A Arte do Caos
26 Cap 26: Confiança.
A brisa rolou suave pela pequena campina, carregando as folhas secas do chão. O Sol levantava-se a leste, iluminando a neblina com sua cor alaranjada, e revelando um pouco do céu azul. Ao ouvir o barulho dos galhos chacoalhando, Acnologia entreabriu os olhos, acordando.
Bocejou, ainda era cedo. Olhou para baixo vendo Lucy dormir encima de sua asa direita, enquanto à esquerda lhes servia de cobertor. Não era o local mais confortável para se dormir, mas ela estava inegavelmente linda naquele sono tranqüilo. Suas asas a embrulhavam, sua calda enroscava-se em uma das pernas grossas e entrelaçadas com as suas. Mantinha seus braços em torno de sua cintura, deitado de lado com sua cabeça acima da dela, permitindo-o enxergá-la por completo.
Conseguia ver também que sua marca havia retornado ao seu local de origem, porém sabia que sempre que ela quisesse lhe dar uma ordem, suas almas seriam conectadas e aquele intrigante desenho em sua epiderme tomaria uma nova forma, enquanto seria obrigado a realizar o pedido.
Enfiou o nariz em meio à cabeleira loura e suspirou. As coisas seriam complicadas durante um tempo. Em um gesto automático, seus dedos subiram e desceram pela coluna fina. Uma sensação estranha o abatia. Conseguia perceber as amarras invisíveis, que agora existiam, conectar a alma dela com a sua. Não tinha mais volta. Sua liberdade estava acorrentada a ela de todas as formas possíveis.
Isso deveria repudiá-lo.
Dragões não nasceram para depender tanto de alguém, quase tornando-se escravos. O poder que a liberdade trazia que os tornava tão poderosos. Ter asas fortes que nenhum vento poderia partir, os levando a todos os lugares que a Terra poderia demonstrar. Ter um fôlego que enchia seus pulmões de fogo e magia, cuspindo por sua boca a sentença que destruía cidades inteiras, sem sobrar nada. Ter dentes, garras e uma couraça que lhes permitiam sobreviver a qualquer ambiente e qualquer circunstância. Poderiam viver todos os dias uma aventura diferente, aproveitando tudo que a vida tinha para dar.
Deveria estar furioso por ela ter tomado o controle e finalizado aquela conexão, e tirado tudo isso dele...
Mas não estava.
Não sentia-se preso ou obrigado, como deveria. Sentia-se mais livre do que nunca antes. Lá no fundo, sabia que Lucy jamais o prenderia como sempre imaginou que fosse acontecer toda vez que ouvia falar dos Dragões que se renderam ao encanto de alguém. Ele ainda teria toda sua liberdade, todo o seu poder, porém agora teria alguém para dividir isso plenamente.
Parando para pensar, vagar, como todos de sua espécie faziam, era solitário. Não percebia antes que, embora livres, não possuíam muito o que fazer sozinhos. Ter alguém para dividir seus momentos era sonhador; tranqüilizante, até.
Desceu um pouco de sua asa esquerda para vê-la melhor. Lucy resmungou, tateando o ar até encontrar sua asa e puxá-la de volta, como faria com um cobertor.
Não podendo evitar, riu, com o ato infantil e rabugento. Infelizmente isso a acordou de vez. Coçando os olhos, resmungou.
–O que foi? Não é divertido acordar alguém! – Bocejou, para segundos depois perceber onde estavam.
Nus, no meio de uma floresta.
Deu um gritinho envergonhado, sem exatamente saber o porquê, e se encolheu, escondendo-se em meio às asas enormes.
Acnologia riu uma vez mais antes de puxá-la para cima e tomar seus lábios com voracidade. Puxou-a para perto, grudando seus corpos, e rolando para ficar por cima. Investiu ainda mais no beijo devorando a boca macia, e sentindo a sensação deliciosa do seu coração amolecendo feito manteiga.
Só a soltou quando estavam ofegantes.
– Acno. – resmungou a loira. – Estamos pelados dentro de uma floresta, e você já está me atacando?
O Dragão piscou repetidas vezes e sorriu cafajeste.
–Eu? – exclamou, fazendo-se de inocente e com o olhar de vitima. – Que eu saiba foi você quem me atacou ontem.
Lucy ficou vermelha, muito vermelha. Virou o rosto e começou a gaguejar.
–Ora, cale-se! Pode ficar quietinho e deitadinho ai. Você é quem sempre começa.
Acnologia sentiu as amarras repuxarem seus músculos, obrigando-o a obedecer. Soltou-a, caindo bruscamente de costas e olhando para o céu. Suspirou.
Quase tranqüilizante. Reformulou.
Lucy ainda tinha de aprender como não fazer praticamente tudo parecer uma ordem. Demoraria um pouco para que ela entendesse.
A maga percebeu a atitude meio contraditória. Acnologia nunca a obedecia, ou a largava quando estavam pelados. Subiu em seu tronco, cruzando os braços no tórax musculoso.
–O que foi? – perguntou com a voz mansa.
Ele sorriu erguendo a mão para acariciar os fios dourados.
–Você tomou controle sobre mim. – A cara confusa que ela fez lhe arrancou uma breve risada, mas continuou a explicar. – Lembra quando eu lhe disse que só escolhemos uma companheira por toda vida, e que fazíamos uma conexão tão poderosa que não se romperia nem com a morte?
Ainda sem entender, a Heartphilia balançou a cabeça. Suspirou uma vez mais, e prosseguiu.
–Você finalizou o ultimo estágio dela. – murmurou, mergulhando fixamente nos olhos chocolates, hipnotizado. – Você ganhou total controle sobre mim, Lucy. Se me der uma ordem desejando profundamente que eu a concretize, sou obrigado a cumprir.
A Heartphilia não precisou de uma segunda explicação, até por que sentia-se meio estranha desde o dia anterior. Não gostou disso. Apreciava a característica de liberdade que os Dragões possuíam, sabia que Acnologia jamais dispensaria isso. Era algo dele. Se sentiria sufocada se alguém lhe prendesse em uma casa ou a alguém; gostava de conhecer o mundo. Aliás aquele era um dos pontos maravilhosos de possuir essa vida arriscada. Podiam ir onde quisessem e quando desse vontade.
–Não quero ser seu carcereiro. – murmurou em um sussurro. – Não quero obrigá-lo a nada. Nunca.
O Dragão sorriu. Oh, ela era adorável.
–Eu sei. – respondeu, a voz mansa acariciando seu âmago. – Você jamais me obrigaria a fazer as coisas que não quero, e não ligo quando tiver que obedecer por acidente até você pegar o jeito. – As feições dele ficaram mais sérias por um instante, os olhos azuis congelados. – Mas existe uma razão para ser assim Lucy. Um dia você vai precisar da minha ajuda para algo que não vou querer fazer. Haverá algumas situações que você terá que impor sua vontade contra a minha.
Nada no mundo poderia pará-lo, exceto uma ordem. Era uma maneira de equilibrar os lados. A Natureza é sábia; jamais cria algo que não possa destruir. E ele não era exceção. Entretanto, Lucy não faria nada disso, ou ao menos era o que tinha decidido. Sorriu, olhando para as esferas azuladas.
–Não farei isso. – murmurou convicta, aproximando-se dos lábios dele.
Segurou as bochechas e o cabelo negro com as mãos e o beijou, longa e demoradamente, explorando sua boca com carinho e vigor. Quebrou o contato ao chupar seu lábio inferior.
– Você está bem assanhada essas últimas horas. – ronronou apertando o corpo dela ainda mais contra si, em um gesto mudo, dizendo-lhe que não tinha nenhuma objeção.
Ela riu, aproximando seu rosto do dele, até respirarem o mesmo ar.
– Fazer o que. Você é uma péssima influência para mim. Essa coisa de primavera não é exclusiva sabia? – brincou, o indicador dando um peteleco em seu nariz.
Ele riu, seu corpo chacoalhou o dela.
–É por isso que vou usar e abusar de você pelo resto de nossa eternidade. – murmurou rouco.
–Isso me faz sentir como se eu fosse uma prostituta. – murmurou sem nenhuma mágoa ou tristeza na voz, fazendo um bico falso como uma péssima atriz. – Pelo que eu saiba, ontem fui eu que te fiz de cachorro.
Acnologia abriu um sorriso cafajeste.
–Por que eu deixei. – mentiu.
Lucy ergueu uma sobrancelha, incrédula.
–Ah, é? – disse sarcástica.
–Claro que sim. – respondeu com convicção falsa. – Ou você acha que esses seus braços fraquinhos me derrubam? – atacou, contornando o braço dela com o dedão e o indicador, que se fecharam em torno dele como um grilhão. – São tão finos que dá para usar de palito de dente.
Lucy cerrou os olhos, e uma leve fúria brotou neles, mesmo vendo o sorriso de mentiroso safado estampado em sua cara.
–Está dizendo que uma mulher jamais pode dobrar um homem, só pelo fato de ele ter músculos? – perguntou, aproximando-se ainda mais do rosto dele, usando seu tórax como apoio do tronco e dos cotovelos.
–Sim. – zombou debochando.
Ela o encarou por mais alguns segundos, e repentinamente ergueu a cabeça abanando uma das mãos como se fosse trivial.
–Tudo bem então. – respondeu sem humor. – Estou de greve. – decretou, virando o rosto. Seu tom de voz era apático, o que significa que havia falado alguma besteira.
Acnologia travou com aquela palavra. Algo lhe dizia que era um mau presságio.
–Greve? – perguntou, a voz mansa exigindo uma explicação.
Algo também lhe dizia que não ia gostar da explicação.
–É. Greve. De sexo. Por três meses. – respondeu seca e sem dó, voltando a olhar para ele. E seus olhos indicavam que não era brincadeira.
– O que? – Exclamou incrédulo. Seu corpo ficou tenso e estagnado, quase em pânico.
Oh, merda. Mulheres e suas mudanças de humor repentinas. Não tinha a intenção de ofender a ela ou a qualquer uma do sexo feminino, mas... Ah, Deus! Como odiava aqueles hormôniozinhos bipolares.
– Não pode fazer isso! – exclamou. Sexo era a única forma que sabia expressar seus sentimentos de maneira decente, além, é claro, de ser algo extremamente prazeroso de se fazer.
– Que eu saiba agora eu posso mandar em você. – lembrou, erguendo o indicador. – Vai ter que se virar com banhos frios. Ou vai me obrigar, Acnologia? – perguntou inquisitiva, voltando a se aproximar.
Muitos banhos frios! – pensou. Já estava duro só por ela estar deitada quietinha em cima de si. Imagina esperar três meses tendo de olhar para aquela figura altamente sensual todos os dias.
Não. Seria o puro inferno. Não conseguiria não tocá-la por três meses.
Obrigá-la? Jamais!
Mesmo que morresse de abstinência, seu saco explodisse, ou o diabo que fosse, jamais iria fazê-lo. Lucy era seu maior tesouro. Impor a ela seu prazer próprio sem considerar sua felicidade em primeiro lugar, seria o pior erro que cometeria em sua vida. Ela é preciosa demais para isso, seu valor é mais inestimável que o poder de um Deus. Não faria. Tiraria a própria vida primeiro. Sentia-se nojento só de imaginar.
Sendo assim, fez a única coisa que lhe cabia fazer no momento.
–Me desculpe. – pediu com toda s sinceridade que conseguia. – Não tive a intenção de te ofender.
Lucy voltou a olhar no fundo dos olhos azulados, vendo as desculpas sem razão em sua alma. Suspirou, decepcionada consigo mesma.
–Me desculpe também, Acno. – sussurrou. Não costumava agir de uma maneira tão impulsiva e sem motivo. Sentia-se estranha. – Eu exagerei. – admitiu. – Me sinto um pouco esquisita.
Baixou a cabeça, olhando os mínimos detalhes na pele dele. Acnologia subiu seu queixo com o indicador.
–Esquisita? – questionou preocupado, olhando dentro dos mares de chocolate.
A maga suspirou de alívio ao ver que ele a perdoou, e logo respondeu.
–É. – outro suspiro. – Impulsiva, raivosa, sentimental... – deu de ombros. – Não sei ao certo. – Parou para pensar por mais alguns segundos. – Parece que essa coisa de primavera está me afetando como... – Arregalou os olhos com a descoberta. – Como afeta você! – acusou.
Ele ergueu as sobrancelhas. Estava verdadeiramente surpreso. Não sabia que, talvez, sua conexão a tornaria suscetível da mesma maneira que ele em determinadas circunstâncias.
Sorriu mostrando os dentes pontudos.
–Isso que dizer que vai ficar pulando em cima de mim para sempre? – enfatizou, debochado.
A coloração vermelha foi se espalhando do pescoço até o ultimo fio de cabelo da testa.
–Ora seu pervertido! – gritou, avançando com as mãos para o pescoço de Acnologia, apertando com força. – Não pense que sou como você, seu idiota!
O Dragão bem que tentou tirar as mãos dela de seu pescoço, mas não funcionou muito bem. A vontade de Lucy era maior, portanto toda sua força foi inútil.
–D-desculpe!- gritou grasnado, tentando sair da enrascada.
A maga suspirou, parando de enforcá-lo, mas virou o rosto com raiva.
–Pare de agir como um baka. – resmungou, voltando a cruzar os braços em seu tórax.
–Ta. – soltou sem ânimo. Era a segunda vez que pedia desculpas em menos de 10 minutos. E o pior é que essa palavra não era habitual em seu repertório.
Mulheres. Vá entender.
Difícil com elas, pior sem elas.
Coçou os cabelos negros, gesto que tornou-se cotidiano desde que encontrou a Heartphilia.
–Agora que saímos do assunto complicado, — puxou assunto. – podemos ir embora daqui?
Ela entendeu muito bem que o ‘embora daqui’ não se referia a sair da floresta. Referia-se a sair de Magnólia.
–Não. – respondeu, voltando a olhá-lo. – O mestre quer me ver hoje. Nós dois, na verdade. Além disso, Erza recuperou as cartas da minha mãe e vem pagando o aluguel do apartamento para que minhas coisas continuem lá. Não posso ir embora sem isso. – comentou, e logo seus olhos vagaram sem propósito pela mata fechada logo à frente.
Acnologia sempre soube da importância daquelas cartas. Um meio de manter o carinho e a lembrança vivos. Admirável.
Agarrando-a pelos ombros, virou-a e subiu em cima do corpo miúdo, dando inúmeros beijos em sua garganta. Usando suas asas como apoio para o peso, deixou as mãos livres e começou a lhe fazer cócegas. Lucy começou a rir e a se contorcer embaixo de se, tentando usar as mãos para imobilizá-lo sem sucesso.
–Pare! – exclamou em meio às risadas, sentindo seu abdômen doer e lágrimas escorrerem pelo canto de seus olhos. Todavia suas palavras não saiam firmes.
Após alguns minutos, ele parou. Abraçou-a pela cintura e acomodou-se entre seus seios, sorrindo ternamente para ela. Lucy também sorriu, bagunçando seus cabelos negros com as mãos.
–Tudo bem. – murmurou. – Vamos para a Fairy Tail, antes que o festival comece.
Sentia-se estranhamente tranqüilo. A brisa forte bateu em seu rosto, e com ela se foi sua tranqüilidade.
Agarrou o vestido e a bermuda que haviam restado, pegou Lucy nos braços e alçou vôo rapidamente, mergulhando em direção ao rio. A água ocultaria o cheiro.
–Acnologia!- exclamou Lucy. – O que foi?
–Companhia. – respondeu rispidamente.
Encontrou um a cachoeira logo à frente. Mergulhou nela, passando pelo espelho d’água e aterrissando atrás dela. Agachou-se com Lucy nos braços, virando-se para frente, para caber no espaço côncavo e úmido detrás da queda de água. Passou as asas molhadas em volta de si e da maga, o peito tremendo em um rosnado contido, enquanto seus olhos enxergavam as formas abstratas através da superfície liquida.
–O que infernos... – sua boca foi tapada pela mão dele, sendo que ele não tinha se dado ao trabalho de olhá-la. Os obres azulados estavam duros, olhando para frente com uma crueldade e frieza calculadas.
Finalmente desistindo e acatando a ordem de não fazer barulho, Lucy esticou o pescoço, conseguindo encontrar uma falha na água corrente, podendo ver melhor o que acontecia do outro lado.
A água tremeu quando o barulho já conhecido de asas pesadas batendo, ecoou pela região. De olhos arregalados, viu a criatura aterrissar bruscamente com seu peso enorme no chão, provocando um estrondo.
Era um Dragão!
As escamas verde musgo, todas em formato oval, sobrepondo-se umas as outras, o focinho alongado com olhos reptilianos, as asas grandes e grossas composta de uma couraça grossa. A espinha dorsal estava repleta de espinhos longos e grossos, conectando-se entre si com uma outra camada de couro espesso. As garras negras, longas e contorcidas, em conjunto da calda musculosa com uma enorme bola espinhosa na ponta.
Era a exata descrição de um Dragão dos livros de história, sem tirar nem por.
A criatura chacoalhou o corpo, repousando as asas nas costas e bocejando, expondo as longas presas brancas e afiadas. Abaixou a cabeça enorme respirando fundo pelas narinas. Sua expressão mudou. O rosnado de Acnologia tornou-se mais arisco. O Dragão assumiu uma posição mais tensa e rígida. Ergueu a cabeça farejando o ar e olhando envolta, desconfiado. Girou o pescoço longo com os olhos apertados, e, quando não encontrou nada, ganiu uma bufada, voltando a abaixar o focinho para beber a água do rio.
Quando terminou, olhou para cima, esticou as asas e voou. Quando sumiu de vista, Acnologia relaxou, soltando-a e removendo a mão de sua boca. Ele suspirou pesadamente, relaxando os ombros.
–Precisamos ir embora. – sussurrou ele. – A cidade já deve estar infestada de Dragões.
–Hum. – murmurou de volta. – Quem era ele?
O Dragão deu de ombros.
–Não tenho idéia. Mas pelo cheiro deve ser da classe Naturae. – respondeu.
–Em? – Lucy o encarou com as sobrancelhas distorcidas em total desentendimento. Era grego.
Acnologia riu.
– É uma língua antiga. Era muito falado antes da guerra. Nós éramos classificados em nichos diferentes dependendo da natureza de nossa magia. Os Naturae são aqueles ligados a terra. Se dão muito bem nesse ambiente. Você pode chamá-los de classe Terra.
Suspirou.
–Precisamos ir logo a Fairy Tail.
Seu corpo todo se retraiu. O fato de ter um Dragão tão perto da cidade aguçava seus instintos, impedindo seu raciocínio. Esforçando-se para conter a si mesmo e sua vontade irracional de protegê-la, respondeu ríspido com os olhos apertados.
–Por favor, não vamos demorar. – suplicou. Fez questão de usar sua melhor expressão de cachorrinho sem dono.
Lucy hesitou, mas não resistiu.
–Tá, ta. – resmungou abanando as mãos e desviando os olhos. – Mas para de me olhar assim, e arruma um jeito de secar a gente! Estou encharcada!
#*#*#*#*#*#*#*#*#*#
Considerava o termo roubar muito forte. Preferia, pegar emprestado sem consentimento prévio. Não tinha muito que fazer quando suas roupas estavam destruídas. As dele também. Admitia, o short jeans e a camiseta tinham caído muito bem em seu corpo. A camiseta azul escuro, a jaqueta de couro e o jeans negro também recaíram muito bem sobre o corpo másculo de Acnologia. Sexy.
Isso não mudava seu peso na consciência. Arrumaria um jeito de ressarcir a família das roupas roubadas no varal assim que possível. Olhou para o Dragão emburrada. Ele andava relaxado com as mãos atrás da cabeça como se nada tivesse acontecido. Sua vontade era dar-lhe uns belos cascudos que não recebeu na infância.
Por mais que a sua própria não tenha sido muito feliz, tinha sido criada de acordo com os bons costumes.
Suspirou quando avistou os portões da Fairy Tail, empurrando a porta pesada, e entrando sem ressalvas.
–Lucy-san! – exclamou mira do balcão. O lugar estava mais vazio do que deveria, e a voz da albina estava meio presunçosa e hesitante.
–Olá, Mira. – respondeu com simpatia, olhando para os lados. Não havia quase nenhuma alma viva.
–O Mestre está te esperando em sua sala . – informou sorrindo, e voltando a ajeitar as coisas no balcão.
Mesmo estranhando a atitude meio tensa de Mirajane, não retrucou. Já Acnologia não percebeu nada. Alias ele parecia estar em outro planeta.
Subiram a escadaria até a porta de madeira espessa. Ao receber permissão para entrar, a empurrou.Sua feição se repuxou, surpresa, e o Dragão pareceu acordar, os olhos queimando em fúria.
As pessoas que menos esperava ver estavam lá. Jellal, Erza, Lahar, Doranbolt, e, claro, o mestre em pessoa. Entendeu o por que da hesitação de Mira. Sem ter muito o que dizer, optou apenas por amenizar o clima.
–Bom dia. – falou baixinho, sorrindo amarelo.
–Olá, Lucy. – intercedeu o conselheiro. Ajeitou os óculos e prosseguiu. – Prazer em revê-la. – sorriu forçadamente. – E viva.
A maga sorriu falsamente de volta.
– Pois é. – Estava encrencada. Muito provavelmente os dois tentariam levá-los e a Fairy Tail seria acusada de traição. Seu estomago embrulhou. Isso era a ultima coisa que queria.
Lahar olhou para Acnologia, atrás de si.
–É bom ver que não vai tentar nos matar dessa vez. Quem sabe reconsidera sua decisão sobre nosso acordo.
Lucy girou os calcanhares para encarar o Dragão. Os olhos vermelhos, caninos sobressalentes e mãos em punho, sugeriam que ele não estava propenso a ouvir Lahar outra vez. Mas no momento não era com ele que o Rei deveria se preocupar.
–O que ele quer dizer Acnologia. – a voz firme e ríspida indicava que ela não toleraria rodeios. Os olhos vermelhos passaram para si agora. Fuzilando- o sem dó com os próprios olhos, questionou. – Que acordo? – pronunciou pausadamente.
–Oh, ele não te contou? – perguntou o conselheiro falsamente fingindo surpresa. Sabia que ele provavelmente não diria a ela. – Fui até as montanhas propor um acordo de proteção extra-oficial em troca de vocês me ajudarem com alguns probleminhas quando eu precisar. – Lucy voltou-se para ele. – Mas ele não aceitou. – completou, dando de ombros.
A Heartphilia arregalou os olhos.
–Como fez com Jellal? – apontou para um dos membros mudos na sala, que tentavam não entrar na confusão.
Ergueu os ombros.
–Basicamente.
Virou-se novamente para Acnologia.
–Quando planejava me contar? – rosnou.
Ele se contraiu tenso.
–Eu...
–Pensando bem, cale a boca! – interrompeu, dando-lhe uma ordem.
Mais uma vez o Dragão sentiu-se completamente travado e impotente. Odiou isso. Odiou Lahar estar ali e arruinar um dia que começou tão bem. Odiou sentir aquela pressão vinda de todos os lados. Odiou-se ainda mais por sentir que tinha magoado Lucy.
Virou-se novamente para o moreno.
–Quanto a você, — avançou apontando o dedo entre os óculos. – diga logo que merda veio fazer aqui.
O conselheiro ergueu as sobrancelhas. Não se lembrava da Heartphilia ter a língua tão afiada.
–Por que acha que eu...
–Não ache que sou imbecil como Acnologia pensa que sou. – Atacou rispidamente. O Dragão sentiu-se mau. Não a achava imbecil, só queria protegê-la. Tentou abrir a boca e se pronunciar, mas as cordas o restringiram. Não poderia falar até que ela deixasse. – Diga logo o que quer, antes que eu decida arrebentar a sua cara por que estou furiosa!
Os três mudos no canto da sala se encolheram.
–Lucy... – murmurou o mestre, mas ela não deu atenção.
–Viemos por que seu mestre nos repassou as informações que você conseguiu. – foi direto, falando finalmente de maneira firme e sem rodeios. – Acionei todos os magos possíveis para posicionar e ativar equipamentos de interdimensionalidade ilusória ao redor de Magnólia, que vai impedir que a cidade ou as pessoas sofram ou percebam qualquer dano em caso de conflito. O equipamento será ativado com a presença de qualquer magia de nível superior. Já acionamos todos os reforços possíveis, e quando Mackrov contou que viriam aqui hoje pensei que poderiam nos ajudar. Por isso esperei.
Lucy cerrou os olhos.
–Vou pensar. Terá minha resposta no fim do dia. – respondeu. Precisava sair dali.
Retirou-se da sala andando sem uma direção definida. Acnologia a seguiu, mas não sem antes fuzilar Lahar com os olhos.
Agarrou o braço dela no corredor da enfermaria, e, com um esforço hercúleo, conseguiu falar.
–Lucy, eu não posso deixar que entre nessa guerra! – exclamou, também furioso. Não com ela, mas estava com a cabeça quente demais para se acalmar.
A maga virou-se para encará-lo.
–Não só pode como vai! – cuspiu. – Se eu quiser você não vai me impedir.
Suspirou.
–Olha, eu sei que está com raiva por não ter te contado, mas...
–Não!- ela o interrompeu exclamando. – Não estou com raiva, estou furiosa. Não estou furiosa por você não ter me contado, estou furiosa por você não confiar em mim! – disse puxando seu braço de volta com violência.
Isso foi um choque para o Dragão.
–Não comece a falar merda. – disse furioso também. – Você é a única pessoa em que eu confio no mundo inteiro. – A raiva queimou em seu peito. Não era possível que ela realmente achasse isso.
Mas Lucy não recuou. Levantou o queixo sem se intimidar pela diferença de altura ou pelos olhos que pela primeira vez ficaram vermelhos para ela.
–Confia, é? – perguntou sarcástica. O cinismo e a raiva pesavam como tijolos em suas palavras. – Então por que demorou tanto para me contar que a marca não estava completa? Ou o que ela realmente faz? Se é que já me disse tudo a respeito. Por que será que eu ainda sinto que não? – gritou, apontando para o próprio peito. – O que mais de importante você esconde de mim? Mais alguma coisa com Lahar? Talvez com Hizame? Acho que até Shinuky deve saber mais do que eu.
Cada uma das afirmações o apunhalavam como uma faca cega. Estava sendo destruído. Pedaço por pedaço. As palavras pesavam e machucavam mais do que qualquer outra coisa. Mas, como prevê a lei de Murphy, tudo piorou quando as lágrimas cristalinas, que nem percebeu que ela tentava conter, escorreram por suas bochechas. Ergueu a mão para enxugá-las, mas ela recuou. Seu coração foi rasgado.
–Eu só pego as coisas quando já estão vazando pelas frestas. Ou quando por acaso descubro sozinha. – prosseguiu, e dessa vez deixou suas magoas e seu desespero saírem. – E sabe por que isso acontece? Por que você não confia em mim!
– Não. – tentou negar.
–É verdade. Você não confia por que não consegue deixar o passado para trás. Desde aquele dia parece que você acha que sou fraca. Uma inútil boneca de porcelana incapaz de participar e tomar decisões. Você só consegue ceder quando acha que é extremamente necessário, e não consegue dividir os problemas comigo.
Abriu a boca para falar, mas sua boca estava seca. Não conseguia juntar as letras e formar palavras, sua mente tinha parado. Talvez o peso da verdade tenha sido alto demais. Seu corpo parecia pesar toneladas quando se deu conta de que o que ela dizia, ou ao menos a maior parte, era verdade.
–Se quer mesmo passar uma eternidade comigo, vai ter que aprender que problemas também são feitos para serem divididos. – finalizou, virando de costas e indo embora.
E dessa vez não a impediu.
Virou-se na direção oposta, indo para algum lugar que lhe ajudasse a digerir a verdade.
“Homens escravizam uns aos outros desde que inventaram Deuses para perdoá-los por fazerem isso.”
Fale com o autor