Notas iniciais

Minha cabeça doía, estava frio, molhado e um estranho gosto metálico me atormentava o paladar.

Ainda que lentamente meus sentidos começam a recuperar-se. – Calma – disse a mim mesma – mantenha a calma. Qual a minha última lembrança? Difícil! Ah claro, o hotel no Kansas e a caçada ao metamorfo do jornal, e depois... Nada! Droga. Como é que eu...

- Ela está ferida – uma voz feminina me assustou.

- Acho melhor buscar ambrósia – dessa vez uma voz masculina que soava preocupada.

- Você vem também, mal sabemos como ela veio parar aqui. Pode ser perigoso – disse a garota.

Ah ótimo. Duas crianças me observando.

- Não seja boba Annabeth, ela é inofensiva, e além do mais algum monstro de treino do acampamento pode encontrá-la e... Bem, não queremos isso – disse o garoto.

- Ah tudo bem – assentiu a menina. Sua voz não parecia nada satisfeita, mas pude ouvir passos distanciando-se rapidamente.

Ok, o cara ainda estava aqui.

Cerrei meus punhos e rezei para que minha faca estivesse em minhas mãos. Senti a superfície gélida e lisa do cabo da minha velha faca. – Ah, obrigado – aliviei-me, o que durou pouco. – Você ainda tem que se livrar do garoto – alertei ao meu consciente. Com os olhos semicerrados tentei montar uma rota de fuga, o que não me deu muito certo, já que tudo o que eu tinha em meu campo de visão eram árvores, árvores, árvores e mais árvores, e vejam só... Mais árvores! Eu teria de enfrentar aquele garoto. Tudo bem, antes tenho que ficar em pé.

Tentei levantar-me e AH MEU DEUS como meus ossos doíam, era como se eu tivesse levado uma surra e entrado na fila mais uma dezena de vezes para repetir a dose.

- Ei Bela Adormecida, vai com calma eu... – disse o garoto tentando... Me ajudar?!

Assim que fiquei em pé meu corpo estremeceu e tudo que consegui fazer foi correr. Corri em oposição ao garoto e... Cai. Ótimo, o garoto havia me segurado pelo tornozelo.

- Vai devagar garota – disse ele ofegante — Não há porque ter medo ou fugir, nós não vamos te ...

O interrompi com um chute. Com a minha experiência “ não tenha medo” quer dizer “eu vou te matar rapidinho”.

Coloquei-me em pé outra vez, mas ele era mais rápido. Estava em pé um segundo depois de mim e sacou uma espada cor de bronze.

- Esta tudo bem, eu não quero te machucar – disse ele colocando-se em posição de guarda.

Ah claro – revirei os olhos por um instante – Não quer me machucar é? A espada que ele sacou é só pra dar as boas vindas, claro, como não pensei nisso? Tão... Óbvio!

Posicionei-me em guarda frente a ele sem dizer uma palavra sequer, e aquela sensação invadiu-me novamente. Essa sensação de adrenalina pura sempre me deu vantagem em batalhas, isso me fazia lutar e eu não reclamava, me mantinha viva em guerra.

- Ei, calma... Não precisamos lutar, somos amigos sim? – sua última tentativa de apartar uma briga.

Errado. Meus amigos não me apontam uma espada para demostrar sua amizade e eu não estava interessada em ampliar meu círculo social.

- Se é assim então... – e ele investiu contra mim.

Rapidamente minha faca apartou seu golpe, estávamos frente a frente e então pude ver seus olhos cor de mar assustados/frustrados com a golpe incompleto.

- Como você...

- Minha vez – o interrompi.

Com minha mão livre o empurrei para trás, e antes que ele se recuperasse segurei sua mão que tinha a espada e a girei contra a suas costas imobilizando-o. Minha faca encontrou a pele branca de seu pescoço.

- Eu só vou perguntar uma vez – sussurrei em seu ouvido num tom ameaçador – Quem é você e que lugar é esse?

Ele não me respondeu. ARG. Maldito garoto. Pressionei a faca um pouquinho mais e...

- Tudo bem, Tudo bem. Calma — ele assentiu — Eu sou Percy Jackson, filho de Poseidon, e este é o Acampamento Meio-Sangue. Bem-vinda semideusa.

O quê? Eu estava com a faca na jugular daquele menino e ele me vem com uma história dessas? Não é possível.

Um riso me escapou – Não brinque comigo garoto, eu não te conheço e posso muito bem cortar o seu pescoço sem remorso – apertei um pouco mais a faca.

- Ele está dizendo a verdade menina – disse uma voz velha e masculina.

- Largue a faca ou eu juro pelos deuses ... – ah droga, aquela menina irritante de novo.

O homem parecia de meia idade, mas falava como se já tivesse vivido o bastante, estava numa cadeira de rodas e tinha poucos músculos no braço pra ser cadeirante; a garota me fuzilava com aqueles olhos cinzentos arrepiantes, seu cabelo quase não tinha cor de tão loiro ao sol.

- Acampamento? Eu não sou trouxa. Vejo campos de arco e flecha ali, uma parede de escalada com obstáculos e está cheio de tralhas de guerra daquele lado. Um campo de treinamento para combate no mínimo – disse eu mantendo o garoto com a faca no pescoço ainda.

- Largue o Percy e então eu responderei todas as suas dúvidas – disse o homem suavemente, quase como se eu não estivesse com o seu amigo preso pelo pescoço.

Eu o observei por alguns segundos, não havia muito que fazer. Eu estava em desvantagem, não sabia se as minhas armas ainda estavam ali... Empurrei o garoto em direção ao comitê de boas vindas.

- Esta tudo bem Annabeth, ela só esta um pouco assustada – disse o menino à garota irritante.

- Eu te disse que era melhor irmos juntos – ela revirou os olhos – Vamos, temos de reunir o conselho, a garota ainda não foi reclamada.

O garoto... Digo, Percy assentiu e me deu as costas seguindo Annabeth até a área onde se encontrava o “suposto acampamento”.

- Meu nome é Quíron, seja bem-vinda semideusa – ele sorriu como se fosse a coisa mais normal no mundo.

- O quê?

- É difícil explicar. Quantos anos têm?

- 17 – menti

- E você tem um nome?

- Jessie – menti outra vez.

- Jessie – ele repetiu estranhosamente – Pouco grego, nada heróico... Mas quem sabe não é?

Eu o fitei. O que diabos ele estava querendo dizer com aquilo? E pior, por que me chamou de semideusa?

- Venha criança, você precisa saber de muita coisa.

Ele me fez um sinal para que eu o seguisse e mesmo apreensiva eu o segui, precisava chegar ao fundo de toda essa confusão. Atravessamos o acampamento até uma casa enorme, passando por umas casas esquisitas que se posicionavam em forma de U, enquanto Quíron tagarelava mitologia sobre deuses gregos e todo um blá blá blá sobre semideuses e heróis.