Bubbly — Colbie Caillat

"Às vezes, não há nenhum aviso. As coisas acontecem em segundos. Tudo muda. Você está vivo. Você está morto. E as coisas continuam. Somos finos como papel. Existimos por acaso entre as percentagens, temporariamente. E esta é a melhor e a pior parte, o fator temporal. E não há nada que se possa fazer sobre isso. Você pode sentar no topo de uma montanha e meditar por décadas e nada vai mudar. Você pode mudar a si mesmo para ser aceitável mas talvez isso também esteja errado. Talvez pensemos demais. Sinta mais, pense menos."

– Charles Bukowski

A primeira noite foi mais difícil, Derek rolava de um lado para o outro, ficava horas observando o sobrinho dormir e ia diversas vezes na cozinha beber água e mais trocentas vezes ao banheiro se livrar de todo o líquido retido. Ele não tinha falado com Stiles ainda, o menino lhe mandou uma mensagem avisando que tinha chegado bem e que ligava de manhã, Derek entendia que Stiles tinha dirigido horas demais e precisava descansar, mas estava ficando louco naquela mansão silenciosa, pelo menos até Antony começar a chorar.

Stiles dormiu bem naquela primeira noite, o vinho e a exaustão ajudou a não pensar muito no espaço sobrando na cama ou na saudade que ele tinha de reclamar de Derek se espalhando no colchão e deixando pouco espaço para o menino, ou quando o lobo roubava seu edredom, ele não teve tempo nem de pensar muito sobre a falta daquele cheiro almiscarado, do calor que o aquecia mesmo que o maior roubasse suas cobertas e da forma gostava e protetora que Derek o aconchegava em seu peito nu todo o tempo.

Quando acordou, Stiles percebeu que estava suando e agarrando com força demais os lençóis, estava assustado e tinha tido um pesadelo estranho, não necessariamente assustador e nem conseguiria conversar a respeito já que tudo vinha em pequenos flashes, mas ele tinha certeza que não queria mais sonhar com isso. Olhou o relógio e não passavam das cinco e meia da manhã, pegou o celular e hesitou, pensou um pouco se não seria uma hora estúpida para ligar para Derek e acordá-lo, não queria parecer infantil.

Derek não dormiu nada naquela noite, estava batendo pestana quando sua irmã entrou na sala com Antony no colo o amamentando, ela fazia uma careta enquanto o menino sugava o leite esfomeado e o lobo já sabia que ela estava sentindo dor. Stiles foi o primeiro a perceber que mesmo com menos de dois meses de vida, o pequeno Hale tinha pequenas presas e as vezes as cravava nos seios de Cora durante a amamentação, ou quando estava no colo de Stiles, o humano reclamava dizendo que tudo não passava de ciúmes do tio Derek, isso fez o mais velho sorrir ao lembrar das brincadeiras e se assustar com a vibração do celular em seu colo.

– Oi, desculpa te acordar. — Stiles estava com uma voz cansada, parecia ter acordado há pouco.

– Não me acordou, na verdade eu nem dormi. — Derek soltou uma risada sem humor e olhou as horas, ainda não eram nem seis horas e a voz de Stiles parecia muito cabisbaixa para uma ligação de rotina. — Você está bem? — Stiles suspirou.

– Acho que sim, eu tive um sonho ruim mas não me lembro de tudo. — o garoto abraçou os próprios joelhos na cama e encarou o cômodo vazio, sentia falta do calor do lobo ali.

– Vai ficar tudo bem é só uma fase, coisa da adaptação. — Derek queria parecer confiante, mas estava preocupado, Stiles já estava há muito tempo sem problemas para dormir.

– Eu sei, só queria ouvir sua voz. Parece que estamos separados há meses, estou com saudades. — Stiles corou e se sentiu tímido mesmo que Derek não pudesse vê-lo.

– Você pode me ligar a hora que quiser sempre, ok? — Derek levantou deixando a irmã na sala e indo para os fundos. — Estou sentindo sua falta também, é difícil dormir sem você. — Derek comprimiu os lábios, achava que seria mais fácil toda essa situação.

– Eu te amo Der. — Stiles sentiu a garganta presa em um embargo enquanto engolia aquela vontade de chorar.

– Se você chorar eu vou ser obrigado a ir até ai, seu idiota. — Derek tinha o mesmo tom embargado e Stiles não pode evitar uma gargalhada enquanto caminhava até a cozinha.

– Você poderia simplesmente ter dito que me ama também. — Derek não podia ver, mas sabia que tinha um beicinho se formando nos lábios do garoto e sorriu com a imagem disso dançando em sua mente.

– Você sabe que eu te amo, não seja tão mulherzinha Sti. — Derek implicou.

– Pelo menos eu não... ah! Deixa pra lá. — o garoto deu uma breve gargalhada e suspirou.

– Como estão as coisas com a Ivy? — Stiles viu a menina entrar bocejando, com os cabelos bagunçados e o blusão de um time de basquete três números maiores que ela todo amassado na cozinha.

– Ela acabou de acordar e eu estou muito feliz por não namorar uma garota, elas são realmente assustadoras quando acordam. — Stiles zombou da menina, Derek riu do outro lado da linha e Ivy lhe mandou o dedo do meio pegando a garrafa de leite na geladeira e bebendo no gargalo. — Elas também são porcas, bebem leite direto da garrafa. — Stiles fez um som de nojo falso e logo depois a menina começou a rir fazendo uma lambança com o leite.

– Pelo visto vocês estão se dando bem. — Derek se divertia com o tom leve que Stiles estava brincando com a menina.

– É o Antony que está chorando? — o humano perguntou e Derek ouviu Cora chamá-lo.

– Sim, ele anda aprontando bastante. — Derek sorriu e pegou o bebê dos braços da irmã, enquanto ela subia para trocar a roupa toda golfada.

– Oh! Ele é um Hale, queria o quê? Vocês todos são uma bagunça. — Stiles mantinha seu senso de humor negro afiado.

– Muito engraçado você. — Derek fingiu o mau humor e Stiles imaginou a carranca do mais velho, ele queria poder vê-la de perto.

– Não seja tão mau humorado Der. — Ivy deixou um monte de talheres caírem enquanto limpava a sujeira de leite e Stiles gargalhou vendo o mau humor matinal da garota. — Eu preciso ir baby, minha colega de apartamento é um desastre na cozinha. — Stiles se despediu.

– Tudo bem, vou ajudar Cora a trocar o baby wolf aqui, afinal de contas ela não se acostumou ainda com isso. — Derek deu um suspiro. — Eu te amo seu idiota presunçoso. — Stiles sorriu com a forma nada amigável de carinho.

– Também te amo seu velho rabugento. — e eles desligaram.

Stiles suspirou por alguns momentos e nem percebeu quando Ivy voltou do quarto vestindo um short jeans e uma regata simples, seus cabelos em um coque mal feito e a cozinha já limpa e arrumada, ela sorria para ele de uma forma questionadora e ele revirou os olhos imaginando o que ela falaria.

– Então Der é o nome do cara que te deu isso? — ela pegou minha mão direita e rolou os dedos pela aliança de platina.

– Derek. — Stiles a encarou com um sorriso orgulhoso. — E ele é gostoso. — ela abriu um largo sorriso.

– E rabugento, velho, entre outras coisas que você deve ter comentado na ligação. — ela pegou várias coisas e dispôs na bancada, Stiles começou a preparar um achocolatado enquanto analisava Derek mentalmente.

– Ele é um pouco mau humorado, mas eu gosto disso nele. É mais velho também. — o garoto deu de ombros bebendo o líquido gelado em sua caneca.

– Vocês parecem apaixonados, acho isso lindo. — ela comentou com a boca cheia de cereais.

– Sem dúvidas nós somos lindos. — Stiles disse convencido e eles gargalharam.

– Eu preciso sair, tenho um monte de documentos para entregar na faculdade, renovar meu semestre e depois eu tenho que ir para a Lalaurie, hoje é dia de evento. — a menina terminou de comer rápido. — Você vai ficar bem sem mim? — Stiles sorriu, tinha organizado mentalmente seu dia.

– Claro, tenho um monte de coisas para desencaixotar. — o menino voltou a comer. — Vê se toma cuidado por ai. — a garota sorriu e se levantou.

– Eu sou durona lembra? — ela bagunçou o cabelo de Stiles e foi se arrumar no quarto.