A Assassina e o Alquimista
5 O grande exército de Amestris
Notas iniciais
Alphonse encontrava-se dentro de uma sala fechada na companhia de três figuras vestidas com uniformes militares azuis. O jovem Elric ainda estava sujo de sangue seco em suas roupas e parecia bastante abatido.
— Então – Mustang falou, sentado em uma mesa de frente para Alphonse – quando soube que você estava aqui, vim correndo. O que foi mesmo que aconteceu?
— Eu já disse – Alphonse fez um gesto, olhando para o chão – um homem estava batendo em uma mulher. O vendedor da barraca de doces disse que ele iria matá-la, então resolvi intervir.
— Sim – Mustang pega um papel sobre a mesa e começa a ler – um dos policiais disse que aquele homem costumava se meter em encrencas. Uma longa ficha policial com acusações de agressão, lesão corporal e destruição de patrimônio público.
— Eu o derrubei uma vez e achei que estava desacordado – Alphonse continuou – Me distraí com a vítima e ele me prendeu em uma gravata. Quando ele estava quase me estrangulando, Akame apareceu e me salvou.
— Aquela garota é a sua namorada, Alphonse? – Havoc estava encostado próximo à porta, com os braços cruzados e um pé apoiado na parede – Aí, garoto. Você é igual a mim. Também gosta de peitões, heim? – e dá uma piscadela de cumplicidade.
O comentário de Havoc quase faz Alphonse cair da cadeira.
— Na-namorada – ele gagueja com o rosto completamente vermelho. Um tomate perderia para ele – Ela não é minha namorada.
— Tenente Havoc – Mustang chama com uma nota de irritação na voz – Que diabos você ainda está fazendo aqui?
— Eu também conheço o Alphonse e vim ajudar – Havoc puxa uma cadeira e senta ao contrário, com o encosto da cadeira entre as pernas – Se ela ainda não é sua namorada, eu posso te dar umas dicas. Compre flores. Flores sempre funcionam com mulheres.
— Menos com a capitã Hawkeye – Mustang acrescenta – Uma vez, eu bebi demais e comprei uma porção de flores. Ofereci para ela e ela não quis nenhuma.
— Mas a capitã Hawkeye é um caso especial – Havoc completou.
— Vocês dois estão constrangendo a testemunha – Riza Hawkeye estava parada ao lado da porta e se encontrava calada até o momento.
— Tem razão, capitã – Mustang ajeita o uniforme – Um homem foi morto. E precisamos cuidar disso primeiro.
— Mas, pelo que o Alphonse falou – Havoc diz – foi legítima defesa.
— Mesmo assim – Mustang o interrompe – precisa ser investigado – Mustang vira-se para Alphonse – Não se preocupe. Provavelmente, não vai dar em nada.
— Eu posso ver a Akame-chan? – Alphonse perguntou – Ela deve estar assustada com tudo isso.
— Leve umas flores – Havoc falou – Não se esqueça das flores.
Alguém bate na porta e, logo em seguida, a cabeça de um soldado surge atrás dela.
— Com licença, general – ele faz uma reverência para Mustang – Um baixinho irritado aqui disse que o conhece e precisa falar com o senhor.
— Deve ser o do Aço – Mustang diz, alegremente – Deixe-o entrar.
Edward entra na sala com uma expressão séria e se espanta ao ver o Alphonse sentado em uma cadeira e todo sujo de sangue.
— Pediram para me chamar com urgência – Edward começou – Achei que tivesse acontecido alguma coisa com você, Al – ele se aproxima do irmão e o observa atentamente – Por que está todo sujo de sangue? ELA te fez alguma coisa?
— Ela não fez nada comigo – Alphonse respondeu, sabendo muito bem a quem Edward se referia – Muito pelo contrário. Ela me salvou, Ed.
— Como assim ela te salvou? – Edward se exaltou.
— Ó do Aço – Mustang o chamou – Relaxa e senta para ouvir a história do seu irmão – ele dá um tapa no braço de Havoc e faz sinal para que ele desocupe a cadeira – Você não vai crescer mais mesmo – e aproveitou para tirar sarro de Edward.
Edward não ligou para a provocação dessa vez porque estava muito interessado em saber o que havia acontecido com o seu irmão. Alphonse contou sobre o passeio que fazia com Akame, o encontro com o homem que agredia a mulher na rua até ele resolver intervir, a briga e o corte fatal de Akame nas costas do homem.
— Ela só fez isso para me defender, Ed – Alphonse terminou sua história – Ela não teve culpa.
— Você precisa reconhecer, Al – Edward abanava a cabeça – Essa garota é uma ameaça. Ela chegou a atacar o major Armstrong. Poderia ter acontecido uma tragédia naquele dia.
— Não me diga que – Havoc apontou para os dois – essa é aquela garota que derrubou o major Armstrong?! Nossa! Ela ficou famosa aqui no exército.
— Tenente Havoc, por favor – Mustang diz com um pouco de irritação.
— Mas é verdade – Havoc continuou – Dizem que a espada dela é amaldiçoada e que foi forjada pelo próprio demo nas fornalhas do fogo do inferno.
— Havoc – Mustang aumentou um pouco mais a voz – você não está ajudando.
— Quero saber se posso ver se ela está bem – Alphonse pediu à Mustang.
— Ela está sendo interrogada – Mustang cruza os braços – Pedi para que me avisassem quando terminassem de colher o depoimento. Depois disso, poderá ir comigo para vê-la.
— Enquanto isso – Havoc apoiou as mãos na mesa – Nós podemos continuar com as dicas para conquistar mulheres, heim? – e soltou outra piscadela para Alphonse.
— Havoc – Mustang falou, entediado – Você está passando dos limites.
— General – Havoc dirigiu-se à Mustang – Eu conheço esse menino desde que ele era uma armadura inocente com alma de criança. Acompanhei cada momento em que suas peças foram trocadas até eles conseguirem recuperar seus corpos. Eu sou praticamente como um tio para esses dois. E o senhor também deveria se considerar assim. É nossa obrigação ajudá-lo nesses momentos em que meninos começam a virar homens.
— Levando por esse lado – Mustang segurou o queixo, pensativo – Até que você tem razão.
— Vocês dois querem parar com isso?! – Riza falou, levemente irritada.
— Isso mesmo. E podem parar com essas insinuações – Edward parecia ser o mais ofendido nessa história toda – Meu irmão nunca se juntaria a uma assassina.
— Mas a garota até que é bonitinha, Edward – Havoc se intromete – Por que você não deixa seu irmão se divertir também?
— CALADO!! – várias veias saltaram da testa de Edward.
Alphonse não sabia onde esconder o rosto de tanta vergonha. Para sua sorte, o momento constrangedor foi interrompido por uma batida na porta.
— Com licença, senhor – o soldado que havia anunciado a chegada de Edward bateu novamente na porta – O senhor pediu para que o avisasse quando terminasse o interrogatório...
— Sim. Isso mesmo – Mustang levanta-se de vez da cadeira e faz um gesto para os irmãos Elric o seguirem – Me acompanhem.
Mustang conduziu os irmãos Elric até outra sala do quartel, sendo seguidos de perto pela capitã Hawkeye e o tenente Havoc. Em uma sala com vários móveis de madeira antigos, Akame estava sentada em uma cadeira posicionada estrategicamente no centro do cômodo. Em frente à garota, uma grande mesa de carvalho onde o coronel Panzer apoiava seus cotovelos e, logo ao lado dele, uma pessoa que Mustang não esperava encontrar ali.
— Fü... Führer Grumman?! – Mustang exclama, espantado – O que faz aqui? Senhor? – acrescenta, rapidamente.
— Ora, ora, Mustang – Grumman levanta-se da cadeira para cumprimentá-lo – Por que a surpresa? O líder máximo de um país também precisa visitar todos os postos mais importantes do exército durante seu horário de trabalho, não é mesmo?
— Desculpe-me, senhor. Expressei-me mal – Mustang corrige-se – O que eu quis dizer é que, eu e os irmãos Elric, estamos aqui para esclarecer um pequeno contratempo que ocorreu com essa jovem. Um caso sem importância para o senhor.
— Errado, Mustang – Grumman diz – Todos os assuntos que envolvem o exército de Amestris são de extrema importância para o Führer – ele vira-se para Akame – Veja o caso dessa jovem. Ela foi trazida para cá porque está sendo acusada de assassinar um homem que tentou matar Alphonse Elric. Já sei de todos os detalhes.
— Senhor – Mustang estufou o peito – Já providenciei um advogado para a acusada. Provavelmente, ela ficará em liberdade enquanto o processo contra ela correrá na justiça.
— Errado de novo, Mustang – Grumman abana um dedo em sinal negativo – Nós já tomamos uma decisão em relação ao caso dessa moça. Ela ficará presa.
— Mas, senhor – Alphonse deixa escapar uma exclamação – por favor, escute...
— Presa às obrigações do exército de Amestris, Alphonse Elric – Grumman dá um sorriso sapeca – Deixe-me terminar de falar.
— Como assim, senhor? – Edward não estava conseguindo entender onde o Führer Grumman queria chegar – Do que está falando?
— Desculpe minha indelicadeza – Grumman vira-se para Akame – Senhorita, não gostaria de contar as novidades? Conte a eles, por favor.
Com a indiferença de sempre, Akame encara os recém-chegados e suspira baixo antes de falar.
— Eu me alistei no exército.
— COMO É?!! – berram os irmãos Elric ao mesmo tempo.
— Isso mesmo que vocês ouviram – o coronel Panzer se pronuncia pela primeira vez – Deem as boas vindas à nossa mais nova oficial de infantaria, subtenente Akame.
— Mas isso não é possível – Mustang diz, espantado – Ela não pode ser aceita no exército! Ela não tem nacionalidade amestrina. Ela nem ao menos tem um documento!
— Não, segundo esse documento, general – Panzer sacode um papel amarelado na frente do rosto de Mustang – Eu acredito que a subtenente Akame existe, sim. Eu a estou vendo bem na minha frente. Portanto, esse documento oficial, assinado pelo Führer e por duas testemunhas idôneas, ratifica a nacionalidade amestrina de Akame Elric – ele se vira para os irmãos – Precisávamos de um sobrenome para ela e, como ela mora com vocês... Espero que não se importem.
Mustang toma o documento das mãos de Panzer para ver melhor e os irmãos Elric se aproximam para olhar também. O documento estava todo em ordem com carimbo, assinaturas e marca d’água. Ninguém poderia dizer que Akame não era uma legítima amestrina.
— Essa cópia é de vocês – Grumman aponta para os irmãos quando Edward pega o papel das mãos de Mustang – e também não se esqueçam da cópia da carta de aceite da subtenente Akame nas forças armadas – ele puxa um outro papel que estava sobre a mesa – Ela poderá começar depois de amanhã, às sete em ponto. Dar-lhe-ei um dia de folga, mas terá que se apresentar ao oficial do dia bem cedo.
— Vejo que pensaram em tudo – Mustang comenta.
— Certamente, general – Grumman abre um sorriso – O Führer não pode perder tempo. Agora, vocês podem ir. Estão dispensados.
Mustang cumprimenta formalmente o Führer e se retira, acompanhado de Riza e Havoc. Akame sai logo depois dos três e os irmãos Elric não tem outra escolha, a não ser segui-la.
— Isso é realmente possível, general? – Riza é a primeira a falar quando já estão no corredor.
— Segundo aquele papel, por mais absurdo que possa parecer, sim – Mustang responde – Se o próprio Führer assinou, não podemos fazer nada.
— E nós? – Edward pergunta – Como ficamos?
— Você, eu não sei – Mustang para e o encara com uma expressão de desinteresse – Mas eu vou para a minha sala descans... quer dizer, tenho muitos papeis para analisar ainda.
— Corta essa, general – Edward rebateu – Até parece que você vai trabalhar mesmo.
— Mais respeito comigo, ó baixinho! – Mustang grita com ele – Eu sou um oficial superior!
— Quem você está chamando de baixinho?! – Edward aproxima o rosto de Mustang e os dois ficaram se encarando com rosnados.
— É melhor parar vocês dois – Riza se coloca entre os dois brigões.
— Isso mesmo – Havoc ri – Lembrem-se que nenhum dos dois é bom de briga.
Edward e Mustang soltam os cachorros em cima de Havoc e Riza tenta acalmá-los enquanto ainda está com paciência. Ao ver que seus apelos não seriam atendidos, ela puxa sua arma e imediatamente os três param de brigar e pedem mil desculpas à capitã.
Os únicos a não falarem nada e nem participarem da confusão no corredor do quartel eram Alphonse e Akame. Alphonse tentava entender os motivos de Akame para aceitar entrar no exército e como tudo isso chegou até esse ponto. Ele a observava e dessa vez não conseguia interpretar seus pensamentos. Akame queria apenas sair dali e voltar para Resembool onde poderia, enfim, fugir dos olhares de Alphonse.
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