The Little Things — Colbie Caillat

"O que é mau e o que nos ensinam que é mau às vezes são duas coisas muito diferentes. A sociedade nos ensina que certas coisas são más para nos manter subservientes."

– Charles Bukowski

Estar longe de casa ainda não era um problema para Stiles, chegar duas horas antes que o combinado na casa de Ivy que agora também era sua casa, esse sim era o tipo de problema que o filho do xerife não contava enfrentar. Pensou um pouco, não era possível que ela não deixasse uma chave reserva debaixo do tapete ou dentro do vaso de planta no parapeito da janela, mais algumas tentativas procurando e acabou encontrando a chave no vão da caixa de correio, um compartimento quase imperceptível.

Conseguiu entrar e deixou suas coisas agrupadas em um canto da sala, estava cansado, dez horas dirigindo renderia bem mais dores musculares do que ele imaginava. Suas costas estavam moídas e ele queria dormir infinitamente, depois de comer é lógico. Deu uma olhada no apartamento, amplo, bonito, bem iluminado e estranhamente neutro. Esperava algo mais feminino, pelo menos via Ivy como uma figura extremamente feminina.

Não tinha nenhuma foto espalhada pela casa, nem nenhuma lembrança da família dela. Alguns livros em uma enorme estante, uma TV de plasma, mesinha de centro, sofá marrom de camurça, as paredes em um tom cremoso e aconchegante e uma mesa com quatro lugares de madeira. A cozinha era estilosa, uma bancada de mármore, o fogão, pia, armários altos, tudo claro e organizado. A geladeira estava recheada de guloseimas e isso agradou Stiles, ele estava com fome.

Pegou uma lata de refrigerante, pão, pasta de amendoim, algumas frutas, leite, mel, fez um sanduíche, uma vitamina, bebeu o refrigerante e abriu um pacote de biscoito. Estava louco por um banho quando organizou a cozinha e decidiu explorar o resto do apartamento. Um quarto que ele já sabia ser o seu quando viu suas coisas organizadas de forma tão metódica que imaginou se a menina tinha algum toque, a cama de casal espaçosa, os livros na estante, sua coleção de gibis, seus bonecos, as miniaturas do Batman que ganhou do namorado, suas roupas guardadas, lavadas e passadas, tudo tão organizado como nem sua mãe jamais conseguiu deixar.

Deixou suas próprias coisas jogadas em um canto, se sentindo horrível por bagunçar a imagem daquele quarto mega organizado. Saiu pelo corredor e a próxima porta estava trancada, na outra era o quarto de Ivy, ele imaginou que fosse pelos objetos femininos e o computador ligado com um papel de parede que lembrava muito a garota quando mais nova, não demorou por ali, se sentia um fuxiqueiro invadindo a privacidade da colega de apartamento. Na última porta encontrou o banheiro e ficou feliz com isso, não pensou muito antes de tirar a roupa e se enfiar debaixo da água morna. Os músculos relaxaram e ele se permitiu aproveitar o momento.

Quando terminou de se lavar e se sentiu sonolento a ponto de dormir em pé, se secou e vestiu um dos roupões brancos que tinham pendurados por ali, imaginou que o cor de rosa fosse de Ivy, então pegou um e saiu em direção ao quarto, mas antes voltou ao banheiro e viu que nem percebera a presença da banheira grande e espaçosa que ele gostaria de se afundar e relaxar uma hora dessas, coisa para uma outra hora, agora ele só queria colocar sua calça de pijama e deitar enquanto esperava a colega chegar.

Vestiu uma calça de moletom, pensando que seria melhor tentar causar uma impressão educada na garota e colocou uma camisa simples de algodão branca, foi para a sala, sabia que se sequer sentasse na cama não duraria dois minutos acordado, sentou no sofá e ligou a TV, antes mandou uma mensagem para Ivy explicando que estava esperando por ela no apartamento e que tinha encontrado a chave, ela mandou um aviso de que iria se atrasar e ele deitou assistindo um desenho qualquer num canal infantil.

Acordou ouvindo o barulho de alguma coisa caindo no chão, se assustou e deu um salto do sofá. O pescoço reclamou pela posição e ele resmungou caminhando até a cozinha, onde Ivy parecia brigar com a pilha de panelas no armário bem mais alto que ela. O garoto riu da colega de camisão e descalça xingando a frigideira que tinha acertado seu pé na queda.

– Deixa que eu pego. — Stiles se ofereceu vendo ela massagear o pé com uma careta.

– É a maior. — ela pediu sentando na cadeira e vendo o dedo ficar vermelho.

– Pronto, agora ponha isso. — ele entregou um pano de prato enrolado em um cubo de gelo e ela pressionou no local.

– Esses armários são um inferno. Desculpe te acordar, eu sou meio desastrada. — ela sorriu sem graça.

– Não tem problema, eu não deveria ter dormido. — Stiles coçava a nuca encabulado.

– Ótima forma de começarmos nossa relação. — ela riu colocando o pano para secar e voltando ao que preparava na cozinha. — Você gosta de fritada? Eu não sei cozinhar muita coisa, mas o básico eu me garanto. — Stiles sorriu e pegou o queijo e o presunto para fatiar.

– Gosto e eu posso ajudar. — ele começou a cortar enquanto eles conversavam sobre a vinda dele e coisas que eles adoravam ou odiavam comer.

Depois do jantar eles foram para a sala e ela serviu duas taças de vinho colocando em um canal qualquer, acabaram por começar a assistir uma comédia romântica muito ruim que chegava a ser cômica e terminaram vendo um filme de terror antigo, muito antigo, era até em preto e branco.

– Eu reparei que tem um quarto trancado aqui, não querendo ser invasivo nem nada, mas você me deu vinho e isso acaba com o mínimo de filtro que eu ainda possa ter, então preciso perguntar o que tem lá ou isso vai me perturbar todos os dias da minha vida e se você não me mandar calar a boca eu posso ficar falando coisas idiotas o resto da noite. — ela deu uma gargalhada.

– É onde eu ensaio, posso te mostrar amanhã o que tem lá dentro. — ela deu de ombros e encheu a própria taça depois de Stiles recusar mais da bebida. — Eu danço em uma boite. — ela fez uma pausa como se esperasse alguma reação que não veio.

– Dança tipo a Demi Moore em Striptease? — Stiles tinha a expressão de surpresa no rosto.

– É, um pouco menos glamouroso que isso. — ela riu e Stiles ficou corado.

– Você tira a roupa para vários caras? — ele não estava incomodado ou tendo uma crise de preconceito, apenas estava surpreso e com tímido por imaginar uma menina tão doce e desajeitada, quase uma versão feminina dele, fazendo uma dança sensual enquanto ficava completamente nua para um grupo de tarados.

– Sim e não é tão ruim quanto parece. — ela virou a taça de vinho.

– É estranho. Digo, não é estranho o que você faz. Eu não tenho o menor problema com o que você faz, — ele estava se enrolando com a explicação. — o que quero dizer é que fico imaginando o quanto deve ser difícil. — ele encolheu os ombros, o álcool o impedia de organizar as palavras.

– E é bem difícil, no começo. Hoje em dia é divertido. — ela sorri como se estivesse tendo lembranças boas. — Eu comecei quando meus pais morreram, eu não tinha como me sustentar e eles só me deixaram esse apartamento o que é bem caro de se manter. — Stiles imaginava o custo disso tudo. — Então eu namorei um cara mais velho quando entrei na faculdade e ele me indicou,claro que não ficamos mais juntos depois disso e eu comecei primeiro como Striper em uma boite muito ruim, hoje estou na melhor da cidade e só faço isso para caras que pagam muito bem pelos meus serviços. — ela parecia orgulhosa de tudo.

– Você é durona. — Stiles comentou com uma admiração quase muda nos olhos.

– É, eu acho que sim. — ela sorriu e eles mudaram de assunto.