A Ascensão dos Semideuses
4 Jennifer 1.4
Chegamos ao estacionamento e lá estava estacionada uma van escrito: “Delphi Strawberry Service”.
–Hum, nós vamos nessa van? –perguntei.
–Sim. Você tem algum problema contra morangos? –perguntou Eddie sorrindo.
Sacudi a cabeça negativamente. Eddie nos apresentou para seu amigo, Argos. O cara parecia um desses surfistas aposentados, só que ele usava uma roupa de chofer. Ele não falou nada, apenas deu um aceno de cabeça. Me perguntei se ele era surdo-mudo e entrei no carro, na parte traseira. Sophie se sentou ao meu lado e Eddie foi no banco do carona.
Depois de alguns minutos de viagem em silêncio, eu resolvi ligar o rádio. Estava tocando Radioactive– Imagine Dragons, uma das minhas bandas favoritas. Comecei a cantar loucamente. Então Sophie se esticou e mudou de estação.
–Sophie, posso saber por que você tirou?- eu disse irritada.
–Porque eu quis. E dai?-ela disse olhando fixamente para mim.
–E dai que vou te arrebentar sua folgada... –eu disse.
–Hã... Meninas? -disse Eddie.
–O quê?-dissemos eu e Sophie em uníssono.
–Di immortales! Não é possível. -disse Eddie alarmado.
–O quê? Do que você está falando?-eu perguntei. Então olhei para frente. Um cachorro preto gigantesco estava parado a alguns metros do carro. Ele já havia nos percebido, pois farejava o ar em nossa direção.
–Isso é um cão infernal... Era pra estar no submundo!-disse Eddie comendo uma latinha.
–Submundo? -eu disse.
–Que tal usarem seus presentes agora? –perguntou Eddie.
–Presentes? –Sophie perguntou.
–Sim, o tique taque e o anel. Pressione a coruja Jenn, ou no seu caso Sophie, a caveira. –disse Eddie.
Peguei meu tique taque de coruja, e Sophie fez o mesmo com seu anel. Pressionei a coruja e então ela cresceu até que tornou um arco dourado, com uma aljava presa as minhas costas. Era lindo. Olhei e a mesma coruja se encontrava na base do arco. Olhei para Sophie, e ela empunhava uma espada de ferro negro e cabo de couro. Era loucura tinha de ser.
–Tá legal. Mas como eu vou matar um cachorro daquele tamanho com uma espada? Eu nunca usei isso. –disse Sophie.
–Tente! Tenho certeza que dará certo. –disse Eddie.
Olhei de Eddie para Sophie. Lutar contra um cachorro gigante não estava na minha lista de “O que fazer nesse verão?”. Mas aquele arco. Olhei novamente para ele. Eu já havia praticado arco-e-flecha, e fui potencialmente boa.
–Não deveríamos simplesmente acelerar o carro e sair o mais rápido possível daqui? –eu disse.
O cão parecia ter entendido perfeitamente o que eu falei, pois ele se colocou entre o carro e a estrada.
–Ah, sério isso? Vou fazer hot dog desse cachorro! –disse Sophie. Ela abriu a porta e saiu. Eu sai logo em seguida. Quando Sophie ficava irritada, ela costumava não pensar muito, e normalmente às coisas não davam muito certo.
O cachorro saiu da pista, a deixando livre, e se aproximou do riacho, olhando-nos com seus olhos cruéis e vermelhos.
–Sophie nós temos que ter um plano de ataque. –eu disse.
–Eu tenho um plano. -disse ela.
–Você? Qual? –perguntei.
–ATAQUE! –ela gritou empunhando a espada e partindo em direção ao cão infernal.
–Sophie não. Espera!–eu disse correndo atrás dela.
Atirei uma flecha em direção ao cão, enquanto Sophie o golpeava na pata dianteira, mas o cão desviou e partiu pra cima de mim que não tive nem tempo de desviar. Ele me derrubou e eu senti suas garras cortando meu braço e minha barriga. Então de repente uma força descomunal atingiu o cão o levando pra longe de mim. Então vi Sophie empunhando sua espada e o apunhalando no coração. Ele explodiu em pó dourado, que caiu sobre nós.
–Como...? –comecei a perguntar. Então senti algo escorrendo, e ao olhar para baixo percebi que eu tinha sérios problemas. O cão tinha me ferido gravemente. Eu tinha cortes profundos por todo meu corpo e eles sangravam muito.
–Ah, meu Deus. Jennifer! –disse Sophie se ajoelhando ao meu lado.
Lágrimas escorriam por minhas bochechas. Eu não sentia nada, mas isso devia ser por causa da adrenalina que meu corpo ainda possuía.
–Jennifer? –chamou Sophie. Sua voz estava distante, como se estivesse em outro cômodo.
Então eu senti alguém limpando meus ferimentos. Então levantei o olhar e vi Eddie.
–O que você está fazendo? –perguntou Sophie.
–Estou tentando salvar a vida dela! –disse ele. –Beba isso Jenn. Vai se sentir melhor. –Ele me ofereceu um cantil com algo com um cheiro de laranja. Eu bebi. Depois recuei. Tinha gosto de brigadeiro. Não que já tivesse bebido brigadeiro, mas se existisse brigadeiro liquido, teria aquele sabor. Eu bebi mais um pouco. Senti meu corpo relaxar, e os ferimentos a começarem a cicatrizar.
Eu sorri.
–Se sente melhor? –perguntou Sophie.
–Que venha o próximo cão infernal. –respondi.
Ela e Eddie riram. Eu tentei me levantar, mais minhas pernas estavam muito trêmulas. Então Eddie me carregou no colo de volta ao carro. Eu me perguntei como ele estaria fazendo isso, já que ele precisaria de muletas, mas estava tão sonolenta que as palavras não saiam da minha boca.
Entramos no carro e eu apertei meu arco. Prendi o tique taque em meus cabelos. Sophie fez o mesmo com seu anel-espada.
–Aqui Jenn. Para o caso de você sentir alguma tonteira ou dor. –disse Eddie me entregando o cantil.
–O que é isso? Alguma espécie de poção mágica? Não vá me dizer que você é um bruxo? Estou esperando minha carta de Hogwarts há algum tempo senhor. Você está atrasado. –falei fracamente.
Ele riu.
–Não sou um bruxo. E eu teria que ser uma coruja para trazer sua carta, o que posso garantir que não sou. Isso é néctar. Bebida dos deuses. –ele disse.
–Bebida dos deuses? –perguntei.
–Vamos logo Eddie. Antes que apareça mais algum monstro. –disse Sophie.
Eu a fuzilei com os olhos.
–Eu disse para certa pessoa que precisávamos de um plano, e ela saiu atacando. –eu disse.
–Deu certo não deu? O cachorro está aqui? Nós morremos? NÃO! Então para de reclamar igual a uma velha e curte o momento da vitória! –ela disse, mudando a estação de rádio pra uma que tocava Sweet Child O’Mine- Guns ‘N Roses.
–Eddie? Eu ainda não entendi o que está acontecendo. A empousai nos chamou de meios-sangues. O que são meios-sangues? –perguntei com a voz falha.
–Bom Jenn, você se lembra de mitologia grega, das aulas do Sr. Stevens? Todos aqueles deuses gregos, aquelas histórias sobre heróis? Eles são reais. O Monte Olimpo ainda existe, mas muda de local constantemente. E agora, os deuses olimpianos estão aqui. –disse Eddie.
–O que? Os deuses existem? Então... Todos aqueles mitos são reais? A medusa? O Minotauro?-eu disse estupefata.
–É melhor não dizer esses nomes. –disse Eddie.
–Então quem realmente é você? –perguntou Sophie.
–Quando chegarmos ao Acampamento tudo se esclarecerá. –disse Eddie.
–É, acho que esse foi o nosso primeiro monstro realmente. –disse Sophie.
–Como assim? –perguntei.
–Bom esse é o primeiro que enfrentamos de fato. A empou... A perna de burro explodiu em chamas. Então esse é o primeiro monstro que mandamos... Para onde mesmo? –perguntou Sophie.
–Para o Tártaro. –disse Eddie.
–Isso sim é legal! –disse Sophie sorrindo.
–Então... Minha mãe é uma deusa? –eu perguntei.
–Creio que sim. Você vivia com seu pai não? –disse Quíron.
–Sim. Mas tem algum tempo que eu não o vejo. –eu disse triste.
–Então... Isso explica aquelas coisas estranhas que víamos. –Sophie disse. –Lembra-se daquele cara que estava seguindo a gente? Ele tinha apenas um olho. A professora disse que eu estava louca.
–Sim, me lembro bem! Hã, Eddie? Quais deusas poderiam ser minha mãe? –perguntei.
–Bem, existem as que fazem parte do Conselho Olimpiano. Afrodite, Atena e Deméter. Mas também pode ser uma deusa menor, como Hécate, Hebe ou Nêmesis.
–Hum, gostaria que fosse Atena ou Deméter. –eu disse pensativa.
–Não se preocupe, sua mãe fará contato. –disse Eddie. –Seu pai também Sophie.
Olhei de relance pra Sophie, ela encarava o chão. Bebi mais um pouco de néctar. Deus, ou deveria dizer, deuses? Aquilo era realmente delicioso. Eddie me observava pelo retrovisor.
–Não beba demais Jenn. –ele disse. Às vezes Eddie me tratava como uma criança. Eu odiava aquilo.
–Por que não? –perguntei.
–Bom, a não ser que você queira explodir em chamas, acho melhor você parar. –ele disse.
–Explodir em chamas? –perguntou Sophie.
–O néctar em excesso faz meios-sangues ficarem com febre, muita febre. Dependendo da quantidade ingerida, a pessoa pode realmente explodir em chamas. –explicou Eddie. –É utilizado como último recurso, já que é uma comida divina e também perigosa.
Então meio sonolenta eu disse:
–Garota em chamas. Farei cosplay da Katniss.
Sophie riu e disse alguma coisa que eu não compreendi, porque já tinha gradativamente caído no sono.
Acordei algumas horas mais tarde pelo que me disseram, mas que pra mim pareceram segundos. Então pensei em tudo o que tinha acontecido nas últimas 48 horas. Então de acordo com Quíron, minha mãe não tinha morrido. Ela era uma deusa. Imortal e poderosa. Uma sensação de felicidade se apossou de mim. Pensei nisso enquanto olhava pela janela e via um grande pinheiro, numa colina, envolto em fios roxos. Ok né? Minha vida já não era das mais normais.
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