A Assassina e o Alquimista

30 Quando os extremos se encontram


Notas iniciais
Olá para todos! Voltei no dia prometido mas não vou mentir que não foi um sufoco. Não tive muito tempo para pensar nem para revisar esse capítulo. Desculpem qualquer coisa. A próxima atualização deve sair dia 14/10 (próxima sexta).

O magnânimo desfile do Exército Real pelas principais ruas da capital, nas primeiras horas da manhã, abriu o Festival Anual da Colheita de Xing. O Rei Ling veio em uma carruagem aberta ao lado de Mustang e de Najenda. Logo atrás, vinha o primeiro regimento de infantaria do exército com seus pomposos trajes cerimoniais. Mas, o que mais deixou os súditos de queixo caído foi ver, em meio aos soldados xingueses, uma divisão com quase vinte mil soldados amestrinos marchando ao som de uma versão estendida da “Marcha Militar de Amestris”, seguindo uma orgulhosa generala Armstrong em trajes de gala sobre um belo cavalo. E, além disso, os soldados do exército do Império vieram fechando o cortejo.

Até mesmo, Edward, Alphonse e Winry desfilaram em uma ala reservada aos médicos. A única coisa que os diferenciava dos outros soldados era a braçadeira branca com o desenho de uma cruz vermelha.

— Presta atenção no caminho – Edward sibilou para Alphonse que olhava o tempo todo por cima dos ombros. Edward sabia que o seu irmão estava acenando para Akame, ao lado de Wave, na ala da infantaria.

— Você ainda está chateado com o que aconteceu? – Alphonse perguntou.

— Me admira é você não estar chateado com uma louca que tentou matar seu irmão na sua frente – Edward bufou, sem olhar para Alphonse.

— Ela não estava tentando te matar, Ed. Ela teria te matado, SE ela quisesse. E Akame admitiu que exagerou – Alphonse respondeu – Ela pediu desculpas para Winry pelo ocorrido. E ela disse que quer falar com você.

— Eu não quero falar com ela – Edward resmungou – Vai que dessa vez ela consegue me matar.

— Eu retiro o que eu disse sobre vocês serem parecidos – Alphonse parecia estar um pouco aborrecido – Ao menos, Akame reconhece seus erros – e apressou o passo, deixando Edward para trás.

O restante do dia foi marcado de comemoração e muita comida, apesar de que os xingueses ficaram meio desconfiados dos amestrinos. O desfile das tropas amestrinas soou mais como provocação e tentativa de intimidação para algumas pessoas do que como uma simples homenagem. Levando em conta o histórico dos amestrinos, eles até tinham razão de ficarem um pouco receosos. E, ainda por cima, eles eram aliados do governo do Império, que também não era nenhum exemplo de paz e diplomacia. Para quem era de fora, os naturais do Império (os xingueses os chamavam de nihonjin ou alguma coisa parecida) e os habitantes de Xing aparentavam ter as mesmas características físicas, mas vá dizer isso para qualquer um deles! Era bem capaz de provocar uma briga porque ambos iriam alegar que os xingueses tinham o rosto menos redondo, a pele mais amarelada, olhos menores e mais uma lista de detalhes que só poderiam ser visíveis com o auxílio de uma lupa.

Asami estava entre os que continuavam meio hesitantes com os estrangeiros. Ela não estava mentindo sobre ajudar Ling na união das tribos do país, mas não concordava com essa confiança excessiva que o meio-irmão destinava aos “demônios loiros”. E ainda mais agora com os outros estranhos de olhos grandes e armas ameaçadoras que surgiram sabe-se lá de onde.

Ela tentava não pensar sobre todos esses problemas enquanto caminhava para o estádio principal da cidade na companhia de seus conselheiros. Eles discutiam algo que ela não estava prestando a mínima atenção. Olhava, distraída, para o povo dirigindo-se ao estádio e comentando, empolgados, sobre o jogo de mais tarde contra o Alquimista de Aço. Nada fora do comum, até Asami ver alguém passando entre a multidão. Ela imediatamente sentiu algo estranho. Por um momento, pensou ser alguém que ela conhecia bem, mas era uma completa loucura. Ele não era doido o suficiente para aparecer aqui, não é? E o que ele faria aqui?

— Senhorita Asami? – um dos conselheiros chamou – Está tudo bem?

— Sim. Está – ela se recompôs rápido – Não foi nada.

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Edward não estava acreditando nisso. Na verdade, ele já sabia disso há muito tempo, porém fingia não saber. Mas, a verdade estava sendo esfregada na sua cara naquele exato momento. Alphonse era bem mais alto do que ele! Se existe justiça nesse mundo, como pode seu irmão caçula ficar mais alto do que você?

Agora que eles estavam vestindo a roupa e os equipamentos de proteção necessários para o jogo de logo mais, ele percebeu que a camisa do irmão era muito grande. Quando perguntaram o número que eles vestiam, Edward disse que ele e Alphonse vestiam “mais ou menos o mesmo número”. E isso era uma completa mentira. Alphonse era tão alto quanto o Havoc e só perdia em altura para o major Armstrong. Ele parecia ter crescido alguns centímetros no período em que esteve viajando. Já Edward...

E quanto equipamento de proteção era aquele? Nem quando eles estavam na guerra, eles usaram tanta proteção. Eles tiveram de colocar protetor para os dentes, capacete (provavelmente feito de couro), uma espécie de colete com partes amaciadas cobrindo os ombros e o torso e sapatos especiais. Edward desconfiava dessa história de que seria apenas um jogo leve e amigável. Já estava imaginando ser tirado do campo em uma maca.

Alphonse parecia bastante tranquilo (Claro, ele ainda pode usar Alquimia!) e dispensou as luvas de proteção. Geralmente, os outros jogadores desenhavam seus círculos de transmutação nas luvas para agilizar seus movimentos, mas Alphonse não precisava disso. As pessoas sempre ficavam curiosas sobre ele conseguir fazer transmutações sem círculos, no entanto Alphonse apenas dava um sorriso e mudava de assunto. Era realmente uma história muito longa.

— Boa sorte, Edward – Havoc fez um sinal de positivo quando eles estavam entrando no vestiário Ele, Fuery e Breda estavam do outro lado de uma pequena cerca que os separava de um grupo de espectadores – Estamos apostando em você.

— Eu sabia que vocês não iriam deixar de aproveitar isso para fazer apostas – Edward respondeu de mau humor.

— Na verdade, nós apostamos que você vai tomar um cacete e sair contundido ainda no primeiro tempo – Fuery se pendurou na grade para falar com ele – Ô, Edward! É verdade que a subtenente te nocauteou com apenas dois dedos? – os outros espectadores ao redor deles começaram a rir e apontar para Edward – Foi o Wave quem falou – e se apressou a dizer quando viu a expressão assassina do ex-alquimista.

— Eu não posso perder – Edward gritou para a plateia que entoava o coro “Vai perder” apenas para vê-lo irritado – Eu sou o protagonista dessa história!!

— Todo mundo é protagonista de sua própria história, Edward – Breda filosofou.

Edward preferiu nem responder. Estava cansado de ouvir todo mundo falando que ele iria apanhar mais que tapete velho em dia de faxina. Ele apenas seguiu os outros e entrou no campo do grande estádio debaixo de vivas. Realmente, o lugar estava lotado e grandes holofotes posicionados na entrada iluminavam a noite. O céu estava sem estrelas e Edward teve a impressão de ter ouvido o barulho distante de um trovão.

“Bem-vindos amantes do nobre esporte de Xing”, a voz do locutor da partida ecoou pelo ar “E é uma noite especial. Hoje, teremos o confronto mais aguardado de todos! Será que os Dragões de Zaofu irão confirmar o favoritismo e fazer uma sopa dos visitantes ou teremos uma surpresa para essa noite? Sem mais delongas, vamos dar uma salva de palmas para ele, que dispensa apresentações, o único, o incomparável, o grande Kalik, o capitão dos Dragões de Zaofu!!

Fogos de artifício cintilaram no céu ao final das palavras do locutor. O público explodiu em aplausos e assobios quando um rapaz baixinho de cabelos pretos correu para o meio do campo com um facho de luz sobre sua cabeça. Edward não pôde deixar de reparar como o tal do Kalik tinha uma pose arrogante e um olhar inexpressivo. Ele parou ao lado de uma mulher de cabelos curtos, provavelmente a juíza da partida.

“E ela que já recebeu o apelido de Anjo da Morte” o locutor prosseguiu “a temida Malak”.

Uma garota de cabelos ruivos e sorriso gentil apareceu acenando para a público. Seria possível que o locutor estava sendo irônico? Aquela garota parecia ser bem tranquila.

“Nossa grande destruidora de defesas, Ada” e uma menina miúda surgiu, sorrindo largamente para o público. Edward não dava mais do que doze anos para aquela guria.

“Nossa pequena grande atacante, Zahra”, outra menina ainda menor juntou-se a eles, sorrindo e mandando beijos para os fãs. Será possível que só tinha baixinhos naquele time? Edward não conseguia decidir entre Ada e Zahra quem era a mais baixa.

“O gigante das quadras, Gorka”. Edward rapidamente mudou de ideia. Gorka era uma montanha de músculos, alto, careca e de pele escura. Mas, apesar da aparência intimidadora, aparentava ser o mais querido do time. O público fez mais barulho ainda quando ele acenou e exibiu um sorriso simpático e brincalhão.

“O jogador mais estiloso de todos, Gin”. Aquele sujeito obviamente não era de Xing. Gin entrou displicentemente no campo com as mãos no bolso e jogando levemente seus cabelos louros para trás em um movimento claramente ensaiado. Edward abafou o riso porque imaginou Gin usando uma tigela para fazer seu corte de cabelo.

“E, agora, os desafiantes”, o locutor prosseguiu “Vindo da República de Amestris, o famigerado, extraordinário e inoxidável, Edward Elric, o FULLMETAL ALCHEMIST!!”.

Edward caminhou até o lado oposto ao campo dos adversários debaixo de muitos aplausos e assobios. Até ele se espantou com a recepção e resolveu acenar brevemente para a plateia.

“E junto com ele, seu irmão mais novo, Alphonse Elric”. Alphonse correu e parou ao lado de Edward, sendo também muito aplaudido. “E também não podemos esquecer do Alquimista dos Braços Poderosos...”

O major Armstrong nem esperou sua apresentação terminar e entrou no campo se exibindo, todo vaidoso, com seus músculos avantajados à mostra. Acabou ganhando um olhar de repreensão da juíza enquanto ela lhe dava um sermão sobre a importância de permanecer com a camisa do uniforme e o colete de proteção.

O locutor apresentou também May, Lan Fan e o sargento Horn com bastante entusiasmo. Por motivos óbvios, ele jogou muito mais confete na apresentação de May.

— Capitães ao centro do campo – a juíza indicou e Edward e Kalik apertaram as mãos. O capitão do time dos Dragões de Zaofu continuava com a fisionomia apática. Edward cogitou a possibilidade de ele e Akame serem parentes. Depois dos cumprimentos, a juíza ordenou que todos os jogadores colocassem seus capacetes.

Edward ganhou o direito de começar com a posse de bola no cara ou coroa. Segundo as regras meio estranhas do Brek, ele deveria começar a partida com um chute para frente. Como o time só era autorizado a invadir a área adversária depois do apito inicial, é claro que nenhum dos seus parceiros conseguiria chegar até a bola antes de ela quicar no chão. E, além disso, era proibido conduzir a bola com Alquimia. Ao ouvir o som do apito da juíza, Edward deu um exagerado chute para cima e, em seguida, foi imediatamente atingido por um objeto voador não identificado que o fez voar alguns centímetros para o alto e colidir violentamente contra o chão.

“Parece que Malak resolveu começar cumprimentando o grande Alquimista de Aço”.

— Isso foi falta – Lan Fan se queixou – Ele nem estava com a bola quando ela o atingiu.

Edward precisou da ajuda de Alphonse para conseguir levantar. Ele respirava com dificuldade porque havia batido as costas com todas as forças contra o gramado. Malak exibia um sorriso psicótico para ele, abandonando totalmente a aura de garota inocente.

— Que espécie de magia é essa? – Najenda debruçou-se sobre o parapeito para olhar melhor. Ela estava no camarote do rei, na companhia de Ling, Mustang, Olivier Armstrong e Riza Hawkeye.

— Essa é a Alquimia deles – Akame cochichou no ouvido da chefa. Najenda também levara Run e Wave como convidados.

— Interessante – Najenda observava os movimentos dos jogadores, bastante concentrada – Não sabia que era possível fazer isso com Alquimia.

A Alquimia do Império era totalmente voltada à construção das chamadas “ferramentas inteligentes”. Porém, além do conhecimento ser fortemente controlada pelo governo, até pouco tempo atrás, os alquimistas do país apenas se dedicavam a produção de armamentos ou qualquer arsenal de suporte bélico. Certo dia, algum preguiçoso qualquer teve a brilhante ideia de usar a Alquimia para produzir ferramentas que fizessem o trabalho repetitivo e monótono de calcular e armazenar informações e o uso das ferramentas inteligentes acabou se estendendo a quase todo tipo de atividade do dia-a-dia. Infelizmente, esse tipo de tecnologia não chegava a todos e apenas o governo conhecia as possibilidades oferecidas pela Alquimia.

“Arremesso lateral para os visitantes. Alphonse Elric vai cobrar”.

Alphonse jogou a bola na direção do major que, por algum motivo estranho, estava novamente sem a parte de cima do uniforme e o colete de proteção. No entanto, Kalik fez o chão “crescer” sob seus pés e, por isso, suas mãos conseguiram ir mais alto do que as mãos do major. Kalik rapidamente passou a bola para Gin que iniciou uma corrida desabalada para o lado adversário.

“Gin é bloqueado brilhantemente por May Chang” o locutor derrama-se em elogios “Que talento tem a princesa de Xing, senhores. O rei Ling deve estar muito orgulhoso pela irmã”.

O locutor exagerou no puxa-saquismo e quase perdeu o lance em que, para fugir do ataque rasteiro de Zahra, May deu uma cambalhota no ar e a bola escapou de suas mãos, acertando acidentalmente Edward.

“O Alquimista de Aço faz uma grande pegada com o rosto”, o locutor apressa-se em continuar com a narração, “a bola ricocheteia e volta para as mãos de Lan Fan. Ela desvia de um, não, de dois ataques de Ada. Essa menina é muito rápida, senhores. Ela passa a bola para Horn. Ele desvi... não! É atingido na barriga por uma verdadeira bala de canhão desferida pela Ada. Essa doeu até em mim. A bola cai. Quem vai pegar? Kalik chega para... não! Alphonse Elric foi mais esperto e fez uma barreira em volta da bola. Não deu para frear e Kalik bateu com tudo na barreira. Ele está bem, gente. Só está um pouco achatado. Alphonse Elric recupera a bola. Ele passa para o Fullmetal que está avançando como um louco na área adversária. Mas, para a infelicidade dele, quem está na defesa é o Gorka. Espero que o Fullmetal tenha uma escada”.

Edward se aproximou rapidamente da zaga e viu o grandalhão Gorka se posicionando para impedir sua passagem. No entanto, antes mesmo que pudesse alcançar o outro lado, sentiu o chão se deformando embaixo dos seus pés e ele tropeçou, chocando-se no abdômen de Gorka. O problema é que se esbarrar com Gorka era quase o mesmo que bater de frente com um muro.

“Malak retardou o avanço de Edward Elric e ele bate no Gorka”, o locutor parecia bastante agitado “O Gorka está bem. Não precisam se preocupar”.

Gorka não havia sofrido nada. Quem estava precisando de ajuda era Edward. Ele fez um esforço para se levantar e viu Malak passar como quem não quer nada, expondo um sorrisinho sarcástico e doentio.

— Ed! – sentada ao lado de Breda e Falman, Winry parecia ser a única pessoa realmente preocupada com o estado do ex-alquimista – Assim você vai acabar quebrando seu automail!

— Parece que o carcereiro de gaiola não aguenta o tranco – Ada disse alto o suficiente para Edward ouvi-la.

— QUEM VOCÊ ESTÁ CHAMANDO DE ANÃOZINHO TÃO PEQUENININHO QUE SÓ DÁ PARA VER COM UMA LUPA?! – Edward levantou em um rompante.

— Eu não falei isso – Ada se divertiu com a explosão de Edward – Mas gostei da sugestão.

— Por que está tão irritado, carocinho de feijão? – Zahra fez uma falsa voz irritante – Só por que ninguém consegue te ver e acabam esbarrando em você?

— VOCÊS DUAS TAMBÉM SÃO BAIXINHAS – a tentativa de Edward de sair por cima não rende resultado, principalmente porque ele acabou de confirmar a afirmação das duas meninas e, no momento, elas riam abertamente da careta que ele fez.

— Não ligue para elas, Edward – o major Armstrong tenta aconselhá-lo – Elas estão apenas tentando te tirar do sério.

Elas não estavam tentando. Elas conseguiram.

A juíza marca uma falta a favor dos Dragões quando Horn passa a bola para Lan Fan que estava mais na frente. Aparentemente, não é permitido passar a bola para frente com as mãos, apenas com os pés. Com as mãos, só é possível passar a bola para o lado ou para trás. Horn se esquecera dessa regra ou então estava tentando enganar a juíza.

Zahra foi autorizada a dar um chute para frente e Kalik pegou a bola no ar no meio de uma corrida. Ele desviou-se com agilidade de um ataque de Horn e passou a bola para Gorka, posicionado no meio do campo. Gorka nem conseguiu dar um passo porque foi atingido por uma voadora dupla desferida por Edward e Alphonse.

“Ataque combinado dos irmãos Elric”, o locutor estava quase tendo um ataque e a torcida uivava nas arquibancadas, “Espera um pouco. Isso é permitido? Enfim, a juíza não marcou falta e a bola sobra para a princesinha May Chang. Olhem a graciosidade dela enquanto avança e... Opa! Uma rasteira sutil do Gin na May Chang e ele recupera a bola. Mas o que é isso?”.

Horn faz um movimento rápido com os braços e atira um líquido na direção de Gin. Na verdade, o sargento “puxou” a água presente no ar e concentrou na palma da mão para poder acertar um jato no oponente.

— Quente! Quente! – Gin agitou os braços e correu para fugir do ataque, deixando a bola cair.

Alphonse aproveita a situação e desliza pelo chão para agarrar a bola. Ele pega a bola e sai correndo, sendo seguido de perto por Ada. Alphonse não conseguiu desviar de uma rajada lançada por Ada, mas teve tempo de passar a bola para Lan Fan, antes de cair rodopiando para fora do campo.

“Depois de Horn esquentar água para o chá do Gin”, a voz do locutor se ouvia por cima das cabeças “a bola volta para a posse dos visitantes com Lan Fan. Ela está indo bem e... não! Realmente é muito difícil passar pela Zahra. Zahra passa para Gorka, mas ele é bloqueado por uma chuva de pedras... não! O que é isso? É uma chuva de mini-esculturas do busto do major Armstrong? Eu nunca vi nada igual”.

A bola quica várias vezes no chão e Edward se apressa para pegá-la. Não deu nem cinco passos com a bola e foi atingido violentamente por uma das transmutações de Malak. A pancada foi tão forte que Edward voou para fora do campo.

— Adivinha quem está marcando você? – ela cantarolou, sádica. Edward tinha certeza que ela claramente estava tentando matá-lo.

“Edward Elric levou um banho”, a voz do locutor ecoou pelo estádio, “parece que ele está meio confuso e com aquela cara de quem nem sabe de onde vem tanta porrada”.

E ele também não estava gostando nem um pouco daquela narração.

Como a bola saiu pela linha lateral, ela só poderia ser colocada de volta ao jogo com um arremesso de fora do campo. Poderia parecer meio injusto, mas Edward havia caído para fora do campo com a bola nas mãos. Então, a posse de bola passou para o time adversário.

“Malak cobra o arremesso lateral e joga a bola para Gin. Será que ele vai conseguir passar... Esperem! O Kalik vai tentar mesmo o Jingtou?!!

Jingtou era uma jogada em que o time com a posse de bola poderia executar um chute no meio do campo para tentar acertar as traves do time adversário. Se fizesse a bola passar por cima das traves, Kalik ganharia quatro pontos para seu time. Levar a bola até depois da linha de fundo do campo adversário era uma jogada que se chamava Jiao e valia seis pontos, porém era muito difícil desviar de todos os jogadores para chegar lá e, por isso, quase todos os pontos eram feitos com um jingtou ou com um tiro livre após uma falta.

Rapidamente, Gin posicionou a bola no chão e Kalik correu para realizar um belo chute. A bola voou alto e aterrissou no campo rival.

“E ELE MARCA!!”, o locutor berrava como um louco por cima da gritaria feita pelo público, “Jogada espetacular do Kalik! Só podia ser ele mesmo!!”

Kalik não mudou de expressão e manteve sua postura arrogante e indiferente, sem se deixar contaminar pela euforia dos torcedores. Aliás, ele não mudou de expressão em nenhum momento do jogo. Edward tinha quase certeza do parentesco de Kalik com Akame. Passado o breve momento de comemoração, a juíza apitou para sinalizar o reinício da partida.

“Uma vitória esperada do time da casa ainda no primeiro tempo. Temos mais três tempos, mas é quase certo que o resultado final será decidido nesses primeiros minutos”.

Edward olhou para o placar um pouco preocupado. Não fazia ideia de como conseguiriam fazer algum ponto antes do final do primeiro tempo. Ainda mais com as regras daquele jogo maluco. Ele tinha quase certeza que a juíza acabara de inventar algumas daquelas regras.

— É sua, Ed – Edward nem teve tempo de reconhecer a voz de Alphonse e apenas fez um gesto instintivo para agarrar um objeto que voava na direção do seu rosto.

Edward nem bem pegara a bola e Malak virou-se para ele com um sorriso assassino. O ex-alquimista engoliu em seco. Ele conhecia aquele olhar. Ela estava planejando sua morte. Sua lenta e dolorosa morte. Malak começou a correr na direção dele com essa intenção. Não havia dúvidas nisso e ele precisava fugir imediatamente dali. Dane-se o jogo.

— Major Armstrong – em uma extremidade distante do campo, May colocou as mãos em concha ao redor da boca para que o major pudesse ouvi-la bem – Lembre-se daquilo que eu falei.

— Edward Elric – Edward se assustou com a presença do major ao lado dele. Na verdade, Edward ficou tão concentrado em Malak, que estava naquele exato momento ainda correndo enlouquecida, e nem percebeu quando o major chegou perto – é hora de esticar a canela.

— Esticar o quê...? – Edward nem teve tempo de terminar a frase porque o major o segurou pela gola da camisa e pelo colete de proteção e o ergueu por cima da cabeça – Endoidou, major?!! Me põe no chã... ASSIM, NÃO!!

Tarde demais. Dando um impulso, o major Armstrong jogou Edward longe e o rapaz quicou no chão umas três vezes antes de cair embolado do outro lado do campo.

“MAS QUE JOGADA FOI ESSA?!!”, o locutor berrava, “o major Armstrong lança Edward Elric e ele atravessa o campo com a bola, alcançando a área adversária. É o Jiao mais louco que eu já vi! Calma, gente”, ele tentava aquietar a agitação do público, “A juíza ainda irá dizer se esse ponto valeu ou não valeu. Caso seja validado, os visitantes irão contar seis pontos e assumir a liderança...”

Debaixo da gritaria e dos assobios, a juíza chamou seus três auxiliares da arbitragem e eles ficaram uns bons minutos discutindo sobre a legalidade do passe no meio do campo. Era proibido jogar a bola para frente com as mãos, no entanto o major Armstrong não havia jogado a bola, e sim, Edward que, por um acaso, estava carregando a bola. As regras não previam a situação em que um jogador arremessava um de seus colegas para alcançar a área adversária carregando a bola. Depois de minutos tensos de discussão, a juíza aponta para o lado dos amestrinos, convertendo os seis pontos a favor dos estrangeiros.

“Que virada fantástica!! Os visitantes assumem a liderança. Esses amestrinos não estão só comandando o placar como também estão comandando os nossos corações...”

— Eles parecem que estão adorando o jogo, Ling – Mustang sorriu para o rei – Realmente, foi uma grande ideia.

— Eu sou um homem de visão – Ling acenou para seu mordomo – E sei como agradar o povo.

— Essa Alquimia de vocês é muito diferente da Alquimia estudada em meu país – Najenda olhou de Mustang para Ling – Poderíamos fazer um intercâmbio entre pesquisadores de Alquimia e... CUIDADO!!

Najenda teve uma reação rápida e usou seu braço mecânico para barrar o ataque violento do mordomo contra Ling. O homem tentara esfaquear o rei de Xing com uma adaga.

Por causa da agitação, todos levantaram imediatamente e sacaram suas armas. Wave era quem estava mais próximo de Ling e Najenda e conseguiu desarmar o mordomo com a ajuda dos dois. Porém, nem bem tiveram tempo de entender o que estava acontecendo, a entrada do camarote real foi aberta a pontapés e um grupo com mais ou menos dez homens encapuzados e armados invadiram o lugar.

— Matem todos – disse o homem à frente do bando.

A segurança nem percebeu o que estava ocorrendo no camarote porque nesse exato instante um bando ainda maior de homens encapuzados acabara de ocupar o centro do campo do estádio, interrompendo a partida e deixando a plateia confusa e agitada.

— Senhoras e senhores – um estranho encapuzado e mascarado tomou o microfone das mãos do mestre de cerimônias depois de ter o nocauteado – interrompemos nossa programação normal para um anúncio importante. Hoje é o dia que marca o breve fim da dinastia Yao do trono de Xing e o início de uma nova era. Hoje será um dia que irá redefinir todo o futuro de Xing!

Notas finais
Logo no início do capítulo, é citada a "Marcha Militar de Amestris" (Amestris Military March) da trilha sonora do FMAB. Aliás, a trilha do anime é muito boa e eu gosto, principalmente, do "Fullmetal Alchemist - Main Theme", "Lapis Philosophorum", "To be king", "Trisha's Lullaby" e "Brothers". P. S.1: se eu não me engano, "nihonjin" quer dizer japonês em japonês (dãããã). Desconfio que o Império seja uma versão do Japão em um universo alternativo, principalmente porque o Japão também é chamado de "Império do Sol" ou “Grande Império Japonês”. P. S.2: em chinês, "jingtou" e "jiāo" querem dizer "tiro" e "atravessar", respectivamente. Antes que perguntem, não sei chinês e nem japonês.