Subi as escadas com o Eddie logo atrás de mim, abri a porta do apartamento e ouvi o Eddie dizer:

—Vish! Esse lugar está uma bagunça. —Ele entrou e sentou na cama ao lado da porta.

—Cala boca, seu bode! —Me agachei e comecei a pegar os livros no chão.

Depois do que me pareceu meia hora, tinha terminado de arrumar meus livros, roupas, bonés dos Nets, ferramentas e minha bola de basquete autografada em minha pequena mala de viagem surrada que fazia três anos que não usava.

—Vamos bode? —Falei dando um tapa no ombro do Eddie que tinha caído no sono fazia uns 10 minutos.

—Aaaaah cara. —Disse dando uma bocejada — Na hora que o sonho estava tão bom cara. —Ele levantou-se.

—Vamos cara e pare de sonhar. —Na hora que estava saindo, dei uma ultima olhada para aquele lugar. Talvez seja a ultima vez que eu vejo esse lugar – pensei.

Entramos em um ônibus que passava do outro lado da rua da oficina. Entramos e eu olhei para todo o ônibus. Só havia duas pessoas no ônibus. Um menino com um casaco preto que estava no canto mais escuro. E do outro lado, uma velhinha falando sozinha. Eu e Eddie sentamos no fundo do ônibus. Já tinha pedido o Eddie mil vezes para jogar aquela muleta fora. Ele poderia andar tranquilo sem elas e ele sempre respondia a mesma coisa: “É parte do disfarce”.

Mexi em algo dentro da mochila e deixei cair o uma foto da minha irmã e da minha mãe no chão do ônibus. Peguei rapidamente, mas Eddie já tinha visto.

—O que houve com elas? —Ele olhou para mim.

Suspirei, pois o único que sabia dessa história era o Bill.

—Eu morava no Manhathan com minha irmã, mãe e meu padrasto, mas eu nunca gostei daquele sujeito, sempre fez minha mãe sofrer. Aos 13 anos eu, minha mãe e minha irmã iríamos fugir de lá e tentar a vida em outro lugar longe daquele verme... —Suspirei fundo. —Mas na ultima hora ela desistiu, ela ficou e eu fugi para o Brooklyn, fiquei dias e mais dias na rua, mendiguei comida, quando o Bill me acolheu e disse que eu teria que pagar por tudo que eu iria comer, beber e dormir, por isso comecei a trabalhar na Oficina, mas desde criança eu sempre me dei bem em montar e montar as coisas, teve uma época que minha mãe me deu uma bicicleta... —Consegui soltar um sorriso. —Todo santo dia eu montava e desmontava a bicicleta. Quando eu fugi, fiz uma promessa para ela. Que eu iria buscá-la daquele inferno e iria levá-la para um lugar bom. Aonde ela seria tratada como ela merecia. —Foi nesse momento que desceu uma lágrima do olho, ao lembrar-me da minha pequena irmãzinha vivendo naquele inferno. Aquilo sempre me fazia chorar.

Só que depois de um tempo ele ficou em silêncio e começou a suar frio e ficar olhando para o lado que o menino no ônibus estava.

—O que foi Eddie? —Perguntei para ele, aquilo estava começando a me assustar.

—Nada. Quase que me esqueço do seu presente — Enfiou a mão na mochila.

—Que presente? —Fiquei tão surpreso pela palavra presente, pois meu ultimo presente foi quando eu era pequeno e foi à bicicleta.

Ele colocou a mão dentro da mochila e depois de uns minutos conseguiu achar o que fosse que ele estava procurando. Era um boné dos Nets, do ano que eles foram campeões da NBA.

—Esse era o único que me faltava para minha coleção, como você sabia? —Perguntei surpreso, pois o único que sabia que eu queria esse boné era o Bill.

—Seu pai mandou e pelo que parece, tem algo especial nele, que até agora não descobri. —Eddie suava ainda mais. Pensei que ele estivesse passando mal ou algo assim.

—Algum segredo? —Comecei a verificar ele, mas não tinha nada de mais, era apenas um boné.

—Aham... —Eddie confirmou com a cabeça e voltou a olhar para o menino. —Podem ser um arco e aljavas, espadas, armadura de batalha, ficar invisível e etc...

Fiquei pensando em como um simples boné poderia se transformar nessas coisas, mas então a velhinha que estava falando sozinha atacou o menino.