Acordo cedo como é de costume, parecia ser umas cinco ou seis horas da manhã. Mas dessa vez parecia diferente, afinal, essa noite foi diferente. Eu não tive pesadelos. Normalmente, eu acordava assustado e com a respiração acelerada. Foi aí que eu me lembrei de onde estava.

Sophie dormia com um sorriso estampado no rosto. Murmurou uma palavra. Um nome. Luke. Revirei os olhos e encostei novamente a cabeça no travesseiro. Durmo novamente.

No sonho sinto que estou me afogando. É uma sensação horrível. Meus pulmões gritam por ar. Então eu levanto rapidamente. Olho pro meu colchão e minhas roupas. Estão encharcados. Olho a volta e a resposta a todas as minhas perguntas está ao lado da minha cama. Sophie está de pé segurando um balde vazio e tem um sorriso satisfeito no rosto.

–Por que diabos você me acordou desse jeito, garota? –perguntei irritado e me levantando.

Sophie não conseguia parar de rir. Colocou a mão sobre a barriga e sentou-se na cama rindo.

–Isso não tem graça.

–Admite maninho, se você estivesse no meu lugar estaria caindo na gargalhada que nem eu. –falou entre uma risada e outra, ofegante.

–É... Talvez. –respondi enquanto procurava algo pra vestir.

–Te conheço maninho, te conheço. –disse ela.

–Vai por mim, conhece não. –disse com um leve sorriso. -Enfim, por que me acordou desse jeito? – Ela não me acordou assim por brincadeira, pensei.

–Tarefas do Acampamento. –ela disse.

Tarefas, dever, obrigações, trabalho, tudo relacionado a esforço físico não me agradava. Tirando é claro, o basquete.

–AAAAAHHHH... Pra quê trabalhos? –perguntei reclamando.

–Sem reclamar Charlie. –ela disse enquanto arrumava sua cama. –Vamos. Vá tomar logo o seu banho. O café começa a ser servido as 7h.

–Aff! –resmunguei.

Fui ao banheiro me escorando pela parede, pois estava caindo de sono. Escovei os dentes em uma lentidão impressionante e fui tomar banho gelado pra acordar de vez. Depois de ontem nunca me senti tão culpado. Imaginei Sophie sozinha naquela casa. Tentando entender porque ela não poderia ter uma família como todos os outros. Estava feliz agora. Tinha alcançado meu objetivo agora. Encontrei minha irmã, mesmo não sendo do jeito que eu esperava.

Depois de eu terminar banho, olhei-me no espelho como uma tradição de todas as manhãs. Meus olhos pretos continuavam caídos como se eu tivesse com sono, meu cabelo preto bagunçado e o meu colar que parara de reluzir.

Coloquei uma blusa laranja escrita Acampamento Meio-Sangue– não curtia muito a cor laranja — uma bermuda jeans preta e meu tênis. Eu deveria ter pegado pelo menos alguma roupa antes de fugir da escola. –pensei.

–Pronto. –falei voltando para o lugar dos beliches.

–Até que fim. –disse ela.

–Shiu garota! –disse.

Quando eu saí do chalé fiquei surpreso. O acampamento parecia uma espécie de treinamento pra combate. Alguns campistas vestiam armaduras e carregavam espadas. Outros tinham arco-e-flechas nas mãos. Todos já tinham começado cedo suas respectivas “tarefas”. Se minha tarefa fossem aquelas todos os dias, eu poderia me acostumar rapidamente com a vida no acampamento.

Fomos para o pavilhão. Várias mesas dispostas. Algumas com poucas pessoas e outras extremamente lotadas. Percebi que cada mesa representava um chalé. Na mesa de Hades apenas eu e Sophie estávamos sentados. Assim que terminei de preparar meu sanduíche e ia dar aquela dentada, Sophie me cutucou.

–Levante-se Charlie! –ela disse.

–Mas por quê?

–Vamos. Pegue seu sanduíche e suco e me siga.

Levantei-me contrariado. Percebi que todos à nossa volta faziam a mesma coisa.

–Oferenda aos deuses. –sussurrou Sophie.

–Como assim?

–Temos que dar o melhor de nossa comida. –ela disse. Olhou minha cara de interrogação. –Queimar comida Charlie. Naquele braseiro. –ela apontou.

–VAMOS QUEIMAR A COMIDA? OS DEUSES NÃO TEM CONSCIÊNCIA DE QUANTO ISSO É SAGRADO? AS PESSOAS ESTÃO PASSANDO FOME!

Alguns campistas a nossa volta riram. Sophie me deu um belo beliscão.

–Fala baixo seu retardado. São regras do Acampamento!

–Regras, regras e regras. Já perdi as contas de quantas vezes ouvi isso só hoje.

Sophie me ignorou e deu um passo a frente. Pegou algumas frutas de seu prato e jogou as chamas.

–À Hades. –ela disse.

Jennifer estava ao meu lado.

–Quando jogar a comida faça suas preces Charlie. Os deuses costumam nos ajudar quando oferecemos algo em seu nome. –ela sussurrou.

Assenti. Era minha vez. Dei um passo a frente. Pai, eu bem... Sinto muito por tudo o que eu disse de você ser um completo idiota. Agora entendo porque você nos deixou. Me desculpe.

–À Hades. –falei em voz alta.