A Aposta
29 Capítulo 29
Notas iniciais
– Brittany você está bem? – Maribel perguntou assim que entrou em sua cozinha e encontrou a nora sentada na última cadeira da pequena mesa redonda encarando um envelope a sua frente – Onde está Santana?
– Está tomando banho – Olhou rapidamente para a latina, mas logo voltou para o papel.
– E porque você está aqui sozinha? – A falta de resposta não passou despercebida por Maribel, mas a mulher achou melhor voltar ao tópico um pouco mais tarde.
– Eu vim pegar um copo de água – Suspirou e voltou toda sua atenção para a mãe de sua namorada. Só agora Maribel pode perceber a feição preocupada de Brittany e sua curiosidade foi maior que seu desejo de não interferir em algo pessoal.
– O que está acontecendo? – Maribel viu quando Brittany abriu a boca por diversas vezes, mas nada saiu por entre seus lábios e isso apenas preocupou a mulher afinal a namorada de sua filha não era uma das pessoas que tinha dificuldades com as palavras.
– Eu – Brittany tentou, mas fechou os olhos por alguns segundos antes de tentar formular suas dúvidas – Como soube o que queria fazer?
– Como assim? – Se aproximou e puxou a cadeira ao lado de sua nora que virou em sua direção.
– Quando foi escolher o que cursar na faculdade – Completou e desviou o olhar para suas mãos.
Maribel sabia que esse era um momento crucial na vida de um formando. Escolher o curso que provavelmente seria sua profissão para o resto da vida e estar dividido entre o que rende mais e o que lhe dá prazer. Estar dividido entre tantas perguntas e poucas respostas e saber que a partir daquele momento seus pais não poderiam mais interferir em certas escolhas e que ao receber o diploma do ensino médio sua vida adulta está a um passo.
– Meu pai queria que eu fizesse medicina – Maribel começou atraindo a atenção da loira – Ele bateu o pé e disse que se eu não fizesse o que ele queria então não precisava contar com sua ajuda – Sorriu um pouco com a lembrança de seu pai e de sua teimosia – Minha mãe por outro lado queria que eu cursasse direito então estava entre a cruz e a espada. Na época eu queria fazer psicologia – Ouviu Brittany rir de leve e não evitou o próprio riso – Achava a coisa mais maravilhosa do mundo porque eu sempre ajudava meus amigos com concelhos. Como sempre fui teimosa disse que não precisava de ninguém e que faria o que eu quisesse porque a vida era minha e todo aquele blábláblá de adolescente revoltado.
– Mas você não cursou Psicologia – Brittany apontou o obvio.
– Não – Concordou com a cabeça para pensar em suas atitudes – Eu ainda estava no segundo ano quando toda essa discussão aconteceu e com o passar do tempo entendi o motivo para que meus pais insistissem tanto para esses cursos – Se ajeitou na cadeira antes de continuar – Meus pais nunca tiveram condições para muita coisa e apenas queriam que eu tivesse um futuro melhor e essas duas profissões são uma das mais rentáveis que existe então seria logico – Viu Brittany franzir o cenho e sorriu para a impaciência de sua nora – No último ano da escola teve uma feira de profissões e fui obrigada a assistir a palestra de um administrador que se tornou um empresário de sucesso. Depois daquelas três horas tinha certeza que estava indo para o caminho errado – Balançou a cabeça com orgulho – E então depois de muita conversa decidir fazer administração empresarial e acho que eles não se arrependem de terem concordado.
– Entendi – Balançou a cabeça ainda perdida em seus próprios pensamentos.
– Porque a pergunta? – Maribel questionou curiosa.
– Eu estava apenas pensando – Voltou o olhar para o papel e Maribel resolveu seguir o olhar.
O papel se tratava de um envelope branco com o emblema de Juilliard. Maribel sorriu e abraçou a nora, mas assim que viu a expressão de Brittany franziu o cenho e encarou a adolescente por alguns segundos. Brittany tinha uma feição triste e preocupada. Seus olhos estavam voltados para o papel que lhe daria as direções de sua vida assim que o colégio acabasse não parecia lhe agradar.
– Você já abriu? – Perguntou enquanto observava a lateral do rosto claro.
– Não – Negou com a cabeça.
– Porque não? – Cruzou os braços em cima da mesa – Não é isso que você quer?
– Eu não sei mais – Respondeu com o tom de choro e apoiou a cabeça na mesa.
– Você parecia tão certa do seu futuro – Passou a mão nas costas de sua nora tentando lhe passar conforto – O que mudou?
– Tudo – A voz era abafada e quase inaudível, mas Maribel sabia que a menina não estava chorando como previu.
– Santana sabe que a carta chegou? – Sabia que eram muitas perguntas, mas ela precisava entender o que se passava na cabeça de Brittany e o que lhe afligia para pode lhe ajudar.
– Ela nem sabe que me apliquei para uma vaga – Brittany parou por alguns segundos e ergueu a cabeça deixando que sua sogra visse seus olhos vermelhos – Eu me apliquei no começo do mês, mas não contei porque não sabia se iria conseguir e depois de tudo que aconteceu entre nós não sei se quero ir para Juilliard. Apenas não parece certo – Fungou e prendeu o lábio inferior entre os dentes em dúvida se dividia o seu medo com a mãe de sua namorada. A verdade é que jamais poderia dizer o que realmente lhe incomodava. Contar sobre a aposta estava fora de cogitação, mas pelo menos uma parcela de seu medo poderia ser compartilhado com a mulher a sua frente.
– Brittany você pode me contar – Acariciou a mão de Brittany de forma materna e isso deixou Brittany segura.
– Eu não sei se ser uma dançarina é o suficiente – Ao ver a confusão de Maribel resolveu explicar melhor – Santana será uma grande empresaria e vai conhecer novas pessoas. Pessoas de mesma classe social e bem sucedidas e não sei se ela vai querer ficar comigo.
Desviou o olhar de Maribel e fechou os olhos. Ela sabia que era uma preocupação muito grande para um relacionamento tão novo, mas ela não podia impedir o modo como se sentia e agora com apenas dois meses faltando para o fim das aulas as coisas apenas se tornavam mais reais.
Maribel observou sua nora com carinho. Era bonito ver como Brittany se preocupava com a situação e mesmo que fosse um pensamento bobo ela sabia que era um pensamento valido.
– Estava procurando outros cursos e universidades – Revelou e só agora Maribel percebeu o motivo da pergunta de Brittany – Eu falei com a minha mãe e ela me ajudou, mas ainda não sei o que fazer.
– Brittany você sabe que Santana não liga para essas coisas – Levantou a mão quando percebeu que a menina lhe interromperia – Minha filha te ama e dinheiro ou status é a última coisa com que Santana se importa. Você também sabe ela seria capaz de te bater caso você mudasse seus sonhos por causa dela.
– Não é apenas isso – Suspirou frustrada – Ela vai para Stanford e Juilliard é do outro lado do país. Eu pensei que se me aplicasse em alguma universidade da Califórnia nós poderíamos ficar próximas.
– Eu ouvi algumas histórias sobre você – Brittany arregalou os olhos temendo que Maribel soubesse de seu passado – Algumas de sua mãe, outras de Quinn e mais algumas por ai, mas a maioria de Santana e até hoje não tinha formado uma opinião sobre você – Sorriu tentando acalmar a loira – Mas vendo sua preocupação com Santana posso dizer que você realmente ama minha filha – Deu um aperto na mão de Brittany arrancando um sorriso da mesma – Eu queria muito pode te direcionar a uma decisão, mas isso é algo que você deve decidir. Talvez conversar com Santana sobre o que te aflige, mas ainda assim é algo que apenas você pode resolver.
Maribel se levantou e deu um beijo no topo da cabeça de Brittany que sorriu em agradecimento.
– Obrigado – Suspirou e também se levantou recolhendo a carta da mesa.
– Você realmente não vai abrir? – Maribel realmente não conseguia evitar sua curiosidade.
– Eu não acho que seja preciso – Sorriu e caminhou até a lixeira ao lado da pia jogando o envelope dentro – Essa escola não iria trazer boas lembranças. É algo que foi importante para o meu presente, mas que não será bom para o meu futuro.
Abraçou a sogra e lhe deu um beijo na bochecha agradecendo mais uma vez antes de caminhar até o quarto de Santana. Maribel observou Brittany sumir e caminhou até a lixeira cogitando a ideia de pegar o envelope, mas com um suspirou resolveu deixá-lo ali. Se Brittany não quis saber o que estava escrito na carta não seria ela quem descobriria.
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