A Arte do Caos

30 Segredos Ruins


Suspirou, o ar frio de Magnólia fez o ar que saia de seus pulmões condensar em um vapor branco. O céu escuro não tinha estrelas e o frio veio com a noite. A temperatura baixa não o afetava enquanto caminhava pela cidade. Fazia uma semana que estavam ali, usando o velho apartamento da maga para ficar na cidade a pedido de Mackrov. Uma semana depois de ter perdido o controle. O fato de estar naquela cidade deixava sua parte com tendências virulentas margeando as bordas de sua consciência.

Proteger Lucy era sua prioridade como sempre. Entretanto a maga estava na guilda, segura e conversando com os amigos enquanto bebia um pouco. Não gostava muito daquele lugar e ninguém ali dentro ia muito com sua cara, então saiu para caminhar, mesmo sabendo que em breve seus pés retomariam o caminho em direção a maga.

A necessidade de ter seu cheiro constantemente por perto era uma carência fisiológica. Enterrou o nariz no cachecol vermelho roubado para acalmar o próprio corpo.

Nunca pensou que as consequências fossem tão drásticas assim. Lahar cumpriu o acordo de vista grossa, de forma contrariada, mas cumpriu. Não foi bem uma escolha já que outro dragão furioso na cidade das flores seria muita dor de cabeça. Lucy concordou em passar algumas temporadas em Magnólia, pegando missões por baixo dos panos para ganhar dinheiro e sustentar as duas casas.

Não podiam dar bandeira também.

Suspirou novamente virando mais um beco deserto na cidade. Lucy já devia ter chegado em casa a essa hora. Era bom. Preferia que ela estivesse lá, segura e onde pudesse aquecê-la e protegê-la da noite fria. Chegaria em casa e ela cuidaria de seus machucados primeiro, como nos dias anteriores e depois cuidaria dos machucados em suas asas. Ela gostava de suas asas e de quando a embrulhava com elas. Nunca entendeu isso, mas não ligava. O fato dela tocá-las lhe dava tesão. Era uma parte de seu corpo que ninguém fazia muita questão de mexer.

Desconfiava que sua parte instintiva estava retardando a recuperação do corpo só para que ela os tocasse. Não que estivesse reclamando da idéia, mesmo com algumas dores ocasionais por movimentos bruscos.

Saiu de seus pensamentos agradáveis e parou no corredor de calçamento português. Ouviu um grito.

Normalmente não pararia, todavia, o grito lhe pareceu familiar. O som de passos apressados vindos em sua direção o fez estranhar ainda mais. E risos inconstantes. Tirou o nariz do cachecol e puxou o ar profundo da noite.

Ele estava carregado do cheiro de fumo, bebida, homens cheirando a suor e a um bar ordinário. Novamente teria ignorado tudo se não fosse um outro cheiro um pouco mais encoberto que despertou sua memória olfativa. Livros velhos, linho, um pouco de talco e um almíscar de poções.

A imagem de Levy Macgarden veio a sua mente, e, na mesma hora, seu corpo pequeno veio correndo, virando no beco em que estava. Ela corria em sua direção, sem um sapato e um pouco suja de terra e água. Poucos segundos depois alguns homens viraram no beco também, com passos vacilantes, entretanto determinados atrás da baixinha.

Ela estava tão preocupada com seus perseguidores que não o viu e acabou batendo o corpo contra o seu. Segurou-a pelos ombros para que ela evitasse cair de bunda no chão. Ela se debateu por um instante até que olhou em seus olhos, parando ao perceber que não era um dos perseguidores. Ela arfou, parecendo exausta e suada. Levy pareceu perder forças por que caiu de joelhos a sua frente.

—Ei, garotinha, vem se divertir com a gente logo! — Um deles gritou, visivelmente embriagado.

Os homens pararam de correr andando calmamente ao verem a maga caída. Um deles colocou a mão no cinto da própria calça e Acnologia entendeu perfeitamente o que ia acontecer. Levy, de alguma forma que não lhe interessava, se meteu em uma encrenca das grandes e os idiotas queriam tirar proveito disso.

Não era mistério nenhum que a melhor amiga de Lucy o odiava profundamente, mesmo respeitando seu relacionamento com a maga celeste. Só que isso não era motivo para deixá-la ali para sofrer um estupro coletivo.

Contornou a baixinha tapando seu corpo com o seu próprio, permanecendo de pé em suas costas.

—Caiam fora. — Ordenou.

—Ei, caia fora você. Não atrapalhe nossa diversão! — Gritou o outro.

—Você pode voltar para casa inteiro ou quebrado. A escolha é sua. — Avisou.

O homem soltou a calça e cuspiu no chão antes de partir para cima com passos de bêbado. Inicialmente não tinha intenção de usar magia contra civis, mas assim que levantou o braço rapidamente para bloquear o soco do outro, sentiu a fisgada em seu tórax. Chutou o cara e sentiu outra, dessa vez tendo certeza que abriu um pouco a cicatriz. Estremeceu sentindo o peito queimar.

"Sem movimentos bruscos!" — Lembrou-se.

Lucy também lhe daria um belo puxão de orelha. Encheu os pulmões de magia e deixou as chamas saírem gradativamente, mirando no chão e fazendo uma parede de chamas entre os dois e os homens. Eles gritaram assustados e saíram correndo. Deixou as chamas se dissiparem e, quando teve certeza de que tinham ido, virou-se para Levy.

Agachou a seu lado, ignorando seu peito latente e a observou. Ela tinha alguns hematomas e escoriações, provavelmente recorrentes da fuga. Tremia como vara verde e parecia pálida de choque.

—Ei, acalme-se. Já acabou. — Falou.

Como ela não reagiu, colocou a mão em seu ombro. Ela estremeceu, parecendo acordar um pouco, mas ainda fora de si. Suspirou.

—Consegue andar? — Perguntou, olhando para seu pé descalço que agora possuía apenas uma meia branca suja.

Ela demorou alguns segundos antes de manear a cabeça negativamente. Colocou uma das mãos em suas costas e a puxou, enganchando suas pernas no processo. Ela arregalou os olhos ao ver que estava sendo carregada.

Só que, ao contrário do que pensou, ela não o xingou e insistiu para descer. Ela estremeceu e logo em seguida começou a chorar, apertando-se contra seu peito. Sua ferida doeu.

—Cuidado aí. — Resmungou. Ela não deu ouvidos.

Pra sua sorte ela chorou por pouco tempo, dormindo em seus braços pelo cansaço. Seu corpo tremia com o frio da noite. O vestido azul não era o mais indicado para isso. Respirou fundo para decidir se a levaria para Lucy, hospital ou guilda. Quando captou um cheiro fraco e quase imperceptível vindo dela optou por Lucy.

~*#*~

Ela abriu a porta animada, mas seu sorriso sumiu no mesmo instante que o puxou para dentro do apartamento quente. Ela tinha abastecido a lareira. Enquanto Lucy analisava o estado de Levy as acusações vieram.

—O que diabos você fez? — Acusou.

Tá, não gostava da baixinha e o sentimento era reciproco, principalmente na última semana, mas o ódio não chegava a este ponto. Contou o que aconteceu e como a encontrou observando as feições da maga mudarem, aparecendo rugas em sua sobrancelha franzida.

—O que ela estava fazendo lá? — Jogou a pergunta no ar. — Você está bem?

Suspirou tirando a camisa. Dava para ver uma pequena mancha vermelha no curativo branco que tampava os três rasgos diagonais em seu peito. Segundo Wendy, dois deles sumiriam, mas o mais grave ficaria marcado. Lucy fez uma careta.

—Por que não a levou a um hospital? — Perguntou, enquanto maneava indicando para que carregasse a amiga até o banheiro.

—Eu não queria me identificar, o que me fariam fazer quando o médico descobrisse que ela está grávida.

Lucy congelou, parando de tirar os materiais do armário da pia. Colocou a Mecgarden sentada na privada.

—Como sabe? Tem certeza disso? — Perguntou séria, as rugas na testa aumentando pela preocupação.

Bateu o indicador no próprio nariz.

—Ele não erra. — Respondeu, e virou-se para olhar a maga de runas. — Pela intensidade do cheiro é recente e eu chuto que é de Gajeel.

A maga apertou os lábios. Levy era muito jovem para ter um filho aos vinte e dois anos. Principalmente jovem da cabeça e, pelo que ouviu nessa semana, ela e o caçador de ferro estavam querendo distância um do outro. O motivo era um mistério. Agora podia especular. Também explicava o por que dela não ter se livrado dos civis. O bebê estava sugando a magia dela para se desenvolver.

—Acha que ele sabe? — Perguntou voltando o foco a seus olhos azuis.

Murchou os ombros.

—É muito recente. Não teria percebido nada se não tivesse carregado ela. Mas acho que é pouco provável. Ele não abandonaria um filho sozinho. Ainda é fim de primavera. Somos mais animais do que racionais nessa época. Ele sabe que os Dragões que estão na cidade matariam a prole se sentissem o cheiro. — Encolheu os ombros ao vê-la fazer uma careta em relação a palavra que usou. — É assim que a natureza funciona. — Se desculpou.

Ela suspirou.

—Eu entendo. — E analisou Levy. — Eu vou tirar essas roupas dela. Pegue mais faixas no outro armário. Vou precisar da sua ajuda.

Acnologia saiu para cumprir o que solicitou. Com dificuldade tirou suas roupas e colocou nela um tope e um short velho. Sabia que ela não gostaria de saber que seu namorado ajudou a dar banho nela e pioraria se a deixasse nua. Ele voltou quando terminou, colocando tudo na pia.

Pegou a pequena maga enquanto Lucy abria o chuveiro extensível do banheiro. Ajudou a manter o corpo dela sentado enquanto sua companheira cuidava dos hematomas e das escoriações. Não demorou muito para que o fizesse, ela estava mais suja do que machucada de fato. Voltou a posicioná-la na privada e saiu do local para que Lucy trocasse suas roupas molhadas por um moletom folgado e seco. Voltou e a carregou para a cama que estariam usando, se não fosse o inconveniente.

—Ela deve acordar em breve. Vou preparar as coisas para cuidar de você e pegar um pouco de comida. Sente-se ali e as ponha pra fora. — Falou apontando para o chão do quarto e saindo para a cozinha.

Suspirou fazendo o que ela pediu. Sentou-se com as pernas cruzadas no chão e deixou suas asas rasgarem suas costas. A dor foi passageira e o quarto ficou ainda menor. Tinha que tomar cuidado para não derrubar alguma coisa por acidente.

A maga voltou com um par de luvas térmicas nas mãos, uma pequena panela quente com o óleo de musgo fumegante e uma caixinha com remédios. Ela colocou tudo no chão as suas costas e abriu a caixa, pegando mais do remédio anticéptico. Permanecendo em pé ela se curvou sob si para chegar a seu tórax, tirando as fachas brancas, começando a aplicar o produto que manchava sua pele de laranja e ardia.

—Não foi feio. Abriu bem pouco na verdade. Se deixarmos respirar vai cicatrizar bem rápido outra vez. — Murmurou concentrada.

Não prestou atenção nela, deixando-a fazer o que quisesse. Ergueu a cabeça, inclinando-a para trás, fazendo com que seu rosto se enterrasse nos seios macios. Cheirou esfregando o nariz entre eles, o que provocou um ronronar retumbante em seu peito. Sentiu o corpo de Lucy retesar, mas ela não interviu, focada em sua tarefa. Expôs os caninos mordendo um dos montes por cima do pijama antes de lambê-lo.

—Acnologia! — Chiou.

Riu, o som mesclando com seu ronronar involuntário. Era fácil ficar excitado com ela e sentia que estava pelo espaço confinado de sua calça. Lucy beliscou sua barriga com as unhas. A pequena dose de dor o fez reclamar e soltar o seio que lambia. A blusa babujada apenas destacava o bico rígido. Seu ronronar aumentou.

—Pare com isso. Levy está aqui, se não se lembra. E eu tenho que terminar com seus machucados.

Ela terminou de cuidar da ferida que se abriu e se agachou as suas costas. Suspirou contrariado. A lembrança de Levy era broxante.

—Cruel. — Murmurou.

A maga riu, ajeitando as luvas nas mãos. Essa era sua parte favorita de seus cuidados: As asas. Ela tocou uma delas.

Estremeceu.

A área sensível nunca era tocada, sempre lhe provocava um choque erótico e lhe causava tremores que tencionavam e relaxavam sua musculatura. O ronronar voltou. Deixou que o membro acompanhasse o movimento de sua mão, posicionando a asa mais aberta e rente ao chão. Ela pegou uma concha do óleo fumegante e jogou em cima da pele de couro grossa e escamosa e, usando a proteção das luvas e um pano, espalhou por toda sua asa.

As escoriações e feridas da batalha já estavam quase desaparecendo por completo. Poluchka ajudou dando o óleo a Lucy para que o esquentasse e passasse por toda a envergadura. Observou-a passar o pano com delicadeza por suas escamas que brilhavam por alguns minutos até o óleo âmbar secar.

Ouviu um resmungo e virou-se para a cama vendo a Mecgarden se remexendo para acordar. Movimentou a asa para que Lucy o olhasse e, quando o fez, maneou a cabeça na direção da cama. Os dois observaram Levy se remexer até se sentar na cama em um rompante.

—Calma. — Falou a maga. — Você está bem agora. É a minha casa.

A azulada piscou repetidas vezes, analisando o lugar em que estava e depois olhando para os dois no chão.

—Lu-chan? — Ela falou, parecendo confusa.

Um instante depois ficou pálida, lembrando-se do que ocorreu. Seus olhos caíram na direção de Acnologia com um certo espanto e raiva.

—Você?...

—É. — Respondeu impaciente. — Eu achei você enquanto andava na rua.

Aparentemente não foi a melhor coisa a dizer, por que ela ficou com raiva e as bochechas infladas.

—Você os matou não foi? Claro. — Cuspiu cética. — Você poderia ter ido embora. Eu sei me cuidar! — Rosnou.

Acnologia sorriu com escárnio, expondo os dentes pontudos.

—É claro. Eu vi como você estava em ótimo estado e sob controle de tudo enquanto corria de civis bêbados e estupradores.

Ela inclinou o corpo para frente na cama enquanto apertava o edredom nas mãos.

—Eu teria! — Quase gritou. — Como você mesmo disse eles eram civis. Eu sou uma maga. M-A-G-A!

Acnologia apertou os olhos para ela e mostrou os dentes.

—Uma maga grávida e em pânico no meio da madrugada em um beco.

Levy ficou pálida como gesso.

—Seu...

—CHEGA! — Lucy interrompeu, cansada das brigas entre os dois. — Parem com isso. Você não tem o direito de brigar com ele hoje Levy. Gostando ou não ele salvou sua pele. E desde quando você está grávida?

A baixinha se encolheu na cama, voltando a apertar o edredom nos dedos e desviando o olhar.

—Descobri pouco tempo antes da confusão. Tem pouco mais de dois meses. — Ela murmurou baixinho.

Lucy apertou a ponte do nariz e respirou fundo para não surtar com a irresponsabilidade da amiga, parando momentaneamente de cuidar das asas de Acnologia.

—Gajeel sabe? — Ela perguntou.

O rosto de Levy se retorceu.

—Como sabe que ele é o pai? — Ela perguntou com certa raiva.

Só que a maga não estava com paciência para os chiliques dela.

—Levy! — Endureceu a voz.

A Mecgarden suspirou, baixando os olhos.

—Não.

Fez uma pausa. Os minutos passaram com um silêncio absoluto. Lucy tentou se acalmar, mas a irritação começou a comer suas veias.

—Você tem idéia de quanto isso foi irresponsável? Tem noção de que alguém poderia ter se machucado gravemente? Que seu filho estava em risco? O que infernos estava fazendo sozinha na rua, Levy? — Esbravejou.

A azulada levantou os olhos novamente, dessa vez mais determinados e irritados.

—Não tem nada de irresponsável no que eu fiz. Sou uma maga da Fairy Tail plenamente capaz de me defender sozinha. Não coloquei ninguém em risco. Gajeel pode ser o pai, mas o filho é meu. Minha responsabilidade. E o que eu fazia sozinha não é da sua conta! — Ela rosnou.

—Escute aqui... — Começou, mas Acnologia a interrompeu.

—Plenamente capaz de se defender? O pai não tem nada a ver com a criança? — Riu com escárnio. — Quão ingênua você é garota?

Levy voltou seu foco de ódio ao dragão.

—Não sou ingênua seu imbecil! Ele não vai ter nada com meu filho. Eu estou grávida, não inválida. Sou perfeitamente capaz de me virar sozinha...

Ele a interrompeu.

—Você não carrega uma criança humana garota ingênua. — Provocou intencionalmente. — Ela tem os genes de um dragão que está sugando toda a sua magia. Por isso você não consegue usar magia para se defender.

Ela parou um pouco, parecendo processar a nova informação e até um pouco surpresa, mas novamente suas feições se retorceram.

—Não interessa! E isso não muda o fato de que não preciso da ajuda de Gajeel!

Acnologia rosnou expondo os dentes para ela.

—Será que não precisa? Você tem pouco menos de três meses de gravidez e não consegue usar magia. A razão disso é que seu corpo está sendo foçado ao limite para conseguir sustentar a criança. Você não vai conseguir sozinha.

Levy não parecia surpresa com o que ele disse, mas com o fato dele saber. E Lucy percebeu.

—Você não parece surpresa. — Murmurou, colocando a mão no ombro do companheiro e sinalizando que tinha terminado.

Ele entendeu e guardou as asas sob a pele outra vez. A baixinha ergueu o queixo orgulhosa e determinada.

—Apesar de parecer displicente eu cuido de mim. Poluchka me contou algumas coisas. Eu sei o que fazer.

Lucy fez uma careta. Ela estava irredutível com relação ao DragonSlayer.

—O que aconteceu? — Perguntou por fim, exausta.

Ela abaixou a cabeça, entretanto pode ver os olhos cheios de água antes que o fizesse. Percebeu que ela estava acanhada e apertou o ombro de Acnologia e o encarou. Com um suspiro ele se levantou e foi para a cozinha. Lucy sabia que ele escutaria de toda forma, mas não privaria Levy de uma falsa sensação de privacidade. Assim que ele fechou a porta sua amiga desabou, como se precisasse fazer isso a muito tempo.

—Ele não se lembra. — Falou enquanto as lágrimas desciam. — Nós todos bebemos muito aquele dia. Aconteceu. Quando tentei falar com ele vi que ele não lembra de muita coisa, ou ao menos finge que sim. Desde aquele dia ele fica distante. Eu não sei. Eu fiquei arrasada e depois... Depois descobri que aquele dia deu frutos.

Lucy tirou as luvas e se aproximou, sentando-se na cama e segurando as mãos da amiga. A situação era um pouco mais complicada do que pensou que seria.

—Calma. Eu vou te ajudar, está bem? Quem mais sabe? — Ela chacoalhou a cabeça.

—Ninguém. Só vocês e Poluchka.

Apertou os lábios, as possibilidades passando em sua cabeça. Suspirou, decidindo jogar a realidade em sua amiga.

—Levy, você não pode mais fazer missões desse jeito. É arriscar a sua vida e a do bebê. Você precisa contar a Gajeel. Ele vai descobrir em algum momento. Acnologia descobriu pelo cheiro. Não vai demorar para que ele faça o mesmo.

Ela apertou a mandíbula tentando segurar o choro, mas as lagrimas desceram e seu queixo tremeu.

—E se ele não aceitar, Lu-chan? Eu estou com medo. Tem tantas coisas que podem dar errado e...

—Shii! — A silenciou, passando a mão por seu cabelo azul e tirando-o do rosto, onde grudava pelas lagrimas. — Calma. Respire fundo. Não pense nos problemas agora. Vou arrumar um colchão aqui para você dormir.

Ela maneou a cabeça, aceitando.

—Pode ser na sala? — Ela pediu. — Quero dormir e pensar sozinha.

Lucy sorriu fraco.

—Claro.

Sabia que essa era apenas uma desculpa para não ficar perto de Acnologia a noite — já que ela pensava o pior de seus possíveis transtornos noturnos – e para chorar. Puxou sua mão para irem até a cozinha e ela comesse um pouco. Deixou-a na mesa enquanto arrumava alguns sanduiches para comer.

Acnologia estava do outro lado da sala, espremendo algumas frutas para o suco. O olhou pela primeira vez no dia, vendo a cicatriz em formato de Y em suas costas, um pouco rosada, indicando que tinha cicatrizado recentemente. Lembrou-se de Lucy falar que ele tinha se machucado ao lutar contra os dragões. Ela se estendia de uma forma feia e parecendo um vergão entre suas omoplatas. Ele se virou, colocando a jarra na mesa e pode ver os três rasgos diagonais no peito também.

Estremeceu. Para algo atravessar as escamas de um dragão era necessário muito poder. Aquilo devia ter doido muito.

~*#*~

—O que você sabe? — Perguntou assim que Levy foi ao banheiro querendo tomar um banho por si mesma dessa vez e, claro, ver os estragos que sua imprudência tinha causado.

Acnologia sabia perfeitamente quais eram suas dúvidas e já esperava por elas. Terminou de colocar o colchão na sala e falou.

—Minha marca não fortalece seu corpo apenas para resistir a minha magia ou a minha força. Ela o fortalece por que caso você tenha um filho seu corpo vai suportar e sua magia teria o meu suporte e proteção. — Respondeu encolhendo os ombros e escolhendo as palavras, sabendo que Lucy jamais poderia ter um filho.

Ela suspirou, bagunçando os próprios cabelos.

—O que mais?

—Ela precisa da presença de Gajeel por que a transferência de magia dele para o corpo dela ajudaria a suportar. O ideal seria que ele a tomasse como companheira, mas não sei o que está acontecendo. Mas se ela quiser que o filho sobreviva vai precisar da magia de um dragão em seu corpo.

Acnologia afastou mais alguns móveis enquanto Lucy ajeitava os travesseiros antes de continuar.

—Sei dessas coisas por que já vi dragões com companheiras antes e seus filhos também. Principalmente durante a guerra. Um humano não carrega um filho nosso sem que seja nossa companheira. Ele morreria antes de nascer. Tem algo a ver com a compatibilidade magica e genética. Eu nunca entendi muito bem. — Encolheu os ombros outra vez enquanto colocava as mãos nos bolsos do moletom. — Zeref tentou me explicar uma vez quando estudou sobre a minha magia, só que não dei muita atenção. Eu não queria uma companheira na época e o fato de não poder ter filhos sem uma era bom pra mim.

Ela percebeu que ele tentou deixar claro que não ligava pra crianças. Uma forma de não a deixar triste com o fato de que não poderia gerá-las. Sorriu reconhecendo e agradecendo isso.

—Ela precisa da magia de um dragão. Qualquer dragão? — Perguntou curiosa e preocupada, sua mente trabalhando e articulando todas as formas possíveis de ajudar a melhor amiga.

O rosto de Acnologia se retorceu em uma careta irritada e furiosa.

—Pode tirar essa sua idéia da cabeça. Nenhum dragão iria topar pegar a cria de outro. Eu principalmente.

Lucy encolheu com o tom brusco.

—Por que não? — Suplicou.

Suspirou e apertou o nariz tentando lembrar a si mesmo que a maga ainda tentava compreender algumas coisas sobre sua natureza. Explicou com um pouco mais de calma.

—Lucy, apesar de termos forma humana ainda somos animais. Um dragão não quer que outro se prolifere da mesma forma que um tigre não quer que seu rival perpetue sua genética. — Respirando fundo a olhou nos olhos. — No meu caso o buraco é mais embaixo. Você é minha companheira. Eu tenho um laço com você. Apenas um que não tenha uma companheira poderia cogitar essa idéia improvável. Eu entendo que ame sua amiga, mas não tem nada que eu possa fazer. Só o fato dela estar aqui, gravida e sem a chancela de um dragão já faz com que minha parte menos compreensiva fique irritada. Eu sinto isso a cada segundo. Se eu fornecesse minha magia a ela iria matá-la. Ou a criança. Sem falar na briga que iria resultar quando Gajeel descobrisse.

Lucy murchou, a esperança abandonando seu peito. Sentia-se ansiosa e preocupada, pilhada a mil por hora. Estava com medo por Levy. Gajeel era esperto e muito cabeça dura. E a baixinha, apesar de toda sua inteligência, adorava guardar e alimentar um rancor. Quanto mais tempo levasse para os dois se entenderem pior seria.

—Sua outra parte não aceitaria nem se fosse por mim? — Fez uma última tentativa.

Os olhos azuis escuros entraram na sua alma e a resposta veio cortante.

—Não.

Suspirou, desistindo da idéia. Teria que pensar em uma solução para ajudar a amiga antes que fosse tarde demais. Iriam embora em dois dias por que Lahar avisou que a cidade passaria por um chek up. Os turistas iriam embora e seria a oportunidade perfeita para fiscalizações do conselho. O plano era pegar uma missão e voltar a Magnólia quando as coisas se acalmassem.

Precisava de uma solução.

~*#*~

Primeiro pensou que estava sonhando quando sentiu uma mão apertar seu seio e descer para sua vagina, onde abriu os grandes lábios e os dedos quentes com pontas afiadas começaram a brincar com seu clitóris e sua entrada. Abriu as pernas a medida que seu prazer aumentava e fechou os olhos não querendo acordar. Os dedos deslizaram para dentro enquanto a palma esfregava o botão sensível enquanto movia a mão, simulando uma foda.

O orgasmo veio rápido e intenso. Gemeu baixinho e, quando abriu os olhos meio grogue de sono e de prazer, percebeu que não era um sonho. O ronronar áspero ecoou colado a seu ouvido.

—Te ver gozar assim é tão gostoso. — A voz reptiliana alterada ecoou em um sussurro.

O sono se dissipou em um segundo. Desfez a conchinha virando-se para trás rapidamente. Deparou-se com olhos vermelhos que contrastavam com a escuridão. A luz da lua e da rua lhe permitiram distinguir a silhueta com algumas escamas negras pelo corpo, asas para fora e uma calda que se enrolava atrevidamente em suas coxas.

—Acnologia! — Exclamou com o susto.

Aquela era a parte mais irracional dele. A que controlava todos os seus instintos animais. Pensou que jamais veria a presença dominante dela de novo depois do incidente e de ter conseguido acalmá-lo.

Ele expôs os caninos ainda mais afiados em um sorriso carinhoso. Ou o mais próximo que podia fazer de um.

—Eu senti que precisava de mim. — Ele ronronou, puxando seu corpo para mais perto. — O que quer? — seu nariz enterrou em seu cabelo.

Podia chamá-lo quando precisava? Isso era novidade. Precisava lembrar-se disso. Ao contrário da parte humana racional de Acnologia, essa parte, apesar de infinitamente mais perigosa e volátil, sempre parecia mais disposta a realizar cada mínimo desejo seu. Usou isso em sua vantagem.

—Levy está com problemas. Preciso de ajuda. O filho dela pode morrer e ela também.

O corpo dele enrijeceu contra o seu. Um rosnado agudo ecoou e ele retirou o rosto de seus cabelos erguendo os olhos para a porta do quarto, onde ele sabia que Levy estaria dormindo no outro cômodo. Enrijeceu também com medo de que ele fizesse algo contra ela. Só que ele não fez nada.

—Ah, sim. A cria do filho de Metalicana. — Ele falou de forma contida e com certa raiva. — Não vai sobreviver por muito tempo assim. — E abaixou a cabeça de novo para cheirá-la, decidindo ignorar a criança.

Lucy apertou as mãos em seu tórax, receosa.

—Por que você diz que o filho dela não vai sobreviver? Eu entendi o resto, mas essa parte... — Parou sem saber o que falar.

Acnologia abaixou o rosto para olhá-la. Esperou, sabendo que ele buscava as palavras em sua consciência humana.

— Dragões comem magia. Eu sou capaz de comer todas elas, mas sou uma exceção. O filhote vai herdar a magia do pai. Nosso gene e mais forte. Ele vai se alimentar da magia da mãe por que é compatível com ela até nascer. Mas não será o bastante. — Ele fez uma pausa, abaixando a cabeça para enterrar o nariz em seu pescoço enquanto se reacomodava na cama. — Ele precisa comer a magia do pai e, sem a marca dele, o corpo dela não vai aguentar o estresse e vai expulsá-lo do ventre.

Demorou um pouco para digerir a informação. O bolo se formou em sua garganta, preocupada com a amiga. Levy amava aquela criança. Viu isso em seus olhos no jantar enquanto falava. Mesmo sendo uma mãe jovem e totalmente despreparada ela amava seu filho antes mesmo dele nascer.

—Você tem certeza que não pode ajudar? Ela precisa da magia de um dragão.

Esse rosnado veio mais rápido, bruto e selvagem, talvez até com um pouco de ira. Ele soltou sua cintura e puxou seu queixo bruscamente para olhar em seus olhos. A íris vermelha a intimidou.

—Minha lealdade é com você e só a você. Eu uso minha magia apenas por você. Não vou dar minha magia a prole abandonada de um caçador idiota. — Ele cuspiu, mais ríspido e expondo os caninos em indignação. - Eles não são meus para chancelar. Seria caçar uma guerra sem fundamento com outro dragão. E eu não vou ajudá-los a viver e prosperar. É dizer que aprovo o seu abandono.

Lucy estremeceu e se encolheu com a raiva com que ele falou. Seus planos estavam indo por água abaixo de qualquer forma. A baixinha, apesar dos pesares, era sua melhor amiga desde o primeiro dia na guilda. Não a ajudar a magoava.

—Isso é cruel. — O sussurro escapou dos seus lábios antes que pudesse contê-lo.

Acnologia percebeu sua tristeza. Suspirou tentando puxar uma calma que não tinha. A embrulhou nos próprios braços, massageando os fios loiros com a ponta dos dedos. Lucy não entendia seu mundo com propriedade e queria ofertar gentileza onde não poderia.

—Eu faria qualquer coisa por você. — Ele confessou mais calmo. — Mas não isso. Não somos uma espécie tão cruel quanto pensa. Se o filho de Metalicana estivesse morto e você me pedisse para ajudar, eu ajudaria. Seu desejo é sempre uma prioridade para mim. Só que ele vive e não está fazendo o que deve. Proteger seus filhos e sua companheira seria dizer que seu comportamento não terá consequências.

Lucy se apertou contra ele entendendo que o assunto poderia ser muito mais complexo do que imaginou. Mesmo assim ficou triste.

—Ela é minha melhor amiga. Eu preciso ajudar.

Ele gemeu. Um som agonizado de lamento, apartando-a contra seu corpo.

—Não poder te dar algo que você quer me mata. — A embrulhou em suas asas, fechando os olhos e inalando seu cheiro. — Peça qualquer outra coisa.

A maga comprimiu os lábios, vendo que ele se esforçava além dos seus limites para tentar ajudar. Rearticulou suas ideias atrás de algo paliativo.

—Se existe a possibilidade de outras pessoas a machucarem eu quero poder protegê-la. Você pode me ajudar com isso? — Ela perguntou, com medo de erguer a cabeça para olhá-lo.

Sabia que a questão territorial entraria no meio. Se ele puxasse seu lado inumano pra valer outros dragões não seriam facilmente permitidos em seu território.

—Isso eu posso fazer. — Lucy soltou o ar com o alivio. - Não gosto, mas vou fazer por você.

Enfiou o rosto em seu peito e o abraçou de volta. Precisava arrumar um jeito de voltar a Magnólia mais cedo e de ajudar seus dois amigos a se reconciliarem. Levy e Gajeel teriam que se acertar de algum jeito ou a coisa poderia ficar feia. Entretanto já tinha conseguido alguma coisa.

—Obrigada. — Murmurou abafada contra seu tórax.

Suas duas mãos agarraram sua cintura e a puxaram para cima, enfiando novamente o rosto em seu pescoço e cheirando-o. Estremeceu quando a língua quente percorreu sua pele até a orelha.

—Ainda sinto o cheiro do seu gozo. — Ele ronronou. — O que quer fazer comigo? — Ele perguntou sugestivo.

De repente entendeu por que ele ignorou o fato de Levy estar no cômodo ao lado e de ter aceitado tão facilmente sua segunda proposta. Aquela parte de Acnologia não possuía dominância. Ele só aparecia quando se forçava em momentos de extrema necessidade ou quando ela desejava que aquela personalidade aparecesse. Da primeira vez que ele apareceu foi para salvá-la e, no processo – quando foi acalmá-lo – usou o sexo como dissuasão. Ele gostou de passar horas realizando cada desejo, fetiche e curiosidade sua no ato prazeroso.

Tinha criado um monstro.

Ele usaria cada pequena oportunidade de controle que ganhasse para isso. E estava disposto a permitir a vida do filho de Levy por que sabia que ganharia mais presença assim. Para uma parte irracional e movida pelo instinto, ela era bem esperta.

Sorriu com malicia. Gostava de quando ele deixava experimentar o que quisesse com seu corpo. Já que tinha criado um monstrinho faria questão de aproveitar.

—Quero brincar com você. — Respondeu.

De repente percebeu que precisava de um escape. Mesmo não estando na pele da baixinha, sentiu-se cansada com o desgaste que isso causaria. O Mestre já estava indisposto com o conselho e os magos estavam sendo apertados pelos danos e recursos usados para a batalha em Magnólia. Eles estavam irritados com o fato de Acnologia ter resolvido o assunto e não ter sido capturado ou morto. Obviamente os conselheiros caíram na mentira de que o dragão tinha aparecido por acaso para matar seus conterrâneos.

Lucy jamais poderia imaginar que os soldados de Lahar tinham tamanha lealdade para com seu capitão. Eles mentiram também. O que aconteceu naquela dimensão fantasma permaneceu lá.

Empurrou seu peito de leve, indicando para soltá-la.

—Não quero incomodar Levy.

Ele fechou a cara e viu seus olhos ficarem raivosos. Riu, vendo que ele entendeu erroneamente sua fala, mas não quis explicar. Levantou-se da cama e foi para a escrivaninha, tirando de lá um selo mágico. Sua querida governanta, há muitos meses atrás, antes de toda confusão, não gostava dos seus amigos barulhentos e lhe tacou um monte deles na cara antes de sair andando de queixo erguido para a rua.

Bastava grudá-los na porta e durante poucas horas ninguém ouviria nada de dentro do cômodo. A não ser algo realmente estrondoso. Usava estes selos quando Natsu dormia lá e bebia muito. Por alguma razão a bebida o fazia roncar e falar a noite.

Posicionou o selo e o ativou, virando-se para voltar para a cama. No caminho descartou a camisola e a calcinha pelo chão. Ouviu o ronronar gostoso vindo dele enquanto sentia seus olhos percorrendo o seu corpo. Subiu na cama ficando de joelhos. Os músculos tensos indicavam o quanto ele se segurava. Sorriu.

—Eu quero brincar com você e depois quero transar com você na posição que eu quiser. — Mesmo com a vergonha queimando sua face não conseguiu manter as palavras guardadas.

Sentia-se uma pervertida. As vezes se perguntava se isso não era vergonhoso demais e se devia ficar mais na sua. Entretanto Acnologia sempre conseguia deixá-la à vontade. Seria divertido. Subiu em cima de suas coxas fortes, empurrando-o para trás, forçando-o a deitar. Ele ronronou, se ajeitando como podia em sua cama e agarrando suas cochas com as mãos.

Enfiou a mão em seu calção frouxo de moletom e agarrou seu pênis. Ele não usava cueca para dormir. O puxou para fora aperando a cabeça com cuidado. O ronronar ficou mais forte, mas ele não tirou os olhos dos seus.

~*#*~

Ele embrulhou parte de seu corpo com uma asa enquanto ronronava em suas costas. O barulho era calmante. Suas mãos também apertavam suas costas lhe fornecendo uma massagem gostosa depois de tudo o que fizeram. Isso só a deixou mais mole e sonolenta.

—Eu adoro o que faz comigo. — Ele murmurou.

Sabia que a deixaria em paz por que estava esgotada. Os dois na verdade.

—Às vezes me sinto uma pervertida. — Falou.

Sua pequena insegurança deslizou por seus lábios antes que pudesse contê-la. O nariz dele parou de fuçar seu cabelo e o ronronar cessou abruptamente.

—E qual é o problema disso? — Ele falou, sua voz parecia indignada. - Você gosta de sexo e não há nada de errado nisso. Não sei por que os humanos tentam transformar isso em um problema. Eu amo o fato de você se divertir comigo, então tire isso da cabeça.

Suas palavras foram rudes e grosseiras, mas acalentadoras. O fato dele não julgá-la por gostar de passar o tempo com ele dessa forma a fazia sorrir. Cana passava sua vida assim e algumas pessoas falavam em suas costas. Ela não ligava e ainda procurava umas brigas. Lucy, entretanto, não possuía tanta cara de pau assim.

Suspirou. As preocupações voltaram rápido em sua mente.

—Vamos ir embora em pouco tempo, mas preciso voltar para ajudar Levy.

O ronronar retornou enquanto ele se enroscava entorno de seu corpo. Entendeu isso como uma forma de dizer não estou nem aí.

—Quanto tempo você imagina que Levy possa aguentar? — O instinto de Acnologia já tinha se provado preciso até demais. Talvez fosse capaz de ver algo que não podia.

—Com o nível de magia dela? Pouco mais de um mês. Depois disso o corpo dela vai expulsar a prole.

O bolo se formou em sua garganta. Precisava ajudar o filho de Levy, mas não fazia idéia de como. Tinha pego uma missão com Lahar de espionagem. Não podia dar pra trás com sua palavra agora. Faria a missão o mais rápido possível e voltaria. Com um pouco de sorte não demoraria mais de uma semana. Ajudaria a espairecer a mente.

~*#*~

Agradeceu ao garçom pela taça de vinho e bebericou. Aquela era mais uma das festas de gala que odiava acompanhar seu pai quando pequena. Entretanto os hábitos que aprendeu para se aparentar ser da alta sociedade ajudavam muito na missão. Bajular pessoas endinheiradas e ser simpática era um trabalho mentalmente cansativo, principalmente quando os problemas de Levy pairavam em sua mente.

A missão era clara: descobrir suspeitos de envolvimento com atividades ilícitas no mercado negro que tentariam fazer negócios durante a festa de noivado da princesa de Arcádia. Lucy estava lá com um nome falso, Lucia Hatoshi, investidora solteira e Acnologia era seu guarda costas altamente treinado.

O plano era muito bom, tirando o fato de Acnologia não gostar nada quando alguém se aproximava demais. Só que isso estava sendo fácil de contornar já que estava se focando em tudo, menos na missão.

Suspirou sabendo que teria que conviver com as pessoas no castelo por uma semana. Uma longa e dolorosa semana. Tudo que queria era encontrar uma pista solida o bastante, dar para Lahar seguir e cair fora com um bom pagamento.

Observou o salão pela milionésima vez procurando alguém suspeito. Teria sido mais fácil se o soldado tivesse lhe contado que tipo de contrabando estavam fazendo. Não seria fácil encontrar podres na corte.

—Ouviu alguma coisa? — Perguntou a Acnologia que estava em pé as suas costas, usando um terno bem elegante, sem gravata.

Era difícil tirar os olhos dele. Acnologia conseguia ser bem sexy vestindo algo mais elegante, principalmente com os fios longos e as estrias azuis que — se chegasse bem perto – podia ver que saiam um pouco da cobertura do colarinho branco, o que despertava uma imensa curiosidade para saber onde terminariam. Aparentemente as vindas constantes de seu outro lado deixavam sequelas.

—Não. — Ele resmungou entediado. Sua cara não era das melhores. — Exceto que aquele cara ali vai trair a esposa com a dançarina. — E apontou com o queixo para um empresário do ramo ferroviário importante em Arcádia.

Suspirou também entediada. Aquela notícia tinha sido o ponto alto da noite. Barracos e fofocas a parte, já estava começando a duvidar que a dica que Lahar tinha recebido era real. Não tinha ninguém ali que aparentasse fazer coisas erradas. Bom, tinha umas fofocas correndo, alguns adúlteros e segredinhos sujos, entretanto tudo isso era muito comum e nada era fora da lei. Imoral sim, mas a lei estava sendo bem respeitada.

Não queria que aquela missão durasse muito.

Erik Satoshi, um empresário bem famoso no ramo imobiliário estava vindo em sua direção. Era jovem, com seus vinte e oito anos já tinha feito mais fortuna do que a maioria das pessoas conseguiria na vida. Ele estava na lista de "solteiros cobiçados" das revistas no momento. Intitulado nos tabloides como homem misterioso e educado. Ele era de fato muito cavalheiro e o mistério era de nunca ter saído com muitas garotas.

—Senhorita Hatoshi, como vai? Vi que estava isolada. Espero que não esteja sendo inconveniente em lhe fazer companhia. -Como tinha dito, um perfeito cavalheiro.

Sorriu com maestria como costumava fazer.

—Só Lucia, por favor. Não me incomoda em nada Satoshi-san. — Ele sorriu também.

—Apenas Erik. — Ele pegou uma taça de champanhe com um garçom que passava. — Estes eventos são tão entediantes para você também?

Ele tinha percebido. Aparentemente tinha perdido um pouco a prática. Sorriu, bebericando o vinho. Percebeu um breve olhar por cima de seu ombro.

—Na verdade sim. Desejo minhas sinceras felicidades aos noivos, mas as negociações intermináveis estão sendo bem enfadonhas. — Jogou verde.

Ele sorriu também e se reposicionou.

—De fato. Vamos manter isso como nosso segredinho. Estou entediado também. Pelo menos sei quando uma reunião de negócios vai acabar.

Lucy suspirou e, impaciente, resolveu tentar uma jogada arriscada.

—Sim, sim. Principalmente quando há rumores ruins entre os negociantes.

Erik se virou para olhá-la, tirando seu foco de onde quer que fosse.

—Ouvi isso, mas foi no mercado do Oeste. Dificilmente alguém aqui teria envolvimento, principalmente com a corte de um país em crescimento.

Sorriu amarelo.

—É claro. Estava só desabafando. Tenho tido muitas preocupações ultimamente.

—Te entendo. — Falou cortes. Provavelmente pensando em como o mercado estava difícil. — Na verdade também quero desabafar uma coisa. Recentemente venho recebido algumas ameaças. Fiquei sabendo que seu guarda costas é um mago. Onde conseguiu um para contrato vitalício? Guildas são bem mais lucrativas, principalmente para os avançados. Poderia me indicar algum?

Sorriu. Lahar tinha colocado Acnologia como Classe S na documentação necessária para o castelo permitir sua entrada. Não adiantaria muito mentir já que foram checados quando chegaram. Magos classe S não faziam contratos de segurança. Não era interessante nem lucrativo o suficiente.

—Ele é um achado único. — Respondeu. — Tive apenas uma grande oportunidade e muita sorte. Acnologia não tem tido muitos contatos desde então. Sinto muito.

Seus olhos murcharam em desânimo.

—Entendo. Agradeço de qualquer forma. Quem sabe eu dê sorte também. — Ele virou o resto do conteúdo da taça. — Vou pegar um pouco mais de bebida. Com licença.

Sorriu e acenou em despedida.

—Isso foi estranho. E eu não gostei. -Acnologia murmurou em suas costas.

Ele tinha mantido seu nome por ser pouquíssimo conhecido em Arcádia.

—Ele foi gentil. Nesses eventos as conversas começam assim.

Ouviu um rosnado baixo.

—Ele estava era afim de você.

Bebericou mais o vinho antes de falar.

—Ele é gay Acnologia.

O sentiu encarando-a.

—Não é nada.

Suspirou.

—Meu Gay-dar não falha. Agora sei por que ele não sai muito com mulheres. Os repórteres já deviam ter desconfiado. Além disso ele estava afim de você. — Ouviu-o engasgar e se virou vendo sua cara perplexa.

Teve que se segurar para não rir.

—O que foi? Poderíamos virar melhores amigos e discutir sobre sua beleza sexy. — Não pode segurar e deu uma rizada. — Não percebeu que ele, basicamente, só perguntou sobre você?

—Haha. — Murmurou pegando a taça de vinho de suas mãos.

Ele não gostou nada de sua observação astuta.

—Ei! — Protestou. — Seguranças não podem beber.

Ele apertou os olhos em sua direção.

—Esse aqui precisa. — E virou a taça consternado.

Olhou a sua volta e o desânimo a abateu. Não conseguiriam nada hoje.

—Vamos para os quartos. Estou cansada.

Saindo a francesa sem se despedir subiram as escadas. No caminho viu um carrinho de bebidas e comida. Sem cerimônia pegou uma garrafa e duas taças. Acnologia deve ter entendido o recado por que pegou a bandeja de aperitivos.

Virou o corredor e dois corpos pequenos se chocaram contra suas pernas. Se equilibrou e olhou para as duas crianças. Uma garota de cabelos castanhos e um menino de cabelos loiros tão claros que quase confundiria com brancos. Os dois pareciam prestes a chorar, mas o menino fazia pose de durão enquanto a menina já tinha algumas lágrimas escorrendo. Deviam ter treze anos mais ou menos. O menino um pouco mais velho.

Antes que pedisse desculpas ou perguntasse o problema o garotinho puxou a menina e sumiram pelo corredor.

—O que foi isso? — Perguntou a Acnologia.

Ele também parecia intrigado, com os lábios franzidos.

—Sei lá.

~*#*~

Como exigência padrão, o quarto dos seguranças tinha de ficar do lado da pessoa designada a proteção. Isso facilitava muito sua vida, já que o dragão pulava facilmente de uma janela a outra. Mastigou outro pedaço de queijo já devidamente vestida com uma blusa do namorado. Estavam sentados no chão do quarto no tapete enquanto comiam e bebiam, sem ninguém dizer uma palavra.

—Você está muito calado. — Lucy observou.

Acnologia encolheu os ombros. Ele vestia apenas um calção escuro.

—Aquelas crianças tinham um cheiro estranho.

Vincou as sobrancelhas, colocando a taça no chão para abraçar suas costas.

—Algo com que se preocupar? — Perguntou.

O dragão pegou outro petisco.

—Não. É só esquisito.

—Hum. — Murmurou apoiando o queixo no topo de sua cabeça.

Ele suspirou e a puxou para sentar em suas pernas cruzadas, beijando o topo de sua cabeça.

—Você estava bem aérea hoje. O que houve?

Enfiou o nariz em seu pescoço antes de responder.

—Nada. Ainda estou preocupada com Levy. Quero terminar isso logo.

Ainda com a cabeça apoiada começou a trilhar os dedos pelas estrias azuis que começavam na base do pescoço. Elas aumentavam toda vez que a outra parte aparecia, e sumiam a medida que o tempo passava. Acompanhou as linhas descendo por seu peito. passando suavemente perto das cicatrizes.

—Você não pode fazer nada por ela agora. Tem que deixá-la pensar um pouco. Quando voltarmos você tenta colocar juízo na cabeça dela.

—Eu espero conseguir. — Murmurou aconchegando-se no calor do corpo do dragão.

Acnologia suspirou antes de soltá-la e se dirigir ao banheiro da suíte para tomar uma ducha rápida, mantendo a porta aberta. Lucy continuou comendo alguns queijos por um tempo antes de largar tudo no chão e se jogar de costas na cama. Respirou fundo enquanto olhava para o teto decorado com um lustre desnecessariamente extravagante.

—Lahar disse de onde vinha a pista? — Ouviu-o falar com a voz um pouco mais alta de dentro do chuveiro.

—Sim. — Respondeu com a voz normal, sabendo que ele seria capaz de ouvir. — Foi uma dica anônima não específica. Mandaram uma carta para o conselho dizendo que alguém no castelo estava envolvido em atividades sujas, mas não especificaram quem ou qual a atividade. Lahar supõe que seja algo do mercado negro, muito provavelmente armas.

—A dica pode ser um trote. — Resmungou antes de fechar o chuveiro.

Lucy apertou os olhos em direção ao teto. Tinha pensado a mesma coisa.

—Falei isso para ele, mas ao que parece a pessoa que enviou o recado continuou mandando a mesma carta para ele umas trezentas vezes. Ninguém se dá a esse trabalho todo à toa, então ele decidiu checar.

—Então ainda pode ser um trote?

Virou a cabeça na direção do banheiro. Acnologia tinha saído de lá totalmente nu, apenas usando uma toalha branca para secar os cabelos que tinham se tornado mais longos, batendo no ombro, e lhe dando um ar misterioso e sexy. Baixou o olhar analisando descaradamente seu corpo úmido e acompanhando os novos traços tribais azuis de sua pele, que lhe davam a impressão de ser uma fera selvagem e poderosa. Uma descrição bem fiel na verdade.

Não importa quantas vezes o visse assim, era sempre provocante.

—É possível. Mas acho que vamos encontrar alguma coisa. Isso é uma festa da realeza, nobres e burgueses. É impossível não achar alguma coisa podre.

—Hum. — Ele murmurou, largando a toalha no chão e indo em sua direção.

O colchão afundou com seu peso quando ele escalou, ficando em cima de seu corpo e olhando em seus olhos.

—Eu realmente espero que essa missão não se torne uma perda de tempo.

—Veja pelo lado bom, comemos e bebemos de graça. — Contrapôs.

O dragão sorriu com seu argumento antes de beijá-la. Ele agarrou suas pernas e as abriu, puxando-as para sua cintura.

—Só isso não justifica meu tempo. — Murmurou indo para o pescoço alvo, lambendo e provocando a veia com seus dentes.

—Os chocolates justificam o meu. — Comentou e deu um suspiro, rendendo-se a ele.

Ergueu os quadris em direção a sua pelve, se esfregando contra seu pênis crescente. Sentia seu ventre latejando com o desejo. Acnologia reagiu pegando forte sua cintura e puxando-a contra si enquanto chupava seu pescoço. Ouviu o som magnífico de seu ronronar deleitoso que dizia que ele também estava excitado.

O Dragão ergueu a cabeça para olhar em seus olhos por breves segundos. Eles estavam mesclados entre azul e vermelho lhe dizendo que sua outra parte também queria se fazer presente. Sorriu ficando ainda mais quente em saber que ambas as partes estariam ali para seu prazer. Espalmou as mãos em seu tórax, vendo o azul de suas marcas ficar mais vivido a medida que entravam em sincronia.

Ele ronronou mais alto e fechou os olhos por um instante antes de atacar seus lábios outra vez, sentindo seus caninos pronunciados. Ele enfiou uma mão por baixo de seu corpo antes de quebrar o beijo e voltar a seu pescoço. Arfou surpresa quando ele a puxou para cima de uma vez, colocando-a sobre suas cochas, mantendo-se ajoelhado na cama. Acnologia abocanhou um de seus seios por cima da própria blusa com pressa. Gemeu jogando a cabeça para trás. Ele se afastou por um segundo para tirar a blusa e voltou a abocanhar o monte sedoso.

Estremeceu quando sentiu os caninos brincando com o bico sensível e um arrepio atravessou seu corpo quando ele prensou o bico entre os dentes e a língua. Puxou os cabelos negros e rebolou contra seu pênis, prensando-o entre sua barriga e a dele. O dragão a puxou ainda mais bruscamente para si. Ao que parece sua paciência para brincadeiras estava curta. Ele enfiou a mão em sua calcinha e a arrebentou em um puxão.

Acnologia ronronou subindo a língua por seu pescoço antes de olhar em seus olhos. As mãos firmes a puxaram e ergueram seu quadril.

—Pegue-o. — Ele ordenou com a voz rouca e draconiana.

Obedeceu segurando seu pênis duro. O masturbou apenas para provocá-lo, esfregando a cabeça com o polegar e massageando os testículos com a outra mão. Ele rosnou repreensivo e mordeu seu pescoço com mais força que de costume, avisando-a que não teria muita paciência.

Parou de brincar e posicionou-o. Brincou um pouco com a cabeça inchada da glande, esfregando-a contra seu clítoris e gemendo de prazer. Desceu o quadril finalmente cumprindo seu desejo. Quando o tomou por completo apertou os músculos e rebolou. Ele gemeu, manteve um braço em suas costas e usou a outra mão para agarrar sua bunda com firmeza, lhe dando posição para começar a se movimentar.

Acnologia tinha mais do que força o bastante para segurar seu peso sem problemas. Sabendo disso, fechou os olhos e gemeu, aproveitando o prazer quente que começava a se acumular em seu ventre. Hoje ele a teria como quisesse e estava ansiosa por isso.

Ele a conhecia muito bem. Erguendo seu corpo mais um pouco ele obteve margem de manobra para se erguer um pouco mais e entrar no ângulo que queria, atingindo cada nervo seu antes de voltar e prensar seu broto sensível com a pelve. Gemeu sentindo o orgasmo cada vez mais próximo.

—Isso! — Murmurou entre os gemidos e suspiros de prazer.

Estava quase lá e seu dragãozinho safado sabia disso. Ele a puxou com mais força e esfregou a pelve contra seu clítoris outra vez, agarrando seu seio abandonado e sensível com a mão e o apertando com força, sabendo que seria a última gota para gozar. O prazer espalhou quente por suas veias e gemeu.

Acnologia caiu no colchão contigo, puxando seu quadril mais para cima e estocando mais rápido para prolongar seu orgasmo. Sabia que ele estava bem perto também. O ronronar bruto ficou mais alto e incontrolável. Ele escondia o rosto em seu pescoço, mordiscando-o, e agarrava os lençóis, tremulo enquanto perseguia seu próprio prazer.

Puxou seus cabelos negros, forçando ainda mais seus dentes contra sua garganta e arranhou suas costas bem em cima da cicatriz de suas asas. Ele se contorceu e gemeu como um gato agoniado. Como a cereja do bolo o apertou outra vez em seu ventre e mordeu seu pescoço suado.

Ele gozou, rugindo e rompendo ligeiramente sua pele com os dentes. A dor era ínfima em comparação ao topor prazeroso que era ver e senti-lo gozar. Puxou seu rosto para beijá-lo, deixando bem claro enquanto rebolava em seu pau que a noite não tinha acabado.

Bom, alguma coisa tinha que ser divertida naquela missão e energia era uma coisa que as duas personalidades de Acnologia tinham de sobra. Juntas então...

~*#*~

—Esse lugar é maior do que pensei. — Falou Lucy olhando para o jardim.

Decidiram andar pelo castelo no dia seguinte para tentar encontrar alguma coisa relevante. O lugar era tão grande e deserto que dava para fazer umas mil reuniões secretas sem ninguém desconfiar. Eventualmente viam soldados e criados andando de passagem, mas só isso. Nenhum deles era pago para se meter na vida dos outros, então não desconfiariam de nada.

Acnologia rosnou inconformado em meio ao jardim iluminado por estrelas. Suas cicatrizes acordaram latejantes de dor.

—Estamos procurando o dia todo. Não vamos encontrar nada por que não há nada. Lahar nos enfiou num puta lugar de merda para nada. Vamos falar isso pra ele e ir embora. Eu quero transar ou fazer qualquer coisa que não seja ficar aqui. — Ele bufou no auge de sua impaciência e com as mãos no bolso da calça jeans.

Com a camisa de manga preta as estrias tatuadas ficavam mais visíveis, espalhando-se por seu braço e saindo pela gola, lhe dando um visual misterioso e sexy. Estava reparando muito nisso. Ele ficava ainda mais gostoso e amava saber que era a única a ver todas as marcas e onde acabavam.

—Vou ignorar seu pensamento com a cabaça de baixo. Mesmo que as suspeitas dele estejam erradas precisamos ter certeza. O pagamento não vai vir sem provas. — Disse entrando no labirinto de cerca viva.

O dragão bufou e a seguiu. Worren podia ler mentes telepaticamente. Ele era o mais indicado em uma espionagem, por que não mandaram ele?

—Acno! — Lucy chamou com a voz alarmada.

Seu foco voltou e a seguiu correndo pelo jardim, vendo o que a deixou preocupada. Os garotos de ontem estavam lá no meio dos arbustos, escondidos em meio ao verde. O garoto parecia estar apagado e a menina chorava ao seu lado. Os dois pareciam bem machucados e o cheiro do sangue das escoriações chegou as suas narinas.

—Ei, o que aconteceu? — A menina se esquivou um pouco quando Lucy se abaixou, tentando proteger o amigo.

Deixou a maga cuidando disso e ampliou os sentidos, procurando a pessoa que poderia tê-los machucado. Rosnou frustrado. Os mais próximos da área eram os soldados que patrulhavam as fronteiras do castelo, e que não pareciam estar procurando duas crianças. Suspirou chegando a conclusão que os pirralhos tinham fugido e se escondido muito bem. Respirou fundo e fechou os olhos decidindo guardar todos os rastros de cheiro na memória.

—Calma, eu vou ajudar. — Lucy se prontificou com um sorriso, erguendo as palmas para cima em um gesto que demostrava cautela e que não possuía nada para machucá-los.

A menina apertou os lábios, cautelosa. As lagrimas ainda desciam de tempos em tempos assim como os soluços. Ela analisou a maga de cabo a rabo, decidindo se confiaria ou não. Por fim, olhando para o amigo inconsciente, ela decidiu arriscar, arredando um pouco para que Lucy entrasse para perto dos arbustos.

Sem hesitar se encolheu entrando debaixo da folhagem para que pudesse analisa-lo. A escuridão da noite não facilitava seu trabalho e, embora tivesse os princípios da medicina na cabeça como todo mago, principalmente os da Fairy Tail precisavam ter, não era uma médica. Precisava ir para um lugar melhor para analisá-lo, tomar providências e, pelo visto, precisavam ser urgentes. O garoto queimava de febre.

—Acno, me ajude a tirá-lo daqui. Vamos levá-los para o quarto.

Bastou falar isso e Acnologia dar um passo que a menina surtou. Ela se jogou sobre o corpo do amigo e tentou puxá-lo mais para dentro do arbusto enquanto as lágrimas caiam. Ela balançou a cabeça em negativa e olhou para seu companheiro – parado do lado de fora e sem saber o que fazer – com um pavor indescritível. Não sabia por que a presença do dragão as incomodava e sabia que ele não tinha feito nada a elas, mas a menina o olhava como se ele fosse um monstro.

—Ei, ei. Calma! — Lucy falou o mais suave que pode pegando a mão da garota.

Ela puxou a mão bruscamente e chacoalhou a cabeça.

—Não! — Ela gritou.

A maga ergueu as mãos outra vez e a menina parou de se debater e puxar o amigo ao ver que Lucy não pretendia obriga-la. Isso fez a maga pensar. A garota, obviamente, estava muito desconfiada e apavorada. Não sabia quem havia feito isso com os dois, visto as marcas inconfundíveis de agressão onde as roupas não cobriam. Se podia vê-las no escuro é bem provável que fossem bem piores e a febre do garoto precisava baixar ou ele morreria. Muitos problemas para serem resolvidos e precisava ganhar a confiança da garota.

—Eu não quero machucar vocês, quero cuidar de vocês. — Falou em uma voz mansa e carinhosa e se inclinando um pouco para frente. — Seu amigo está doente e você está ferida. — Fez uma pausa. — Qual é o seu nome?

A menina baixou o olhar e depois de um longo tempo respondeu.

—Amy. — Sussurrou.

A maga sorriu.

—Amy. — Ela repetiu. — Lindo nome. O meu é Lucy e o meu amigo chama-se Acnologia. — Assim que citou o nome do dragão ela olhou para fora com pavor.

Por um momento pensou que ela sentia medo do nome e das lendas que talvez pudesse ter ouvido, embora fossem muito incomuns neste reino, mas ela não parecia recordar o nome do Rei. Desconfiada, colocou uma mão nas costas quando a menina voltou a olhou para o amigo e gesticulou para que Acnologia desse um passo a frente. Na mesma hora a menina congelou mudando de foco. Gesticulou para que ele parasse e pegou o molho de chaves na cintura.

— Amy, eu sou uma maga celestial, sabia? — E estendeu as chaves. Imediatamente a garotinha ficou fissurada nas chaves brilhantes — Pode tocar. Eu deixo. — Ela estendeu a mão hesitante e as pegou. — Sabe, essas chaves contêm espíritos celestiais. Cada uma das chaves contêm um amigo muito importante para mim. Eu não viveria sem eles. Quando os conheci eu fiz uma promessa de protegê-los e eles a mim. Agora eles estão nas suas mãos Amy, por que eu confio que você não vai machucá-los, não é?

A menina abaixou os olhos para as chaves e balançou a cabeça negativamente. Lucy sorriu.

—Que bom. Nós também não queremos te machucar, nem a seu amigo. Vocês precisam de ajuda, principalmente o seu amigo, então por que não fazemos uma troca? Você fica com os meus amigos e em troca eu e Acnologia vamos levá-los a um lugar seguro e eu prometo que não faremos nada de mal a vocês. Depois que estiverem bem você devolve meus amigos e vocês dois vão embora. Está bom assim?

A menina se demorou em analisar o dragão, depois Lucy e por fim seu amigo. Era notório que não queria confiar em ninguém, mas a preocupação com seu amigo que nunca acordava parecia colocá-la em cheque. Depois de muita hesitação ela concordou.

~*#*~

Não foi fácil convencê-la a deixar Acnologia carregar os dois, mas por fim ela permitiu ao ver que não teria outro jeito de chegarem a sacada do quarto. Assim que colocou o garoto na cama o dragão ficou no canto do quarto ao ver que a garota não gostava nenhum pouco de sua presença, deixando-a menos tensa. Entretanto não saiu do quarto, ficando de olho em Lucy. Mesmo sendo crianças pequenas não confiava nenhum pouco nelas. Pelo visto o sentimento era recíproco.

A maga celestial pegou uma maleta de primeiros socorros que sempre levava em missões e começou a tratá-los começando pelo garoto. A pequena garota acompanhou cada mísero passo usado para tratar seu amigo, inclusive a poção para febre que sempre carregava por precaução, o que foi ótimo. Um dos efeitos colaterais era sonolência intensa e, quando a menina finalmente apagou com o remédio e o cansaço, suspirou aliviada. Ter alguém analisando minuciosamente cada movimento seu era estressante pra caramba. Assim que concluiu seu trabalho colocou a maleta na cômoda e virou-se para Acnologia.

— Alguém deu uma bela surra nos dois. Quem faria isso com uma criança? E por que? — Ela perguntou jogando no ar suas frustrações.

O Dragão se desencostou da parede e se aproximou da maga. Seus olhos estavam mesclados de azul e vermelho, um indicativo de que sua outra parte estava à espreita por algum motivo.

—Eu não sei quem, mas acho que posso lhe dizer como. Sabia que tinha sentido um cheiro estranho neles. Sinto o cheiro de um homem no corpo deles.

Lucy apertou os lábios e olhou de relance para os meninos dormindo em sua cama.

—Isso não é incomum. Eles foram espancados. O cheiro de quem quer que tenha feito isso vai estar neles.

Acnologia suspirou com pesar antes de tocar o ombro da companheira para chamar sua atenção. Ela o encarou com os olhos castanhos quando se aproximou.

—Existem vários tipos de cheiro Lucy. Se alguém te analisasse por exemplo saberia com quem você convive ou deixa de conviver. Logicamente por ser a pessoa que mais convive com você meu cheiro seria dominante. — Fez uma pausa, pousando a mão na cintura fina. — Mas seriam duas intensidades diferentes. Um emanando da sua pele. — Arrastou a mão até deixá-la sob seu ventre. — E o outro vindo de dentro de você.

Observou os olhos castanhos se arregalando à medida que absorvia a informação. Depois de um tempo ela sussurrou.

—Eles foram molestados? — O choque em suas palavras era mordaz.

Suspirou com pesar olhando para os garotos.

—Sim.

Captou isso assim que chegou perto deles. Não disse nada enquanto a menina estava acordada para não a constranger. Vítimas de estupro reagiam fortemente a vergonha.

Ninguém falou uma palavra durante um bom tempo. Os dois absorviam a notícia monstruosa de que alguma abominação estava molestando crianças. O medo que a pequena garotinha demonstrou perante os dois, principalmente quando viu Acnologia, tinha se tornado lógico. Ela tinha medo de homens adultos por que um deles teria feito nela uma coisa a qual nenhuma criança no mundo deveria passar. Os dois estavam severamente machucados e aterrorizados. Se o dano físico já era ruim, o psicológico seria bem pior.

Se chegaram ao ponto de desconfiar que qualquer um poderia estuprá-los é por que não poderiam confiar em ninguém do castelo.

Lucy apertou os punhos com raiva. A denúncia de Lahar não se tratava de comércio no mercado negro, mas de crianças sendo usadas.

—Vamos nos ajeitar com os travesseiros e o sofá. Eles precisam de uma boa noite de sono. — Murmurou indo em direção aos armários da suíte.

Poderiam ir para o quarto que pertencia a Acnologia, mas não queria tirar os olhos dos garotos. O dragão não questionou, parecendo ter a mesma opinião. Alguém poderia estar procurando por eles e, por Deus, estava ansioso por isso. Iria rasgar parte por parte do corpo de todos os envolvidos.

Lucy ajeitou as coisas no sofá enorme e desnecessariamente pomposo. Não iriam comparecer ao jantar. O choque da notícia ainda pairava em sua mente, travando toda a raiva, ódio e sentimentos que somente viriam amanhã, quando a ficha caísse. De repente sentia-se enjoada.

"Se sempre ficar com o que já sabe, você nunca irá a lugar nenhum."

Notas finais
Eu não vu pedir desculpas. Sério. Este capitulo que vocês acabaram de ler tem mais de 10 mil palavras e não é nem a metade dele. Pois é, era pra este ser o ultimo, mas o negócio tomou proporções gigantescas e eu resolvi dividir em 2 partes. Betar isso eu mesma não foi fácil mesmo. Eu ainda não terminei o capitulo final, mas pode crer que será grande. O da outra fic tá na mesma vibe. Preparem-se para 20 mil palavras. E quem puder de uma olhadinha no meu pequeno livro que publiquei na Amazon Kindle. "A morte sorriu para você". Vlw galera, flw.