A Babá.

31 Capítulo 31


Notas iniciais
Eu odeio fazer finais, sabem? É algo que eu realmente não sei fazer, mas estamos trabalhando nisso. Foi um prazer ter vocês por aqui, coisinhas lindas, muito surtos, ameaças, até me surpreendi, mas foi bom mesmo, divertido. Obrigadinha. ♥ Começou com Emma e termina com Regina, porque o maior crescimento sem dúvida alguma, foi o dela. Vamos lá.

POV REGINA

Senti muita falta da minha mãe quando era pequena, eu tinha meu pai e ele fazia de tudo para mim, tudo mesmo, mas ainda assim sentia falta de coisas pequenas, como ela me ajudando a escolher uma roupa, ou me dizendo que os garotos podiam ser maus às vezes. À medida que os anos passavam e eu entendia mais das coisas, essa falta diminuiu e quando finalmente ela estava disposta, eu não estava mais.

Os impactos de sua ausência me marcaram feito brasa, não só pelo estrago da saudade, mas pela visão distorcida que se formou em meu subconsciente em relação ao que era ser mãe e até mesmo, as barreiras que criei para me defender dos sentimentos melancólicos que me tomavam quando o assunto era esse.

Estudei, por influencia do meu pai entre na politica, casei-me e tudo com a ideia fixa de que aquilo era tudo que eu precisava na vida, ser feliz não era a algo a qual pensasse com afinco, estava confortável com a situação que cheguei e isso me bastante, até a gravidez.

Henry veio e o que mais me disseram foi “uma criança traz luz a casa”, hoje eu acredito nisso, mas até chegar nesse ponto, foi um longo caminho. A primeira dificuldade foi minha resistência em ser mãe, minha mente gritando que eu seria exatamente como Cora foi para mim, ausente. Mesmo com Robin ao meu lado em alguns momentos, pois sua ausência também pesava por vezes, me convenci que, no fundo, era um reflexo vazio dela.

Meu filho, minhas regras, foi um lema que carreguei pelos anos, Robin viajava então sua palavra e nada era a mesma coisa. Henry sempre foi carente de atenção e isso aumentou à medida que ela crescia, mas, minha profissão, permitiu-me criar uma barreira entre nós. Eu o amei desde o momento em que peguei em meus braços, sem duvidas algumas, apenas não soube lidar com esse sentimento, sendo que, é o maior que habita em mim.

Ser prefeita me tomou um tempo irrecuperável, não vi Henry crescer, em silencio, por varias noites, quando Robin dizia estar viajando, me perguntava se seria sempre assim, sempre aquela barreira, aquele vazio, aquele clima estranho, onde ele tentava se aproximar e automaticamente eu o barrava.

Se fosse a cargo do tempo, eu o teria perdido, mesmo que nada tivesse acontecido. Mas, por sorte, destino, uma mão divina, não sei, cada um define como quer, Emma apareceu, veio colidindo com meu mundo. A moça que no segundo dia de trabalho estava questionando sobre a maneira que eu criava o meu filho, quem em sã consciência faria isso? Mas ela o fez e me irritou, sim, mas era a primeira pessoa que aparentou ver meu filho, como criança que era, e não uma coisinha que daria dinheiro.

Emma foi um desvio na linha do trem, tirou a peneira da minha cabeça, que eu estava tentando tampar o Sol, me tirou do conforto. A resistência sempre foi uma característica minha e acompanhou-me até aquele momento e, mesmo assim, ela estava lá, cutucando de todos os lados, escalando minhas barreiras, caindo e tentando novamente. Contudo, seu objetivo, antes de ter qualquer coisa comigo, era me aproximar de Henry.

Eu precisei que um estranho entrasse e me fizesse enxergar a importância do meu filho? Talvez seja isso mesmo. Ele sempre foi o mais importante da minha vida, tudo que fiz foi para o e melhor dele, porém, depois de tudo, eu pude ver com clareza, fiz tudo do jeito errado. E sempre serei grata por tal coisa.

Ao tempo que tentava de aproximar de Henry, Emma se aproximou de mim, esteve comigo quando aquela gripe boba me pegou e me fez tomar um remédio horrível. Aquele dia é um que não esqueço, pois nem meu marido tinha tal cuidado comigo e, falando no mesmo, ela esteve comigo quando eu queria mata-lo ao descobrir de sua traição. Esse ponto foi desastroso, me senti a pior pessoa do mundo, ele montou outra família e ainda disse que eu era uma mãe ruim, coisas que eu já sabia, que maquiava e ficaram estampadas em minha testa.

O perder não foi o problema. O problema foi tê-lo abrindo uma guerra contra mim, ao tempo em que Emma parecia querer me desvendar. De um lado as acusações frias e sinceras. De outro o colo, o afago, o carinho. Insegurança. Segurança. Raiva. Amor. Encontrei o limite de mim naqueles dias. Em meio às palavras de Robin, ao medo de perder Henry, aliado aos toques de Emma, a sua segurança em relação a tudo.

Robin ativou uma bomba em mim e Emma tentou retardar um caos eminente. Estourei com ela, com Henry, com a vida. Não agi certo e as consequências disso me embalaram de modo devastador. Emma se foi. Henry sentia sua falta. Ingrid era sincera quanto as minhas chances de perder meu filho. E a saudade me apertava.

Dias que se passaram lentos como os segundos do relógio, cada dia que se aproximava a audiência de guarda, era um passo a mais para o abismo. Nada no mundo me faz esquecer aqueles dias, aquela agonia, as palavras trocadas naquela sala e nem a surpresa de ver Emma, depois de dias, depois das brigas, das cartas, depois de tudo, disposta a me ajudar.

Muitas coisas foram ditas naquele dia, mas uma permaneceu fresca em minha mente “ E no fim é isso que importa não é? Não desistir de quem ama”, essas entraram em mim e fixaram-se. Eu consegui a guarda de Henry, estava feliz por isso, mas precisava de mais, precisava de Emma.

Meu pai era dado a filosofias baratas e um dia disse-me, “sua vida se estará completa quando você fizer algo que não lhe é comum”. E depois da audiência me vieram atitudes diferentes, de fato, encarar meus sentimentos, encarar os olhos incertos de Emma, pedir que ficasse, que desse uma segunda chance, terceira ou quarta, não importa.

O que criamos não foram sentimentos soltos ou fracos, a distancia pesou e em vista de suas palavras e atitudes, sei que nela também ardeu. Porém, quando nos permitimos encarar as palavras que não dissemos, quando nossos olhares se encontraram, foi como se nosso coração estivesse se encarando também, firmamos um laço, uma promessa.

Por fim, foi Emma quem me estabilizou, me mostrou a estrada além daquela que eu conhecia. Nossas diferenças eram enormes e ainda assim, deu certo. Carregávamos solidões diferentes e juntas não havia espaço para isso. Com ela, todos os dias eu me deliciava com uma sensação diferente, mergulhava mais fundo em um mar de sentimentos.

E além de mim, havia Henry, meu pequeno príncipe fez seu porto seguro em Emma. Acredito que a morte do pai só não lhe afundou, porque em todo o instante ela estava ao seu lado, o mostrando coisas, tentando divertir e sempre obtendo sucesso.

Analisando os dois, eu fiz várias escolhas. Sendo a primeira delas: viver os dias com mais deleite, com mais proveito. Aproveitar mais os momentos bons. Guarda-los por meio de fotos, gravações, pinturas na mente. Me permitir sentir tudo, sem barreiras ou restrições, não abster-me. Deixar a politica, sendo esta uma grande decisão, essa carreira caiu-me como um escape e diante de tudo, do que eu escaparia? Do que me privaria?

Ainda tínhamos um extenso caminho a percorrer, Emma com sua carreira na pedagogia, eu voltaria a exercer advocacia e não pensava que seriam sempre flores, pretensão pensar tal coisa, contudo, sabia que encontraríamos um ponto de equilíbrio.

Depois da ida, da volta, da reconciliação, da descoberta e aceitação dos sentimentos, da sogra e todos os outros ocorridos, um ainda estava pendente e fugia da minha alçada de controle. Henry. Gostaria que nosso filho entendesse nossa relação desde pequeno, com o sentido real que o cabia, ter duas mães, não queria que esquecesse Robin, jamais.

— O que pensa? – Emma assustou-me, eu estava na prefeitura enquanto pensava, com os papeis do partido a minha frente. Meu coração disparo sempre que a havia, uma sensação de primeiro amor que nunca me deixou.

— Muitas coisas.. – Levantei, indo até a porta.

— Tem certeza que quer deixar isso? É sua vida.. Nós podemos nos adequar ao tempo.. – Sussurrou, puxando-me pela cintura, com um sorriso aberto nos lábios.

— Era minha vida, Emma.. Agora minha vida é Henry... – Mordisquei seu lábio, passando os braços em torno de seu pescoço. – E você.

Seus olhos brilhavam diante de mim, suas mãos encontravam as minhas, entrelaçando nossos dedos, sempre passando uma segurança inigualável, como se sussurrasse “estou aqui, vou permanecer aqui”.

— Vamos levar Henry no parque, quando voltarmos? – Perguntei, ganhando beijos estalados.

— Vamos, ele vai adorar saber que a ideia foi sua. Espero aqui, enquanto terminar de mexer com aquela papelada chata. – Disse, porém não me soltou para ir terminar e eu também não queria ir.

— Assim só vamos sair daqui à noite.. – Sussurrei em meio ao beijo, arrepiando com o toque leve dos dedos em meus cabelos.

Enrolamos ali e terminei de assinar tudo, Ingrid passou e pegou, confiei a ela que cuidasse de todo o processo para sair da filiação, até a posse do próximo prefeito ainda haveria algum tempo, mas poucos meses.

Encontramos com Henry em casa, terminando a aula, pois ainda não havia mudado. Toda sua concentração se foi assim que abrimos a porta, ele pulou no colo de Emma. A professora bateu a cabeça na mesa, em desanimo, isso acontecia com mais frequência desde então.

— Regina disse que hoje nós vamos ao parque! – Emma disse, o segurando em seu colo, enquanto ele brincava com os fios de seu cabelo, como de costume.

— Jura, mãe? – Perguntou a mim. – Vou tomar banho!

Pulou do colo de Emma, indo em direção a seu quarto. Fiquei encarregada do banho de Henry, enquanto Emma se arrumava. Sem ela e ele na sala, tive um certo medo, mais próximo de receio, de como se sucederia a conversa a seguir.

— Eu escolhi a roupa, olha! – Henry apareceu com uma blusa dos vingadores e uma bermuda jeans.

— Mas você não vai brincar? – Perguntei, analisando sua escolha.

— Não, eu vou ficar sentado com vocês. – Veio até mim, me puxando para ir tomar banho.

Levamos uns trinta minutos até nos aprontar. Henry sempre andava entre nós duas, segurando ambas as mãos. Um silêncio confortável nos rodeava. No parque havia outras crianças, famílias, pessoas passeando com seus animais, que também poderiam ser considerados como família.

Sentamos próximos ao lago, onde certa vez Henry se divertiu muito com um barquinho. Ele apontava para os barquinhos que gostava e torcia a cara para aqueles que não gostava ou que era mal controlados por seus donos.

— Henry, o que acha de Emma morar com a gente? – Perguntei, dando inicio a conversa, em meio a um suspiro e mãos trêmulas. Emma olhou-me confusa.

— Eu quero, mãe. Ai eu não preciso levantar cedo e ir até a casa dela. – Disse, pulando para meu colo.

— Mas sabe, a mamãe e a Emma, nós.. – Travei, não sabia como dizer, olhei para Emma que riu de canto do meu desconcerto.

— Nós nos amamos, Henry. Fazemos coisas juntas, somos um casal. – Disse, de modo simples, direto e sem problema algum.

— Fazem coisas.. como dormir juntas? – Perguntou, coçando a cabeça.

— Isso também. Você tinha Robin.. – Juntei coragem e disse, fazendo carinho em sua bochecha. – Ele é seu pai. E agora tem mais uma mãe.

— Então.. Emma é minha mãe também? – Henry sorriu, pegando ambas as mãos dela, sua incerteza nas falas curtas me deixava inquieta e confusa.

— Mas, não precisa.. – Emma voltou a falar, passando o polegar sobre a palma de sua mão, porém foi cortada, pois Henry se jogou em cima dela.

— Você é a mãe menos brava! – Falou, exaltado, animado, surpreendendo a nós duas.

— Ei! – Me defendi, bagunçando seu cabelo. – Tudo bem, Henry?

— Tudo! Mas Emma tem morar com a gente, mãe. Ou mãe. – Olhou para nós duas confuso, e rimos. Emma o abraçou, piscando para mim.

O meu maior medo era a recusa, ou a confusão, sabia que ele ainda não tinha completa noção que significava de fato tudo aquilo, mas o fato de ser sincera com ele me deixou melhor comigo mesma. Ainda me preocupava um pouco a questão da sociedade e como ele reagiria quando ocorresse festa de dia dos pais na escola, por exemplo, mas era algo a ser trabalhado com o tempo.

A felicidade não é algo que se estende eternamente, acredito mesmo que existem vários e vários momentos felizes e que, às vezes, eles são raros, e em outras, eles são quase diários. Aquele foi o momento mais feliz dos poucos anos que tinha de vida, visto que ainda pretendia viver muito. Cheguei a um ponto onde estava plena comigo mesma, bem e feliz, podendo assim dedicar-me de corpo e alma a aquelas duas criaturinhas que iluminavam meu mundo.

~x~

Quando o assunto é família, no fundo ainda somos crianças não importa o quão velho ficamos sempre precisamos de um lar para chamar de lar. Porque sem as pessoas que você mais ama, você não pode evitar em se sentir sozinho do mundo.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!