A Assassina e o Alquimista
39 Mate os usuários de Teigu
Notas iniciais
— Que você achou, Titus? – dois homens surgiram logo atrás do primeiro. O que falara era magro e alto e o outro um pouco corpulento. O tal Titus parecia ser o mais forte dos três – Ora, ora – ele apontou para Akame – Acho que já vi esse rostinho antes.
— Eu também – Titus jogou a cabeça para trás como se estivesse tentando se lembrar – Espere um pouco... Sim, nos cartazes na Praça Central. Ela é da Night Raid.
— Night Raid, heim? – o homem corpulento comentou – Devem estar pagando uma boa recompensa por ela.
— E o garoto? – o rapaz magro e alto perguntou – Deve ser da Night Raid também, não?
— Apenas matamos o garoto e levamos a cabeça dele até o governo – o corpulento continuou – Agora, seria uma pena matar uma garota tão bonita...
Alphonse se posicionou instintivamente na frente de Akame.
— Já sei – Titus sorriu, maliciosamente – Deixamos ela viva, por ora...
Quando eles fizeram menção de avançar, Alphonse não esperou mais e transmutou uma gigantesca mão de terra, acertando o mais alto dos três e o fazendo voar longe. E funcionou mesmo! Ele podia usar Alquimia novamente.
— Mas que diabos...? – o colega do homem nocauteado não teve tempo de reagir porque Alphonse já tinha chegado ao lado dele e acertou um chute na parte de trás de seu joelho. Por causa da pancada, o homem caiu ajoelhado e Alphonse aproveitou para esmurrá-lo na têmpora.
— Ora, seu... – Titus tentou acertá-lo com uma espécie de bastão, mas Alphonse conseguiu desviar facilmente das investidas dele e transmutou uma lança do chão, a tempo de bloquear um ataque do inimigo contra sua cabeça – Droga! Fique parado!
Com poucos golpes, Alphonse conseguiu desarmar Titus e o derrubou no chão. O homem derrotado arregalou os olhos para o garoto, esperando que ele o matasse, mas Alphonse abaixou a arma.
— Vá embora daqui – Alphonse disse.
Titus olhou atônito para ele, sem entender a princípio. Contudo, ele nem teve tempo de levantar porque um corte profundo surgiu no seu peito e o sangue de Titus espirrou em Alphonse. Titus caiu lentamente para o lado, com os olhos vidrados e manchas estranhas espalhadas pelo corpo.
— Akame – Alphonse balbuciou enquanto Akame sacudia a Murasame para limpar o sangue da espada – Por que você fez isso?
— Não se pode confiar em mercenários – Akame se aproximou do outro homem caído e cravou a espada nele – Eu escolhi salvar o senhor, Alphonse-sama. Não se ponha em risco desnecessário.
Alphonse não respondeu porque eles ouviram um grito vindo de onde o primeiro homem havia caído e uma mulher de cabelos louros surgiu gargalhando em meio as folhagens.
— Estava rolando uma festinha aqui, é? – ela berrou – Quando chego, acaba... Ah, e aí está você.
Alphonse olhou em volta sem entender. Aquela estranha só poderia estar falando com eles.
— Como você some por dias e aparece assim do nada, Akame-chan? – a moça continuou – Eu fiquei preocupada!
É, ela estava falando com eles. Quer dizer, com Akame. Alphonse olhou para Akame, esperando que ela dissesse alguma coisa, mas a garota estava estranhamente imóvel. Akame encarava a outra com os olhos arregalados em uma estranha expressão que Alphonse deduziu ser de choque.
— E então? – a estranha parou na frente de Akame com os braços cruzados – Não vai dizer nada em sua defesa?
— Leone... – a voz de Akame saiu fraca.
— Sim, sim, sou eu mesmo – Leone virou o rosto para o lado – E nem adianta você vir com desculpas porque você não vai escapar...
Subitamente, Akame puxou Leone para um abraço e a outra se mostrou bastante surpresa com a atitude dela.
— Heim, por que tudo isso agora? – Leone retribuiu o abraço depois de passado o susto – Não pense você que isso vai me impedir de te dar uma bronca.
— Senti sua falta – Akame sorriu levemente.
— Que gracinha você – Leone se afastou e fez um carinho no topo da cabeça da amiga – Passa uns dias fora e voltou toda sentimental, é?
O último homem que sobrou, aquele que havia sido jogado longe por Alphonse, se recuperou da pancada e, aproveitando a distração das meninas, pulou na direção delas. Porém, Leone acertou-lhe um soco em pleno ar e ele caiu aos pés dela.
— Você vai pagar por estragar esse momento – ela rosnou – Posso matá-lo, Akame-chan?
— Esperem um pouco – Alphonse resolveu se pronunciar – Vocês vão matá-lo mesmo?
— Quem é esse? – Leone parecia ter acabado de perceber a presença de Alphonse – Devo matá-lo também? – e virou-se para Akame.
— Ele, não – Akame sacudiu a cabeça – Ele está comigo.
— Com você? – Leone ergueu uma sobrancelha, incrédula – Arranjou um bichinho de estimação, Akame? – ela deu uma risadinha e um sorriso malicioso surgiu gradativamente em seu rosto – Ah, agora entendi porque você sumiu por uns dias...
O homem caído aos pés de Leone soltou um grunhido e tentou levantar, contudo Leone apoiou um pé nas suas costas.
— Estamos conversando – ela rosnou novamente para ele – Vocês dois precisam de um banho – Leone mudou de postura, do olhar raivoso para um tom mais brincalhão, ao se dirigir para Akame e Alphonse – Onde vocês estavam, heim? – e apertou o nariz, fingindo espantar um mau cheiro com a mão – Eu posso te ajudar a tomar banho, Akame-chan. E, depois, eu posso dar um banho em você – Leone lançou uma piscadela marota para Alphonse – Ou eu posso dar banho nos dois ao mesmo tempo. Sem problemas.
Alphonse olhou para Akame, com as bochechas vermelhas, mas ela apenas levantou uma mão.
— Ignore – Akame cochichou para ele – Se ela perceber que você dá importância, não vai mais te deixar em paz.
— Bom, vamos acabar logo com isso, não? – Leone se espreguiçou antes de pegar o homem sob seu pé pela garganta e, com um único puxão, quebrou o pescoço dele. Alphonse assistiu a cena com uma expressão de espanto – E, então, vamos para casa, Akame? – Leone acrescentou, alegremente – Tenho certeza que o Susanoo vai preparar um verdadeiro banquete quando eu aparecer lá com você.
— Ah, sim, claro – Akame confirmou, um pouco confusa.
— Lembra onde é o nosso novo esconderijo? – Leone tagarelava, contente, e se virou para Alphonse – Tivemos que nos mudar depois de sermos atacados pelo bando de um cientista louco. Aí, você não é daqui, né?
— Não – Alphonse respondeu, apressadamente – Eu não sou, não.
— Bem-vindo às Montanhas de Marg – Leone sorri, simpática – Um dos últimos redutos ainda não tomados pela podridão da Capital – ela puxa Alphonse por um dos braços – Espere até ver nossa base secreta.
— Ei – Alphonse tentou resistir, sem sucesso – Espera um pouco aí!
— Vamos! Não seja tímido – ela sorriu, arrastando o rapaz e sendo seguida por Akame.
***************************
— Você veio de algum outro país? Todo mundo lá é pálido feito você?
— Você tem alguma doença ou seus olhos são desbotados assim mesmo?
— Ele parece com você, Leone. Será que são parentes?
— Depois eu é que sou o estranho? – Alphonse falou, aborrecido – Olha a cor do cabelo de vocês – e indicou um rapaz de cabelos verdes e uma garota de cabelos rosa, mas ninguém lhe deu muita atenção.
Alphonse estava irritado com todas aquelas perguntas tolas. E havia um motivo a mais para ele estar tão chateado. Aparentemente, nenhum membro da Night Raid conseguia pronunciar seu nome corretamente e o infeliz apelido que Leone lhe deu acabou pegando. Agora, estavam todos lhe chamando de “bichinho de estimação da Akame”.
— Ei, bichinho de estimação da Akame – o garoto de cabelos verdes, ou Lubbock, o chamou – Você também é um assassino?
— Não. Não sou um assassino – Alphonse fez uma careta de desdém – E eu já disse o meu nome.
— Hum, Arufonsu, não? – perguntou o garoto de cabelos castanhos. Alphonse lembrava vagamente que o nome dele era Tatsumi.
— É AL. AL-PHON-SE – rebateu, aborrecido – Não é tão difícil.
— Mas, “bichinho de estimação da Akame” é mais engraçado – a menina de cabelos rosados coçou o queixo – Hum, se a Akame pode ter um bichinho de estimação, eu também posso?
— Só quando você alcançar a cota de assassinatos de Akame-chan – a menina ruiva, que chupava um pirulito, falou em um tom debochado.
— Mas isso não é justo – a “rosadinha”, quer dizer, Mine se arrepiou com raiva – A Akame-chan cresceu fazendo isso. Perto dela, eu sou uma iniciante.
— Ainda bem que sabe que é uma amadora – a ruivinha, também conhecida como Chelsea, riu de forma escandalosa, deixando a outra bastante irritada.
— Poderíamos aproveitar e dar uma festa – Leone comentou, animada – Muito saquê para recepcionar o novo integrante! Susanoo, traz a bebida!
— Mas a chefa tem que aprovar primeiro – Lubbock falou, rapidamente.
— É claro que ela vai deixar – Leone ria – Afinal, ele é o bichinho de estimação da Akame-chan!
Najenda só voltaria para a base à noite e, enquanto isso, os membros da Night Raid se ocuparam com atividades variadas durante a tarde. Leone, Mine, Tatsumi e Lubbock resolveram treinar no meio da floresta enquanto Chelsea escolheu descansar um pouco e organizar os materiais de sua Teigu, Gaea Foundation. Alphonse preferiu se esconder na cozinha, ajudando Akame e Susanoo a preparar o jantar. Aliás, fora Akame, a arma imperial humanoide era o único membro da Night Raid que Alphonse tinha alguma simpatia. Talvez, porque ele ficasse a maior parte do tempo calado e não implicasse com o forasteiro.
— Pelo que eu entendi – Alphonse falou com Akame quando Susanoo estava ocupado demais medindo o tamanho das ervilhas e não prestava atenção nos dois – Nós estamos agora dentro das suas memórias, não é?
— Não necessariamente minhas memórias – Akame cortou os temperos velozmente – É mais como... uma realidade alternativa. Lembra daquele lugar com o homenzinho branco?
— Está falando da Verdade? – Alphonse lavava tomates ao lado de Akame.
— Aqui é mais ou menos como lá – Akame continuou, calma – É uma dimensão vazia e, quando uma pessoa cai aqui, o espaço é automaticamente preenchido pelas experiências passadas da pessoa. Mas, pode acontecer de uma ou outra coisa sofrer uma alteração.
— E o que tem de diferente do que você lembra? – Alphonse olhou Akame de esguelha.
— Não sei ainda – Akame encolheu os ombros – Desculpe. Eu tentei fechar minha mente, mas algumas coisas acabaram escapando e invadiram a sua realidade. Bom, antes do seu mundo se desmanchar de vez, eu o reconstruí a partir das minhas memórias. E acabou saindo mais coisas do que eu esperava.
— Mas isso é uma solução temporária, não? – Alphonse parou o que estava fazendo e encarou Akame – Você disse que era melhor ir embora antes de tudo entrar em colapso de vez, não?
— É melhor ficarmos aqui por um tempo – Akame meneou a cabeça – Não é bom que percebam que somos os intrusos. E, também, podemos ter melhores chances de conseguir uma pista para acharmos a saída.
— O que acontece se um de nós morrer aqui? – indagou, com receio.
— Não sei ao certo – Akame deu de ombros – E, sinceramente, não quero descobrir.
— Você já esteve aqui antes, não é, Akame? – Alphonse perguntou.
— Bom – Akame fez uma pequena pausa – eu nunca tinha descido para os níveis mais baixos.
— Que níveis mais baixos? – Alphonse enrugou a testa – Onde exatamente nós estamos?
Porém, antes dele saber se Akame realmente iria responder a pergunta, os demais componentes da Night Raid chegaram fazendo muito barulho.
— A janta já está pronta? – Leone entrou se espreguiçando – Estou com tanta fome que eu acho que eu conseguiria comer mais que a Akame-chan!
— A comida está pronta, bichinho de estimação da Akame? – Lubbock bateu na mesa – Espero que tenham caprichado porque a chefa está vindo aí.
Alphonse reservou um olhar de profundo desprezo para ele.
— Vamos ajudar a por a mesa – Mine se aproximou da sala onde eles faziam as refeições.
— Sim. Assim a comida sai mais rápido – Tatsumi se adiantou para ajudar.
— Nem vem – Lubbock o corrigiu – Só vamos comer quando a Najenda-san chegar.
Porém, ao invés de ajudar os outros a arrumar, Lubbock e Leone pularam em cima de Tatsumi quando ele sentou em uma das cadeiras. A brincadeira de tentar tirar Tatsumi do lugar só parou quando a cadeira quebrou e os três caíram no chão.
— Se estivessem ajudando, ao invés de ficarem de brincadeirinhas, isso não teria acontecido – Chelsea riu dos três que gemiam de dor no chão.
Najenda apareceu um pouco depois de eles terem terminado de arrumar a mesa para o jantar.
— Ministra? – Alphonse olhou para ela, espantado.
— Quem? De quem está falando? – ela perguntou, confusa, e os outros também ficaram curiosos com a fala de Alphonse – A propósito, quem é você?
— É o novo integrante da Night Raid, chefa – Leone pegou Alphonse pelos ombros, sacudindo-o – A Akame trouxe com ela. Nós podemos ficar com ele?
— Não fale de mim como se eu fosse um bicho de estimação! – Alphonse se desvencilhou das mãos dela.
— Bom – Najenda deu uma longa baforada – Já que você sabe onde é nossa base, não podemos mais deixá-lo ir. Mas terá que escolher uma função para exercer. Todos aqui trabalham em algo que seja útil para nós.
— Ele é médico – Akame falou, tranquilamente.
— Médico? – Najenda levantou uma sobrancelha – Um rapaz tão jovem?
— Não exatamente médico – Alphonse coçou a nuca – Eu estava estudando para ser médico...
— É médico ou não é? – Chelsea perguntou.
— Sim. Quer dizer... – Alphonse meneou a cabeça – Eu sou... um alquimista.
— E que diabos é isso? – Mine se irritou.
— Para um leigo, a Alquimia é uma técnica que permite obter qualquer coisa sem restrições, mas existem várias leis que regem a Alquimia. Ela é uma ciência de compreensão, decomposição e recomposição da matéria. Seus princípios básicos são os da manipulação da matéria pelo uso de energia e da troca... – Alphonse começou com um tom professoral, mas reparou nos olhares cheios de dúvida para ele – É melhor eu mostrar – ele dá um longo suspiro e anda até a cadeira quebrada, jogada em um canto da sala.
— O que ele está fazendo? – Tatsumi cutucou Lubbock – Rezando?
— Eu sei lá...
Exceto Akame, todos arregalaram os olhos quando Alphonse tocou na cadeira e uma forte luz azulada o envolveu. Poucos minutos depois, Alphonse mostrou a cadeira novinha em folha.
— Que demais!! – Tatsumi pulou, empolgado.
— Que tipo de mágica é essa? – Najenda perguntou de queixo caído – Você usou o poder de alguma Teigu que não conhecemos?
— Não – Alphonse diz, solenemente – Não é mágica e não preciso de uma ferramenta para fazer isso. Primeiramente, eu preciso ter um conhecimento da estrutura atômico-molecular da substância a ser transmutada...
— Você consegue consertar qualquer coisa? – Mine o interrompe.
— Como eu disse – Alphonse não estava nem um pouco contente com a interrupção – conhecendo a estrutura do material, é possível fazer qualquer tipo de manipulação da matéria...
— Mostra essa mágica de novo – Lubbock bateu na mesa – Já sei! Tira um coelho da cartola.
— Você ouviu o que eu disse? – Alphonse tentava se controlar para não explodir – Isso não é mágica. É ciência.
— Tá bom – Leone abanou as mãos de forma desdenhosa – Além dessa coisa louca que você faz com as mãos, você sabe fazer outras coisas?
— Minha especialidade é Alquimia Telúrica e agora estou me concentrando em Alquimia Medicinal – Alphonse diz, sério – Mas posso manipular qualquer material, inclusive eu e meu irmão recebemos treinamento quando éramos crianças, combinando Alquimia com artes marciais. Aprendi uma técnica de luta especial em que usamos os golpes harmonizados com as transmutações alquímicas.
— Sério isso? – Leone se empolgou – Por que não disse isso antes? Vamos fazer um campeonato de luta amanhã e aí você mostra as suas habilidades.
Alphonse não parecia muito animado com a ideia.
— Você fala Alquimia – Najenda colocou o cachimbo de lado – o mesmo tipo de Alquimia utilizada na criação das Teigus?
— Não, senhora – Alphonse sacudiu a cabeça – Não conheço a Alquimia daqui, mas acredito que é uma Alquimia diferente do meu país de origem.
— Qual país? – ela insistiu.
— Amestris, senhora.
— Já ouvi falar – Najenda soltou uma golfada de fumaça – Você veio de muito longe, heim?
— Estou à disposição no que puder ser útil, senhora – Alphonse fez uma pequena reverência – Mas, antes, gostaria que a senhora me atualizasse dos últimos acontecimentos.
— Para início de conversa, você escolheu uma péssima época para fazer turismo – Najenda deu um longo suspiro – Estamos bem no meio de uma guerra civil. Lutamos contra um governo corrupto e posso dizer que a situação não está nada favorável para nós.
— Ouvi dizer que estão tendo problemas com o novo imperador, não? – Alphonse perguntou.
— Antes fosse com o imperador – Leone bufou, contrariada – Quando ele foi assassinado, achamos que nossos problemas estavam resolvidos.
— Como assim? – Alphonse olhou intrigado para ela.
— Os militares estavam descontentes com o governo – Chelsea continuou – Deram um golpe de estado, mataram o imperador e o ministro Onest e fundaram um novo governo.
— Então, isso deveria resolver tudo, não? – Alphonse pigarreou.
— Não necessariamente – Mine disse, séria – É porque você ainda não viu quem assumiu o lugar do imperador.
— A nova imperatriz, Esdeath. Acredite, você não vai querer conhecê-la – Lubbock completou, sarcástico – E vida longa à rainha.
Fale com o autor