A Auditoria do Infinito
2 Capítulo 2
CAPÍTULO 2
Immanuel deu alguns passos vacilantes até o trem, sua mente ainda tentando processar a sequência de eventos. A estação estava agitada, mas de uma forma impressionantemente calma — uma calmaria que parecia sugada de um filme de ficção científica dos anos 50, onde tudo parecia estar no lugar certo, mas ainda assim, algo estava absolutamente errado. Como se o universo, em algum lugar muito distante, estivesse tentando manter as aparências enquanto jogava um jogo de cartas cósmicas com ele.
O trem, quando chegou, parecia mais uma ilustração de um futuro que nunca havia sido desenhado. Ele era tão metálico e perfeito que Immanuel quase se perguntou se ele realmente existia ou era uma metáfora mal interpretada. Mas, como sua vida estava mais para um pesadelo administrativamente processado, ele entrou sem fazer mais perguntas.
Dentro do trem, o ambiente era uma mistura desconcertante de moderno e obsoleto, como se alguém tivesse decorado um vagão de trem com os restos de uma era que já não fazia sentido. As poltronas eram confortáveis demais para serem reais, e o ar tinha aquele cheiro que só pode ser descrito como "o futuro tentando não ser exótico demais". Immanuel se acomodou em uma delas, ainda segurando o diário. O que havia acontecido? Ele deveria estar tendo uma conversa com uma voz impessoal sobre culpa, e agora estava indo em direção a nenhum lugar, enquanto o trem deslizava silenciosamente sobre trilhos que não se preocupavam em fazer sentido.
O trem, como todas as coisas que funcionam com horários e trilhos, seguiu em frente com a indiferença de um burocrata intergaláctico. Immanuel, por outro lado, estava longe de ser indiferente. Ele havia passado as últimas horas oscilando entre a vigília e o devaneio, tentando decifrar o significado do diário, a figura fugidia do estranho e, principalmente, por que sua casa estava rabiscada naquelas páginas amareladas pelo tempo.
Talvez fosse tudo um delírio. Mas, como qualquer pessoa que já tentou ignorar um delírio sabe, eles têm o hábito irritante de se recusar a serem ignorados. E assim, Immanuel se viu desembarcando em uma estação que ele não tinha certeza se existia, em um destino que ele não tinha certeza se era real, em busca de respostas que ele não tinha certeza se queria encontrar.
O trem diminuiu a velocidade, e por um momento, Immanuel teve a nítida impressão de que os trilhos estavam se dissolvendo no ar, como se a realidade estivesse cansada de se esforçar para manter as coisas no lugar. Ele piscou, e tudo voltou ao normal — ou ao que passava por normal nessas circunstâncias.
A estação era, para dizer o mínimo, decepcionante. Immanuel esperava algo sombrio e misterioso, com névoa, placas tortas e talvez um vendedor de bilhetes que fosse, na verdade, um guardião cósmico disfarçado. Em vez disso, encontrou um lugar que parecia ter sido projetado por alguém que odiava tanto a arquitetura quanto a humanidade. As paredes estavam descascadas, o relógio analógico teimava em marcar 12h07 (há quanto tempo? ninguém sabia), e um atendente entediado mascava chiclete atrás de um balcão coberto de papéis amassados.
— Alguma coisa para você? — perguntou o atendente, sem erguer os olhos de uma revista que parecia ter sido publicada em uma década alternativa.
Immanuel hesitou. O que ele deveria pedir? Informações? Direções? Um motivo convincente para não voltar correndo para dentro do trem e fingir que nada daquilo estava acontecendo?
— Eu… bem, onde estamos? — arriscou.
O atendente bufou, como se essa fosse a pergunta mais idiota já feita na história do multiverso.
— Na Estação Intertemporal 33B. Ou, como prefiro chamar, no meio do nada. Tem passagem de volta, ou veio só pelo turismo?
Immanuel não sabia o que responder. Algo em sua mente gritava que ele não estava ali por acaso, mas também não fazia ideia do que deveria procurar. Isso definitivamente não estava nos planos de "acordar, tomar café e tentar entender a vida".
Foi então que a campainha tocou.
Agora, pessoas normais não costumam hesitar antes de atender uma porta. Mas pessoas normais também não costumam ser teleportadas de uma estação intertemporal para uma casa que elas venderam há oito anos.
O problema era que, até meio segundo antes, ele estava parado em frente ao balcão da estação, tentando decidir se perguntava por um mapa ou por um psiquiatra. Mas então aconteceu algo que desafiava qualquer lógica: o universo, como um assistente administrativo exausto, pareceu perder a paciência com a linearidade do tempo e decidiu simplesmente jogá-lo em outro lugar.
Não houve clarões, sons dramáticos ou uma sensação de vertigem. Um instante, ele estava lá. No seguinte, estava aqui. E “aqui” era um lugar estranhamente familiar. O tapete puído, a mesa com a mesma lasca que ele lembrava de quando tinha oito anos, o cheiro inconfundível de café frio e nostalgia. Ele conhecia essa casa.
A casa dos seus pais.
Mais uma vez.
Ele olhou ao redor, esperando encontrar alguma explicação racional para o que estava acontecendo. Infelizmente, não encontrou.
A campainha tocou de novo.
Immanuel aproximou-se com toda a cautela que uma pessoa poderia reunir sem parecer que estava prestes a enfrentar um monstro saído de um mito grego.
Ele abriu a porta.
Do outro lado, um homem vestindo um terninho desbotado e um chapéu que claramente já tivera dias melhores, olhava para ele com uma expressão de entediada obrigação burocrática. Era um daqueles rostos que pareciam geneticamente programados para serem esquecidos assim que saíssem do seu campo de visão.
— Senhor Breckford? — perguntou ele, consultando uma prancheta que parecia absurdamente anacrônica para a situação.
— Depende — respondeu Immanuel, instintivamente. — Se for sobre alguma dívida antiga, ele morreu tragicamente há alguns anos. Se for algo bom, sou eu mesmo.
O homem suspirou, como se já esperasse esse tipo de resposta. Ele puxou um pequeno envelope amassado do bolso interno do paletó e o entregou com um movimento que sugeria que ele também queria se livrar daquilo o mais rápido possível.
— Assine aqui, por favor. Protocolo.
Immanuel olhou para o envelope e depois para o homem. A palavra "protocolo" o deixou desconfortável. Coisas que envolvem protocolos geralmente também envolvem complicações que requerem advogados, um bom estoque de analgésicos ou, em casos extremos, um passaporte falso.
Ele pegou a prancheta, assinou com um rabisco indecifrável e, assim que fez isso, o homem sumiu.
Simplesmente sumiu.
Não houve uma piscada de luz, um efeito especial dramático ou sequer um som de estouro. Ele apenas deixou de estar ali, como se a realidade tivesse se dado conta de que ele era supérfluo ao enredo e decidisse excluí-lo sumariamente.
Immanuel piscou algumas vezes antes de finalmente olhar para o envelope. Não havia remetente, nem selo postal, nem nenhuma indicação de que tivesse sido entregue por meios convencionais. Ele o abriu com a expectativa amarga de quem já sabe que sua semana vai piorar exponencialmente.
Dentro, havia apenas um cartão com três palavras escritas em uma caligrafia meticulosamente elegante:
"BEM-VINDO AO DBI."
Immanuel revirou os olhos.
Claro. Porque sua vida não podia simplesmente seguir um curso normal. Porque, aparentemente, ele estava fadado a ser chantageado pelo universo com bilhetes misteriosos, diários que previam o passado e homens que evaporavam sem dar satisfações.
Ele suspirou e olhou para o teto, como se esperasse que alguma entidade cósmica lhe desse uma explicação. Nada aconteceu.
— Chacota barbada — murmurou.
E, como se o universo achasse que isso era um sinal de que ele estava pronto para a próxima fase, o chão desapareceu sob seus pés.
Immanuel sentiu aquela estranha e desconfortável sensação de queda que normalmente só acontece em sonhos ou quando você percebe que esqueceu de pagar um boleto importante. O chão, que antes parecia um elemento bastante confiável do ambiente, decidiu que não estava mais interessado em exercer sua função. A sensação de estar sendo transportado para outro lugar sem seu consentimento começava a se tornar ridiculamente corriqueira.
Quando caiu no vazio absoluto, sua primeira reação foi tentar gritar. Isso se revelou um erro técnico imediato, porque o vazio, por alguma razão burocraticamente determinada, não transmitia som. Ou talvez transmitisse, mas apenas para departamentos competentes e devidamente registrados. Como Immanuel não fazia parte de nenhum desses, seu desespero permaneceu protocolarmente silencioso.
Ele flutuava, rodopiando sem direção, enquanto luzes piscavam ao seu redor com a insistência irritante de um letreiro de cassino intergaláctico quebrado. Mas havia um padrão. Sempre havia um padrão, e o de agora era: um clarão, depois um escuro profundo, depois um lampejo rápido de um relógio que sempre marcava 12h07. Havia também um sutil cheiro de papel envelhecido e café requentado, que não faziam sentido no vácuo, mas ainda assim estavam ali.
Então, tudo parou.
Ele bateu contra algo sólido. A pancada foi desconfortável, mas não letal, o que ele considerou um progresso. Abriu os olhos, piscando contra a luz fluorescente fria que revelava um ambiente de escritório desprovido de qualquer traço de decoração ou entusiasmo. Havia mesas. Muitas mesas. Pilhas de papéis que formavam pequenas montanhas burocráticas. O ar cheirava a toner queimado e ar-condicionado que não passava por manutenção desde a criação do universo. O silêncio era tenso, interrompido apenas pelo tilintar distante de um grampeador sendo usado com um propósito possivelmente fatal.
Immanuel tentou se levantar, o que se revelou uma tarefa inglória, pois seu corpo parecia ligeiramente fora de sincronia com a realidade. Ele se sentiu como uma fotografia tremida. Não deveria ser possível, mas ali estava ele, simultaneamente em pé e ainda se equilibrando.
— Nome?
A voz cortou o ambiente como um veredicto. Ele olhou para a origem do som e encontrou um homem esguio, vestido com um terninho que parecia ter sido projetado para um evento formal em uma convenção de contadores interdimensionais. Seu rosto era anguloso, inexpressivo, e os olhos tinham aquela qualidade incômoda de não piscar com frequência suficiente.
Immanuel se encontrou em pé sobre um piso de mármore absurdamente bem encerado, diante de uma mesa de recepção onde a criatura de aparência vagamente humana mascava um chiclete de forma entediada.
Atrás dela, uma placa enorme brilhava em um tom burocraticamente neutro:
DEPARTAMENTO DE BUROCRACIA INTERDIMENSIONAL
"Mantendo o multiverso funcional, mesmo contra sua vontade."
— Depende — respondeu Immanuel, com a mesma estratégia defensiva de antes. — Se ser eu for um problema, então eu sou apenas um visitante casual.
O homem ergueu uma sobrancelha. Foi um movimento tão minimalista que Immanuel suspeitou que tivesse sido registrado como um desvio estatístico em algum banco de dados do DBI.
— Meu nome é Orsino-Beta. Eu sou um Oficial de Introdução. Seja bem-vindo ao Departamento de Burocracia Interdimensional.
Ele entregou um pequeno pedaço de papel a Immanuel. Este pegou o documento, apenas para perceber que estava escrito: "Confirmação de Entrada no DBI — Nível 0. Favor assinar."
— O que acontece se eu assinar?
— O senhor oficializa sua chegada e reconhece que está ciente das diretrizes do DBI.
— E se eu não assinar?
Orsino-Beta deu um sorriso tão breve quanto a expectativa de vida de uma partícula em um colisor de hádrons.
— Então o senhor não está oficialmente aqui. E, se não está aqui, pode ser considerado um erro administrativo. O DBI tem protocolos para lidar com erros administrativos.
O tom de sua voz indicava que esses protocolos envolviam pouca empatia e muito desaparecimento existencial involuntário. Immanuel pegou a caneta e rabiscou um nome tão indecifrável que mesmo um software de reconhecimento interdimensional teria dificuldades em decifrar.
— Excelente — disse Orsino-Beta, recolhendo o documento com um gesto ensaiado. Ele o pegou, analisou, olhou para Immanuel, depois guardou em uma pasta tão fina que, logicamente, não poderia conter nada.
O recepcionista digitou algo em um teclado invisível e fez uma careta.
— Ah. Você. — Ele ergueu os olhos e olhou para ele como se estivesse observando uma pessoa que insistia em comprar passagem errada para o metrô. — Nossa equipe já está esperando por você no Setor de Ajuste Ontológico.
— Isso não soa nem um pouco reconfortante — murmurou Immanuel.
— Não deveria — disse ele, enquanto lhe entregava um crachá com seu nome e um código de barras que piscava de maneira inquietante. — O senhor deve aguardar na Sala de Avaliação Primária, logo será requisitado.
Ele apontou para uma porta. Ela não estava ali antes.
Immanuel olhou para a porta, depois para Orsino-Beta.
— O que acontece na Sala de Avaliação Primária?
— O senhor será classificado.
— Classificado como o quê?
— Isso dependerá dos seus méritos, falhas e do nível de impacto existencial da sua anomalia.
Immanuel cruzou os braços.
— Anomalia? E se eu recusar?
Orsino-Beta abriu um pequeno caderno de notas e folheou até encontrar uma página.
— O senhor será arquivado na Seção de Existências Provisórias e possivelmente redistribuído como um elemento conceitual em uma nova realidade.
— É tipo reencarnação?
— Apenas se o senhor tiver sorte.
Immanuel suspirou. Ele já havia aprendido que, quando o universo lhe oferecia opções, nenhuma delas era realmente boa. Olhou para a porta, que agora parecia sussurrar baixinho, como se estivesse ansiosa para ser atravessada. Fechou os olhos por um segundo, reuniu o que restava de sua sanidade mental, e empurrou a porta.
Atrás dela, o universo estava esperando.
Fale com o autor