Capítulo Três
36 horas | parte 2
— Fale baixo, por favor! — Tori suplicou — Eu sou Victória Evans, sem espaço para nenhum outro sobrenome, principalmente de um ridículo como esse senhor! — resmungou enquanto devolvia o jornal e segurava nas barras para se levantar.
— Não é o que suas origens dizem sobre seu sobrenome. — Stan insistiu.
— Chega, Stan, por favor! — fez outra suplica.
— Tudo bem. Me desculpa, senhorita Rosier! — o condutor mexeu os ombros e voltou para seu lugar.
A viagem seguiu turbulenta e dolorida para a menina, que sofria com cada solavanco por estar de pé. O condutor parecia não se importar nem um pouco com isso, pois seguia lendo seu jornal.
Quando o Nôitibus parou após algum tempo chacoalhando e fazendo curvas esquisitas, Tori se soltou das grades e alongou os dedos, que estavam doloridos pelos esforços feitos.
— Eles já devem estar em algum lugar aí fora. — Tori avisou e seguiu para porta, mas sendo impedida por Stan que entrou na frente.
— Eu na frente, espertinha! — avisou, enquanto a porta se abria e ele saía para a rua.
— Eu já disse que não vou te tapear. Sou honesta demais para isso! — resmungou enquanto descia do ônibus.
Assim que saiu, Tori deu uma boa olhada no lugar que havia parado, quase mudando de ideia e voltando para a proteção do Nôitibus. Com a rapidez do veículo bruxo, havia chego em Cokeworth, em uma outra parte da Inglaterra. Mais precisamente, o endereço que procurava era a Rua da Fiação, que devia ser onde ela estava no momento.
A rua estava repleta de casas em ruínas, algumas delas sendo geminadas e de tijolos aparentes, quase todas com janelas opacas e todas sem luz, levando em consideração o horário. Não muito longe dali havia um rio sujo, onde suas margens estavam repletas de lixo. Uma fábrica abandonada, com uma grande chaminé que se destacava entre os outros detalhes bizarros.
— Tori? — ouviu duas vozes conhecidas, que livraram-na dos devaneios.
A menina mal se virou para procurar pelos donos da voz, quando Olívio Wood a surpreendeu com um abraço, erguendo-a do chão e a apertando.
— Vocês vieram mesmo. — sorriu para o garoto assim que foi liberta.
— Até parece que a gente ia te deixar na mão, Tori! — Jeniffer MacMillan também apareceu, abraçando a menina rapidamente.
— Eu achei muita loucura, mas não poderia não vir e deixar duas garotas desprotegidas! — disse Olívio.
— Então comece pagando a passagem da "garota", ô machão! — Stan atraiu a atenção dos três.
— Claro. — concordou e enfiou a mão no bolso, retirando a quantidade certa.
— Quando eu descobrir como ganhar dinheiro bruxo sendo menor de idade, eu te pago, Olívio. — Tori avisou.
— Até parece, Tori. Isso é presente de um amigo! — o garoto negou.
— Não sejam devorados por criaturas noturnas, crianças! — Stan falou como despedida e entrou outra vez, onde o Nôitibus desapareceu tão rápido quanto surgiu.
— Esse cara é meio doido. — Jeniffer concluiu.
— Só não supera a Tori! — Olívio falou e ficou sério — O que pretende fazer? Bater na porta do professor Snape e pedir alguns ingredientes para uma poção? — cruzou os braços.
— Claro que não, vocês sabem que ele negaria! — negou e trocou olhares entre os dois amigos — Vocês vão distrair ele com perguntas, eu vou pedir para ir no banheiro e vou pegar o que eu precisar! — abriu um sorriso amarelo.
— O quê? — os dois se alteraram ao mesmo tempo.
— Você só pode estar ficando louca, menina. Se ele te pega no flagra, estamos fritos. Ahhhh, por que fui concordar em descobrir o endereço dele para você? Por quê? — Jeniffer choramingou.
— Nós somos Grifinórios. Medo não existe em nosso vocabulário! — rebateu — Olha, eu não cometeria esse tipo de tentativa de "suicídio escolar" se eu realmente não estivesse precisando. Minha amiga está quase morrendo, eu preciso da poção para evitar isso. Não posso ficar esperando a morte dela sem tentar impedir, pois que tipo de amiga eu seria? Eu sou uma bruxa, então posso ajudar de alguma forma! — ela explicou, sentindo um peso no peito ao se lembrar de Abigail.
— Não precisa chorar, pois nós vamos te ajudar. É realmente suicídio escolar, mas amigos não servem só para coisas boas, eles servem para se lascarem juntos também, não é? — sorriu Olívio.
— É. Mas tem um detalhe: qual a desculpa para bater na porta do professor às 2h37 da madrugada? — a outra menina quis saber, enquanto revelava um relógio de bolso e o observava.
— Eu não pensei nesse detalhe. Ah, droga, não sirvo para criar planos quando estou sob pressão! — choramingou Tori, dando um tapinha na própria testa.
— Olívio? — a MacMillan chamou a atenção do goleiro.
— Tudo bem. — suspirou e passou os braços por cima do ombro das duas, formando assim um quase círculo — Eu digo o que vamos fazer: vamos sentar e esperar dar umas... hum, sete da manhã? Talvez esse horário, pois Snape não parece do tipo que acorda meio-dia. Enfim, chegado o horário nós batemos na porta dele, pedimos uma aula extra de Poções e torcemos para ele não bater a porta em nossa cara. Então a bexiga da Tori vai precisar do banheiro e com isso ela vai agir! — propôs o plano.
— E o que fazemos durante essas horas de espera? — Tori arqueou as sobrancelhas.
— Esperamos. — ele deu de ombros e soltou um risinho.
◾ ◾ ◾
Enquanto via o dia amanhecer sem pregar os olhos uma única vez, Tori pensava na loucura que cometeu em envolver os amigos naquela ideia absurda de fazer uma poção para ajudar Abigail. Somente o desespero e a forte fé para acreditar que aquilo daria certo.
Olhando o relógio pela milésima vez, viu o ponteiro revelar alguns poucos minutos para as sete. Apesar da ansiedade misturada com o medo, Tori encarou Olívio com a cabeça em seu colo e depois para Jeniffer, com a cabeça encostada em seu ombros, antes de mover os braços para acordar os dois.
— Gente, acordem. — chamou os dois, enquanto os cutuvaca — Chegou a hora! — falou e suspirou pesado.
— Ai, meu pescoço parece estar quebrado! — gemeu Jeniffer.
— Não dá para adiar uma hora? Eu ainda estou com sono! — reclamou Olívio, apertando o rosto contra os joelhos da amiga.
— Anda, preguiçoso! — ela cutucou as costas dela com o dedo indicador, o fazendo se contorcer.
— Ok. — concordou, contrariado, e enfim ergueu o corpo — Bom dia, meninas! — bocejou.
— Meu Deus, precisamos de algum disfarce para que o professor não perceba que acabamos de acordar! — Jeniffer abanou o rosto algumas vezes e apertou o nariz logo depois, reprovando o bafo do goleiro.
— Eu trouxe umas balas aqui. — ele puxou a mochila e a abriu, começando a revirar.
Enquanto os dois amigos davam um jeito no hálito e na aparência amassada, Tori se levantou e bateu o pó de sua roupa. Ficou observando o lugar terrivelmente deserto, que lhe causou arrepios.
— Tori, você quer? — perguntou MacMillan, oferecendo a bala.
— Não precisa. Eu não dormi. — negou e coçou os olhos cansados.
— Tudo pronto. Vamos? — o garoto se levantou e ajudou a outra menina e se levantar também.
Elas assentiram juntas para a pergunta.
O trio começou a caminhar lado a lado pela calçada precária, tomando cuidado onde pisavam. Todos estavam com a varinha presa na manga da blusa, atalho mais fácil caso precisassem dela.
Mais à frente, Jeniffer retirou do bolso um papel meio amassado e passou os olhos pelo conteúdo ali, depois desviando o olhar para uma numeração próxima.
— É aqui. — revelou enquanto voltava a guardar o papel.
— Tudo bem... — Tori respirou fundo cerca de três vezes.
Quando se sentiu pronta, Tori se aproximou da porta parcialmente transparente e ergueu a mão. Um último suspiro aflito e ela bateu algumas vezes, logo recolhendo a mão que começou a ficar trêmula.
— Ele vai nos matar... — murmurou Olívio.
— Shh. — Jeniffer o reprovou.
Não demorou muito e uma silhueta apareceu na porta, podendo reconhecer o grande nariz curvo espiando pelo vidro. Muito mais rápido do que veio atender a porta, ele a abriu, revelando uma expressão entre surpresa e desgosto.
— Bom dia, professor! — Tori abriu um sorrisão.
— Que diabos estão fazendo aqui, seus insolentes? — rosnou Snape, enquanto encarava os três alunos.
— O amor a Poções nos trouxe aqui. Cansamos de te decepcionar e queremos aulas extras. — MacMillan foi mais rápida e usou uma desculpa.
— Acham que sou tolo em níveis altíssimos? — perguntou, não esperando a resposta — Sumam daqui! — contorceu a expressão e puxou a porta para fechá-la.
— Não! — disse Tori, enquanto tentava segurar a porta e, em vez disso, prendia os dedos — Ai, ai, ai, aaaai meus dedinhos! — choramingou enquanto livrava a mão e começava a pular.
— Inferno! — o adulto rosnou e voltou a abrir a porta — Entre. Eu tenho uma poção para o ferimento, mas depois vocês desapareçam daqui! — avisou muito em contragosto e deu passagem para os alunos adentrar.
Ainda mexendo a mão ferida, por agonia da dor causada, Tori adentrou a casa de seu professor e passeou os olhos curiosos por todo o lugar. Eles entraram diretamente em uma pequena sala de visitas, onde as paredes era inteiramente cobertas por livros, a maioria encadernado em couro preto ou castanho. Havia também um sofá, uma poltrona velha e uma mesa aparentemente bamba. O lugar tinha o ar de abandono, provavelmente por não ser frequentemente habitado.
— Esperem aqui sem ao menos cogitar se moverem do lugar. — Snape ameaçou, antes de desaparecer por uma porta.
Os três amigos esperaram alguns segundos, antes de se aproximarem outra vez.
— Eu fiz de propósito. — Tori confessou, baixinho.
— Você é doida? Podia ter se machucado de verdade e ele ter recusado a ajuda! — Olívio reprovou a ideia e segurou a mão ferida da menina, observando os machucados.
— Mas ele recusou. Eu tive que dar um jeito! — justificou.
— Qual o plano agora? Ele vai usar a poção em você, então você se tornou a distração do plano! — sussurrou Jeniffer, enquanto espiava a porta.
— Eu não posso me oferecer. Sou ruim na matéria dele, então ele me odeia e não vai confiar em me deixar ir nem mesmo no banheiro! — o garoto negou.
— Tudo bem, então eu vou. Talvez minha carinha de anjo sirva para alguma coisa! — ela se ofereceu.
— Eu anotei os ingredientes que você precisa encontrar, inclusive desenhei como cada um é, para caso os frascos não tenham nomes. — com a mão sadia, Tori enfiou a mão no bolso da calça e retirou um papel, entregando-o para a amiga.
As mãos se afastaram no momento exato que Snape voltou, trazendo consigo um vidrinho. Ele parou na porta e ficou alguns segundos encarando os três, parecendo tentar capturar algo no ar.
Mas as expressões angelicais não revelaram nada, se não um respeito de mãos dadas com o medo.
— Obrigada por me ajudar, professor. — Tori agradeceu, enquanto se sentava na poltrona e estendia a mão machucada.
— Não quero sua gratidão, Evans. — desprezou enquanto tirava a tampa do vidrinho e despejava o conteúdo no ferimento.
— Professor, posso usar seu banheiro? Bebi muito suco de abóbora antes de sair de casa, minha bexiga está me matando! — Jeniffer colocou o plano em prática e fez uma expressão de cachorrinho sem dono.
Snape virou seu olhar para ela, como se procurasse algo fora do lugar para dar o flagrante. Mas a menina continuou a expressão tristonha e a contorcer a pernas em um gesto aflito de bexiga cheia.
— Após a escadaria, na terceira porta. — deu a permissão e então voltou aos cuidados da mão da outra aluna — A não ser que também queira uma poção para machucados em mãos, você continuará mexendo nesses livros, Wood! — advertiu o outro, sem precisar o encarar.
— Desculpe, professor! — Olívio lamentou, sem jeito.
— Meus dedos estão doendo. É normal isso mesmo após a poção já sendo usada? Tem certeza de que fez direito, professor Snape? — a menina começou a tagarelar para distrair o adulto — Que poção é essa? É alguma básica ou é avançada? O senhor poderia me ensinar! — sorriu de maneira animada.
— Evans, poderei fazer a proeza de se calar? — o adulto se afastou e colocou o vidrinho vazio no bolso das vestes.
— Eu só quero aprender, professor. É o senhor que reclama que não sou boa em poções! — se defendeu.
— O senhor já leu todos esses livros? — o garoto também tentou mudar de assunto.
Antes que Snape pudesse abrir a boca para soltar sua típica ignorância, algo no andar superior fez com que ele e os outros dois olhassem para o teto. O som de vidro caindo no chão, quase sem intervalos, enquanto era possível ouvir Jeniffer reclamar dizendo "Droga! Droga! Droga!".
O dono da casa saiu porta à fora, sem dar tempo em ser mais enrolado pelos dois alunos que estavam ali.
— Sujou! — Tori murmurou.
— Ele vai jogar a Jeniffer escada abaixo! — gemeu Olívio, enquanto seguia apressado para a porta, por onde a menina o seguiu.
Eles chegaram a tempo de ver Snape acompanhar pela escada uma Jeniffer totalmente vermelha de vergonha, que encarou os dois amigos com "desculpa" dita apenas ao mover os lábios, sem fazer qualquer ruído.
— Eu explico o que aconteceu, professor Snape. — Tori se manifestou — Eu vim até aqui para pegar uns ingredientes seus para uma poção que pretendo preparar. Mas o plano fugiu do controle, eu que ia fazer a parte suja e não a Jeniffer. Eu sou a única culpada, então brigue comigo! — ergueu um pouco o queixo para demonstrar determinação, por mais que estivesse assustada.
— Fora de minha casa. Agora! — ele empurrou Jeniffer para perto de Tori e depois empurrou as duas ao mesmo tempo, enquanto também obrigava Olívio a andar.
— Espera, professor, por favor, eu tenho um outro pedido. — insistiu Tori, enquanto as pernas eram obrigadas e seguir para a saída.
— Fora! — repetiu e abriu a porta.
— Eu não vim pegar seus ingredientes emprestados a toa. Eu realmente preciso fazer uma poção, uma pessoa depende dessa poção. Minha amiga de Little Whinging está em coma induzido, pois passou a ter convulsões estranhas e que medicamentos não fazem efeito algum de melhora. — explicou, aflita — Então já que o plano falhou, não pode o senhor mesmo preparar uma poção que eu possa usar nela e ajudá-la? É o único Mestre em Poções que eu conheço, talvez um dos melhores, eu não consigo imaginar outra pessoa para me ajudar se não o senhor. Por favor, professor! — a menina permaneceu dentro da casa, apesar dos dois amigos já terem saído.
— Fora, Evans! — Snape voltou a repetir e fez com que a menina saísse.
— Professor, por favor, os médicos só deram 36 horas para tentarem resolver o problema e já se passaram 18 delas! — se virou para encarar o dono da casa — Se não ajudar, ela vai... morrer. — acabou falando sozinha, pois a porta foi fechada na mesma hora.
Com uma sensação horrível em ter falhado, Tori tocou o pulso enquanto incontáveis lágrimas molhavam seu rosto. Olívio acabou se aproximando e a abraçando pelos ombros.
— Vem, Tori, vamos embora. Não tivemos sucesso aqui! — lamentou enquanto obrigava a menina a começar a caminhar.
Não conformada com tamanha falta de empatia, Tori se soltou dos braços do amigo e correu de volta para a frente da porta, com respiração pesada e raiva evidente.
— Covarde! — berrou, enquanto apertava os punhos e tremia.
— Vem, Tori. Nós vamos procurar os meus pais, eles são curandeiros e talvez consigam resolver o problema. — agora foi Jeniffer quem a puxou para se afastar.
— Acha que eles vão aceitar? — encarou a amiga, sentindo uma pontada de esperança outra vez.
— Sem sombra de dúvidas. Eles tem algo que Snape não tem: sentimentos! — assentiu — Vem, vamos logo. — apressou os passos.
◾ ◾ ◾
Diferente do dia anterior, que entrou devagar, tranquila e esperançosa, Tori agora entrou correndo no Hospital onde Abigail estava internada.
— Abigail McGregor ainda está no quinto andar? Também sabe me dizer qual familiar está agora? — parou na recepção e encarou a mesma recepcionista.
— Bom dia, menininha. — a mulher a encarou, achando graça em toda a agitação — A tia e os pais estão aqui, mas agora estão reunidos com o Médico. — explicou.
— Posso subir para dar meu apoio? Eu vim com meu grupo de oração, queremos orar na porta da UTI! — Tori pediu e apontou para trás, onde estavam Jeniffer e Lance MacMillan, além de Olívio.
— Só duas pessoas por vez para não virar bagunça. — informou a recepcionista.
— Então vá você e o papai, obviamente! — Jeniffer logo sugeriu.
— Tudo bem. — a menina concordou — Obrigada, senhora! — agradeceu e se virou para sair dali.
Acompanhada do pai da amiga, Tori adentrou o elevador e apertou o botão para o quinto andar, esperando ansiosamente enquanto o mesmo fechava as porta e começava a subir devagar.
— Grupo de oração? — Lance arqueou uma sobrancelha.
— Eu vou para o inferno por ter usado Deus para mentir. Obrigada por me lembrar! — cobriu o rosto com as mãos e riu de leve — Obrigada por estar aqui, senhor MacMillan e de ter se dado ao trabalho de sair de seu trabalho para me ajudar. — o encarou e sorriu, emocionada.
— Eu só estou fazendo que minha profissão espera de mim. — tocou o ombro da menina e deu uma leve apertada.
— Eu vou perguntar se tem alguém no quarto além da Abie. Se não tiver, você pode dar seu jeito de entrar e fazer sua parte, ok? — repetiu o plano para ele.
Assim que o elevador parou no quinto andar, Tori secou as lágrimas que molharam o rosto e saiu, sendo seguida pelo adulto. Mas foi surpreendida quando encontrou mãe e tia de Abigail chorando, enquanto o Médico parecia pálido de surpresa.
Com um nó de aflição preso em sua garganta, Tori correu para eles enquanto sua respiração tornava-se muito desigual.
— Senhora Marie, o que aconteceu? — perguntou enquanto levava a mão até o peito, onde podia sentir o coração agitado.
A mulher a encarou e, estranhamente, sorriu, mesmo se este veio acompanhado de mais lágrimas. Ela abriu a boca para responder, mas foi interrompida quando a porta do quarto onde Abigail estava foi aberta.
Tori virou o rosto para o lado e prendeu a respiração ao encontrar a cama vazia e os aparelhos desligados. Os olhos inundaram-se e lágrimas ao entender a situação.
— Cheguei tarde demais... — soluçou e abaixou o rosto, sentindo o corpo todo começar a ficar mole.
— Por que está chorando? Quem morreu? — uma voz familiar perguntou.
Com os olhos arregalados de surpresa, Tori se virou devagar e encarou a figura conhecida parada na porta.
— Abigail? — murmurou e um enorme sorriso quase rasga sua boca.
— Oi, minha esquisita favorita! — Abigail sorriu de volta.
Mesmo com medo de tocar na amiga recém-recuperada, Tori correu para ela e as duas se abraçaram forte. Não pôde evitar em chorar, um choro misturado de alívio e emoção.
— Eu pensei que... — Tori soluçou e não foi capaz de perguntar.
— Que eu fosse morrer? Até parece. Quem ia te infernizar se eu morresse? — a menina riu.
Desapertando o abraço, Tori deu uma boa olhada na aparência da menina, que havia mudado alguns detalhes desde a última vez que se viram.
O cabelo estava solto e o cumprimento chegava um pouco abaixo dos ombros. Abigail estava alguns centímetros mais alta, passando da altura de Tori, e permanecia tão magricela quanto antes.
Mas o que mais chamava atenção em sua aparência era que nada indicava que ela havia passado dias em uma UTI, que havia sofrido uma parada cardíaca e estava prestes a morrer. Estava corada e com a aparência muito saudável.
— Eu tentei fazê-la ficar na cama. — a enfermeira saiu do quarto e tocou o ombro da paciente.
— Não precisa disso, eu estou bem. Inclusive quero sair desse quarto, pois tem cheiro horrível de doença. E eu estou bem! — Abigail pediu e balançou a mão em frente ao nariz, como se tentasse espantar algum cheiro ruim.
— O que vocês fizeram? Olha, ela não está tendo convulsão alguma! — Marie apontou para a afilhada, desacreditada no que via.
— Por incrível que pareça, não fizemos nada, a não ser o mesmo tratamento de sempre. Talvez o organismo de Abigail tenha resolvido colaborar, não temos como saber ao olho nu. Vamos levá-la para uma bateria de exames agora, o resultado sai em algumas horas! — informou o Médico, enquanto uma nova enfermeira surgia com uma cadeira de rodas.
Chocada demais em ver a amiga bem e viva sem antes mesmo de Lance poder agir, Tori caminhou até uma poltrona da Sala de Espera e se sentou.
— Snape? — Tori cogitou — Será? — seus olhos inundaram-se de lágrimas emocionadas outra vez.
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