A Arte da Prudência.
1 Descobertas & Revelações.
Notas iniciais
O cigarro de maconha passava de mãos em mãos, Hanna por algum motivo não quis tragar, estava estranha e cabisbaixa.
—Essa música do ‘Skid Row’ me deixa tonta! —Kate dançava enquanto seus cabelos negros se espalhavam no vento.
Todos estavam reunidos na cabana, ali era o refúgio da juventude periférica de Nova Iorque. Ali todos eram iguais, não precisavam enfrentar preconceitos, pois estavam em amigos, amigos verdadeiros.
—Hanna, você parece distante, arg. —Paul diz deitando a cabeça no colo da jovem e encarando seus profundos olhos negros.
—Foi mal. Eu só acho que devemos ir para casa. —Ela diz afastando a cabeça do jovem e se aprontando para bater em retirada.
—Ah! Não, Hanna, fica. —Todos imploram, a garota era um ícone do grupo, todos apreciavam sua presença. Os encontros não significavam sem Hanna.
—Não dá. —Nem mesmo Hanna sabia explicar a sensação que sentiu, havia sentido uma vertigem forte de que algo estava errado e partiu. A atmosfera na cabana estava lhe sufocando de certa forma. Saiu para a claridade do dia e ficou atônita por alguns segundos com o ambiente onde estava, se sentia tonta e enjoada sobre tudo. O vento uivou perto e a jovem se pôs a correr, ela precisava sair dali antes que seu maior pressentimento se concretizasse. Ela podia farejar a morte.
(...)
—Quem chegou?! —A voz bêbada da mãe de Hanna se fez ouvir sobre o som de má qualidade e a jovem optou por não responder. Subiu as escadas e com dificuldade abriu a porta do quarto que dividia com outros irmãos.
Deitou na cama ainda bagunçada e se apressou em cobrir-se dos pés à cabeça, seu corpo tremia involuntariamente e sua mão estava na boca, os olhos negros estavam dilatados. Hanna se encontrava em aparente estado de choque.
—Porra Hanna! Pensei que fosse um ladrão. —A mãe diz entrando no quarto e arrancando o cobertor do corpo da garota. —Por que está assim? Andou fumando de novo? —Hanna se encontrava em estado perplexo, e não respondeu. A velha resmunga alguns xingamentos e sai batendo a porta.
Aquele pânico se elevou ao nível extremo, Hanna sabia que algo de muito errado havia acontecido e se lembrava de seus amigos alheios ao perigo em uma cabana afastada. Seus gritos jamais seriam ouvidos.
Não demorou e o sono a dominou. A conduzindo à um universo paralelo. Onde ela pode jurar já estar antes.
—Ela está acordando agora. Shhh, silêncio. —Uma voz grossa ordenou e rapidamente os sussurros cessaram. —Rápido! Ergam ela. —Hanna sentiu seu corpo ser içado para cima e lutou contra a onda de enjoos que a atormentavam. Observou os rostos das pessoas próximas, suas feições não demonstravam nada além de surpresa.
—Quem são vocês? —Perguntou enquanto coçava os olhos. Um homem que antes ordenará silêncio aos presentes, agora lhe sorria amigável.
—Somos os seus protetores. —Respondeu enquanto alisava as mãos na lateral do corpo. —Esperamos tanto tempo por você, Hanna!
—Como? Eu nem se quer conheço vocês. —Hanna se levanta e todos os presentes se afastam surpresos, como se temessem a ira da jovem. —É um pesadelo, eu já vou acordar. —Constatou.
—Ah, eu não teria tanta certeza. —Uma garota de cabelos encaracolados e pele escura diz observando a jovem sem interesse.
—O que? Eu vou ficar presa aqui eternamente? É isso? —O tom debochado de Hanna gerou uma onda de sussurros e foi necessário o homem intervir novamente.
—Se este for o desejo de seu pai, sim, você ficará aqui eternamente. —Uma risada incrédula escapa dos lábios carnudos da jovem e ela precisa levar as mãos à boca para cessar.
—Eu não tenho pai. —Todos se entreolham e então como se recordassem de algo suspiram e dizem “ah, é verdade”, “ela realmente não se lembra”.
—Saiam todos. Acho que preciso levar uma conversa com Hanna. —O homem diz novamente e todos se apressam em sair do quarto.
—É sério, quem são vocês? —Diz e torna a se sentar na cama fofa, aquela era bem diferente da sua, ela podia sentir os ferros que sustentavam o colchão ao se deitar. Se move um pouco, incomodada com o olhar do homem.
—Quando Leonard disse que tinha uma filha com uma estrangeira, todos ficamos em completo choque. —Ele começa encarando a jovem. —O rei de Melymphe sempre fora fiel à sua esposa, ninguém do reino imaginava que sua viagem ao mundo exterior resultaria em uma linhagem real, uma linhagem bastarda. Nunca na história do reino os dogmas foram quebrados. Mas, o seu nascimento gerou uma discórdia, uma horrível discórdia. O rei se separou de sua esposa Kara, ambos já tinham dois filhos, Balzac e Aria, seus irmãos e inimigos. Você, seus descendentes e todos aqueles que ousarem se aproximar de você. Estão amaldiçoados. Sua mãe, seus irmãos, seus amigos... Todos. —Hanna escutava tudo atentamente, aquele relato era arrebatador e inacreditável. —Não há nada que possa fazer, seus irmãos invadiram o seu mundo. Você é a primogênita, você é a maldição. Balzac e Aria nunca reinarão absolutos enquanto você respirar, Hanna. Você corre perigo. O seu mundo corre perigo, as pessoas que você ama corre perigo. É dever de seu pai prepara-la para batalha, você precisa arcar com a responsabilidade que lhe será dada. Você está preparada, Hanna?
Hanna não conseguia pronunciar uma palavra, sentia-se muito mal ao ouvir tudo aquilo. Seus amigos, era a única coisa que conseguia pensar naquele momento.
—Meus amigos... eles... eu os deixei sozinhos! Eu sabia que algo ruim estava para acontecer, eu... eu... eu os matei! —Ela berra sentindo lágrimas escorregarem pela face.
—Não! Eles não estão mortos, nós o ajudamos. É fato que estão feridos e não se lembraram de nada, mas o essencial, que era suas vidas, está com eles. As tropas de Balzac investiram contra eles, conseguimos te ocultar o máximo de tempo, mas a denúncia foi feita, Hanna. Há um traidor delatando tudo à Balzac. Você não pode mais confiar em ninguém.
—Eles não morreram? Ainda bem! —Hanna diz arriscando um sorriso e lembrando-se de Paul. —Como se chama?
—Theodore. —Hanna não havia entendido muito tudo do que o homem lhe disse, mantinha a esperança de acordar e contar a todos o seu horrível pesadelo. Pensou até em abraçar a mãe depois de tudo aquilo. —Seu pai deve estar louco para te rever. Faz tanto tempo!
Hanna queria perguntar o que fazia tanto tempo, mas foi apanhada pelo pulso e obrigada a caminhar para fora do quarto, só então percebeu o ambiente contemporâneo, as vestes das pessoas que transitavam nos corredores e até mesmo suas roupas foram trocadas e substituídas por vestes reais.
—O que houve com minhas roupas? —Perguntou apalpando o vestido branco e sedoso.
—Acha mesmo que permitiríamos sua entrada aqui com aquelas vestes? As impurezas do mundo exterior nunca devem entrar em Melymphe! —Theodore diz dobrando um corredor extenso e abrindo uma porta. Hanna foi empurrada para dentro e o homem também se permitiu entrar, não havia menos que dez pessoas ali, todos a observavam esperançosos.
—Oh, vossa senhoria voltou para salvar-nos! —Uma mulher de tranças longas e expressão emocionada comentou.
—Não a pressionem, tudo é muito novo para ela. —Theodore alerta e todas as mulheres assentem, sussurrando sobre a moça. —Limpeza geral! Hanna deve estar pronta e apresentável para se encontrar com o pai.
Dito isso Theodore saiu do quarto, ninguém o acompanhou, mas Hanna desejava que fosse ela a fazer isso, em um ato impensado move as pernas, pronta para sair da sala.
—Opa! —Uma das senhoras a toma pelo braço e amigavelmente a obriga a se sentar diante de um espelho. —Não precisa sentir medo. Será uma honra penteá-la.
—Sabe, eu acho que sou capaz de fazer isso sozinha. —Diz tentando pegar o pente das mãos da senhora e fazer ela mesma seu penteado, ou, prendê-lo em um rabo de cavalo firme.
—Não! —Uma das moças que Hanna não havia nem se quer notado se manifesta, e dado o seu tom intolerante recebeu uma carranca de todas as outras. —Quero dizer, estamos aqui para servi-la senhora. Deixe-nos ser útil.
—Eu não preciso que me tratem especial, eu sou Hanna! Hanna Chase, a garota fútil, que por algum motivo equívoco está tendo esse pesadelo, mas eu vou acordar e se tiver sorte nem me lembrarei de vocês! —Ela libera sua confusão e todas soltam arquejos espantados e novamente pode-se ouvir sussurros. —Agora, se me deem licença, eu preciso pensar.
Todas fizeram uma mesura simples antes de saírem apressadas do quarto, Hanna observava seu rosto no espelho grande, seus traços, sua expressão abatida e totalmente confusa. Se pegou beliscando o braço esquerdo e pressionando os olhos. Mas ao final do ato, e ao abrir os olhos, tudo ainda estava ali. Encarou a marca do belisco no braço, e constatou que ficaria vermelho. Bufou.
Desfez a trança que antes moldava seu cabelo e no processo questionou como estes tiveram a audácia de vesti-la e na pior das hipóteses vê-la nua. Seus cabelos negros agora caiam livres sobre os ombros, ela poderia ficar ali preparando um penteado bonito, mas acabou achando cabível apenas prendê-lo. Havia roupas ali também, então chegou a breve conclusão de que deveria se trocar também, a se observar atentamente, as roupas que trajava não portavam a mesma elegância daquelas estendidas ali. Havia diversos vestidos, de diferentes cores e tamanhos, mas nenhum chegava ao gosto de Hanna. Optou por fechar os olhos e pegar o primeiro que lhe viesse a mão e assim vesti-lo sem reclamar.
Escutou o barulho da porta ser aberta e rapidamente virou-se, ocultando o corpo seminu atrás do longo vestido.
—Mísera! Me deu um susto! —Ela havia visto a jovem negra quando acordou, e também havia escutado o comentário da mesma. —O que quer? Me dizer mais revelações? Ou, me idolatr..
—Abaixa a sua bola. —Hanna que antes encarava o vestido, voltou o rosto para jovem. Ao que tudo indicava Hanna era autoridade ali, porquê aquela te tratava de modo tão áspero?
—O que disse? —Perguntou arqueando as sobrancelhas.
—Eu não sou obrigada a te idolatrar, princesa. Você pode ser herdeira do reino de Melymphe, mas algo em você não me invoca bons pensamentos. —A jovem caminhava pelo quarto, hora tocando nos tecidos, hora encarando o próprio reflexo no espelho. Hanna notou de imediato a maneira diferente daquela se comportar e vestir. Suas roupas não eram vestidos longos e a coloração de suas roupas não precisavam ser brancas—como tudo ali— possuíam uma coloração marrom ou vinho, o daltonismo de Hanna não a permitia identificar precisamente.
—Você não faz parte do reino, não é mesmo? —Arriscou perguntar.
—Hm, não. —A garota repousava na janela, fitava a paisagem com um olhar indiferente. —Pareço ser do seu reino?
—Não. Espera! Eu não tenho reino algum. —Hanna diz deslocada e a outra sorri sem humor.
—Eu não sou muito diferente de você. —Ela diz de repente, Hanna decide se sentar e escutar a outra. —Eu me chamo Akira Flaubert, eu sou princesa de Rimbaud. Mas meu país, meu reino e boa parte de meus submissos morreram, ou estão espalhados por diversos reinos. O meu povo se tornou escravo de Balzac, seu... seu maldito irmão! Meus pais estão presos e eu preciso recuperar a minha honra. O seu pai vem me ajudado com isso, mas também não posso superlotar seu reino com o meu povo. Apesar de ter suas indiferenças com Balzac e Aria, minha guerra não é sua. Eu, e somente eu, posso recuperar tudo que me foi tirado.
—Lamento. —Hanna diz sensibilizada. —Eu realmente lamento.
—Que seja. Eu vou matar todos eles, de qualquer forma. —A jovem diz grossa, Hanna havia notado o amadurecimento na postura e palavras da jovem. Akira falava sério. —Bem, eu vou indo.... Princesa.
A moça saiu tão rápido quanto entrou e novamente Hanna se encontrou sozinha. Começava a compreender a situação melhor, e já podia afirmar que sentia raiva de Balzac e Aria, vulgos seus irmãos. Terminou de se aprontar e saiu do quarto. Ansiava por descobrir mais.
Caminhou para o lado direito, tinha a impressão de conhecer aquele lugar, de ter estado ali antes. Quadros estampavam as paredes e algumas pessoas passavam e lhe faziam mesuras. Ela só tinha em mente encontrar Theodore ou até mesmo Akira. Após circular por minutos nos corredores, abordou alguém.
—Com licença. —A mulher rechonchuda ao perceber quem se dirigia a si, abaixou o olhar e fez uma mesura profunda. Hanna de certa forma já estava se acostumando com isso. —Você pode me informar o paradeiro de Theodore?
—Oh, sim sim! —A mulher toma o pulso de Hanna e a conduz rumo a escadaria, Hanna não havia cogitado quantos andares tinha o edifício, mas era fato que não tinha andando nem metade dele. —Apenas desça e vire a esquerda, lá terá uma linda porta. Theodore está lá.
—Obrigada. —Hanna diz descendo calmamente as escadas, o comprimento do vestido poderia faze-la rolar degraus abaixo. Virou à esquerda assim como fora lhe indicado e logo estava diante de uma porta belíssima, não perdeu tempo a analisando, virou a maçaneta e logo todos olhavam para ti.
—Oh céus! Eu ordenei para que te preparassem... —Theodore diz olhando a moça com desgosto. Hanna não evita sorrir.
—Eu dispensei todas elas. —Hanna diz sorrindo meigamente.
—Isso explica muitas coisas. Tudo bem, venha querida, eu darei um jeito em você. —Theodore diz abandonando os outros empregados e caminhando em direção a jovem. —Qual tal conhecermos o castelo antes?
—Eu topo! —Hanna diz seguindo o homem de estatura baixa e cabeça calva.
—Hm, já que estamos aqui em baixo, vamos aos jardins! Ficam uma beleza na primavera, Melymphe é muito conhecida por suas flores. Nós exportamos inclusive para diversos reinos. —Theodore falava e Hanna fingia estar ouvindo, a verdade é que estava encantada com a beleza do castelo visto de fora, tudo era branco o que causava uma sensação de paz, e todos eram gentis ali que só reforçava a ideia de que Melymphe era um ótimo lugar para se viver. —Aí está!
O jardim ocupava uma extensa área e era visto a perder de vistas, rosas brancas compunham boa parte da flora dele e havia muitos campesinos trabalhando nele.
—Theodore, eu ainda não entendi bem o ódio de meus irmãos por mim. É estranho. —Theodore que fitava o além indicou um banco e ambos se sentaram à sombra da frondosa árvore.
—Ok, desde o começo. —Ele diz para si mesmo antes de começar a narrar. —O reino de Melymphe surgiu no início dos tempos, e juntamente com ele a sua linhagem real. Nós somos a 22º geração, o seu pai Leonard Jacques II é o representante real, mas obviamente que não somos absolutos em Dewey, talvez somos o país mais poderoso, mas há outras diversas monarquias, e com elas nascem as alianças. O reino de Wilhelm apresentava uma significante ameaça a Melymphe, e se as alianças entre ambos reinos não fossem seladas, uma guerra iria eclodir. Uma conferência foi feita, e por meio dela veio a solução: A união da princesa de Wilhelm com o príncipe de Melymphe, era certeza de que a paz reinaria e assim aconteceu. Não demorou muito e o casamento foi realizado, ambos lados felizes, só a morte colocaria fim nas alianças. Oh! Mas aí então uma conexão com o mundo exterior foi descoberta, podíamos ir à Terra! Podíamos visitar os estrangeiros e se fosse de nosso desejo nos passar por um deles! Rei Leonard jovem e no ápice de sua rebeldia decretou que ele seria o primeiro, e se não o fizesse ninguém mais faria. Pobre de Natalie, sua mulher. Nem carregava um filho no ventre e já temia a morte do esposo. Regado a indignações o rei foi, passou muito tempo por lá e quando retornou trazia-nos a notícia. Ele seria pai. Um vazamento da informação a tornou pública, e uma guerra oculta dominou o reino. Os dois reinos estavam em crise. Natalie ainda suportou viver com o rei por dois anos, mas logo as coisas se complicaram e a mesma optou por partir e levar seus filhos. Voltou para Wilhelm, mas não fora bem recebida por seu povo, que a julgava fraca e sem honra. A vida da princesa estava acabada, e se continuasse lá vivendo, a de seus filhos também. Em um ato de coragem fugiu, habitou terras ao norte e graças ao bom desempenho contra o povo fraco e leigo que lá habitava, criou uma nova dinastia. Os Dickens. —Hanna não dizia nada, apenas armazenava as informações, soltando arquejos vez ou outra. —Tempos se passaram e a fama de seu reino cresceu, juntamente com os relatos tenebrosos. Muitos fugiram para o sul e todos aqueles que não conseguiram, permaneceram no círculo de guerra. Balzac que tem praticamente sua idade, assumiu o reino, e agora busca te encontrar, primeiro para vingar a mãe, segundo para exercer poder em todo o mundo. No meu e no seu.
—Caracas, estamos bem ferrados. —Hanna diz sem pensar e Theodore lhe encara confuso. —Relaxa, são gírias do exterior.
—Relaxa, gostei dessa palavra, relaxa, relaxa. —Ele ficou repetindo a palavra e Hanna se permitiu rir.
Um grupo de rapazes vestidos de soldados passaram correndo e caçoando uns dos outros, Hanna pôde notar uma jovem entre eles. Akira.
—Ei, vocês! —Theodore chamou e o grupo se aproximou. —Não fazem mesura para princesa? —Todos surpresos se curvaram e sussurraram “seja bem-vinda, alteza”. Akira tampouco se mexeu, apenas fitou as unhas e ignorou, Hanna gostaria de entender a raiva de Akira, mas agora estava ocupada fitando os belos rostos dos rapazes. Um deles havia lhe chamado a atenção, possuía cabelos negros e uma pequena cicatriz na bochecha, seu olhar era feroz. Após fazer a mesura o jovem cruzou os braços sobre o torso musculoso.
—Aleixo Rocco, é um prazer conhece-la majestade. —Disse se apresentando, ele parecia liderar o grupo e ser o mais velho de todos também.
—Enrico Alighieri, é um prazer. —Um outro jovem de olhos claros e pele clara se apresenta e novamente faz uma mesura.
—Luka Portinari. —Um outro diz sorrindo galante, sua pele era escura e talvez fosse o mais bonito e musculosos entre os presentes.
—Johann Goethe, ficamos felizes em recebe-la senhora. —O cabelo daquele era ruivo e sardinhas se acumulavam em seu rosto.
—Akira Flaubert. Você já me conhece. —Akira diz grossa e Hanna evita rolar os olhos.
—Hanna Chase, será ótimo ser amiga de vocês. —Hanna diz ingênua e Akira ri sozinha.
—O que? Ah, parem! Ela acha que seremos amigos, seu mundinho é diferente majestade, nós lutamos para proteger você, tu podes ficar sentada penteando suas madeixas douradas, ops, no seu caso negras... enquanto nós lutamos pela segurança de todos. —Hanna sentiu suas bochechas queimarem e notou que nem mesmo Theodore sabia o que responder. O jovem Aleixo saiu em seu favor.
—Não vejo nenhum obstáculo, muito ao contrário, acredito que justamente por isso poderemos vir a ser amigos. —Hanna sorriu delicada para ele e pode notar a semelhança com Paul.
—Vocês são patéticos. —Akira diz antes de partir pisando forte.
Theodore se libertou de seu transe e recordou suas tarefas.
—Oh, vamos! Temos muito a se fazer ainda.
(...)
Hanna encarava seu reflexo no espelho, estava bonita, seu cabelo estava preso em um coque frouxo, e algumas mechas de seu cabelo caiam naturais do topo. Seu vestido era branco e trabalhado em detalhes vermelhos. Theodore havia dito que o vestido fora trabalhado a mão.
—Oh, seu pai não vai acreditar que cresceu tanto! —Havia um ponto na história que não encaixava, todos presentes falavam como se Hanna já houvesse conhecido o pai, mas ela não se lembrava de nada. Absolutamente nada. Theodore pareceu ler seus pensamentos. —Quando você tinha cinco anos. Você visitou o reino aquela única vez, seu pai se apaixonou por você. Era uma criança adorável, mas não podia ficar para sempre. Ele optou por não lhe trazer novamente. Mas dada as circunstâncias você voltou!
—Meu pai tem outros herdeiros? —Hanna já estava inclusa naquele círculo, se todos a tratavam como tal, ela assumiria seu papel de princesa.
—Ah sim! Sophie, Charlotte, Beatrice, Falcoo, Guido, Henry...
—Oras! Quantos sãos? —Perguntou surpresa com a quantidade de nomes citados.
—Pois bem, seu pai tem duas esposas. Anna e Caterina. —Theodore diz com naturalidade. —Há e ainda restam Dante e Gustave.
—Caracas! —Hanna não imaginava essa quantidade de irmãos.
—É, nasce um todo ano. —Brincou Theodore e Hanna sorriu divertida.
—Leonard precisa de uma vasectomia. —Theodore riu mesmo sem saber o significado da palavra.
—Vamos, logo já serviram o jantar!
(...)
Hanna foi conduzida até uma sala de proporção exageradas, todos dançavam e cantavam cânticos, Hanna pôde vislumbrar a silhueta de Leonard de longe, era um homem branco de cabelos negros e postura de líder. Ao seu lado duas mulheres ocupavam tronos menores, “então essas são as rainhas”, pensou encarando ora uma, ora outra. Seus irmãos também estavam por ali, dispersos. Suas idades e fisionomias eram variadas, os pequenos brincavam, os maiores a encaravam raivosos, com cobiça.
—Oh! Minha filha, como está bela! —O rei diz erguendo os braços ao ar, Hanna podia ver o brilho em seu olhar. —Venha!
A passos lentos caminhou até o altar e lá como fora lhe indicado antes, fez uma mesura. O pai desceu e a abraçou, as madrastas fizeram o mesmo, mas era fato que estavam obrigadas ali.
—Está uma mulher formada! Era tão pequena... —Hanna sentia o desconforto fluir mais e mais, mas logo o assunto do jantar se dispersou e as atenção saíram um pouco de ti.
—Sou Beatrice, sua irmã. —Uma garota loura e de aparentemente catorze anos se identificou.
Beatrice e Hanna logo engataram um papo, Beatrice era curiosa, perguntava tudo do mundo exterior, desde roupas à garotos. Seus outros irmãos pareceram incomodados com a intimidade de ambas e logo Beatrice foi repreendida e obrigada a retornar ao seu canto.
—Sentindo a pressão, Princesa? —Akira surgiu com uma taça de vinho em mãos.
—Impossível não sentir com ela tão evidente. —Akira ri e se afasta, Hanna ainda não compreendia ela.
(...)
O jantar havia sido regado de apresentações e olhares mal-intencionados, Hanna não se sentiu à vontade em momento algum e por esse motivo agradecia estar na cama.
—Como vai ser agora? —Perguntou para Theodore que ajeitava o edredom sobre a cama. —Sabe o que mais me impressiona?
—Não, princesa.
—A coragem de Leonard de ficar com minha mãe... ela só bebe, se droga e convenhamos, é muito inferior ao rei. —Ela diz pousando a cabeça no travesseiro.
—Ah, quando o rei voltou para Melymphe fomos obrigados a estragar sua mãe, perdoe-me, mas... nós que tornamos sua mãe uma mulher vazia e sem sonhos, ela não podia se lembrar de nada do que viveu ao lado do rei. Não faríamos nada disso se Leonard não cometesse a tolice de lhe revelar sua origem.
Hanna não conseguia dizer o que sentiu naquele momento, não queria dizer que eles tiraram a oportunidade de ter uma relação conservadora com a mãe, não conseguiu dizer o quanto sofria por ser rejeitada. Suspirou.
—E como vai ser agora? —Tornou a perguntar, seu tom era sensível e sonolento.
—Você irá dormir e retornar ao seu mundo. Mais tarde quando se deitar, se evocar os pensamentos certos voltará para cá, caso contrário corre o risco de parar em outro reino, ou até mesmo outro mundo. —Hanna se assustou ao ouvir aquilo, e deixou bem explicito na maneira que arregalou os olhos e gaguejou:
—E como saberei evocar os pensamentos certos?! —Diz antes de o sono a vencer.
—Você é uma vencedora Hanna. —Theodore diz sorrindo. —Você tem a arte da prudência.
—ACORDA IDIOTA! —Hanna desperta sentindo à água lhe encharcar o rosto e faze-la engasgar. —VOCÊ TEM BANHEIRO PARA LAVAR.
E o pesadelo recomeça...
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