A Assassina e o Alquimista
23 Ninguém dorme
Notas iniciais
Winry não conseguia nem mesmo balbuciar. Ela estava encolhida contra a parede, olhando para aquela garota muito parecida com Akame que andava à sua frente, atenta ao menor movimento nas sombras. Elas voltaram pelo mesmo caminho que Winry percorrera e encontraram Falman ainda lutando com outros três soldados. Em menos de dois minutos, os corpos dos três inimigos jaziam no chão com estranhas manchas negras sobre a pele e poças de sangue ao redor.
— Bom trabalho, subtenente – Falman sorriu para ela enquanto apertava a sua mão – Veio sozinha para aqui?
— Não – Akame respondeu com a maior tranquilidade do mundo – Só vim na frente.
— Estávamos indo buscar, Alphonse Elric – Falman explicou porque, aparentemente, Winry havia perdido a capacidade de falar – Iríamos levá-lo para a Enfermaria Três. Ele está ferido. Mas, felizmente, não é nada grave. Edward está com ele.
Akame assentiu com a cabeça e os três voltaram pelo caminho anterior, com Falman à frente do grupo e Akame logo atrás de Winry. A propósito, Winry olhava de forma receosa para Akame.
Eles encontraram Edward e Alphonse sem grandes problemas na mesma sala onde o deixaram. Edward se assustou um pouco ao ver Akame e a expressão de pavor no rosto de Winry, mas não pôde fazer nada com relação a isso. Eles precisavam sair logo dali e ele e Falman trataram de acomodar Alphonse na maca para sair apressadamente na direção da Enfermaria Três.
A enfermaria continuava a mesma bagunça com várias pessoas correndo de um lado para o outro. Falman e Edward depositaram Alphonse em uma cama vazia e Edward procurou um dos médicos que estavam atendendo no local. Enquanto isso, Falman recebia as últimas atualizações do exército por Akame.
— Sabe dizer se estão todos aqui, capitão? – Akame se dirigiu a Falman.
— Não. Não estão todos – Falman deu um longo suspiro – Provavelmente, os demais estão espalhados pelas outras enfermarias. Não conseguimos nos comunicar com eles. A maioria dos rebeldes está no vilarejo e alguns deles estão tentando invadir o hospital.
— A principal preocupação é identificar de onde os inimigos estão vindo – Akame falou, séria, olhando para as camas lotadas – Proteger os feridos e verificar alguns pontos estratégicos. Preciso reportar tudo isso ao major Armstrong.
— Cuidarei disso, subtenente. Descanse um pouco – Falman sorriu e saiu apressado.
Akame resolveu acatar a sugestão de Falman e andou entre as camas em direção ao leito onde estava Alphonse. Winry e Edward também estavam com ele, sentados na beirada da cama. Akame notou que Edward parecia estar dizendo algumas palavras para reconfortar Winry.
— Akame-chan – Alphonse falou, sentado na cama, e tanto Edward quanto Winry voltaram os olhos para ela, com as expressões ligeiramente assustadas.
Akame hesitou em se aproximar mais, porém o sorriso de Alphonse era convidativo e ele fez um sinal para que ela chegasse perto.
— Fico feliz que esteja bem – Alphonse sorriu ainda mais e segurou a mão de Akame.
— Eu digo o mesmo – ela respondeu, séria.
— Bem, bem, eu não estou exatamente, mas eu vou ficar – Alphonse meneou a cabeça com um sorriso brincalhão, sacudindo de leve o braço de Akame –Winry estava muito preocupada com você também – e indicou a cunhada.
Winry engoliu em seco e balançou a cabeça de maneira mecânica.
— Winry? – Alphonse percebeu a atitude estranha da garota – O que foi?
— Ela não diz – Edward abraçou os ombros da esposa – Parece estar em estado de choque.
— Eu estou bem, Winry – Alphonse levantou mais o corpo, encostado na cabeceira da cama – Foi só um susto. Logo vou estar bem.
— Não é isso – Winry virou o rosto para o lado enquanto apertava as mãos fechadas sobre os joelhos – É que... bom, é que eu vi – ela olhou diretamente nos olhos de Akame que continuava parada em pé ao lado deles – eu vi você matar... matar aquelas pessoas... como se não fosse nada de mais...
— Winry... – Alphonse começou, porém foi interrompido por Edward.
— É melhor contar toda a verdade para ela.
— Qual verdade? – Winry olhou para Edward com os olhos arregalados.
— Ed – Alphonse falou mais alto – você prometeu...
— Mas a situação saiu do controle – Edward o cortou – Admita isso.
— Isso é pessoal – Alphonse rebateu, irritado – Não é assunto para ficar sendo discutido.
— Pessoal o caramba – Edward rosnou – Isso já está envolvendo todo mundo.
— Esse seu ciúmes já está passando de todos os limites – Alphonse provocou.
— Ora, cale a boca – Edward rangeu os dentes.
— Cale a boca você – Alphonse devolveu.
— Calem a boca os dois – Winry se irritou – E expliquem direito essa história.
— Você quer que a gente cale a boca ou conte a história? – Edward perguntou.
— Você entendeu!! – ela berrou, irritada – Não se faça de idiota!!
Alphonse deu uns tapinhas na cama, em um pedido mudo para Akame sentar ao lado deles.
— Tudo bem para você? – ele perguntou para Akame e ela concordou com a cabeça. Alphonse deixou escapar um longo suspiro antes de voltar a falar – Olha, Winry, o que vou contar agora é muito sério. Peço apenas que você não me interrompa e nem julgue nada sem pensar, ok?
Winry assentiu e Alphonse começou a contar toda a história desde quando conheceu Akame até o dia em que Akame aderiu ao Exército de Amestris, começando pelo passado trágico da garota, isto é, apenas aquilo que Akame contou para Alphonse.
A expressão de Winry mudava gradativamente à medida que a história avançava. Passando de uma careta assustada para espantada, em choque ou amargurada em questão de minutos e, ao final do relato de Alphonse, ela parecia prestes a explodir.
— Winry? – Edward chamou, preocupado, quando viu Winry tremendo da cabeça aos pés como se estivesse tentando se controlar para não cair no choro.
— AKAME-CHAN – ela deu um grito inesperado e se atirou nos braços da outra aos soluços – Eu sinto muito. Muito mesmo. Eu não sei... não sei como você suportou... Ah, Akame-chan!!
Akame ficou sem reação. Arregalava os olhos em uma inédita expressão de surpresa enquanto olhava para Alphonse como se pedisse instruções para agir naquela situação.
— Winry!! – Edward levantou da cama e ficou na frente das duas, tentando desprender os braços de Winry em volta do pescoço de Akame, sem sucesso – Você endoidou?! O que deu em você?!
— Como se atreve?! – Winry berrou com ele e, no minuto seguinte, Edward segurava a própria cabeça, caído no chão ao lado da cama – Seu insensível!!
— Você me bateu!! – Edward olhava espantado para ela.
— E vou bater de novo – Winry berrou ainda mais com ele – Como você teve coragem, mesmo depois de saber da história toda, como você teve coragem de tratar a Akame-chan tão mal?!
— Será que está todo mundo doido?! – Edward levantou de um pulo – Não vem, não. O fato de ela ter passado por tudo isso, não a isenta de todos os seus crimes!!
— Não dá para acreditar que você e o Al sejam irmãos – Winry cruzou os braços com a cara emburrada – Você não tem nenhuma compaixão!!
— Compaixão eu tenho – Edward rebateu – Mas, só para quem merece!!
— Ora – Winry levantou, batendo os pés – Eu não tenho nem paciência para discutir com você!!
— Aonde você vai? – Edward seguiu Winry.
— Qualquer lugar bem longe de você!! – Winry respondeu, passando feito um furacão por entre as camas da enfermaria. Algumas pessoas espichavam os pescoços dos leitos para observar a briga e cochichavam com os companheiros das camas próximas.
— Espera um pouco aí – Edward se apressou para acompanhá-la – Winry!!
— Não se preocupe. Eles vão ficar bem – Alphonse sorriu enviesado para Akame ao vê-la com uma cara de espanto enquanto acompanhava com os olhos o casal briguento se afastar – Você parece cansada – comentou depois de olhar atentamente para ela, com o sorriso se desfazendo.
— Um pouco – Akame piscou os olhos e abanou a cabeça.
— Vem aqui – Alphonse indicou o lugar ao lado dele.
Akame lhe lançou um olhar de quem não estava entendendo nada e, ao invés de se explicar, ele a puxou pela mão, fazendo a garota se sentar com os ombros colados aos dele e as pernas estendidas sobre a cama. Cuidadosamente, Alphonse a abraçou pela cintura com um braço e, com o outro, trouxe a cabeça de Akame para junto dele, pousando-a sobre seu ombro. Akame retraiu os braços junto ao corpo, achando aquela situação bastante estranha e constrangedora. Alphonse percebeu que Akame estava tensa e afagou levemente seus cabelos para acalmá-la. Depois de alguns minutos, a respiração dela foi relaxando e Alphonse sentiu que ela, finalmente, dormiu.
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Os amestrinos iniciaram o contra-ataque no meio da tarde com a infantaria organizada em quadrados, como recomendara a capitã Hawkeye, disparando rajadas contra o inimigo em três fileiras de soldados. Enquanto os soldados da frente atiravam, os de trás carregavam as armas, aproveitando a barreira de soldados como proteção.
Para deter o contra-ataque amestrino, os rebeldes alinharam cerca de cinco mil soldados na frente para prosseguir contra o inimigo. Mas, os cavalos dos rebeldes se assustaram com aqueles quadrados, compostos por soldados atirando alucinadamente, e se recusaram a avançar. Isso provocou um leve recuo no ataque dos rebeldes.
A generala Armstrong se aproveitou dessa retirada e enfileirou os canhões à frente da infantaria. Os canhões abriram fogo, provocando pesadas baixas no exército inimigo.
Enquanto isso, o batalhão comandado pelo major Armstrong esperava apenas uma ordem para invadir o hospital de campanha pelo outro lado, aproveitando que os inimigos estavam todos concentrados na linha de frente. O major dividiu alguns dos soldados em pequenos grupos de reconhecimento, que deveriam usar roupas camufladas porque precisavam entrar no hospital e na cidade discretamente.
— Vamos conversar um pouco para diminuir a tensão – Havoc sorriu simpático para seus companheiros do grupo de reconhecimento – Pena que não podemos nem cantar umas músicas.
— Ah – Fuery reclamou – Você não vai começar a cantar aqui, não é?
— Eu prefiro morrer – Breda concluiu, de mau humor.
— Que péssimos amigos eu tenho – Havoc choramingou – Viu todo o sofrimento que eu tenho de passar, subtenente?
Akame os observava, sem dizer nada, e se surpreendeu quando Havoc lhe dirigiu a palavra.
— Vocês só dão trabalho – uma veia saltou na testa de Riza – Era para ficarmos quietos.
— Estamos quietos, capitã. Relaxa, ninguém vai achar a gente aqui, não – Havoc a tranquilizou – Daqui dá para ver perfeitamente toda a movimentação nos arredores do hospital.
— A general vai reclamar que estamos falando demais, Havoc – Breda aconselhou.
— Que nada. Nós estamos com a subtenente – Havoc indicou Akame – Qualquer coisa, é só dizer que a subtenente também estava aqui com a gente.
— Quer arranjar problemas para a garota, Havoc? – Fuery disse.
— Que problemas? – Havoc levantou uma sobrancelha – Vocês viram que os olhos da general brilharam quando ela viu a subtenente fazendo os inimigos em picadinhos? Se a general pudesse, ela adotava a subtenente como a filha dela.
— Adotar a subtenente como filha?! – Fuery piscou os olhos, admirado, e adotou uma postura pensativa – A generala Armstrong tem um instinto maternal?!
— E a subtenente iria virar uma Armstrong?! – Breda arregalou os olhos, espantado.
— Iria se dar bem, subtenente – Fuery deu uma piscadela e um sinal de positivo na direção de Akame – A família Armstrong tem posses.
— Porém, ninguém naquela família é normal – Havoc abaixou ainda mais a voz e se inclinou para Akame – Conheci o pai da generala Armstrong. O homem mais chato de Amestris. Não é nem um pouco modesto, uma característica passada de geração em geração na família Armstrong. Fica o tempo todo falando – Havoc adotou uma postura esnobe exagerada e falou em uma voz pomposa – “A família Armstrong é a mais nobre das famílias nobres em Amestris... blá, blá... Gerações e gerações de generais... blá, blá...”. Você pode apenas ignorá-lo ou se jogar pela janela. E, acreditem, eu fiquei tentado com a segunda opção. A mãe dela é assustadora, sério. Não precisa ser gênio para perceber de onde a generala herdou todo o seu carisma. E a filha mais nova é delicada à primeira vista, mas seu passatempo favorito é carregar pianos!
— Ele só fala isso porque levou um fora da irmãzinha da general – Fuery tentava, inutilmente, abafar o riso.
— Me deixa em paz, Fuery!! – Havoc ralhou com ele.
— Havoc – Riza chamou em tom de reprimenda – Você quer denunciar a nossa localização?
— Desculpa aí, capitã – ele disse, meio envergonhado – Mas, falando sério – Havoc cochichou no ouvido de Akame – não aceite nenhum convite na casa dos Armstrong. Não é nada saudável.
— Seus comentários são tão necessários quanto as pulgas do Black Hayate, Havoc – Breda ria.
— Quem disse que o Black Hayate tem pulgas? – Riza perguntou, severamente, e uma gota escorreu da testa de Breda.
— Ninguém, não, capitã – Breda deu um sorriso amarelo.
— O problema de vocês é que vocês falam demais – Riza usou um tom sombrio e engatilhou a arma. Os rapazes começaram a suar frio.
— O major está demorando a dar o sinal, não é? – Fuery deu um sorriso horrivelmente amarelo, tentando disfarçar o nervosismo.
— Não se preocupe. Quando ele der o sinal, nós vamos ver – ironizou Breda – Com certeza.
— Como assim? – Fuery enrugou a testa – Você não acha que ele vai fazer alguma daquelas esculturas extravagantes dele, não é? A general pediu para sermos discretos.
— Resta saber se ele sabe o significado dessa palavra – Havoc deu uma risadinha.
— Apenas a existência dele não é nem um pouco discreta – Breda comentou.
— Eu queria ser como ele – Fuery ergueu os braços, exibindo o que ele achava serem seus músculos – Já pensou se eu tivesse os braços do tamanho de uma árvore?
— Iria ficar ainda mais feio do que você já é – Breda caçoou.
— Você tem é inveja dos meus braços fortes – Fuery fez uma imitação barata do major – Mas, é sério, o que será que ele faz para ter uns braços tão grandes?
— Ele quem, tenente?
Fuery se arrepiou como um gato assustado ao perceber que o major Armstrong estava parado bem atrás dele.
— N-ninguém, n-não, major – Fuery gaguejou.
— O Fuery falou que queria ficar forte igual ao senhor, major – Breda parecia estar se deliciando em ver o amigo se ferrar.
— Ora, por que não disse antes? – o major estufou o peito e a parte de cima de seu uniforme desapareceu como mágica – Basta comer muita comida saudável e levantar alguns pesos todos os dias. Quando eu era mais jovem, costumava carregar o trator da fazenda do meu avô, passada de geração em geração na gloriosa família Armstrong – ele tagarelou animadamente e nem percebeu várias gotas escorrendo das testas de seus subordinados – Mas, depois falamos disso. Vim aqui dar as últimas instruções. Como vocês são o primeiro grupo de reconhecimento a se infiltrar no hospital e no vilarejo, preciso que vocês informem tudo que possa nos servir. Descubram de onde os inimigos estão vindo, pontos estratégicos, obstáculos, os melhores lugares para posicionar as armas e, principalmente, a localização dos reféns.
— Sim, senhor – disseram todos em uníssono.
— Capitã Hawkeye – o major chamou – Quero que cuide da parte norte do vilarejo. Localize um lugar alto para poder acertar os inimigos com a sua excelente pontaria.
— Com certeza, senhor – Riza bateu continência.
— Tenentes Fuery e Havoc, vocês cuidam da parte leste e oeste – o major virou-se para eles – Sejam discretos e extremamente cuidadosos. Invadiremos o hospital nessa noite com o resto do batalhão e vocês devem providenciar uma passagem segura para entrarmos no prédio.
— Pode deixar, major – Fuery e Havoc responderam juntos.
— Tenente Breda, cuide da área sul – o major continuou – vigie e nos avise, caso seja preciso proteger a retaguarda de um possível contra-ataque inimigo.
— Sim, senhor – Breda fez uma reverência.
— E, ah, subtenente Akame – o major a encarou – você acha que consegue localizar o capitão Falman que estava dentro do hospital quando aconteceu o ataque? Passe a ele toda a informação necessária. Encontre o máximo possível de reféns lá dentro e nos informe sua localização.
— Sim, senhor – Akame concordou com a cabeça.
— E mais uma última recomendação, não morram – o major completou, sério – Fiquem firmes que logo chegarão os reforços – ele enrugou a testa, sério – Estejam preparados para hoje à noite porque, nessa noite, ninguém dorme.
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