A Arca de Pandora
11 El Diablo
Notas iniciais
Embora o inglês do homem fosse bem articulado, ele misturava muitas expressões espanholas no meio da fala, não se sabe se por hábito, ou se propositalmente para irritar Hope, lembrando-o a cada frase de sua origem adversária. Terminou de falar e mirou o capitão pirata de um modo indecifrável. O inglês, apesar de ter os nervos abalados, sustentou o olhar do espanhol com altivez, tentando aparentar calma e sua costumeira arrogância. Olhou seu interlocutor de alto a baixo e reprimiu a custo um estremecimento.
O espanhol era justamente como os marujos descreveram. Estatura mediana, esbelto, aparentando uns quarenta anos, pele morena embora pálida, cabelos escuros, longos e anelados presos por uma faixa de seda, olhos escuros, cavanhaque, roupas espalhafatosas e um punhal na cintura. Anéis, brincos e colares exóticos em número exagerado. Semblante e posturas próprias de um hispânico. Vestimenta típica de um cigano. Olhar frio como uma lápide. Sorriso maldoso que, quando esboçado, deixava à mostra alguns dentes de ouro. Cruzou os braços para observar o inglês com altivez.
— Vejo que sabe quem sou. – replicou Hope sem tirar os olhos do outro.
— Difícil no saber algo acerca del hombre que tem causado tantos dissabores a mi pueblo.
Foi a vez de Hope sorrir:
— Se sabe o que fiz ao seu povo, de fato me conhece melhor até do que eu poderia imaginar. Eu, entretanto, não o conheço. Quem é você?
Fazendo um floreio com as mãos, executando uma pomposa mesura, o homem curvou-se para frente antes de se apresentar:
— Mi nombre es Esteban Ramirez. Trago os cumprimentos del Rey de España, Don Filipe II.
Ao ouvir isso, Hope titubeou. Seu rosto empalideceu imediatamente, perdendo por instantes sua expressão soberba. O inglês então viu que o espanhol a poucos metros de si, banhado pela luz da lua cheia, não projetava sombra no convés. A sombra de Hope estava lá, mas a de Ramirez curiosamente, não.
— Então Filipe II enviou você, heim? Agora compreendo: você é uma espécie de arma secreta da Espanha. Veio naquela arca maldita, soterrado pelo tesouro. Mas estava morto; eu vi com meus próprios olhos. Como pode ter voltado à vida?
Dom Esteban soltou uma gargalhada sombria ao perceber a confusão nos olhos do inglês. Apenas riu. Essa foi sua resposta.
— Você não é humano... é? – indagou Hope temeroso, sentindo o coração acelerar subitamente.
— No, meu amigo. Yo no soy humano como tu. Deixei de ser faz alguns séculos. Entre vós, sou Esteban, o cigano. Mas entre os meus, soy conocido como El Diablo.
— Se não é humano, o que você é?
Nova gargalhada de deboche escapou dos lábios pálidos do espanhol, antes que ele respondesse de modo macabro e enigmático:
— Tenha calma, hombre. Em breve irás saber.
Permitindo que o silêncio angustiante reinasse por alguns segundos e, desse modo torturando psicologicamente ainda mais seu odiado interlocutor, Esteban continuou:
— Eu caminho por esta tierra há muy tiempo. Nasci, cresci e fui transformado na minha pátria, España. Enquanto era mortal, vivi entre meu povo, aquellos que usted conhece por ciganos. Mas um dia um homem, um amigo em quem confiava, presenteou-me com La inmortalidad. Pratiquei o mal contra aqueles que foram meu povo. Levei a eles la muerte, o medo e a dor. Pero um dia descobriram alguns de mis pontos fracos, e fui capturado. Estive em poder da Inquisição.
Parando um momento nesse ponto, Dom Esteban Ramirez fitou seu inimigo com intensidade antes de prosseguir;
— Creia-me, mi compañero, no foi divertido... A Igreja sabe como tratar a sus enemigos... Sólo não fui destruído porque el rey da época não o permitiu. Dizia que eu podia ser útil em algún momento... Entonces, permaneci aprisionado por muito tempo, tanto que perdi la noción de quanto... Pero un día Don Filipe quis me ver... Foi hablar comigo no calabouço donde yo me achava preso, alimentando-me principalmente de ratos. Ele me disse que mi país, mi madre, España, necessitava de mim.
Neste ponto da narrativa, Esteban parou de falar por mais um instante e voltou-se para Hope com ódio mortal chispando em seus olhos negros. Apontando acusadoramente para seu interlocutor um dedo de longa e pontuda unha em riste, o espanhol continuou:
— Como estive muito tempo isolado nas trevas de minha prisón, eu ignorava o que acontecia aqui fora. E o rei, Don Filipe II, falou-me de vocês, los británicos. Saqueando e matando meu povo... Afundando nuestros barcos... Trazendo enormes perdas financieras à Coroa Espanhola... O rei disse que eu tinha a chance de reparar os males que había causado ao meu país. Além disso, eu estaria livre novamente. Apenas precisava dar a los británicos una lección.
Conforme falava, o espanhol andava de um lado para outro no convés sombrio do galeão, como se contasse a história mais a si do que ao inglês propriamente. Hope, estático, apenas seguia o outro com o olhar sem nada dizer.
— Eu aceitei la oferta de imediato, claro! Queria ser livre pero, antes de qualquer coisa, yo soy español! Acho que me compreende, capitán; usted me parece o tipo de hombre que también faria tudo por seu país.
O hispânico fez mais uma pausa e, diante do silêncio do outro, prosseguiu:
— Don Filipe contou-me tudo o que yo necesitaba saber sobre vocês. Soube de El Dragón, Francis Drake, o temível. Mi Rey me informou sobre sua forte amizade com Drake. Son prácticamente Hermanos, não é assim, Don Jason Hope?
Vendo que o inglês, muito pálido, passava a língua sobre os lábios ressecados, Esteban sorriu maldosamente antes de completar:
— Pelos crimes contra o meu povo, morrer era muito pouco para El Dragón. Ele merecia algo pior. Por isso, você é o alvo, capitán. Por isso, fui enviado. Francis Drake merece perder um amigo querido. Ele deve viver para carregar este dolor. Assim talvez aprenda a no más prejudicar minha gente, mi tierra.
Segundos angustiantes se arrastaram pesadamente dentro da densidão do silêncio mortal em pleno oceano.
— Se queria a mim, por que matou tantos irmãos meus? Por que me salvou naquele motim? – indagou Hope, confuso.
— Porque era yo quem deveria tirar sua vida, capitán. Você também odeia meu povo, e também fez minha gente sofrer, señor. Merece morrer. Mas antes de encontrarse con la muerte, usted devia sofrer, inglês. Devia ver seus homens morrerem, ser castigado por fome, sede e peste, ser traído e abandonado pelos seus, beirar à loucura. Sabe como é meu rei; Don Filipe II es un hombre muy religioso... Por isso adotou todas essas simbologias bíblicas em sua vingança. Reparou nos detalhes? Morte, fome, pestes... Parecido con las diez plagas. Como ele também aprecia mitologia grega, resolveu mandar construir esse navio gigantesco e depois batizá-lo de modo sugestivo. Por isso o barco se llama Pandora. A abertura da arca maldita por meio de sus manos, señor Hope, foi o que provocou todos esses males. Usted abriu a arca de Pandora, capitán. Tudo por causa de sua ganância. Tu culpa. Como se sentiu, vendo seus homens sofrendo e morrendo, sem poder ajudá-los, Jason Hope?
Esteban Ramirez percebeu que o rosto e as mãos do capitão pirata inglês se crispavam de ódio. Muito tranquilo, o cigano soltou uma risada impertinente.
— Frustrante, não é, británico? Agora sabe como Don Filipe II se siente quando vocês atacam nuestros hermanos e fazem chorar a Mãe Espanha. Pero tenho que dar-te gracias. O plano funcionou perfeitamente por sua causa. Inglés arrogante! Foi facilmente enganado. A escolta espanhola que se deixou abater tão fácil... O galeão, tão poderoso, que fugiu de ti e ainda assim foi capturado... Todos tínhamos nossas ordens, comandante; inclusive eu. Tudo deveria acontecer exatamente como aconteceu. Y ahora então se aproxima o momento do seu fim, capitán Hope.
Mal o espanhol acabou de falar, um estampido seco soou a bordo do Pandora. De olhos arregalados, com um grito que expressava dor e surpresa, Dom Esteban viu-se projetado brutalmente para trás, indo cair pesadamente de costas aos pés do mastro. Seu peito parcialmente desnudo cobriu-se de sangue negro e apodrecido.
A poucos passos dele, de pé, com rosto sério e olhar raivoso, Hope ainda empunhava a pistola fumegante, a qual havia sacado com rapidez e disparado com maestria. A sombra de um sorriso vitorioso surgiu em seus lábios, mas foi fugaz como a brisa.
O espanhol estava vivo, se mexendo no chão. Hope recuou um passo, sustendo a respiração. O que era aquilo que tinha aparência de gente, embora na verdade parecesse uma das crias do inferno?
O cigano petulante havia recebido um tiro de pistola no meio do peito, à queima-roupa. Qualquer homem deveria estar imediatamente morto ao ser alvejado daquele modo, daquela distância tão curta.
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