A Assassina e o Alquimista
25 Inferno
Notas iniciais
A situação não estava nada fácil na linha de frente. Era o segundo dia de batalha intensa desde o ataque ao hospital. O sol nem nascera ainda e Olivier Armstrong observava o horizonte com um binóculos. Avistou ao longe uma grande coluna de fumaça subir rodopiando em direção ao céu.
— Mostre que você não é um total inútil dessa vez, Mustang – Olivier falou para si mesma – Eu não sei se você é muito corajoso ou um completo doido para se colocar em uma posição tão arriscada assim.
Olivier conseguiu reorganizar a defesa e os amestrinos começaram o dia com vantagem em relação ao inimigo. E também Wave em sua armadura imperial se mostrou um grande trunfo e os inimigos sofreram duras baixas e precisaram recuar um pouco.
Alex ainda não mandara notícias para sua irmã contudo, após se passar quatro horas em que Olivier avistou a fumaça da explosão provocada por Mustang ao longe, ela começou a duvidar do sucesso da operação.
— Oras – ela resmungou – Será que vou ter de salvar aquele molenga todas as vezes?
Olivier não queria admitir, mas estava um pouco preocupada com seu irmão mais novo. Não porque ela tinha medo de que fosse acontecer algo com ele, e sim, dele não acabar estragando com tudo. Uma preocupação normal, ora essa. Ela nunca fora desses sentimentalismos exagerados. Longe disso. Quem costuma ser excessivamente protetor com seu irmão mais novo é aquele baixinho do Edward Elric.
A propósito, Edward estava naquele exato momento recuperando a consciência aos poucos. Abriu os olhos com dificuldade e se viu deitado em uma cama da enfermaria. Passou a mão no rosto e sentiu algumas bandagens ao redor de sua cabeça.
— Ó, você acordou! – Alphonse se aproximou da sua cama, sorrindo. Parecia estar totalmente recuperado – Winry! O Ed acordou!
Winry chegou apressada e se debruçou na cama para ver melhor.
— Como você está? – ela perguntou.
— Com dor de cabeça – Edward respondeu com uma careta – Como foi que eu cheguei aqui?
— Você não se lembra? – Winry sentou na beirada da cama – Akame-chan trouxe você para cá. Você estava meio grogue, mas achei que era você apenas sendo você.
— Até quando eu estou ferido, você me ofende – Edward fez bico e olhou para o irmão – Você parece melhor, Alphonse.
— May usou a Rentanjutsu em meu ferimento e estou como novo – Alphonse sorriu ainda mais – Mas a nossa preocupação maior era com você. Ainda bem que Akame-chan achou você e te trouxe para cá – ele parou na frente deles com as mãos no bolso – Você precisa tomar mais cuidado, Ed. Os rebeldes tentaram invadir o hospital, mas os soldados do major conseguiram expulsá-los. Mas não sabemos ainda se tem algum inimigo infiltrado por aqui.
— Eu sempre tomo cuidado – Edward ajeitou-se melhor na cama, um pouco aborrecido com a reprimenda de Alphonse – Mas e a assassina? – ele parecia ter acabado de se lembrar de algo – Ela está bem?
— Você perguntando por Akame? – Winry ergueu uma sobrancelha e colocou uma mão na testa de Edward – Está com febre?
— Estou falando sério – Edward afastou a mão de Winry, ainda aborrecido – Ela estava ferida.
— Akame ferida? – Alphonse perguntou – Eu falei com ela, Ed, e ela não parecia estar ferida.
— Como não? – Edward segurou a testa. Sua cabeça parecia prestes a explodir – Um sujeito a esfaqueou nas costas. Pensei até que ela tinha morrido.
Winry e Alphonse trocaram um olhar meio angustiado. A pancada havia sido realmente forte. Edward não estava dizendo coisa com coisa.
— Você viu Akame ser esfaqueada antes ou depois de receber essa pancada na cabeça? – Alphonse perguntou, preocupado.
— Isso não tem nada a ver – Edward abanou uma mão – Eu sei o que eu vi.
— Ed, Akame está bem – Winry falou com ele como se estivesse explicando algo para uma criança de cinco anos – Inclusive, ela saiu logo depois de deixar você aqui para ajudar os soldados do major.
— Não é possível – Edward abanou a cabeça – Um ferimento daqueles pode ser mortal!
— A pancada pode ter te confundido – Winry falou, forçando-o a deitar novamente – É melhor você descansar um pouco mais.
— Eu não preciso descansar – Ed tentou levantar novamente, mas a pontada em sua cabeça ficou mais intensa e ele deitou de novo.
— Vou buscar um remédio para dor de cabeça – Winry deu um rápido beijo em Edward e saiu apressada, desviando das camas da enfermaria.
— E eu vou ajudar os médicos com os outros feridos – Alphonse bateu de leve no braço do irmão – Descanse mais um pouco, Ed.
Apesar daquela dor de cabeça chata, Edward continuou a pensar sobre o que aconteceu. Será que ele havia imaginado tudo? A cabeça doeu um pouco mais e ele tentou relembrar os fatos. Diacho! Ele se lembrava bem demais da luta e tudo mais. O que diabos aquilo tudo queria dizer? Edward esqueceu momentaneamente a dor e arregalou os olhos quando uma explicação para o ocorrido passou por sua cabeça.
— Não pode ser – ele balbuciou – Será possível que... será que ela é... um homúnculo?!!
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Os soldados do major Armstrong investiram sobre o vilarejo, após se certificaram de que a área do hospital estava “limpa”. As ruas estreitas exigiram que os combatentes de ambos os lados usassem as casas de pedra como principal barreira de proteção, além de que eles precisavam se movimentar com extrema rapidez. Os amestrinos marchavam conquistando mais espaço enquanto os rebeldes resistiam rua a rua, casa a casa. Ambos os lados sofreram perdas pesadas e os civis também amargaram várias mortes.
— Como está a situação, tenente? – o major perguntou ao tenente Fuery. Ele precisou gritar para a sua voz se sobrepor ao barulho.
— Os rebeldes estão recuando para o rio, senhor – Fuery tentava ajeitar o rádio portátil, mas o barulho de estática só fez piorar – Estamos conseguindo empurrá-los de volta. Vai dar para encurralá-los no rio.
— Excelente, tenente – o major fez uma expressão séria – Nós vamos conseguir.
O major estava na linha de frente, juntamente com seus soldados. Além do Fuery, Havoc e Breda também estavam próximos ao pequeno grupo do major, constituídos por mais outros três soldados e eles; assim como os demais grupos de soldados amestrinos espalhados pela cidade; tentavam se ocultar nas casas e esperavam o melhor momento para atacar os inimigos desprevenidos. Um bom pedaço do vilarejo ardia em chamas e as sucessivas explosões obrigavam os soldados que acompanhavam o major a andaram, em fila indiana, rentes à parede de uma casa.
— Ei! – todos viraram a cabeça para trás ao ouvirem um dos soldados berrar – Para onde vai?
O último soldado da fila saiu da formação e correu para o meio dos escombros. Os outros ficaram olhando, sem entender, até perceberem ele se curvar sobre uma criança que chorava encolhida no meio dos destroços.
— Saia daí agora mesmo, soldado – o major Armstrong gritou, em urgência.
O jovem soldado carregou a criança e tentou correr de volta para o grupo, mas uma explosão levantou uma nuvem de poeira que encobriu os dois.
— Mas que...? – Havoc fez menção de correr até eles para ajudar, porém precisou se encolher e cobrir a cabeça com os braços para evitar ser atingido por um dos estilhaços.
A cena que eles presenciaram, após a poeira abaixar, não era das mais agradáveis. Em uma grande poça de sangue jazia o corpo meio desmembrado da criança ao lado do soldado que tentara salvá-la. Todos ficaram alguns segundos encarando aquele cenário de horror, totalmente sem reação, até o soldado dar um grande arquejo e cuspir uma massa de sangue.
— Aqui! – Breda gritou e correu até o soldado ferido – Ele ainda está vivo!
Mas não por muito tempo, a julgar pelo buraco em seu estômago e o fato de que suas tripas pulavam para fora de seu corpo.
— E a criança? – Fuery perguntou e se debruçou sobre o pequeno corpo. A pergunta dele nem precisou ser respondida.
Breda e os dois soldados carregaram o homem quase morto pelos braços e pernas até um canto mais próximo de um muro de pedra semidestruído.
— Eu não quero morrer – o soldado machucado respirava com dificuldade.
— Pare de dizer que vai morrer – Breda retrucou – Você, soldado – ele se virou para o rapaz que estava ao seu lado – Qual o seu nome?
— Manfred Horn, senhor – o jovem respondeu, nervoso, quase atropelando as palavras.
— Certo, Horn. Segure aqui – Breda indicou a ferida do soldado caído onde jorrava sangue sem parar – Aperte bem. Precisamos estancar o sangue.
Havoc e Fuery se aproximaram em pé e ficaram observando os outros três debruçados sobre o corpo do soldado moribundo.
— Continue apertando, Horn – Breda incentivava, diante da cara horrorizada de seu ajudante, enquanto rasgava um pedaço do uniforme e improvisava um curativo.
— Não quero morrer – repetia o soldado com lágrimas escorrendo dos olhos – Não quero...
Ele parou de falar de súbito, contudo continuou com os olhos vidrados no céu.
— Está morto – disse, desnecessariamente, o soldado de óculos, ao lado de Horn, depois de checar os batimentos cardíacos do colega atingido. Em um gesto respeitoso, ele fechou os olhos do outro com a mão.
Breda suspirou em frustração e olhou a placa de identificação do soldado morto presa em seu pescoço. O nome daquele garoto era Kevin Jorgensen e tinha apenas vinte e um anos.
— O que faremos agora, major? – Havoc resolveu falar quando percebeu que seus colegas ficaram mudos por um momento – Levamos o corpo junto conosco ou...
Ele esqueceu o que ia falar ao avistar a expressão do major. Alex Armstrong estava encostado contra a parede, suando profusamente, o rosto pálido e os olhos arregalados.
— Major – Fuery chamou, receoso – O que está...?
O major não estava escutando seus subordinados. Na verdade, ele estava em outra dimensão. Uma realidade cercada de escombros, corpos mutilados e um odor terrível de carne queimada. Nada muito diferente do que estava acontecendo no momento, porém com um detalhe extra.
— Está tudo bem, major? – Fuery se aproximou mais.
O major não respondeu. Abriu a boca para falar, mas a voz não saia. Arquejou com força enquanto encarava a pilha de corpos a sua frente. Crianças com peles bronzeadas e cabelos brancos deitadas em cima do próprio sangue, pedaços de seus corpos espalhados para o lado e olhos vermelhos abertos sem focalizar coisa alguma.
— Por... que? – o major tinha dificuldade para falar – Não pode... não pode ter sido... – ele encarou as próprias mãos – minha culpa?
A atenção do major foi atraída para a figura de um homem posicionado no alto de um prédio em meio a uma nuvem de poeira.
— Ora, ora, major Armstrong – Solf J. Kimbley, o Alquimista Rubro, sorria de forma doentia para ele – Um covarde como você ainda está vivo?
— Kim... Kimbley? – a voz do major saiu fraca.
— Kimbley? – Fuery repetiu e olhou para os lados – De quem ele está falando?
— Kimbley? O Alquimista Rubro? – Havoc perguntou – Ele não já morreu tem uns anos?
— Essa não – Breda foi o primeiro a perceber o que estava acontecendo – Segurem o major!!
Havoc e Fuery eram os mais próximos do major e se entreolharam, confusos. O major continuava a suar frio enquanto Kimbley, com um sorriso sádico, pulava do alto do prédio e andava até onde Armstrong se encontrava paralisado.
— Isso mesmo, major Armstrong – Kimbley falou com arrogância – Você assassinou todos esses ishvalianos com as próprias mãos. Isso faz de você igual a mim – ele parou a poucos metros de distância e mostrou as palmas das mãos tatuadas com círculos de transmutação – NESSA NOITE, NOS ENCONTRAREMOS NO INFERNO!!
Kimbley juntou as mãos e tocou-as no chão. Uma intensa luz vermelha começou a emanar dele e o chão rachou com a força da explosão que se seguiu.
— NÃO!! NÃO!! NÃÃÃOO!! – o major se debatia enquanto Havoc e Fuery tentavam, inutilmente, segurar seus braços musculosos.
— Segurem ele!! – Breda gritou. Ele, Horn e o outro soldado de óculos correram para ajudar os dois colegas.
— Falar é fácil – rebateu, de mau humor, um ofegante Havoc.
A gargalhada fria de Kimbley fez gelar o sangue do major nas veias.
— Você vai morrer como um ishvaliano, seu lixo – Kimbley disse, com desprezo, e mais detonações cercaram ele e o major.
— NÃÃÃOOO! – o major continuava a tentar escapar dos braços de seus subordinados – EU NÃO VOU MORRER!! EU NÃO VOU MORRER AQUI!!
Com um urro mais forte, o major Armstrong jogou os seus subordinados para longe e correu para o meio da confusão de tiros e explosões, fazendo transmutações uma atrás da outra.
— Oh, não – ajoelhado no chão, Breda olhava para o major correndo alucinado ao longe – Ele vai acabar se matando!
— Temos outras preocupações – Horn apontou para o céu – O que é aquilo?
Horn indicava um vulto gigantesco no céu. Parecia uma grande ave de rapina que se aproximava deles em alta velocidade.
— É um pássaro? – o soldado de óculos ajeitou as lentes na frente do rosto para enxergar melhor – Que pássaro mais esquisito...
— Pássaro coisa nenhuma – Fuery gritou alarmado – É o anjo da morte!
— Para de palhaçada, seu frouxo – Breda o agarrou pela gola para impedir que ele fugisse.
Naquele momento, vários soldados também olhavam para cima e apontavam para a estranha aparição. Fuery não estava de todo errado em sua afirmação. Aquela estranha criatura parecia muito com um homem de asas.
— Capitão Falman – Mustang chegou correndo na frente do hospital de campanha, sendo seguido de perto pela capitã Hawkeye – O que é isso? Será inimigo?
— Não sei, senhor – Falman fazia sombra para os olhos com uma mão e olhava atentamente para a criatura alada que se aproximava rapidamente.
— Como no conto de Ícaro – Alphonse sussurrou ao lado de Falman.
— Não atirem ainda – Riza ordenou para alguns soldados que já preparavam suas armas.
A criatura deu um voo rasante no meio do campo de batalha, atirando o que pareciam ser flechas contra o exército dos rebeldes. Depois se viu que muitos dos combatentes caíram agonizando no chão, atravessados por penas pontiagudas, e não flechas.
Os amestrinos assistiram tudo aquilo sem saber se aquilo era algo bom ou ruim. Somente uma pessoa sorria com o surgimento desse novo personagem.
— Run – dentro de sua armadura, Wave abriu um largo sorriso ao avistar o amigo desviando-se em alta velocidade de flechas e tiros vindos do chão.
Sim, quem estava desviando graciosamente em incríveis acrobacias aéreas era ninguém menos que Run em sua arma imperial Elevador de Milhares de Quilômetros, a Mastema.
— Mas que diabos fazemos? – Falman perguntou, agoniado – De onde esse... essa... isso veio?
Foi aí que Falman, Mustang, Riza e Alphonse perceberam que Run não era a única criatura alada voando perto da cabeça deles. Por mais estranho que isso possa parecer, um bicho muito semelhante a um peixe batoidea flutuava acima deles, levando um rapaz sorridente e uma mulher de cabelos brancos e tapa-olho como passageiros.
— Disseram que havia aqui um grupo de azarados precisando de ajuda – Ling Yao sorria para eles enquanto Najenda concordava com a cabeça ao seu lado.
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