A Aprendiz
10 Olhos
Notas iniciais
- Acho que temos um problema. – anunciou Horace. Will lançou-lhe um olhar fulminante.
— Que foi agora?
— Os cabelos dela.
— O que tem os cabelos dela?
— Ela precisa estar com os cabelos arrumados. É um baile, afinal de contas.
— Isso é mesmo importante?
— Claro que é. Nenhuma dama vai a um baile sem estar com os cabelos impecavelmente arrumados.
— Christine não é uma dama. – informou Will. – Ela é minha aprendiz.
— Obrigada pela consideração. – murmurou Christine.
— Precisamos arrumar os cabelos dela. – insistiu Horace.
— Mas... – interveio Gilan.– Nenhum de nós sabe como arrumar os cabelos de uma garota. Alguém sabe?
— Anh... – Jack ergueu a mão, hesitante. – Eu sei.
— Quê? – perguntou a garota. – Por quê?
- Pelo mesmo motivo pelo qual você brincava de lutar com espadas, imagino. – ele deu de ombros. — Eu tenho uma irmã mais nova. Como somos praticamente só nós dois, eu sei algumas coisas sobre garotas.
Algum tempo depois, os cachos ruivos da garota estavam arrumados em tranças e presos em um coque atrás da cabeça.
— Uau. – disse Gilan, olhando surpreso para o aprendiz. – Você... Fez um bom trabalho.
— É. – concordou ele, parecendo um tantinho chateado com o tom do mentor. – Eu posso fazer isso de vez em quando.
- Isso não vai dar certo. – murmurou Christine para Will. Pela milésima vez, ela desejou que Alyss estivesse ali para salvá-la. – Will, é sério.
— Pelas presas de Gorlog, Chris! – resmungou seu mentor. – Deixe de ser boba. Vocês não vão ter que se beijar nem nada assim, o pior que pode acontecer é terem que dançar. E, claro, ficar de mãos dadas e essas coisas. Mas você não vai morrer por isso.
— Eu sei. Só... Estou com um mau pressentimento sobre isso. Não devíamos ir, Will. Nenhum de nós.
— Claro que devíamos. Precisamos investigar. Essa é uma ótima oportunidade.
Chris suspirou. Alyss iria entender. Ela concordaria. Às vezes, seu mentor era muito cabeça-dura, principalmente sem a namorada por perto para lhe emprestar juízo.
Estou ridícula, pensou. Odiava vestidos arrumados. Odiava estar com os cabelos arrumados. Odiava sapatos desconfortáveis. E, decididamente, odiava bailes e sair com garotos.
- Não se preocupe. – disse Will. – Ninguém vai reconhecer você. Você vai estar de máscara. Logo vai surgir uma oportunidade de interrogar alguém.
- Mas cuidado: Não faça perguntas demais nem seja muito insistente, ou vão desconfiar. Aja como se estivesse com tanto medo quanto eles. – acrescentou Halt.
Pelo menos isso ela não precisaria fingir.
— Basta agir com naturalidade, e tudo vai dar certo. – afirmou Gilan. Chris se segurou para não suspirar, mas Jack não teve essa preocupação.
— O que, diabos, há de natural nisso?
— O amor que vocês têm que representar. – respondeu Horace. – E o medo. – acrescentou como se lesse a mente dos dois. — Boa sorte.
Vamos precisar, era o que os jovens estavam pensando.
* * *
Quando estavam à porta da estalagem, Jack estendeu a mão. Christine olhou-o, como se perguntasse o que ele estava fazendo. Ele suspirou.
— Me dê a mão. Vai parecer mais real assim.
Então, de mãos dadas, eles entraram e procuraram uma mesa. Alguns músicos tocavam, e havia vários casais dançando. Passado um momento, Christine chegou mais perto de Jack e sussurrou no ouvido dele:
— O que nós fazemos agora?
— Agimos com naturalidade. E esperamos até alguém ficar bêbado o suficiente para interrogarmos.
— Do jeito que as coisas vão, não vai demorar muito. – resmungou ela, olhando em volta. Ao fazer isso, captou um par de olhos azuis encarando-a, e apertou o braço do garoto. – Jack. Tem alguém nos observando.
— Quem?
— Aquele homem perto dos músicos. Aquele alto, de olhos azuis.
Ele olhou disfarçadamente, e então deu uma risadinha.
— Aquele é o filho do estalajadeiro, o Ethan. Ele fala bem pouco. Provavelmente, só está achando você bonita, por isso está olhando. Mas devia saber que está acompanhada.
— Mas eu não estou.
— Eu sei. Mas, tecnicamente, você está. É um baile para casais.
— Então, ele deve estar também.
— É diferente. O pai dele é o dono. Não se preocupe. Ele é só um tremendo mulherengo, nada mais.
Ela assentiu, mas, mesmo assim, havia algo naquele olhar que a deixava incomodada. Era um olhar faminto, ligeiramente insano.
E isso deu-lhe uma ideia.
— Vamos nos separar. – disse. – Ficará mais fácil para nos aproximarmos das pessoas, e conseguiremos mais informações.
— Não é uma boa ideia. – respondeu Jack. – Acho que devíamos ficar juntos.
— Não, não devíamos. Juntos, vai ser mais difícil.
— Vai ser mais seguro.
— Você precisa tanto assim de alguém para te proteger? – Christine suspirou ao ver o olhar magoado dele. – Desculpe, isso foi desnecessário. É só com isso que está preocupado?
— Você pretende ir falar com Ethan. – ele deu de ombros. – Certo? Por que não vamos os dois?Não gosto da ideia de você ir falar com ele sozinha. Ele tem má fama.
— Eu não sou uma donzela indefesa, Jack. Eu sou uma aprendiz, e sei me cuidar tanto quanto você – quem sabe até mais. Além disso, aposto que ele não vai falar nada para você.
— E por que falaria para você?
Ela não respondeu. Apenas disse:
— Vá embora. E não me procure mais até o final da noite, mais ou menos daqui a três horas. – e, sem dizer mais nada, se afastou.
* * *
— Olá. – disse Christine. – Posso me sentar com você?
Ethan olhou-a em silêncio e assentiu. Ela sentou-se em frente a ele e continuou puxando assunto:
— Então, seu nome é Ethan, não é? – ele concordou silenciosamente outra vez. — Prazer. Meu nome é Maggie. Você quer dançar? – ela ajeitou o vestido verde, que ficava escorregando pelo seu ombro esquerdo.
O rapaz deu uma rápida olhada para seu ombro descoberto antes de falar pela primeira vez, com uma voz profunda.
— Achei que você estava com aquele garoto, Jackson.
— Eu estava. – Christine se esforçou para estampar seu melhor olhar magoado no rosto. – Estávamos noivos. Mas ele acaba de me trocar por outra garota. – com algum esforço, seus olhos se encheram de lágrimas. – Ela é mais bonita que eu, entende. Mais alta, mas magra.
Chris estava mentindo quando disse que era uma péssima atriz. Na verdade, ela era ótima.
— Eu achei que você ia me reconfortar. Você parece esse tipo de garoto. – secou os olhos e começou a se levantar. – Mas, mesmo assim, obrigada por me ouvir.
— Espere. – Ethan segurou seu pulso ao chamar. – O que acha de procurarmos um lugar mais... Reservado para conversarmos?
Fingindo que não tinha percebido as sugestões implícitas nas palavras, a garota sorriu.
— Pode ser uma boa ideia. – disse. – Vamos conversar em um lugar mais reservado, quem sabe beber alguma coisa.
Um lugar mais reservado, pensou Christine, Onde você poderá me contar algumas coisas mais reservadas.
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