Quase se tocaram.

– Heitor querido! Que bom que eu te achei. Garoto você não pode ficar sumindo assim — disse uma menina extremamente escandalosa e inconveniente.

Nós rapidamente nos afastamos como dois criminosos que acabam de ser pegos em flagrante.

– Ãn... Angella. Que surpresa – Heitor cumprimentou-a sem muito entusiasmo.

– Que surpresa o que bobinho você sabe que eu estou te procurando desde a manhã– disse ela andando até ele – Ah que horror – ela gritou ao me ver.

Forcei o melhor sorriso que pude e revirei os olhos.

– Ai Heitor, o que faz aqui com essa... Coisa?

Angella puxou Heitor o mais próximo que pode dela, e o mais longe possível de mim.

– Eu estava...an... Ajudando ela...

– Ah Heitor – ela o interrompeu – Sempre o herói solidário. É por isso que eu te amo – e então ela o beijou.

Meus olhos se arregalaram e os desviei o mais rápido que pude – Burra – repreendi-me.

Quando voltei meus olhos para “cena” eles já estavam separados, mas as mãos entrelaçavam-se perfeitamente, como se tivessem sido feitas uma para outra.

– Queridinha, não fomos apresentadas não é? Ah que injuria a minha – ela colocou uma mão para cima simulando um drama – Anota ai, meu nome é Angella, mas com dois LL, significa “a mensageira”, e para os gregos “anjo”, o que fica fácil de notar pela minha sutileza e beleza , sou filha de Afrodite, a deusa do amor e claro, da beleza.

Tudo anotadinho no me caderninho de pessoas que eu realmente acho relevante, está debaixo do Zé ninguém se importa, pertinho do João não tô nem ai. E ah, não se esqueça da humildade também garota.

– Meu nome é Jessie – forcei o maior sorriso que pude — E eu não sei o que significa.

Ela forçou uma risada mais que falsa – Você é uma gracinha menina.

Tenho que confessar, ela era realmente linda, os cabelos pretos e sedosos, olhos também negros e sedutores. Estava num vestido branco apertado que emoldurava perfeitamente seu corpo (que, diga-se de passagem, era lindo), e para finalizar sua pele bronzeada parecia brilhar com cada movimento dela.

Foi aí que me lembrei do meu estado, aquela imagem surtada no espelho gritou na minha mente.

– Angella, eu tenho que levá-la ao chalé e ajudar na instalação – Heitor rompeu meu momento de crise existencial – Então se você puder...

– Claro que eu posso ajudar! Qual chalé? Hermes, Deméter... Ah! Já sei, sei! Hefesto!

– Um – Heitor disse satisfeito.

– Um? – Angella quase engasgou – Como assim? Eu pensei que fosse limitado só pra aquela filhazinha de Artemis e o garoto romano.

Heitor sorriu pra mim.

– Se é assim – disse Angella vindo até mim e me agarrando pelo braço – Você precisa de um bom banho, cuidados com o cabelo e a pele, e com uma maquiagem você vai ficar incrível! Vamos logo, eu te ajudo a se instalar no chalé...

– Angella – repreendeu Heitor.

– Que foi? – ela revirou os olhos.

– Sabe que não pode ir lá– ele cruzou os braços.

– Você é um grande estraga prazer! – disse ela alterando o tom.

– Angella, dê um tempo a ela ok? Aposto que você tem um milhão de coisas pra fazer.

– É claro que tenho – ela respondeu levantando – Os filhos de Afrodite são sempre muito ocupados.

Depois de me analisar com os olhos apertados ela se jogou nos braços do Heitor.

– Te vejo a noite na cabana ursinho – Angella o forçou a mais um beijo.

E antes de sair, um olhar de desprezo para mim e uma piscada para ele. Uma jogada de cabelo para dramatizar o momento e finalmente ela estava fora do campo de visão.

– Eu.. Ãn... –gaguejou Heitor passando a mão pela nuca –Sinto muito por isso.

–O que? Isso? Ah capaz, foi um ótimo show – ironizei.

– Sério, não é algo que eu me orgulhe.

– Não precisa se explicar, não me deve isso.

E a barreira entre nós estava construida, e tinha um nome: Angella (com dois LL's; sim, eu anotei).

– Claro... — percebi a decepção na sua voz — Pronta pra conhecer sua nova casa?

Não, eu odeio esse lugar! Do fundo do meu coração espero que não seja ao lado da sua ou da sua amiguinha.

– Não tenho muita escolha.

Ele suspirou – Não vai mesmo nos dar uma chance não é?

Cara, ele tinha que parar de me olhar com aqueles olhos cinzentos cheios de decepção ou eu teria grandes problemas.

– Tudo bem – forcei o melhor sorriso que pude — Quer dizer, quão ruim pode ser?