A Baby Among Us
8 Sobre como o tempo não esquece
Notas iniciais

I said baby, baby, are you ready?
Cause it’s gettin’ close
Don’t you feel the passion ready to explode?
What goes on between us no one has to know
— Jamie Cullum
Por um segundo, o mundo parou.
Gawain Robards, um dos mais recentes transferidos ao Ministério da Magia britânico, encostou um dedo nos lábios, pedindo a todos para que mantivessem o silêncio. Era um daqueles momentos pelos quais Sirius esperava toda a sua vida. O que fazia tudo, de repente, valer a pena.
Era como se toda a Upper Grosvenor corresse em câmera lenta, mesmo por baixo de toda aquela chuva, que não cedia, apesar de mais uma importante captura do esquadrão.
O mundo voltou a correr quando Héstia tirou a varinha do bolso do casaco, colocando-o nas costas, em posição vertical. Se disparasse as faíscas vermelhas, que eram naturais para denunciar uma localização, assustaria o negociador, que correria direto para o Hyde Park.
Era a primeira vez que Sirius usava aquele feitiço mais útil que aparatar e usaria em campo. Trocou um olhar cúmplice com James, antes de apertar a varinha mais forte. Assim que terminou de mentalizar o feitiço no tempo cronometrado, ele, assim como todos os outros, desfez-se em uma fumaça branca com uma única direção.
Héstia apontou a varinha para o homem, e Robards fez a mesma coisa, ainda em sua posição. Uma captura rápida e sem necessidade de feitiços.
— Dedalus amaria isso! — comentou Sirius, observando os objetos que estavam dentro do saco.
— Muito normal um auror manter contato com esse tipo de gente — retrucou Héstia.
— Informantes são úteis — ele deu de ombros — Aliás, temos um assunto a tratar...
— Black, Jones, levem essas quinquilharias para o nível dois — Robards disse.
— Se Rufus for elevado a ministro da magia, eu quero esse cara como auror chefe — murmurou a mulher, fechando o saco, e elevando-o com um feitiço de levitação.
Assim que chegaram ao Ministério, foram direto para o lugar indicado, em vez de seguir os colegas, o que era uma boa coisa, já que cada missão era seguida de um entediante relatório. Como se apenas Robards dar o relatório não fosse o suficiente.
Sirius tinha saudades da época em que Moody comandava o quartel, ele achava aqueles papéis todos uma tremenda perda de tempo. O ex-auror, pelo menos, não investigava o ministro e seus subordinados buscando o poder, em vez de uma justiça dentro do Ministério.
Se algum daqueles sangues puros tivesse a coragem de levantar-se para governar os demais, ele tinha certeza de que tudo seria o maior caos, e que as coisas não seriam tão calmas quanto eram.
— Onde está Weasley? — Héstia olhou ao redor, parando um dos estagiários do departamento.
— Dia de folga — o garoto deu um sorriso amarelo.
— Certo, quem é o segundo responsável?
Enquanto a auror deixava o saco nas mãos de alguém mais qualificado, Sirius pensou que seria melhor ideia se alertassem-no sobre o que aconteceu, mesmo que estivesse de folga.
— Escute, Héstia, eu vou mandar uma mensagem a ele — ele deu a ideia.
— Espere! Preciso te mostrar uma coisa! — ela pegou-lhe no braço, saindo do escritório.
— Nível um? — perguntou Sirius, surpreso ao vê-la arrastá-los na direção do elevador que ia para baixo.
— Serviços auxiliares — Héstia assentiu.
— Certo...
Apenas eles estavam ali, o que era algo estranho, mas como eram aurores, ninguém questionou a sua vinda. Afinal, era o mesmo nível em que o escritório do ministro ficava. Sirius deixou-se ser puxado pela amiga até um dos escritórios.
— Cauley! — ela bateu na porta, levemente com as articulações dos dedos.
Se Sirius já não tivesse visto o garoto antes, jamais teria adivinhado que era o irmão mais novo de Héstia, pois não tinham nada a ver um com o outro. Cauley apenas abriu a porta e entregou um pergaminho para ela, antes de voltar ao trabalho.
— Ele não trabalha no tribunal? — estranhou o bruxo.
— Bem, ele não passa o tempo todo lá — respondeu Héstia, como se fosse óbvio — Aquilo é só para julgamentos. Aqui é onde registram tudo o que acontece por lá, e outras coisas...
Como para ilustrar o que disse, ela ergueu o pergaminho para que ele visse o que estava escrito ali.
— Você é um gênio! — Sirius disse, sorrindo.
Em vez de responder, ela revirou os olhos.
— Vai logo falar com quem você tem que falar! — empurrou-o de leve, antes de seguir para o elevador.
Ele fez o mesmo, já que não tinha mais o que fazer naquele nível.
Com a desculpa de falar com Arthur, ele conseguiria ausentar-se por mais um tempinho do trabalho. Não faria diferença, ele seria o seu ponto alto da semana. Talvez até do mês.
— Trabalho não! — foi recebido por uma Molly Weasley com os braços na cintura — É dia de folga dele!
— Eu sei — Sirius só respondeu isso, sorrindo inocentemente.
— Ele está na garagem — ela disse, dando um suspiro audível — Agora, saia da minha vista!
Levantando os braços em sinal de paz, ele partiu para fora da casa.
— Sirius! O que foi agora? — Arthur fez esforço para esconder grande parte das suas quinquilharias conseguidas no trabalho.
Um segredo que os amigos guardavam, ou ele poderia perder o emprego.
— Você precisa aprender a esconder as coisas — aconselhou Sirius — Hoje apreendemos um daqueles.
— Oh! Droga! — ele reclamou — Justo hoje, que eu consegui folga.
O outro bruxo sentou-se no braço de uma das poltronas abarrotadas de algumas coisas que não pareciam tão perigosas.
— E então? Ouvi dizer que teve um auror transferido da América — comentou Arthur, voltando a mexer com algumas peças de mecânica — Você sabia que lá é proibido qualquer tipo de contato com os trouxas? Não podem ser amigos, casar, namorar... Nada!
— E como fazem com os nascidos trouxas? — perguntou Sirius, curioso, logo lembrando-se de Lily.
— Eles devem apagar a memória dos pais — o ruivo deu de ombros, parecendo frustrado por esse tipo de tratamento — E eles ainda transferem um auror de lá. Imagine os problemas que isso dará! Um bruxo que não tem o mínimo contato com os trouxas, francamente...
— Bem, ele parece ter caído nas graças do Scrimgeour. Se ele conseguir provar essa corrupção, e subir de cargo, prefiro Robards no cargo de auror chefe do que Proudfoot.
Arthur deu umas risadas ao escutar o nome do auror já tão mencionado nas conversas entre eles.
Aproveitando a distração do amigo, Sirius desdobrou e desamassou o pergaminho que Héstia lhe deu, dando uma rápida passada de olho nas informações.
— Então... É verdade o que eu escutei? — Arthur não deixou passar despercebido o pergaminho em suas mãos — Sobre a criança...
Sirius não guardou o pergaminho para ter onde pousar os próprios olhos, sem saber o que responder.
— Sabe que, o que precisar, nós estaremos aqui, não é? — Arthur colocou a mão no ombro dele.
Sem opções, ele apenas assentiu.
— Certo — disse o bruxo, não muito seguro, enquanto voltava a mexer em seus aparatos.
— Obrigado — disse Sirius, guardando a certidão nas vestes — Qual é o filho mais novo de vocês?
— Ginny, ela tem um ano — respondeu Arthur, sorrindo carinhosamente ao lembrar-se de sua única menina.
— E tem um garoto da idade do Harry, certo? Eu gostaria muito que ele e Vega fossem próximos da sua família. São ótimas pessoas!
Como toda vez em que dizia algo como aquilo, as orelhas do homem ficaram vermelhas.
— Então, o nome dela é Vega? — Arthur mudou de assunto rapidamente, claramente constrangido.
— O nome de uma estrela... — Sirius soltou uma risada debochada — Irônico, não é mesmo? Regulus adorou! Ele sempre foi encantado pelo triângulo de verão, dizia que chamaria o filho de Deneb ou Altair. Prefiro que seja Deneb...
A conversa empolgada foi interrompida quando a porta abriu-se novamente.
— Pai!
— Esses dois aí — Arthur apontou para as duas figuras minúsculas surgindo no recinto — Tem quatro anos, mas aprontam mais do que eu poderia sequer sonhar.
Sirius levantou uma sobrancelha, avaliando-os, e eles não sentiram-se nem um pouco intimidados.
— Que Molly não me escute, mas acho que vão ser como vocês — o bruxo continuou a falar.
— Deve ser por isso que ela não quer que apareçamos muito aqui — Sirius riu.
— Bem, eles não precisam de muita influência para deixar a casa de pernas para o ar. São iguais aos tios, está no sangue, só não vê quem não quer.
— Eu vou indo.
— Despeçam-se do tio Sirius, crianças.
Fred e George olharam-no de cima a baixo, antes de dizer:
— Tchau!
Sirius segurou uma risada, saindo do cômodo. Ele iria mostrar àqueles garotos quem ele era.
— Molly, eu vou indo! Muito obrigado! Fique bem — despediu-se rapidamente da mulher, que estava ocupada com os filhos.
Assim que pisou os pés na lareira, no entanto, ele olhou para a porta da cozinha, esperando que ela aparecesse, mas não foi o que aconteceu.
No lugar, um dos filhos do casal, Charlie, conversava com uma amiga, alheio ao fato de que a porta tinha desencostado. E essa amiga tinha cabelos de uma cor tão chamativa como ele jamais viu antes.
— Sirius! — Molly desceu as escadas, apressada — Espero que possa vir novamente em breve. Se precisar de qualquer coisa...
— Quem é aquela garota? — foi a única coisa que ele conseguiu perguntar, um nó enorme na garganta.
A ruiva não respondeu, apressando-se até a cozinha para fechar a porta.
— Sirius... — ela voltou a dizer.
Ele esqueceu-se rapidamente de que ia usar a lareira, saindo pela porta da frente.
Sentindo que era incapaz de aparatar, usou o mesmo feitiço daquela manhã, querendo sentir como a paisagem mudava, e o vento rápido e feroz em seu rosto. Sentia-se tão perdido quanto jamais pensou estar.
Não lembrou do seu trabalho, nem de mais nada. Não considerou ir para a casa de Lily, já que deveria explicações, e foi para o último lugar que esperava que iria. Pelo menos, um dos últimos.
A porta da casa abriu-se bruscamente, e Regulus levantou-se rapidamente, sacando a varinha, assustado. O feitiço não durou muito, e a fumaça branca condensou-se em Sirius, que tinha a certeza de que ela alcançou uma cor cinza, mas não. Ela definia a cor pela índole, e não pelo humor.
— Sirius! — Regulus fez um movimento de varinha, e a porta fechou-se — O que houve?
Sem conseguir aguentar, ele encolheu-se onde estava, e começou a chorar.
Regulus seria capaz de lidar com um Sirius furioso, mesmo que estivesse acostumado com um Sirius mais alegre e enérgico, mas aquele Sirius, destroçado e chorando, ele não sabia como agir.
Eram raros os momentos em que ele se deixava desabar.
A primeira vontade dele era correr para a lareira, pedir para que Marlene o analisasse, mas o problema não era físico, ele sabia bem disso. E, apesar de terem sido criados em uma casa fria e cheia de normas, ele queria mostrar que estava lá para ele assim como o irmão já provou estar sempre do seu lado.
— O que houve? — ele sussurrou, abraçando o irmão como pôde.
Quanto mais tempo se passava, mais ele ficava preocupado, já que o irmão não o respondia.
— Nymphadora — foi a única coisa que ele conseguiu falar, embora não muito compreensível.
Desde a morte de Andrômeda, Sirius e Regulus ignoraram completamente o fato de que ela deixou uma família para trás. Um marido e uma filha, que sofriam tanto quanto eles.
Não importava quanto tempo se passasse, Sirius sentia que nunca era a hora certa, e não esperava tê-la encontrado tão por acaso. Como o mundo dava voltas...
Estava ciente das horas passando, mas não conseguia importar-se com isso.
— Escute, eu tenho que sair, mas já volto — disse Regulus, depois de conseguir levar o irmão para o sofá, e acalmá-lo.
Sirius não estranhou. Apesar de não trabalhar oficialmente, ele tocava os negócios herdados pela família, os negócios que ele não quis cuidar, então era normal ter alguma reunião, embora não fossem tão frequentes. Podia ser a desculpa mais idiota, mas ele não conseguia se importar naquele momento.
Um daqueles raros momentos em que ele queria ser como o resto da família, não ter sentimentos, não importar-se nem um pouco com a morte das outras pessoas, ou fingir tão bem não importar-se, mesmo que isso o consumisse cada vez mais por dentro.
Dormiu sem perceber, mas acordou sentindo uma mão em seu rosto.
Remus não forçou explicações, nem fez nada mais do que chamar o seu nome, assim que o acordou, e ele agradeceu por isso. Agradeceu também por ter dormido, e não precisar ter sido visto em uma cena tão patética quanto a que protagonizou quando entrou em casa.
O que ele mais gostaria naquele momento era tomar um bom gole de FireWhisky, ou ser enfeitiçado com um feitiço da memória.
— Quer falar sobre o que aconteceu? — foi apenas o que Remus disse, depois de alguns instantes em silêncio — Desabafar ajuda.
Quando Andrômeda morreu, ele resolveu se afastar de todos, beber e não pensar no dia seguinte. Não tinha ideia de como que não tinha sido demitido naquela época, embora lembrasse bem da bronca que levou de Moody, que não tinha sido nada engraçada.
Ele não queria desabafar, não queria rever o que tinha acontecido naquela manhã, não queria pensar naquilo. Porque pensar podia significar admitir que Regulus e ele foram egoístas ao afastar-se da própria sobrinha, e que não eram tão diferentes quanto o restante da família. Eles não tinham afastado-se pelo sangue de Ted e Nymphadora, mas não fizeram esforço para aproximar-se deles, de manter um contato com a única coisa que ainda permanecia de Andrômeda, e pensar nisso doía.
Doía mais do que Sirius poderia imaginar na vida.
E só tinha uma maneira de acabar com aquela dor. Pelo menos, foi a única maneira que ele pôde pensar, naquele momento, perto dele.
Ele podia repetir todo o ciclo que aconteceu quase dois anos antes, mas ele preferiu fazer diferente. Contudo, daquela vez, ele fez algo que poderia estragar as coisas bem mais do que quando ele afastou-se.
Ele beijou-o.
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