A Assassina e o Alquimista

41 O Alquimista Escarlate


Notas iniciais
E o Ano Novo chegou! Voltamos a nossa programação normal depois das festas de fim de ano. No último capítulo, Alphonse havia errado de anime e resolveu se juntar aos Jaegers para se aproximar de Kurome. Devido a gravidade da situação, já deixo avisado que o capítulo pode conter cenas de violência leve à moderada contra nosso amado personagem. Aos mais sensíveis, aconselho ler o capítulo de olhos fechados.

A base de operação da Night Raid estava uma verdadeira confusão com todos falando ao mesmo tempo. Akame disse apenas uma única frase e isso foi o gatilho suficiente para deixar seus companheiros extremamente nervosos.

— Nós temos que arranjar um novo esconderijo agora!! – Lubbock bateu na mesa, atraindo a atenção de todos – Não vai demorar muito para aqueles malditos chegarem aqui.

— Vocês acham mesmo que o Aru-san nos denunciaria? – Tatsumi perguntou, assustado.

— Ele é um gaijin – Chelsea disse, séria – Que garantias temos de que ele seria fiel a nós?

— Vocês estão esquecendo que eu também sou uma estrangeira? – Mine se exaltou – Isso não tem nada a ver. Mas eu também nunca confiei naquela cara de gelatina sem sabor daquele desbotado. Provavelmente, ele era algum espião – e acrescentou, rápido – Sem ofensa, Akame.

— Isso só prova que Akame-chan tem mau gosto – Lubbock rebateu.

— Mas ele não se parece com a nee-san? – Tatsumi olhou para os outros, confuso.

— Comigo mesmo, não – Leone cruzou os braços – Vocês já repararam que todos os pelos dele eram desbotados?

— E o que isso tem a ver com a discussão?!! – Chelsea gritou de volta.

— Está decido – Lubbock falou, firme – Quem o encontrar tem autorização de matar o traidor.

— Você não decide nada aqui, idiota – Leone rosnou.

— Exatamente – uma voz se elevou entre eles e todos pararam de falar na mesma hora – Quem decide isso sou eu – e o rosto de Najenda apareceu na porta.

— Chefa – Mine se adiantou – estamos com um problema...

— Eu escutei muito bem – Najenda suspendeu uma mão – Dá para ouvir os gritos de vocês há quilômetros de distância. Acho que, do jeito que vai, nós mesmos vamos denunciar nossa localização – ela esperou os outros se acalmarem um pouco antes de continuar – Pois bem. Soube que o novo membro sumiu e há evidências de que ele tenha ido na direção da Capital – Najenda cruzou os braços – Como foi Akame quem o trouxe para cá, acho certo que ela decida o que faremos com ele.

Além de Suzanoo, Akame era a única pessoa que não estava falando nada.

— Eu vou buscá-lo – ela falou, decidida.

— Akame – Lubbock gaguejou – Mas foi você mesma quem disse que o novato foi para o Palácio da Imperatriz...

— Ele foi atrás da Kurome – ela o interrompeu.

— Como assim, atrás da Kurome?! – Leone arregalou os olhos – O que ele pretende?! Ele é algum suicida?! Ele acha que pode matar a chefe da Polícia Secreta do Império sozinho?!

— Pior que isso – Akame continuou, apática – Ele foi lá conversar com ela.

— Como você pode ficar calma dessa forma?! – Leone se irritou – E como você pode ter certeza de que ele vai lá para isso?!

— Porque ele é previsível – Akame se virou para Najenda – Não precisam se preocupar com o esconderijo. Ele não vai nos denunciar. E, mais uma coisa, eu sou a responsável por ele. Vou buscá-lo antes que aconteça alguma coisa.

— Não vou deixar você ir sozinha, Akame!! – Leone segurou-a pelo braço.

Akame fechou os olhos e suspirou lentamente. Estava cansada demais para discutir.

— Se infiltrar no Palácio da Imperatriz para resgatar alguém é uma missão muito arriscada, Akame – Chelsea concordou com a cabeça – Até mesmo para você.

— Não tenho escolha – Akame deu de ombros – Afinal, ele está aqui por minha causa.

— Nós vamos com você também, ouviu? – Mine fez uma pose autoritária – Não interessa que você diga não. Nós vamos de qualquer forma.

— Isso mesmo – Tatsumi assentiu – Nós vamos também. Quer você queira, quer não.

— Não vou dizer que me agrada todos vocês saírem para se expor nessa missão suicida – Najenda permanecia com os braços cruzados – Mas, felizmente, o Exército Rebelde já está infiltrado nos limites da cidade e planejávamos um grande ataque por esses dias. Porém, devido às circunstâncias, teremos que adiantar nossos planos. Vou informar os outros generais para aproveitarmos o espetáculo que a imperatriz Esdeath organizou para amanhã e atacar a Capital. No meio da confusão, podemos até mesmo resgatar o rapaz novo mas, é claro, todos deverão atuar só após as minha ordens – e lançou um olhar sério para todos – Estamos entendidos?

— Mas... mas... como vamos atacar a Capital? – Lubbock gaguejou – Nós não temos recursos para um grande ataque. O Exército Imperial está mais forte do que nunca e tivemos muitas baixas recentemente...

— Nós temos que apostar nossas fichas nesse novo ataque – Najenda falou com mais firmeza – O momento de lutar é agora – e adicionou com um toque sombrio – Ou morreremos tentando.

Os subordinados de Najenda apenas confirmaram com a cabeça. Todos com os rostos extremamente sérios.

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A grandiosidade do palácio era impressionante e contrastava de forma gritante com a pobreza fora dos muros imperiais. Wave conduziu Alphonse por extensos corredores e empurrou uma imensa porta de madeira.

— É melhor você conhecer logo o pessoal – Wave indicou uma comprida mesa no meio da sala, onde três pessoas pareciam esperar por algo. Um deles, Alphonse conseguiu reconhecer como o Run, mas o homem de máscara, e a garota com braços mecânicos ao lado, ele não fazia a mínima ideia de quem fosse – Eles são Run, Bols e Seryu Ubiquitous. Eles também são Jaegers. Pessoal, esse é Arufonsu – e deu um tapa amigável no ombro do outro – Um velho amigo meu.

— Muito prazer – Alphonse se curvou, respeitosamente.

— O prazer é nosso – Seryu sorriu com simpatia. Alphonse ficou menos nervoso ao ver o sorriso de Seryu. Mal sabia ele que estava diante da psicopatia em pessoa – Veio fazer uma visita?

— Na verdade, ele quer se tornar um Jaeger – Wave respondeu por Alphonse – Mas a Kurome tem que aceitar. Já pedi para a chamarem.

— Fique à vontade – Run acenou com a cabeça – Você é nosso convidado hoje.

Eles não precisaram esperar muito porque a porta se escancarou poucos minutos depois e uma figura pequena entrou na sala. Alphonse levantou-se imediatamente da cadeira. Só poderia ser ela, pensou. A semelhança era incrível. Exceto por ser menor, ter cabelos bem mais curtos e olhos escuros, Kurome se parecia muito com sua irmã mais velha. Ela entrou na sala, displicentemente, carregando uma pequena sacola, de onde tirava biscoitos de formato arredondado e os comia um atrás do outro. Um novo pensamento passou pela cabeça de Alphonse. Ela não era muito nova para ser chefe de polícia?

— Olá a todos – disse, apática, antes de se sentar.

— Algum problema, Arufonsu? – Wave o cutucou, discretamente. Só assim para Alphonse perceber que ainda estava de pé e com a boca ligeiramente aberta.

— Nada – sentou-se, rapidamente.

— Quem é você, estranho? – Kurome lhe dirigiu o olhar como se soubesse o tempo todo que ele estava ali – Não vou lhe oferecer nenhum – e abraçou a sacola de doces, olhando desconfiada para o rosto dele.

Alphonse enrugou a testa. Por que ele não estava surpreso?

— Meu nome é Alphonse – ele se levantou e falou com a voz firme – E eu quero ser um Jaeger.

Alphonse esperou que ela tivesse alguma reação, porém Kurome somente o encarou com uma expressão neutra.

— Não – ela respondeu, simplesmente, após um bom tempo e mordeu a ponta de um biscoito.

— Como assim não?! – Alphonse se irritou – Você nem ao menos vai me testar?

— Seus olhos são gentis demais – Kurome devorou outro biscoito – Aqui não é lugar para gentilezas.

— Ora, Kurome – Wave fez sinal para Alphonse se sentar – Seja mais razoável. Meu amigo aqui disse que seria capaz até mesmo de impressionar a nossa imperatriz – e passou o braço em volta do pescoço de Alphonse – Será que você também é um usuário de Teigu?

— Se for esse o caso – Run se pronunciou, calmamente – Seria interessante fazer uma pequena demonstração de suas habilidades.

Alphonse olhou para Kurome e esperou que ela fizesse alguma observação, mas ela estava preocupada demais em comer e não lhe deu atenção. Até nisso elas tinham que ser parecidas?

Em silêncio, Alphonse se levantou e andou até o meio da sala. Lembrando-se do teste de admissão para Alquimista Federal do Edward, ele juntou as mãos e foi imediatamente envolvido por uma luz azulada.

— Mas o que é isso?! – Wave levantou tão rápido da cadeira que quase caiu. Seus colegas Jaegers também estavam assombrados.

Quando Alphonse terminou de puxar uma lança comprida do chão, deformando o piso impecável, ele encarou os seus espectadores. Kurome continuava com seu olhar indiferente mas, conhecendo a irmã dela, Alphonse já esperava por isso. Mesmo assim, ele notou uma das sobrancelhas de Kurome se erguer levemente.

— Isso foi... isso foi... – pela primeira vez, Bols resolveu falar algo – Isso foi uma Teigu?

— Não parece ser isso – Run coçava o queixo – Essas marcas estranhas no chão...

— É porque isso não foi por causa de uma Teigu – Alphonse explicou, sério – Isso é Alquimia.

Contudo, antes de Alphonse terminar a explicação, a porta se escancarou e uma mulher de longos cabelos azuis apareceu, imponente.

— Eu ouvi o barulho de uma arma sendo empunhada – Esdeath empurrava as duas grandes portas com ambas as mãos e olhou tudo em volta até que seus olhos se detiverem no piso retorcido – Que diabos vocês estão fazendo aqui? – e enrugou a testa ao notar a presença de Alphonse – E quem é você?

— Meu nome é Alphonse, senhora – ele juntou os braços ao lado do corpo e falou como um soldado respondendo ao seu superior – Eu vim aqui porque eu quero me tornar um Jaeger e...

Alphonse não terminou a frase porque Esdeath o pegou por um braço e o jogou facilmente contra uma parede, fazendo um grande buraco.

— Não abaixe a guarda, novato – Esdeath sacou agilmente sua espada – Mostre-me que você é digno da minha atenção.

“Ela é pior que a minha professora” pensou Alphonse, caído de ponta-cabeça e com as costas apoiadas na parede rachada. Ao se levantar, ele viu que estava desarmado. Com a queda, a lança voara longe e Alphonse resolveu transmutar outra arma, ao invés de tentar recuperar a antiga.

— Hum, técnica interessante – Esdeath deu um meio sorriso quando o alquimista puxou uma espada do chão – Mas você sabe usá-la? – e, dizendo isso, ela avançou na direção dele com sua arma levantada.

Alphonse precisou usar seus instintos para conseguir desviar dos golpes ligeiros de Esdeath e, depois de passar anos se desviando das pancadas traiçoeiras de Izumi Curtis, até que aquilo não foi tão difícil.

— Hum, bons reflexos. E sua postura é perfeita – Esdeath o elogiou quando Alphonse deu um giro no ar para fugir da espada dela e caiu no chão em pose de ataque – Parabéns. Bem-vindo aos Jaegers – ela abaixou a espada.

— Como é? – Alphonse olhou para os outros Jaegers que não pareciam surpresos. Fácil assim?

— Eu sou a imperatriz Esdeath – ela guardou a espada – E você já tem uma missão para amanhã.

— A senhora é a imperatriz?! – Alphonse arregalou os olhos.

— Senhorita, por favor – ela deu um doce sorriso – Afinal, não me casei.

— O meu amigo ficaria muito feliz com a missão, taichou – Wave levantou um polegar.

— Excelente – Esdeath fechou os olhos e ajeitou o decote exagerado de sua blusa – Amanhã teremos um torneio de artes marciais e você irá participar representando os Jaegers. Vamos mostrar a força da Polícia Secreta Imperial.

— Eu?! – Alphonse gaguejou.

— Pare de responder com perguntas. Isso é irritante – Esdeath abanou uma mão enquanto saia pela porta – Bom, nos vemos amanhã na competição.

— Uau!! – Wave correu para cumprimentá-lo. Aliás, não só ele. Seryu, Bols e Run também se levantaram para apertar a mão do novo colega – Você conseguiu mesmo!

— Consegui? – Alphonse olhou para eles, incrédulo.

— Sim – Bols sacudiu as mãos – Nunca vi a taichou tão empolgada com algo. Você realmente a deixou impressionada.

— Impressionada? – Alphonse ergueu a sobrancelha.

— Virou papagaio, foi? – Wave pôs as mãos na cintura – Está repetindo tudo que a gente fala.

Os outros riram das palavras de Wave e ficaram conversando amenidades. Alphonse não prestava atenção na conversa porque continuava olhando para Kurome sentada na mesa e ainda comendo seus doces, tranquilamente.

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Pulando agilmente entre os telhados das casas, Akame aproveitava as sombras da noite para se camuflar. Ela resolveu parar na mesma torre onde esteve com Leone e olhou para as luzes coloridas lá embaixo. O vento gelado esvoaçava seus cabelos e seu novo casaco, mais grosso do que o antigo.

— Pode aparecer – ela disse para o alto – Eu sei que você está aí.

Passaram-se alguns minutos em total silêncio antes da silhueta de Leone se delinear atrás de Akame. Ela parou ao lado da amiga e olhou para a cidade também.

— Não consegue esperar até amanhã? – Leone resolveu quebrar o silêncio, principalmente porque Akame nem se mexeu do lugar.

— Preciso ver como ele está – Akame suspirou – Ele não faz ideia de onde está pisando.

— Ele é importante para você, não? – Leone a encarou, mas Akame não olhou de volta – Mas tem outra coisa te preocupando. É Kurome, não é?

Akame virou lentamente a cabeça na direção dela.

— Achei que você quisesse resolver tudo entre vocês duas de uma vez por todas – Leone continuou – Se alguém tentar interferir, pode contar comigo.

— Obrigada, Leone – Akame sorriu, levemente.

As duas esperaram alguns minutos antes de deixar o esconderijo. Equilibraram-se em mais alguns telhados antes de conseguirem alcançar as proximidades do Palácio Imperial. Akame se esqueceu de se apoiar depois de dar um impulso e precisou que Leone a segurasse no último segundo. O erro foi provocado por algo que tirou a concentração de Akame por um breve instante. Elas chegaram perto o suficiente para avistarem duas pessoas em uma varanda. E não eram duas pessoas quaisquer. Kurome ainda comia seus doces, debruçada na sacada para aproveitar o ar gélido da noite, quando Alphonse se aproximou dela, um pouco hesitante.

— Kurome-san – ele pigarreou baixo – Posso chamá-la assim?

Kurome não respondeu e continuou comendo. Alphonse se aproximou em passos miúdos.

— Também gosta de observar a noite? – ele se pôs ao lado da garota – Eu adoro observar o céu à noite. Eu costumava observar muito o céu lá na minha terra natal. Principalmente, porque faz eu me lembrar de quando eu e meu irmão...

— Desculpe. Seu sotaque é muito ruim. Não consigo entender – ela disse, indiferente e sem olhar para ele – O que você quer aqui?

— Hã?! – Alphonse se surpreendeu um pouco com a pergunta – Bom, já que vamos ser colegas, achei que poderíamos ser amigos...

— Pergunto por que um gaijin com poderes desconhecidos gostaria de se envolver nos nossos assuntos – ela falou no mesmo tom – Que interesses poderia ter por trás disso?

— Meus interesses? – ele estava um pouco nervoso – Eu quero lutar para proteger as pessoas...

— Resposta errada – Kurome o interrompeu – Talvez, você esteja aqui a mando de outra pessoa... Ou, até mesmo, do Exército Revolucionário...

— De jeito nenhum! – Alphonse já suava frio. Kurome ainda não tinha olhado para ele, mas parecia saber interpretar bem suas reações – Eu estou aqui por mim mesmo! Não estou recebendo ordens de ninguém.

— Espero que sim. Para o seu próprio bem – Kurome guardou a sacola pendurada do lado do corpo e olhou para Alphonse pela primeira vez – É melhor dormir de olhos abertos. Até mais, “gaijin amarelo” – e saiu, deixando-o sozinho na varanda.

Alphonse suspirou, frustrado. Essa primeira tentativa foi um fracasso e Kurome parecia ser tão ou mais difícil para permitir uma aproximação quanto sua irmã mais velha. Com uma expressão derrotada, ele resolveu voltar para o calor da sala.

— Aparentemente, ele não nos denunciou mesmo – Leone soltou o ar devagar e uma espiral de vapor cobriu seu rosto – Mas ele parece muito bem relacionado com o inimigo – e olhou de esguelha para Akame. A amiga não mostrava nenhuma reação e Leone suspirou com a possibilidade de precisar matar o estrangeiro para evitar que Akame fosse forçada a fazer isso mais tarde.

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Se nos dias anteriores estava frio, na manhã da competição, a temperatura estava congelante. Aparentemente, havia nevado na madrugada anterior e uma fina camada de neve cobria o chão. Alphonse não estava sofrendo muito com o frio porque estava usando o grosso casacão negro de gola alta com o emblema dos Jaegers e, no momento, atravessava um extenso corredor escuro na companhia dos novos companheiros.

— Você estava falando ontem sobre Alquimia, não, Arufonsiu-san? – Alphonse virou a cabeça na direção da voz e encontrou o sorriso amigável de Run.

— Sim – ele sorriu de volta – Eu estudo Alquimia.

— Pesquisei em alguns livros – Run se aproximou – Foi difícil de achar algumas coisas porque o estudo de Alquimia é restrito em nosso país mas, pelo que eu vi, aquela sua Alquimia é muito diferente da Alquimia daqui.

— Acredito que sim – Alphonse coçou o queixo – Mas, também, a distância entre os dois países...

Alphonse foi interrompido pelo som alto de uma trombeta.

— Rápido, Arufonsus – Wave o empurrou na direção da luz – A competição vai começar!

— Honre o nome dos Jaegers – Seryu fez o “v” da vitória com os dedos.

Alphonse andou um pouco mais até ser engolido pela forte luz do dia. Quando seus olhos se acostumaram com a claridade, ele se viu no centro de um gigantesco coliseu lotado de pessoas. Na tribuna de honra, a imperatriz Esdeath saboreava uma bebida colorida e, ao lado dela, havia um rapaz com uma cara assustada. Próximo a eles, os demais Jaegers acenavam para Alphonse.

— Na primeira luta do dia – um homem anunciou alto, desenrolando um grosso pergaminho – representando a estimada Polícia Secreta Imperial, os Jaegers, o mais novo membro do grupo e vindo do distante oeste, o alquimista Aroufonsiu!!

A plateia vibrava enquanto Alphonse olhava firme para o lado oposto. Não interessava quem viesse porque ele conseguiria derrotar qualquer um usando apenas sua Alquimia.

— E o desafiante – o homem continuou – o grande destruidor do norte, que já matou mais de mil guerreiros, Kwan!!

O chão tremeu quando uma sombra gigantesca surgiu na porta do lado oposto a Alphonse. Soltando um berro medonho, um homem musculoso quase conseguiu pular para o centro da arena, sendo contido com dificuldade por correntes puxadas por sete soldados. Alphonse observou aquela aberração de queixo caído. Ele parecia muito com o homúnculo Preguiça.

— Que saco – o gigante grunhiu de forma animalesca – Lutar é um saco...

Espera um pouco, aquele era o Preguiça! O que significava isso? O que estava acontecendo?

— Está assustado? – Kurome sorria, maliciosamente, da tribuna – Podemos cancelar a luta.

Isso é um teste, pensou. Não poderia se dar ao luxo de recuar ou perder.

— Claro que não – negou com a cabeça – Vamos começar.

— Comecem a luta – Esdeath ordenou, impaciente, e os guardas soltaram as correntes de Kwan.

O homúnculo avançou com os punhos musculosos erguidos e desferiu um poderoso soco contra o alquimista, que desviou no último instante. A neve não conseguiu encobrir a enorme rachadura no chão, causada pelo golpe.

Aproveitando o salto, Alphonse puxou uma grande espada do chão e ouviu as exclamações de surpresa da plateia. Kwan não pareceu muito intimidado e atacou de novo. Desviando-se novamente, Alphonse apoiou um pé no punho abaixado de Kwan e fez um talho no braço dele.

— Que saco – o gigante resmungou – Dor é um saco...

Mesmo conseguindo fazer um corte em seu oponente, Alphonse sabia que aquilo foi muito superficial. Ele precisava chegar mais perto para conseguir um resultado melhor. Mas um detalhe o fez arregalar os olhos. A ferida de Kwan lentamente se fechou, como se ele nem tivesse sido cortado. Já esperava por algo assim. Mas o que ele poderia fazer agora?

Alphonse desviou de mais dois socos de Kwan e enxergou uma nova brecha no ataque do homúnculo. Porém, dessa vez, Alphonse começou a fazer vários cortes ininterruptos nos braços, na barriga e nas pernas do oponente, sem dar chance dele se regenerar. Kwan se contorcia de dor com os cortes seguidos e Alphonse suava frio, tentando se concentrar em não dar nem um segundo de descanso ao seu adversário.

— Saco! Você é um saco – ele grunhia em meio aos golpes furiosos, sacudindo os braços em desespero – Isso é um saco...

Kwan levantou bruscamente o braço para se livrar daquela agonia e jogou Alphonse para o alto, fazendo o alquimista se espatifar contra a divisão da arena com as arquibancadas. Kwan não esperou Alphonse se levantar e já avançou contra ele, desferindo um novo soco e o acertando em cheio. O sangue de Alphonse tingiu a neve ao redor de vermelho.

— Ele está acabado – Wave se levantou, assustado, e virou para Kurome – É melhor parar a luta.

Kurome continuou comendo seus biscoitos, calmamente, enquanto Alphonse era novamente jogado para o outro lado da arena. Ele nem reagia mais.

— A luta acabou – Wave insistiu, mas não houve resposta – Taichou? – apelou para Esdeath.

— Se ele morrer, é porque ele foi fraco – Esdeath respondeu, friamente.

Os lábios de Wave tremeram e ele arregalou ainda mais os olhos.

Na arena, Alphonse ainda estava consciente, mas por pouco tempo. Talvez, para animar a plateia ou por pura preguiça, Kwan resolvera não matar seu oponente imediatamente e experimentou testar a resistência dos ossos de Alphonse. Suspendeu o rapaz por um dos braços e, ignorando os gritos de dor do mesmo, entortou-o até o braço fazer um barulho de estalo. Enquanto Alphonse olhava para o próprio braço inutilizado sem acreditar, Kwan o largou no meio de uma poça de sangue e lhe deu as costas para agradecer os aplausos da plateia.

Alphonse passou uma mão pelo seu braço machucado e sentiu uma saliência. Lembrou-se da pedra filosofal. Como poderia ter esquecido? Com a pedra, ele nem poderia morrer. Fechou os olhos para se concentrar.

— O que está acontecendo? – Run se debruçou na sacada.

Uma fumaça suspeita encobriu a arena e, antes que alguém perguntasse o que estava ocorrendo, um raio avermelhado subiu em direção ao céu.

— Mas o que...?! – Esdeath foi interrompida por uma repentina rajada de vento que dissipou a fumaça, revelando um Alphonse em pé no meio da arena e com suas feridas totalmente curadas.

— Impressionante, senhoras e senhores!! – o locutor da partida berrava – O estrangeiro sobreviveu a uma sequência esmagadora de golpes e ainda está de pé!!

O público começou a gritar frases de incentivo para ele, mas Alphonse não prestou atenção. Ele fechou os olhos novamente e uma gigantesca massa começou a tomar forma atrás dele, emitindo uma forte luz vermelha.

— Que diabos está acontecendo? – Wave estava de queixo caído – Isso está parecendo uma...

Uma grandiosa armadura se ergueu atrás de Alphonse. Aliás, aquela armadura era muito semelhante à armadura onde sua alma ficara presa por anos. Alphonse fez uma pose de ataque e seu fantoche de aço logo atrás o imitou.

— Isso não pode ser uma Teigu – Seryu falou com a voz esganiçada – Será que é uma Teigu biológica como o Koro?

— Não. Isso é Alquimia mesmo – Run coçava o queixo, pensativo – Uma Alquimia escarlate...

Imitando a pose defensiva de um lutador de boxe, a armadura desviou de dois socos de Kwan e disparou uma sequência de jabs de esquerda no abdômen do homúnculo, seguido de um feroz soco com a mão direita, de baixo para cima, acertando em cheio o queixo de Kwan e o fazendo voar alguns metros para o alto. A plateia gritava em êxtase.

Enxugando o suor da testa, Alphonse usou a armadura, que repetia seus movimentos, para encurralar Kwan em um canto e o golpeou até o homúnculo cair inconsciente. A arquibancada explodia em vivas e Esdeath se levantou da cadeira para acenar, pedindo silêncio.

— Belo espetáculo, novato – Esdeath disse, após o coliseu cair em um silêncio mórbido – Você venceu. Pode matar o seu adversário.

Matar? Aí ferrou! Se a teoria de Alphonse estava correta, como ele poderia matar um homúnculo? E, mesmo se pudesse matar um homúnculo, ele seria capaz de fazer isso?

— O que foi? – Esdeath perguntou quando o viu hesitar – Por acaso, não consegue fazer isso?

Alphonse engoliu em seco. Não poderia estragar o disfarce.

— Não consegue por causa de algum motivo específico? – Esdeath continuou, com uma voz insinuante – Talvez, porque seu objetivo não é ser um Jaeger. Provavelmente, está aqui para nos espionar a mando do Exército Revolucionário...

— Não é verdade!! – Alphonse gritou – Não estou aqui a mando de ninguém!!

— Então, prove – Esdeath ergueu o queixo em desafio – Seryu – chamou a garota ao lado – Deixo você cuidar disso.

Dando um sorrisinho sinistro, Seryu saltou para a arena coberta pela neve, seguida por Koro.

— Koro! Número um! – Seryu gritou e a cena seguinte foi uma das mais bizarras que Alphonse já presenciou. O “cachorro”, ou seja lá que espécie de bicho era aquele, da Seryu engoliu metade do braço mecânico da dona e, quando ele saiu, um mangual monstruoso substituiu o braço.

— Você servirá de exemplo – Esdeath disse, friamente – para os que tentam enganar o Império.

— Podem vir – Alphonse falou para Seryu, sério, erguendo os punhos na frente do rosto.

Notas finais
Gaijin é uma forma pejorativa de chamar um estrangeiro. E eu não lembro de mais nada. Estou com sono. Até a próxima.