Já estava na hora do jantar quando olhamos para o relógio. Partimos em disparada. Will foi para o chalé 9 e eu para o 13. Aparentemente o meu relógio deveria estar um pouco adiantado, pois os chalés ainda não estavam fazendo fila do lado de fora.

Entrei no chalé rapidamente e fui direto pro chuveiro. Eu tinha esquecido a porcaria da roupa. Sai de toalha para o que poderia chamar de “sala”. Então levei um baita susto porque Sophie abriu a porta nesse momento.

–AI MEUS DEUSES CHARLIE. –ela se virou de costas e tampou o rosto com as mãos.

Corri pra gaveta peguei a primeira roupa que vi e corri de volta para o banheiro. Dentro do banheiro me deu uma crise de riso ao lembrar da cara de Sophie. Me vesti e sai do banheiro. Ela ainda estava assustada.

–Vamos logo garota. Antes que a comida acabe. –falei, tentando ignorar o fato.

–Eu vim pro chalé com o intuito de te assustar, mas acabei me assustando. –ela balançou a cabeça descrente enquanto eu fechava a porta do chalé.

Eu ri.

A comida estava ótima. Tinha meu prato favorito. Frango com batatas fritas. Comi tão rápido que fiquei até sem ar.

–Nossa, Charlie! Fica calmo. A comida não vai fugir do seu prato. –disse Sophie.

–Fica quieta aí garota! –falei de boca cheia.

–Aí, que nojo!

Assim que comi até não aguentar mais nada, fomos liberados para nossos chalés.

Cheguei ao chalé e logo cai na cama. Sophie me deu um tapa no pescoço.

–Vá escovar esses dentes, seu porco! Chalé 5 é a alguns chalés daqui.

–Ah, garota! Para de me encher. Tá parecendo até que é minha mãe.

Me levantei e escovei os dentes rápido e logo deitei de novo.

–Boa noite irmã! –resmunguei.

–Boa noite maninho! –ela respondeu.

Quando abri meus olhos meu colar estava brilhando. Fechei os olhos instantaneamente. O brilho foi diminuindo aos poucos. Tentei me lembrar do pesadelo que eu estava tendo. Eu estava com uma lança nas mãos. Andava acompanhado de mais três pessoas. Não, espera. Não eram pessoas. Eram fantasmas. Olhei mais atentamente e com um susto percebi que eram Sophie, Jennifer e Will. Olhei para minhas mãos. Não eram humanas. Eu também era um fantasma. Foi nessa hora que o colar começou a brilhar.

Sentei-me na cama. Era de bem cedo. Já tinha amanhecido. Sophie já tinha saído. Mas tinha alguém sentado em sua cama olhando em minha direção. Esfreguei meus olhos.

–Eddie? –perguntei confuso.

–Olá Charlie! Quanto tempo hein? –disse Eddie.

–Não era pra eu estar surpreso, mas não dá pra não ficar surpreso com essas pernas de bode. –disse rindo.

–HÁ-HÁ! Você e suas piadinhas. –ele respondeu.

–O que houve Eddie? –perguntei deixando as brincadeiras de lado.

–Cara, você tem visto algo de diferente em suas noites? –perguntou Eddie.

Perguntei se os filhos de Morfeu estariam investigando o caso.

–Sim... Mas não é nada demais.

–Não, não é. A Sophie foi à Casa Grande de manhã cedo falar sobre algum sonho que ela teve também. Então achamos que signifique alguma coisa e acho que não é nada bom. –disse Eddie preocupado.

–Por isso que eu não vi aquela garota hoje... –falei.

–Oi? Que garota?

–Não é nada. Apenas pensei alto. –passei a mão distraidamente pelo meu cordão. -Mas ainda falta alguma coisa, não é?

–Falta o quê? –perguntou.

–Isso. –apontei pro meu colar.

Eddie olhou para meu colar e depois soltou um leve arquejo.

–O-onde você conseguiu isso? –ele gaguejou.

–Eu o tenho desde sempre. Por quê? Você sabe o que há de errado com ele? –expliquei o brilho intenso que aquele colar emitia.

–Olha cara. Só vi pedras parecidas uma única vez. No sótão da Casa Grande, um semideus conseguiu voltar do reino de seu pai, e trouxe consigo uma pedra. Não uma pedra qualquer, uma pedra do Jardim de Perséfone. E ela é igualzinha a sua. –falou.

–E o que isso significa? –perguntei ansioso.

–Vamos dizer que seja um presente do seu pai. Um objeto bastante valioso. –explicou Eddie.

–Continue... –incentivei-o.

–Bom. A Sophie, Jenn, Will e você tem algo em comum. –continuou Eddie.

–O que temos em comum? –perguntei.

–OS PRESENTES. –respondeu Eddie irritado.

–Ah sim. Prossiga –falei.

–Enfim, esses objetos são presentes de seus pais que vão servir para batalhas. Para se protegerem. –explicou Eddie.

–Will tem o boné não é? –perguntei.

–Sim. Sophie tem um anel que se transforma em espada, e Jenn que tem um tic-tac que se transforma num arco-e-flecha mágico.

E o seu parece ser esse colar... Que é bastante macabro. –disse Eddie.

–Então como eu faço pra transformá-la em uma arm... –então eu pressiono a pedra.

O colar se desprende de meu pescoço e parece que do núcleo da pedra começa a emergir uma imensa lança, de quase dois metros de comprimento. Era de um ferro negro, igual à espada de Sophie. Ela tinha linha divisória no meio. Então eu puxei naquele ponto e ela se transformou em duas espadas afiadíssimas. Eddie estava em estado de choque. O pavor em seus olhos confirmava que aquelas espadas irradiavam algo, algo ruim.

Eu desesperadamente tentava guardá-las, mas não conseguia. Então as juntei novamente, formando novamente uma lança. Na linha que as dividia a mesma pedra de meu colar se encontrava ali. Apertei e voltou a ser um simples colar.