A Assassina e o Alquimista
21 Carnificina Encarnada
Notas iniciais
A generala Olivier Armstrong tinha razão. O ataque inimigo em pequena escala foi facilmente reprimido. Wave nem mesmo precisou liberar a armadura de sua Teigu. Mesmo assim, o tenente Erich Schönberg ficou muito impressionado com a coragem e a habilidade dos dois recrutas. Apesar de serem muitos jovens, os dois se comportavam como combatentes experientes e ele precisava reportar isso imediatamente para a general. Estava impressionado, especialmente com a garota. Ela cortava cabeças com a mesma facilidade com que se corta um tablete de manteiga. Schönberg julgou Akame muito erradamente. A primeira impressão da garota foi de que ela era delicada demais para aquele ambiente. Ficou de queixo caído quando a viu avançar com o cavalo e decepar a cabeça de um soldado da infantaria inimiga, sem hesitação. Precisou se recompor e prestar atenção na batalha ou o próximo a perder a cabeça seria ele.
O destacamento amestrino era superior em força em relação aos ameaçadores combatentes inimigos. Tão superiores que não precisaram nem de duas horas de luta para conseguir sufocar o ataque. Quase todos os soldados amestrinos, depois de verificar se os mortos tinham armas e equipamentos melhores, voltaram ao acampamento, sujos e maltratados, mas vitoriosos.
— Ei, Akame – Wave sacudiu as rédeas de seu cavalo para poder alcançar o cavalo que ia mais a frente – Está tudo bem?
— E por que não estaria? – ela respondeu sem voltar os olhos para ele.
— Não sei – ele balançou a cabeça – Eu me lembrei daquela vez no Quartel-General Central. Aquelas suas tatuagens – Wave insistia em fazer gestos inúteis. Akame ainda estava de costas para ele – Iguais àquelas que você tinha quando lutou com a taichou – ele nunca deixou de chamar Esdeath de taichou – Mas, pelo que eu me lembre, foi depois que você se cortou com a Murasame. Mas você não estava com a Murasame quando elas apareceram da última vez...
— Você se lembra disso? – Akame perguntou, olhando para frente – Achei que você estivesse muito ocupado nocauteado no chão...
— Também não precisa jogar na cara, né, Akame?! – ele falou um pouco irritado e, depois, suspirou longamente para se recompor – Aquele era o trunfo da Murasame, não é? Eu pensei, se ele apareceu agora sem você ter se cortado com a Murasame, quer dizer que ainda tem restos do veneno no seu sangue daquela luta com a taichou, não é? – Wave esperou uma confirmação, mas como ela não veio, ele prosseguiu – Isso não é um pouco perigoso?
— Não se preocupe – Akame disse.
— Como não me preocupar? – Wave falou para as costas de Akame – E não sou só eu. Alphonse Elric me perguntou o que seria isso. Ele é gente boa – e fez uma breve pausa – E está preocupado com você.
— Eu sei – Wave não podia ver o rosto de Akame mas, pelo tom da sua voz, sabia que ela deu um suspiro de frustração – Ele se preocupa demais. Eu tentei me afastar dele quando percebi isso. Mas, a comida dele era muito boa – acrescentou, casualmente.
— Não acredito que você estava pensando em comida em uma situação dessas – uma gota escorreu da testa de Wave – Você realmente é a irmã da Kurome – falou para si mesmo.
— Não só no prato principal – Akame falou em um tom bastante sério – A sobremesa também é muito importante.
Se não estivesse a cavalo, Wave teria caído para trás com esse comentário.
***************************
Aquela pequena vitória não deixou a general Armstrong mais tranquila. Ela andava para lá e para cá em seu escritório, pensando qual seria o próximo passo do inimigo. Além disso, ela ouviu atentamente o relato do assombrado tenente Schönberg. Segundo o tenente, dessa vez Mustang acertou na sua escolha. E isso intrigava a general. Onde o Exército havia arranjado aqueles dois malucos? O rapaz havia sido capturado pela sua própria divisão, mas ele não demonstrou ter nenhuma qualidade excepcional à primeira vista. E a garota tinha surgido de onde? Baseando-se nas descrições de Schönberg, aquela forma meio suicida de lutar, principalmente da garota, não era normal.
— Interessante – Olivier coçou o queixo – Gostaria de ver essa menina atuando.
— Bom, eu ouvi uma história dos soldados da Cidade Central, general – Schönberg estava sentado em uma cadeira meio bamba, observando a general Armstrong andar pelo escritório – Não sei se é verdade, mas dizem que a espada da menina é amaldiçoada.
— Amaldiçoada? – Olivier parou de andar e encarou o tenente com uma sobrancelha levantada – Que bobagem é essa agora, tenente?
— Uma história meio esquisita – Schönberg se mexeu, incomodado com o olhar da general sobre ele – Dizem que a espada foi feita com Alquimia, sei lá, só sei que ela dá uma força sobre-humana para o dono. Me falaram que a garota até derrubou o major Armstrong.
— Alex é um molenga – Olivier sacudiu a mão com desprezo – Não seria uma grande surpresa. Mas e o rapaz? Ele também teria uma arma parecida?
— Isso eu não sei – o tenente abanou a cabeça – Mas ele sempre carrega uma espada negra. A da garota tem uns tons de vermelho e, realmente, eu nunca vi nada parecido.
— Descubra tudo que puder desses dois – Olivier disse – Mustang pode ser um preguiçoso, mas não é nenhum burro. Alguma coisa não está certa nessa história.
— E dizem que os dois estavam sob os cuidados do Exército na época do Führer Grumman – Schönderg completou.
— Será que era por isso que o Exército tinha tanto interesse de capturar aqueles foragidos? – a general parecia ter acabado de se lembrar de algo – Por que eles fizeram tanta questão em capturar criminosos tão perigosos vivos? Se é que eles são mesmo criminosos. Parece que aquele bode velho “esqueceu” de nos contar alguma coisa – ela deu um longo suspiro de irritação – Onde estão as cópias daqueles cartazes dos foragidos, tenente? Vou querer dar uma boa olhada em todos aqueles rostos...
Contudo, ainda havia um problema maior para resolver. E ela precisava resolvê-lo imediatamente. A fácil vitória sobre o pequeno ataque inimigo era a prova de que havia coelho naquele mato. E dos grandes.
— Notou algo de estranho, tenente? – a general resolveu sentar em sua cadeira.
— Está perguntando sobre os rebeldes, general?
— Não, tenente. Estou perguntando como foi seu dia – a general respondeu de forma irônica – É claro que é sobre os rebeldes. O que eles estão aprontando?
— Parece que chegou um carregamento novo de armas, general – o tenente inclinou-se sobre a mesa – Eles estão começando a se alinhar nas trincheiras da linha de frente. É melhor nos prepararmos para um novo ataque.
— Tem razão – a general coçou o queixo – Nossas armas são melhores, mas não podemos subestimá-los. Reforcem a linha de frente. Apesar de que eu duvido que eles tenham força suficiente para superar as linhas de defesa.
O tenente saiu apressado para cumprir as ordens da generala. Em pouquíssimo tempo, Olivier Armstrong teve a prova de que estava certa. Nem se passara meia hora desde o último ataque, a tropa de vigilância do Exército Amestrino foi alertada por uma sequência de estrondos vindo da linha de frente.
— Ataque de canhões!! – os vigias berravam a plenos pulmões – Preparem o contra-ataque!!
Dezenas de canhões foram alinhados contra o acampamento amestrino. O ataque anterior desviou a atenção do Exército e eles não perceberam o motivo da movimentação no front inimigo. Apesar dos canhões dos rebeldes serem mais pesados, dificultando o posicionamento das armas, o elemento surpresa trabalhou a favor deles. Os amestrinos correram desesperadamente para os seus canhões, debaixo de uma chuva de explosões e poeira.
— Carreguem os canhões!! – a general lamentava-se por não poder ter trazido seus amados tanques de guerra – Andem logo com isso!!
A ofensiva foi tão intensa que podia ser sentida há quilômetros de distância. No hospital, as luzes tremiam e piscavam enquanto as camas sacudiam com os tremores provocados pelas sucessivas explosões. Alguns feridos do ataque anterior haviam acabado de chegar, entre eles o capitão Vato Falman trazido por Lan Fan. Os dois tinham sido incorporados ao pelotão de reconhecimento e, por causa disso, o grupo deles precisava ir à frente do Exército para verificar os obstáculos e os pontos estratégicos do terreno. Falman acabou recebendo um tiro de raspão no braço direito e foi enviado ao hospital, depois de receber os primeiros socorros.
— O que está acontecendo, capitão? – Winry enrolava, nervosamente, uma bandagem ao redor do braço de Falman.
— Pelo barulho, são tiros de canhão – Falman respondeu com uma careta de dor – Lan Fan, pode retornar ao seu posto. Provavelmente, vão precisar de você.
Lan Fan fez uma breve reverência e correu para fora do hospital.
O hospital estava uma confusão. Todas as camas estavam ocupadas e muitas pessoas corriam de um lado para o outro, apressadas e assustadas com o barulho.
— Onde está o doutor Marcoh? – Falman perguntou a Winry.
— Acho que está com o Ed e o Al – as mãos de Winry tremiam enquanto ela tentava cortar o excesso da bandagem com uma tesoura – Eles estão usando Alquimia apenas nos feridos mais graves. O problema é que não para de chegar feridos. Pronto, capitão. Mantenha os curativos sempre limpos para evitar uma infecção.
— Obrigado, Winry – Falman deu um sorriso discreto para ela – Temo que o número de feridos vá aumentar depois de hoje – ele comentou, observando as luzes piscarem mais uma vez.
Do lado de fora, a agitação era maior. O major Armstrong transmutara uma imensa barreira de pedra para conter a artilharia inimiga, mas eram muitos tiros alternados para deter. Além de que a barreira impedia que os amestrinos revidassem, muitas vezes as balas de canhão passavam por cima e acertavam em cheio as fileiras de soldados do Exército. A generala Armstrong berrava ordens atrás da linha dos artilheiros, apesar do barulho dos canhões. O calor das explosões obrigava os soldados que manejavam os canhões a usarem regatas, ao invés do uniforme.
— General Armstrong – Mustang chegou correndo, acompanhado da capitã Riza Hawkeye – Eles estão nos atacando com quase cem canhões!!
— Obrigada por avisar, Mustang – a general devolveu com sarcasmo – Eu quase não percebi.
— Onde eles arranjaram tudo isso? – Mustang ignorou sua resposta – Não tinha como eles conseguirem todo esse armamento – e acrescentou, inseguro – Ou tinha?
— Onde eles conseguiram, não interessa agora – a general disse – Resta saber como vamos frear o ataque. Capitã Hawkeye – ela virou-se para Riza – quero você coordenando as ações dos atiradores. Coloque um grupo em formação de combate na linha à frente dos artilheiros. Atirem em tudo que se mexer – e completou em um tom mais sombrio.
— Sim, senhora – Riza bateu continência e se apressou para cumprir as ordens.
— E suas crianças, Mustang? – a general Armstrong começou, depois da capitã se afastar – Onde elas estão? Não vai chamá-las para reforçar a defesa?
— Pode ter certeza que sim – Mustang confirmou com a cabeça – Já mandei ordens para o Wave e a Akame. Eles vão avançar pelos flancos, juntamente com a cavalaria.
— Eles também conseguem aparar balas de canhão com as mãos? – a general Armstrong debochou – Quais são as habilidades ocultas desses garotos?
— Veja você mesma – Mustang estendeu um par de binóculos para a general.
Olivier Armstrong tomou o objeto das mãos do novo Führer, depois de lançar uma careta de desprezo para Mustang, e ajustou as lentes do binóculos. Como eles estavam em um lugar mais alto, a general pôde ver nitidamente os dois recrutas avançando em seus cavalos com o restante da cavalaria. Apesar de ambos usarem uniformes como todo mundo, a general conseguia reconhecer aqueles dois de longe.
— Você pega os mil sujeitos da direita – Wave comentou com a sua companheira – E eu fico com os mil da esquerda.
— Se for demais para você – Akame rebateu em um sussurro – pode mandar o excesso para mim.
— Eita – Wave suspirou alto – Quanta falta de modéstia!
— Estou apenas sendo realista – Akame completou, séria, antes de sacar a Murasame e sair distribuindo golpes mortais em ambos os lados. A lâmina da espada subia e descia trazendo sangue e pedaços de corpos humanos junto.
— Bom, acho que tenho que fazer mais dessa vez – Wave observava o avanço de Akame com certa admiração.
Ele apressou o seu cavalo para conseguir, ao menos, acompanhar o ritmo de sua colega, apesar dele saber ser uma tarefa quase impossível. Depois de derrubar meia dúzia de inimigos, o cavalo de Wave foi atingido e caiu, derrubando o cavaleiro no chão. Wave só teve tempo de jogar o corpo um pouco para trás para não ser esmagado pelo animal. Vendo-se sem cavalo, ele não teve outra opção, senão ativar sua Teigu.
— A Arma Imperial em forma de armadura – ele gritou ao cravar a espada no chão, depois de desviar dos golpes de dois soldados rebeldes – Carnificina Encarnada, GRAND CHARIOT!!
Uma luz ofuscante envolveu o rapaz e ele se ergueu, logo em seguida, em uma imponente armadura negra. Com um pequeno impulso, Wave decolou e voou por cima dos canhões inimigos. Além dos amestrinos, os rebeldes ficaram de queixo caído com a aparição e precisaram de alguns minutos para se refazer do susto mas, tão logo eles se recuperaram, abriram fogo contra o marinheiro. Debaixo de fogo hostil, Wave nem se abalou e pulou em cima dos canhões dos rebeldes, fazendo um grande estrago.
— Mas que droga é essa?!! – a general Armstrong quase derruba o binóculos.
— São as minhas crianças – Mustang deu um sorrisinho cínico – como você disse.
— Quando acabarmos com essa revolta – Olivier resmungava consigo mesma – esses dois poderiam ser muito úteis em Briggs.
— Vai ter que entrar na fila, general – Mustang cruza os braços – Todo mundo quer esses dois.
— Eu não sou mulher de pegar fila, Mustang – Olivier usou um tom frio – Se eu quero algo, eu simplesmente pego.
Porém, mesmo com todos os esforços dos soldados amestrinos e o reforço dos dois usuários de Teigu, os rebeldes promoveram um novo ataque com uma fileira de canhões reserva, causando pesadas baixas entre as tropas amestrinas.
— Detesto fazer isso, mas... – a general sussurrou baixo para ela mesma – RECUAR, HOMENS!! Recuo temporário!! Andem logo com isso, se quiserem continuar vivos!!
— Recuar, general?! – Mustang se espantou – Você endoidou?!
— Olhe para lá, Mustang – a general apontou para os estragos na linha de frente. Os soldados amestrinos tentavam se defender o máximo que podiam, mas era difícil fugir de todas aquelas explosões – Já tivemos muitas baixas por hoje. Precisamos poupar nossos soldados.
— Tem razão – Mustang olhava para o local indicado pela general, preocupado com o avanço inimigo – Mas vamos recuar para onde?
— Vamos ter que perder um pouco de terreno – a general respondeu em um tom sombrio.
Para poupar as tropas, a general ordenou que os soldados recuassem e se protegessem, aproveitando as elevações do terreno. Seguros do fogo inimigo, eles poderiam tratar os feridos menos graves e contar os mortos.
— Gente demais para o hospital – Mustang comentou enquanto olhava para os soldados feridos deitados pelo chão.
— Não temos escolha – Olivier acenou para seus subordinados – Ou eles morrem lá ou morrem aqui. Pelo menos, no hospital terão algum momento de paz.
— General Mustang – Havoc vinha correndo e tropeçando pelo caminho – General Armstrong! Péssimas notícias!
— Não me venha com notícias ruins – a general esbravejou – O que pode ser pior do que a situação atual?!
Havoc recuou, meio receoso, por causa da reação da generala e ficou alguns minutos parado, sem falar nada, cogitando se seria mesmo uma boa ideia dar a notícia que trazia para a generala.
— Não fique aí parado feito um poste, tenente – Mustang berrou – Vamos logo, homem! Diga o que precisa ser dito!
— O hospital – Havoc arquejou, quase sem ar – O hospital foi atacado.
Fale com o autor