A Aposta
24 Capítulo 24
Notas iniciais
Santana não sabia exatamente como tinha chegado ao seu quarto, mas seu estado de confusão não havia cessado desde a sala do coral. Ela lembrava vagamente de Brittany lhe chamando, mas apenas via os lábios rosados se movimentando lentamente sem que nenhum som saísse pelo mesmo.
O comportamento que Santana demonstrou não era de um todo estranho, pois cada pessoa reage de uma forma sobre um tipo de pressão, acontecimento ou noticia. O fato de Santana estar estática enquanto observava a cena não era motivo pra julgar a latina porque afinal de contas ela não sabia o que estava acontecendo e pelo pouco que prestou atenção Noah, Sam e Mike sabiam muito bem o que estavam fazendo.
Santana não se preocupou ao ver sua namorada praticamente sem respiração? É claro que sim e por esse motivo seus músculos não lhe obedeciam. Pelo simples fato de ver Brittany quase em desespero que a mente de Santana parou de trabalhar. O medo que algo pior pudesse acontecer lhe deixou congelada.
Agora a pergunta que não quer calar. Afinal de contas o que Brittany tem? Santana podia afirmar que a namorada sofria de asma, mas aquilo não parecia uma simples crise. De longe aquela reação de Brittany era igual à de seu primo Tommy. Depois do que pareceram horas Santana conseguiu colocar seus pensamentos em ordem para finalmente olhar Brittany em pé na ponta da cama enquanto brincava com seus dedos.
— O que você tem? – A pergunta saiu mais ríspida do que Santana imaginou, mas ela não sabia como começar aquele assunto e Brittany não parecia disposta a tomar a iniciativa.
— Eu tenho asma – Disse ainda sem desviar os olhos dos dedos das mãos.
— Okay – A vontade da latina era de dizer que ela sabia disso e que Brittany deveria ser mais especifica, mas ao invés disso preferiu deixar que a namorada tomasse seu tempo para dizer o que é que seja.
— Eu tenho asma grave ou asma grau 4 – Brittany suspirou e só agora Santana podia sentir que a namorada tentava segurar o choro ou era isso que lhe parecia.
— Não sabia que existia mais de um tipo – Santana caminhou até Brittany pegando sua mão e fazendo com que a garota lhe olhasse – Vem. Vamos nos sentar.
As meninas se sentaram no centro da cama uma de frente para a outra.
— Pois é existe e a minha é a pior – Deu um sorriso triste e olhou Santana – Os primeiros sinais foram quando eu tinha dez anos. Eu me sentia muito cansada e tossia muito, mas como era criança não ligava pra isso até que um dia estava brincando com Quinn no quintal e eu senti meu peito doendo e não conseguia respirar. A Quinn correu até meus pais e eles me levaram ao hospital o mais rápido que conseguiram. Quando cheguei estava começando a ficar roxa, mas eles me fizeram voltar a respirar assim que entrei – Contou com a expressão triste – Depois de uma serie de exames eu fui diagnosticada com Asma grave e a partir daquele dia, minha vida virou um inferno.
— Britt – Santana se interrompeu afinal ela não sabia nem porque tinha começado, mas Brittany pareceu não se importar.
— Minhas crises se tornaram diárias até o dia que fui internada porque não conseguia dormir, comer e não tinha disposição pra nada – Passou a mão pelos cabelos e fechou os olhos como se tomasse coragem para continuar – Eu já não respirava sozinha. Eram diversos aparelhos e eu usava uma mascará de oxigênio vinte e quatro horas por dia. Era tão ruim ficar o dia inteiro olhando para aquelas paredes e o único momento que eu não estava triste era quando Quinn ia me visitar porque por mais que meus pais estivessem ao meu lado sempre, a presença de Quinn era essencial para que eu não me sentisse sozinha.
Santana sentia o nó preso em sua garganta e sua vontade era de embalar Brittany em seus braços e nunca mais soltar, mas ela sabia que a loira tinha mais coisas guardadas então aquele não era o momento mesmo que seu coração pedisse por isso.
— Depois de dois meses tive alta e passei mais dois meses do jeito que sempre fui. Eu tinha que seguir uma serie de recomendações que o meu medico havia prescrevido, mas nada que mudasse muito minha rotina – Era tão difícil para Brittany relembrar de tudo o que tinha passado, mas ela queria contar á Santana – Mas às crises voltaram mais fortes do que nunca e em uma delas eu parei de respirar por cinco minutos. Depois disso eu me mudei para Oxford – Inglaterra porque eles tinham um centro de pesquisas que me ajudariam – Brittany explicou e Santana puxou a mão da loira para seu colo então Brittany se aproximou mais da namorada fazendo com que seus joelhos se tocassem. O simples contato fez com que Brittany se sentisse melhor e continuasse a historia – E de fato ajudou, mas levou cinco anos para que meu sistema estivesse controlado.
— Eu sinto muito Britt – Santana acariciou a mão de Brittany com seu polegar – Foi por isso que você e Quinn se afastaram? – Perguntou assim que ligou um ponto no outro.
— Sim – Uma lagrima solitária correu pelo rosto de Brittany – Quando tudo começou a Quinn praticamente não sai do meu lado, mas chegou um tempo que ela não queria conversar, se mantinha o mais afastado possível e eu achei que ela não gostava mais de mim. Que por causa dessa doença ela não queria ser mais minha irmã.
— Britt eu não acho que – Brittany interrompeu Santana.
— Meus pais começaram a ser protetores ao extremo comigo. Antes mesmo de viajar minha mãe brincava comigo na sala porque eles não me deixavam ir ao quintal e meu pai lia historia e dormia comigo por precaução e isso afastava Quinn mais e mais de todos nós – Brittany abaixou o olhar para as mãos unidas – Teve uma vez que Quinn pediu a ajuda da mamãe, mas ao invés de ajudar ela apenas se desculpou e disse que tinha que ficar de olho em mim. Eu acho que essa foi à gota que faltava pra Quinn passar a me odiar. Essa doença estúpida não prejudicou apenas a mim, mas também a Quinn que também era praticamente uma criança.
— Mas Brittany você precisava de atenção. Não é sua culpa – Santana tentou amenizar a situação.
— Mas eu sentia como se fosse – Brittany fungou e levou a mão livre para esfregar os olhos – E no dia da viagem Quinn fez questão de afirmar – Parou por alguns segundo – Ela já tinha decidido que não iria com a gente, mas eu ainda tinha esperança então antes de entrar no carro eu pedi pra que ela fosse comigo porque ela era minha irmã e eu precisava dela. Ela apenas riu e disse que eu tinha destruído a nossa família porque a mamãe não iria mais trabalhar, o papai iria gastar todo o nosso dinheiro, nossos avós não me amavam mais e que a partir daquele dia eu podia esquecer que tinha uma irmã.
— Eu nunca imaginei que a Quinn seria tão cruel a esse ponto – Santana sentia a raiva crescendo em seu peito. Parecia surreal que a mesma pessoa que lhe defendia de raspadinhas e que se tornou sua amiga poderia dizer esse tipo de coisa para a própria irmã – Ela não tinha esse direito.
— Não é culpa dela Santana – Brittany murmurou de cabeça baixa – Ela era nova.
— Isso não é desculpa pra ela fazer o que fez – Passou a mão no rosto como se o gesto espantasse sua indignação e raiva – Ela já tinha idade para entender o que estava acontecendo. A Quinn estava errada e ela só alimentou essa amargura estúpida todos esses anos. Isso não faz bem a ela e nem a você.
— Não é como se eu pudesse voltar ao passado. Não adianta mais – Brittany suspirou e voltou a olhar Santana que mantinha a expressão nervosa – Esquece isso. Eu já me acostumei com esse fato, San – A morena sabia que aquelas palavras não eram verdadeiras e podia ver nos olhos que Brittany que aquilo lhe deixava mal.
— Esquece nada – Santana levantou da cama e caminhou em direção a porta – Quinn tem que parar de agir como uma idiota.
— Não vai – Brittany correu em direção a Santana lhe puxando em sua direção – Por favor, só fica aqui comigo.
Assim que olhou nos olhos azuis cristalinos, Santana sentiu como se seu coração fosse partir em dois. Era tanta dor e tristeza que os olhos de Brittany passavam que ela não pode evitar o próprio choro. Ela finalmente embalou Brittany em seus braços e assim que sentiu lagrimas molhando sua blusa fina soube que a namorada se deixou levar pelas emoções que corriam por seu corpo.
Foi um choro baixinho e sofrido que Santana preferia nunca presenciar. A sensação de ter Brittany em seus braços no estado em que se encontrava era devastador e saber que a Quinn era a principal causa lhe deixava triste e raivosa. Ela só queria que com aquele abraço toda a tristeza que Brittany sentia fosse embora e que o sorriso tão bonito de sua namorada voltasse com força total.
Agora ela entendia os motivos que levaram Brittany a ser tornar o que demonstrava a todos. Sabia que nem tudo era capricho ou porque a garota simplesmente gostava de tratar as pessoas como se não fossem ninguém ou inferiores. Todos nós temos um motivo para agirmos de certa forma com certo alguém. Nós só damos amor quando recebemos amor. Não que Brittany não tivesse o amor de seus familiares e amigos, mas o vazio de Quinn havia deixado conseqüências.
— Vamos nos deitar – Santana pediu assim que sentiu o choro de Brittany diminuir consideravelmente. Caminharam juntas até a cama e Brittany deitou sobre o peito de Santana que automaticamente colocou a mão direita sobre os fios loiros. Ficaram nessa mesma posição durante alguns minutos até a latina voltar a falar – É por isso que você precisa comer nos horários certos?
— Sim – Até a voz de Brittany estava mais calma, o que aliviou Santana – Antigamente era mais rigoroso. Eu tinha horário para todas as refeições, um cardápio com os alimentos que podia comer porque a maioria me fazia ter ataques, não podia comer doces industrializados principalmente aqueles coloridos, mas hoje em dia minha mãe é mais tranqüila com isso então eu posso comer de tudo desde que moderadamente.
— E como foi morara em Oxford? – Perguntou curiosa.
— Bom, eu não conheci muito da cidade porque meus pais não me deixavam sair de casa – Santana pensou em interromper, mas sabia que a namorada iria explicar – Eu tive aulas em casa durante esse tempo e não tive amigos porque eu não podia brincar do lado de fora ou em parques. Como eu disse meus pais eram super protetores e isso me privou de muitas coisas na adolescência. Por isso quando voltei a morara aqui tudo era “novo” e mais difícil de acostumar. Depois de tanto tempo sem ter contato com as mesmas pessoas diariamente que não fossem os meus médicos e meus pais, fica complicado se adaptar.
— Dorme um pouco – Santana disse sem cessar os carinhos – Você esta cansada.
Brittany apenas concordou e fechou os olhos sem se mover de seu lugar. Estar nos braços de Santana lhe passava calma e segurança então apenas se aconchegou melhor e se deixou levar pelo sono que até o momento não sabia possuir.
X...X...X...X...X...X...X...X
— Tana – Santana ouviu a batida leve na porta e abriu os olhos.
Ela não tinha conseguido dormir, mas não se sentia cansada então apenas passou as ultimas duas horas com as costas apoiada na cabeceira da cama enquanto observava Brittany dormir tranquilamente em seus braços. Ela até pensou em sair de seu lugar, porém o simples movimento fez com que Brittany resmungasse em seu sono e apertasse seu abraço em torno de sua cintura.
— Pode entrar – Maribel passou sorridente pela porta, mas assim que viu o rosto preocupado de Santana e Brittany deitada sobre a filha sua expressão também transformou em preocupada.
— Aconteceu alguma coisa? – A mãe de Santana sentou na beirada da cama e observou o rosto ainda vermelho que Brittany possuía.
— A senhora sabia que a Britt tem asma? – Mãe e filha mantiveram o tom de voz baixo para que não incomodasse a menina ainda deitada sobre Santana.
— Sim. Foi por isso que Susan mudou temporariamente para outro país – Maribel explicou para Santana que tinha voltado a olhar a namorada – Ela me contou antes da viagem e nos mantemos contato durante esse tempo. Foi um período difícil.
— Hoje ela teve um ataque e eu simplesmente congelei – Santana suspirou tentando controlar as lágrimas que pediam para sair – Eu não soube como agir. Não sabia o que fazer.
— Susan sabe disso? – Perguntou ainda mais reocupada. Ela sabia de toda historia de Brittany e sabia o que um simples ataque poderia desencadear.
— Sim – Respondeu com a voz embargada – De alguma forma ela soube o que aconteceu e ligou para a Britt. Eu expliquei e avisei que a Brittany vai passar a noite aqui.
— Não fique chateada, Tana – Maribel acariciou o joelho da filha – Sua reação foi perfeitamente normal. Você não sabia o que estava acontecendo então era de se esperar que não fizesse nada.
— Mama eu não posso paralisar diante de situações iguais a esta – Santana argumentou com uma pontada de raiva – E se alguém precisar de mim e eu simplesmente parar de funcionar? E se algo grave estiver acontecendo e eu entrar em pânico ao ponto de não me mover e não conseguir raciocinar?
— Mi hija você só foi pega de surpresa – Santana tentou cortar a fala da mãe, mas Maribel continuou sem dar espaço para a filha – Quando se trata de pessoas de quem gostamos nossas emoções superam nossa lógica. É normal que ao ver uma pessoa qualquer precisando de ajuda seu primeiro extinto é agir antes de pensar nas conseqüências, mas quando se trata de pessoas de nosso convívio nossos sentimentos fazem com que o medo de perder seja maior que a vontade de ir ajudar. É claro que tudo varia de acordo a situação – Explicou e recebeu um aceno positivo de Santana que aos poucos parecia acalmar – Agora você saberá como agir caso aconteça novamente.
— Obrigado mama – Santana agradeceu sorrindo – Eu precisava disso.
— Apenas uma parte do meu trabalho – Sorriu e deu duas batidinhas no joelho de Santana – Agora eu vou descer e preparar o jantar então acorde sua namorada porque nós ainda não fomos devidamente apresentadas.
— Como à senhora quiser – Concordou e esperou que a mãe caminhasse para fora do quarto para que pudesse acordar Brittany sem que a namorada se assustasse com a presença da mãe.
Santana beijou o rosto claro e chamou baixinho pela namorada que apenas resmungou e se agarrou ainda mais sobre o corpo moreno. Com cuidado acariciou o cabelo loiro enquanto aplicava leves beijinhos sobre os lábios rosados ainda chamando por Brittany de forma suave.
A latina não evitou o sorriso quando aos poucos sentiu os selinhos serem correspondidos e Brittany lentamente transformou o que eram beijos inocentes em um beijo apaixonado e necessitado.
— Obrigado – Foi à primeira coisa que Brittany disse ao se afastarem. A loira ainda mantinha os olhos fechados assim como Santana. Testas unidas, narizes se tocando e a troca de calor só faziam com que o momento se estendesse ainda mais.
— Pelo que exatamente? – Santana acariciou o nariz de Brittany com o seu e inclinou para deixar um beijo casto no lábio inchado e vermelho.
— Apenas por estar aqui – Ao abrir os olhos encontrou as íris castanhas brilhando e naquele momento soube que tudo que fizesse por Santana valeria à pena.
Brittany já havia se acostumado com as borboletas em seu estomago e até com o quão seu coração poderia acelerar com a simples presença da namorada, mas ainda ficava intrigada com o que um simples olhar de Santana podia fazer com todo o seu ser. O sorriso da latina podia deixar suas pernas bambas, seu aroma era inebriante e seu hálito era como a coisa mais refrescante e quente que já tinha sentido em sua pele. Era quase impossível explicar sem parecer irracional os efeitos que Santana tinha sobre si em tão pouco tempo.
Santana lhe beijou mais uma vez e sorriu quando Brittany circulou sua cintura inclinando para trás fazendo com que agora a namorada estivesse sobre si.
— Eu realmente gosto de você, B – Santana levou a mão direita para acariciar a bochecha rosada nunca deixando os olhos azuis – Como muito, muito mesmo.
— Eu também Sanny – Brittany levou uma mecha negra prendendo-a atrás da orelha de Santana – Mais do que um dia eu imaginei gostar de alguém.
Beijaram-se mais uma vez até ouvirem a mãe de Santana gritando por elas do andar de baixo. Brittany se assustou ao ouvir Maribel, mas logo foi acalmada pela namorada. Santana explicou que a mãe gostaria de conhece — lá assim como seu pai que tinha chegado enquanto as meninas ainda estavam no quarto e é claro que depois desse fato Brittany teve um pequeno ataque de pânico ao saber que conheceria os pais da namorada.
Mesmo sem querer, Brittany acabou acompanhando Santana até a sala de jantar. A loira jamais imaginou que se daria tão bem com os pais da namorada logo no primeiro encontro. O pai de Santana era extremamente engraçado e adorava fazer piadinhas tanto quanto Brittany e Maribel era um amor de pessoa. Quando Juan lhe desejou um “Bem vindo à família” Brittany de fato se sentiu parte dela.
Após horas de conversas, Brittany e Santana tomaram seu banho e agora se encontravam deitadas frente a frente na enorme cama da latina. Brittany usava um pijama azul de Santana, o maior que a morena tinha e que mesmo assim ficava curto nas longas pernas e largo no busto enquanto a latina usava um par que consistia em um short rosa e uma regata branca.
— Eu não acredito que com tanta roupa você não tinha nada do meu tamanho – Brittany bufou o que fez com que Santana risse.
— Qual a lógica eu usar um numero e comprar outro? – Brittany abriu e fechou a boca varias vezes, mas não achou uma resposta para a pergunta.
— Você tem razão – Suspirou e fez biquinho que logo foi beijado por Santana.
— Eu até tenho algumas camisetas e calças maiores, mas você ficou tão fofinha neste – Apertou as bochechas de Brittany que começavam a ficar vermelhas, mas não pelo aperto.
— Como é que eu passei de badass pra fofinha em menos de um mês? – Balançou a cabeça sorrindo – Mas eu sou sua fofinha.
— E você ainda pergunta? – Santana riu e beijou Brittany – Boa noite bebê.
— Boa noite meu amor – Brittany aplicou mais um selinho em Santana e deixou que a namorada aconchegasse contra si para que em fim pudessem ter o merecido descanso depois desse dia que poderia ser chamado de “Turbilhão de emoções”.
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