que fizeram questão em encarar o menino.
— Aposto que passou semanas chorando em posição fetal agarrado a uma fotografia sua. — sugeriu Alicia, fazendo as duas ao seu lado soltaram risos altos.
— Não fale assim, poxa. Ele é legal e vou sentir falta da nossa amizade agora que ele não me suporta. — abaixou o olhar para o prato vazio e suspirou.
— Só você o acha legal! — rebateu Fred, despreocupado.
— Por que está falando comigo? Eu era chata, se lembra? — resmungou para ele.
— E tem como esquecer? — o garoto provocou.
— Argh! — resmungou e foi bem mais para perto de Lino.
O salão foi se enchendo até a porta não ser mais aberta e o lugar parecer uma colmeia de abelhas barulhentas. E assim se seguiu, com os meninos conversando entre eles e Tori e Angelina fazendo questão absoluta em ignorar Fred.
Quando a porta se abriu outra vez, McGonagall entrou sendo seguida por um grupo de calouros curiosos e, a maioria, assustados. Todos encaravam o teto mágico maravilhados com o que viam, reação típica de qualquer primeiranista.
Quando todos pararam, a professora colocou um banquinho e o Chapéu Seletor sobre ele. Em poucos segundos ele se moveu, para a surpresa e exclamação dos caluros, e começou a cantarolar a típica canção.
"Ah, vocês podem me achar pouco atraente,
Mas não me julguem só pela aparência
Engulo a mim mesmo se puderem encontrar
Um chapéu mais inteligente do que o papai aqui.
Podem guardar seus chapéus-coco bem pretos,
Suas cartolas altas de cetim brilhoso
Porque sou o Chapéu Seletor de Hogwarts
E dou de dez a zero em qualquer outro chapéu.
Não há nada escondido em sua cabeça
Que o Chapéu Seletor não consiga ver,
Por isso é só me porem na cabeça que vou dizer
Em que casa de Hogwarts deverão ficar.
Quem sabe sua morada é a Grifinória,
Casa onde habitam os corações indômitos.
Ousadia e sangue-frio e nobreza
Destacam os alunos da Grifinória dos demais;
Quem sabe é na Lufa-Lufa que você vai morar,
Onde seus moradores são justos e leais
Pacientes, sinceros, sem medo da dor;
Ou será a velha e sábia Corvinal,
A casa dos que têm a mente sempre alerta,
Onde os homens de grande espírito e saber
Sempre encontrarão companheiros seus iguais;
Ou quem sabe a Sonserina será a sua casa
E ali fará seus verdadeiros amigos,
Homens de astúcia que usam quaisquer meios
Para atingir os fins que antes colimaram.
Vamos, me experimentem! Não devem temer!
Nem se atrapalhar! Estarão em boas mãos!
(Mesmo que os chapéus não tenham pés nem mãos)
Porque sou único, sou um Chapéu Pensador!"
Assim que finalizou, o salão irrompeu em palmas, para logo em seguida ir cessando até tudo ficar quieto outra vez.
— Quando eu chamar seus nomes, vocês irão pôr o chapéu e se sentarão no banquinho para a seleção. — explicou a professora enquanto abria o pergaminho — Cho Chang. — chamou.
Uma menina de olhos puxados e cabelos escuros arfou de susto e caminhou insegura até o banquinho, colocando o velho chapéu na cabeça e se sentando.
O salão ficou algum tempo em silêncio, enquanto a menina fazia várias caretas e parecia tremer. Até que o chapéu anunciou:
— Corvinal! — mal terminou de falar e a casa citada fez muito barulho na mesa.
— Córmaco McLaggen. — chamou o próximo e um menino loiro caminhou apreensivo até o banquinho.
Da mesa da Grifinória, Faith sorriu ao avistar o parente e então focou toda sua atenção na seleção dele.
Não tardou e o Chapéu Seletor logo anunciou a todos:
— Grifinória! — falou alto e a mesa citada fez muito barulho para recebê-lo.
— Katie Bell. — McGonagall voltou a chamar.
Uma menina de cabelos castanhos e meio pálida se apressou para o banquinho e colocou o Chapéu. Ela respirou fundo e esperou como se fosse uma sentença, enquanto apertava as mãos aflitas no colo.
— Grifinória! — foi anunciado a todos.
Com a animação em ter dois nomes seguidos indo para a Grifinória, Tori acabou abraçando e chacoalhando Lino e Fred, acabando por se lembrar logo em seguida que não estava falando com o Weasley. O sorriso se reprimiu para ele e ela recuou o braço.
— Kian Stebbins. — chamou e um menino de cabelos castanhos caminhou ao banquinho.
— Lufa-Lufa! — o Chapéu não tardou.
O menino saiu todo feliz para sua mesa anunciada e foi recebido de maneira calorosa, com abraços, apertos de mão e alguns tapinhas nas costas.
— Miles Bletchley. — mal terminou de chamar e um menino loiro e todo pomposo caminhou para o banquinho.
Sem querer julgar o livro pela capa, mas já julgando, Tori já imaginou qual casa ele iria pertencer.
— Sonserina! — não tardou a anunciar.
A mesa citada urrou de animação e o menino correu para tomar um lugar, recebendo alguns tapinhas nas costas.
As próximas casas a receberem um novo membro foram Lufa-Lufa novamente e Corvinal, para a irritação de Angelina, que revirou os olhos por, provavelmente, imaginar Aurora comemorando.
Assim se seguiu até mais pessoas serem selecionadas para Grifinória, Sonserina, Lufa-Lufa e Corvinal, até restar apenas um menino. Três das casas o encaravam com expectativa, enquanto a Sonserina parecia desdenhar e soltar risinhos maldosos.
Isso porque a aparência do menino era um tanto... peculiar.
Ele era bem magrelo, pálido, cabelos escuros e parcialmente no estilo tigelinha com uma franja jogada sobre a testa. O detalhe mais chamativo era o óculos com lentes super grossas, que o fazia parecer ter olhos gigantes.
— Parece filho do Snape. — Jorge sussurrou para o irmão e os dois soltaram risinhos.
Mas logo reprimiram ao receber uma encarada feia de Tori.
— E por fim: Silas Monaghan! — a professora anunciou, enquanto voltava a enrolar o pergaminho.
O salão voltou ao silêncio enquanto o menino seguia para o banquinho. Pouco antes de chegar, ele tropeçou no nada e quase caiu, recebendo uns risinhos de alguns alunos.
Ajudado por McGonagall, o menino se recompôs e se sentou, enquanto colocava o chapéu e ficava com os olhos gigantes atentos esperando sua seleção.
— Melhor que seja... — O Chapéu fez uma suspense irritante — Sonserina! — anunciou.
Poucos da casa aplaudiram o garoto enquanto ele caminhava desajeitado em direção a sua mesa selecionada. Logo de cara Tori viu Flint soltar alguma zombaria para o menino, enquanto Adrian gargalhava alto indiscretamente. Ela acabou fechando a cara para isso e dali em diante calada. Sua experiência com os Dursley a fazia saber mais do que ninguém que a sensação em ser rejeitada era extremamente dolorida, então ficou mal pelo garoto.
Apenas se animou um pouco quando o Coral de Hogwarts, como no ano passado, cantarolou o Hino da escola. Acabou cantarolando junto e a voz foi elogiada pelos amigos, até mesmo Fred, que enfim recebeu um pequeno sorriso dela.
Pouco antes do banquete ser finalizado, Tori puxou as pernas para fora da mesa, revelou uma bolsinha debaixo de sua capa que era quase imperceptível e seguiu apressada até a mesa dos professores. Não só os alunos, como principalmente cada um dos professores, contiveram seus movimentos e conversas para encarar os passos da menina, todos com curiosidade com o que ela pretendia.
Tentando agir como se não fosse foco de muitos olhares, se aproximou de onde Snape estava sentado.
— Boa noite, professor Snape. — puxou de dentro da bolsinha uma caixa média e depois uma pequena e redonda, ambas enfeitadas por um laço verde — Espero que goste de bombom de maracujá, porque eles são deliciosos. O gosto é equilibrado pelo azedo da fruta e o doce do chocolate, é uma boa combinação e eu pensei nisso ao comprar para o senhor. Fora que eu li em um livro trouxa que o Chocolate causa bem-estar em quem o consome, isso por causa da ação que causa na endorfina e na dopamina, que estão relacionados ao relaxamento. O que estou tentando dizer é: que esse doce torne doce a sua vida, querido professor! — sorriu de orelha a orelha enquanto apontava para a menor caixa, antes de se virar para voltar à sua mesa.
Mal deu dois passos e teve sua atenção voltada para a mesa dos professores outra vez.
— Evans, o que significa isso? — Snape perguntou meio seco, enquanto encarava as duas caixas como se tivesse bosta embaixo do nariz.
Ainda assim, a menina ao se virar abriu um novo e sincero sorriso ao adulto.
— Pelo o que fez por mim nas férias. Eu tinha que te recompensar de alguma forma porque foi algo muito heroico e nobre, então comprei umas lembrancinhas para o senhor. E não adianta negar nada, pois não aceito devolução! — Tori foi firme e apressou os passos de volta a sua mesa, como se temesse que o adulto mirasse as duas caixas na cabeça dela.
Mas não foi atingida por nada.
Tampouco a devolução aconteceu, que ela podia jurar que seria a qualquer momento, mas não foi procurada pelo adulto.
◾ ◾ ◾
Já na Sala Comunal da Grifinória, Tori se sentou com os amigos em um canto do tapete da sala, enquanto conversavam sobre o tratamento que o último primeiranista recebeu. Tori reclamava o tempo todo e até acertou tapas nos gêmeos quando eles insistiram em chamá-lo de filho do Snape.
Pouco antes do horário de dormir, Fred puxou a amiga para o canto oposto da Sala, parando um pouco cabisbaixo e sem jeito.
— Você precisa me desculpar, Tori. — ele começou, meio desesperado — Bem que as meninas comentaram comigo, e é mesmo horrível ficar brigado com você. Você é minha melhor amiga e eu fui um tremendo idiota ao te chamar de chata. Então eu sinto muito, sinto muito mesmo. Agora me desculpe, vai... — tocou os ombros dela e a chacoalhou uma vez.
— Você me magoou muito, mas... é claro que eu te perdoo, Frederico. Eu também não gosto de ficar brigada com você, mas preciso confessar que eu não pretendia dar o braço a torcer. Não que eu seja orgulhosa, mas você foi um grosso e merecia um gelo. — explicou, suspirando fundo — Vem cá, seu insuportável! — o puxou para um abraço.
Assim como sempre acontecia, Fred retribuiu na mesma intensidade, ou até superior, e tirou a menina do chão a girando algumas vezes até que ela soltasse um riso e pedisse para ele parar.
Quando se afastaram, Tori — e talvez todos que ainda estavam na sala — tomaram um susto quando Jeniffer soltou um gritinho em êxtase.
— É reaaaaal... — ela cantarolou apontando para Tori.
— Fique quieta, MacMillan! — resmungou, mas acabou soltando um risinho.
Os dois voltaram para a rodinha de amigos.
◾ ◾ ◾
— Sério mesmo, ela fica sorrindo o tempo todo. Parece que passou por uma plástica mal sucedida e isso congelou o rosto! — no dormitório, Angelina continuou a soltar seu veneno contra a novata.
— Uhh, Fredzinho, você está aí? Que bom, pois estou cheia de novidades! — Rita começou uma imitação péssima, mas muito engraçada, de Aurora.
— A cabine está cheia! — Alicia imitou Angelina.
— Mas tem um lugarzinho bem aí. — a outra continuou.
— Mas é da Vaz. — protestou.
— Vaz? — fingiu-se de confusa.
— Vaza daqui, sua penetra! — fez um gesto engraçado.
Todas começaram a rir, inclusive uma das imitadas.
— Ela foi bem legal comigo no Beco Diagonal. — comentou Tori, após secar lágrimas dos cantos dos olhos.
— E mesmo assim você está rindo dela. Parabéns, é uma perfeita falsa! — brincou Jeniffer, rindo e fazendo a amiga rir também.
— Vocês são palhaças demais e eu não aguento. — se defendeu.
— Mas mudando de assunto: souberam que a Erin foi para a Beauxbatons? — Alicia comentou — Vai fazer muita falta no time, mas... Isso quer dizer que abriu uma vaga para Artilheiro. É o meu momento! — comemorou.
— É o nosso momento. — corrigiu Angelina e logo depois sorriu — Há males que vêm para o bem! — filosofou.
— Nós treinamos o verão inteiro para isso, ficamos muito boas. Talvez teremos alguma chance. — a outra continuou a empolgação.
— Vocês vão conseguir sim. — Tori sorriu para elas e se levantou do tapete onde estavam reunidas — Meninas, eu já vou dormir. Boa noite a todas! — e saiu apressada para sua cama.
Ótimo.
Havia um novo problema para ela. Ou magoaria Olívio ou magoaria Angelina e Alicia. Ela não tinha ideia de quem escolheria. Não que sua vaga no time fosse garantida, mas só de competir contra as amigas já parecia traição.
Com esses problemas ocupando a mente, Tori cobriu a cabeça e ficou fitando o tecido por um bom tempo, sem sequer sentir uma pontadinha de sono.
◾ ◾ ◾
Tori não tinha certeza, mas desconfiava que já havia passado da madrugada quando seus olhos ainda estavam abertos e agora fitavam o teto escuro.
Aborrecida, ela desceu da cama e calçou seu tênis. Puxou a capa do uniforme e a vestiu, pois o ar estava um pouco gelado. Seu senso de aventura estava aguçado e ela caminhou para a sala um pouco enérgica.
Não sabia o porque, mas sentia uma vontade incontrolável de visitar a amiga Murta, pois com os acontecimentos do final do ano letivo e as provas, nem teve tempo em se despedir dela. Já estava ciente que iria ter de aguentar muito drama da menina-fantasma, que insistiria em berrar dizendo que sempre é esquecida, que sabia que com ela não seria diferente. Ainda assim, estava disposta a ir até lá.
Encontrando a sala vazia, Tori foi direto para a saída e se afastou para a segurança de sua Comunal. Primeiro ela espiou todos os lados para ver se havia algum sinal de Filch ou sua gata. Não encontrando nada, ela iniciou a caminhada noturna seguindo cada vez mais para o inferior do castelo.
Passou sorrateiramente por corredores enquanto os olhos procuravam por Pirraça, suspirando aliviada sempre que não o encontrava. Desceu as escadas que sempre mudavam e que a fazia sentir-se extremamente aflita com a lentidão do processo, mas acabou se acalmando quando conseguiu chegar ao segundo andar sem ser flagrada por ninguém.
Tori estava aproveitando sua fugidinha de sucesso, quando ouviu passos correndo em sua direção. Ela arfou de susto e pensou em voltar para a escada, mas outro susto a surpreendeu.
— Quem está aí? — a voz irreconhecível e rabugenta de Filch foi ouvida muito próxima.
Praguejando mentalmente seu recente aprecio por aventuras — e, talvez, por problemas —, a menina puxou sua varinha das vestes e apontou para si com uma ideia louca que te passou pela mente. Iria estuporar a si própria e diria que era sonâmbula. Quem sabe funcionasse.
Estava criando coragem para usar o feitiço, quando alguém se chocou com força contra ela, derrubando-a e caindo junto. No percurso, a varinha caiu longe.
— M-meu Deus, eu lamento... — uma voz desconhecida se desculpou enquanto se afastava de forma desajeitada.
— Shh. — Tori apertou a mão contra a boca do desconhecido e sussurrou — Só me siga e tente não nos derrubar no percurso outra vez! — afastou a mão e se levantou.
O desconhecido fez o mesmo e tropeçou assim que deu o primeiro passo.
— Desculpa... Astigmatismo, miopia e falta de coordenação motora. — explicou, sem jeito.
— Tudo bem. Vem. — puxou-o para a frente e deu um impulso, o obrigando a correr conforme ela guiava.
Apesar dos sustos com os tropeços repentinos do desconhecido, ambos conseguiram chegar ao banheiro da Murta sem serem pegos. E para a sorte, talvez, a fantasma choramingava por ali.
— Murta! — a menina sorriu animada.
— Não quero falar com você. Não quero falar com ninguém. Ninguém liga mesmo para mim, ahhh... — para variar, Murta estava com o humor péssimo.
— Eu ligo sim, já te disse isso. — caminhou até o box onde o fantasma levitava — Olha, eu lamento por não ter mais te visitado. Eu tive uns problemas, não estive muito bem. Minha vida mudou de um dia para outro. — contou.
— Fala como se fosse a única a ter problemas. Ao menos saiu viva deles. Já eu... Ahhh, que azar. — choramingou.
— Me desculpa, Murtinha. Anda, não fique brava comigo. Você é minha melhor amiga do além! — revelou Tori, abrindo um sorriso amarelo.
— Amiga do além? — parou de chorar e encarou a menina.
— Desculpa, eu só falo bobeiras! — lamentou e abaixou o olhar.
— Não. Eu gostei disso... Afinal, é a minha realidade. Eu estou mortinha... — Murta fungou.
— Então você me desculpa? — voltou a sorrir animada.
— Ok. — assentiu.
— Isso é ótimo. Hum... Agora será será que podia me fazer um favorzinho? Filch está em algum lugar aí fora nos caçando. Poderia distrai-lo? Por favor, não quero começar o ano em detenção! — Tori suplicou, até mesmo unindo as duas mãos para reforçar.
— Ok. É só para isso mesmo que sirvo em meus tediosos dias de morte. — concordou e seguiu soluçando até a porta, por onde atravessou.
Com o silêncio do banheiro outra vez, Tori se virou para a companhia e, com a fraca iluminação do banheiro conseguiu reparar que era um menino, um primeiranista. Ao mesmo tempo que parecia familiar, ela não conseguia se lembrar dele.
— Tori Evans. — se apresentou e estendeu a mão para ele.
O menino abriu um pequeno sorriso, mas não moveu sua mão para apertar a da menina. Ela riu sozinha e discretamente ao se lembrar do problema de visão dele, logo recolhendo a mão devagar.
— Silas Monaghan. — revelou — E me desculpe por derrubá-la, eu não queria... — mexeu os ombros, sem jeito.
Era o menino da Sonserina, aquele que pareceu tão rejeitado pela casa. A lembrança em ver pessoas rindo dele fez Tori apertar os punhos e suspirar fundo.
— Muito prazer e seja bem vindo à Hogwarts. — ela sorriu — O que faz fora da cama uma hora dessa? — quis saber.
— Não é da sua conta! — Silas respondeu rapidamente, parecendo mais envergonhado do que irritado.
Diante da grosseria, Tori bufou irritada e seguiu apressada até uma das pias do banheiro.
— Desculpe... — ele acabou lamentando quase que em seguida — Um garoto dos dentes estranhos disse que eu só poderia entrar na Comunal se fizesse um teste de aceitação e provar que sou merecedor da Sonserina. Disse que eu teria que andar pelos corredores da escola e voltar sem ser pego. Bom... estava indo tudo bem, mas acabei me assustando com um fantasma escandaloso e perdi meus óculos. E... Acho que não tinha teste nenhum, eu é que fui bobo e provavelmente tapeado. — contou e se abaixou com cuidado para se sentar no chão.
— Flint... — Tori suspirou fundo e se virou, indo se sentar perto do novato — Bem vindo ao clube das pessoas feitas de idiota por Marcus Flint. — revirou os olhos.
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