Capri — Colbie Caillat

De um modo geral, há uma tendência nos homens inteligentes de não acreditar naquilo que grande parte das massas acredita."

– Charles Bukowski

Na quinta-feira Stiles recebeu a ligação de Derek pedindo para ele não voltar para casa no final de semana, que ele ia fazer uma viagem para visitar o bando, ideia do Deaton para curar mais rápido. Stiles ficou chateado, queria ver o namorado e poder cuidar do mais velho ele mesmo. Se sentia mal por ficar tão longe e irritado por ter tanta coisa para fazer. Passou o final de semana inteiro de mau humor e Ivy já estava cansada daquilo.

– Levanta. — ela jogou um jeans, uma camiseta e o moletom vermelho habitual de Stiles bem na sua cara.

– Não. — ele empurrou as peças para o lado e voltou a se enroscar nos edredons.

– Se você não levantar a porra da tua bunda da cama agora, eu vou voltar aqui com uma panela de água e te molhar inteiro, sem contar com a infinidade de coisas irritantes que eu posso fazer. — ela cruzou os braços no peito e Stiles bufou levantando.

– O que você quer? — ele se descobriu e ela viu que ele estava só de cueca. — Tenho certeza que não veio no meu quarto para me ver de cueca. — ele debochou e ela revirou os olhos.

– Vai tomar banho e se vestir, estamos saindo. — ela encostou-se no batente da porta.

– Não quero sair. — ela apenas arqueou uma das sobrancelhas e ele obedeceu.

Não foi tão ruim assim sair com a Ivy, ele até gostou, deu para diminuir o mau humor e ela de alguma forma estranha fez Stiles entender que Derek queria apenas o seu bem e nunca faria nada para afastá-lo nesse momento, se ele tinha viajado para fazer uma coisa importante, o garoto não precisava se preocupar.

Derek não estava bem, o sangue preto que ele andava vomitando, a ferida apodrecendo em seu pescoço e todo aquele frio não ajudava em nada. Deaton e ele já sabiam o que tinha acontecido e o lobo daria tudo para dar fim naquela situação. Stiles não queria aquilo, nunca quis. Ele ainda conseguia lembrar do desespero do garoto, a insegurança palpável todas as vezes que a conversa girava em torno daquele assunto e isso o enjoava mais ainda.

– Você tem que ligar para ele. — Deaton comentou entregando mais uma dose de chá para Derek.

– Não, você precisa arrumar um jeito de dar um fim nessa coisa. — Derek falava sério, mas sua voz não passava de um sussurro frágil.

– Você vai morrer Derek, precisa dele aqui, Stiles é o único que pode te ajudar. — o lobo voltou a deitar como se não fosse verdade o que o veterinário disse.

– Então eu vou morrer, mas não vou estragar a vida de Stiles. — Deaton saiu da clínica, como Derek era cabeça dura.

Stiles chegou em casa depois de mais um dia na faculdade, tinha feito a última prova na metade daquele segundo período e há dias não falava com Derek, por isso, foi completamente afoito atender a ligação que fazia seu celular tremer há meia hora desde que ele entrava na aula de laudo forense.

– Der, estava morrendo de saudades! Você já voltou para Beacon? — o garoto não permitiu que o outro falasse primeiro, estava animado demais.

– Stiles. — era a voz de outra pessoa e estava séria demais.

– Deaton? O que você está fazendo com o celular do Derek? — Stiles sentiu um aperto estranho no estômago, uma vontade repentina de vomitar.

– Preciso que venha para cá imediatamente, Derek está muito mal. — o chão debaixo dos pés do menino sumiu e ele perdeu completamente o ar.

Pegar o Jeep e dirigir como um desesperado até Beacon Hills não foi tão difícil, exceto pelas doze multas que ele teria que se virar para pagar depois. Pegou atalhos e mais atalhos e conseguiu chegar na clínica veterinária em seis horas, quase metade do tempo de uma viagem normal de volta para casa. Seu coração estava aos pulos quando invadiu a clínica e viu Derek sentado e encostado a parede, um flash do dia em que ele foi atingido por uma bala de prata banhada em acônito o invadiu e ele quis vomitar com o cheiro podre que envolvia o local, cheiro de morte.

– O que você está fazendo aqui? — Derek perguntou irritado, não queria que o garoto o visse assim.

– Deaton me ligou, o que você tem? — Stiles não teve coragem de se aproximar, por mais que quisesse o corpo não obedecia.

– Eu vou ficar bem. — Derek desviou o olhar.

– Não, você está morrendo. — Stiles se aproximou dois passos e viu o lobo recuar mais para a parede. — O que você tem? — o menino perguntou de novo, a voz trêmula e o medo tomando conta de cada célula.

– Me perdoa Sti... — Derek tinha um olhar abatido e sem brilho.

– Não! Você não vai me deixar seu idiota! — Stiles estava segurando as lágrimas. — Nós vamos dar um jeito. — a voz do menino era firme. — O que você tem? — ele insistiu.

– Eu não queria, não foi intencional. — Derek divagou e sentiu os olhos pesarem.

– Não me faça perguntar de novo Derek! O que você tem porra? — o humano berrou já próximo ao rosto do mais velho que respirou fundo.

– Eu... eu to... Sti. — ele fez uma pausa, não sabia como dizer nada daquilo.

– Você não precisa ter medo Derek, eu vou ficar do seu lado. Agora me diz, o que você tem? — Stiles olhou o lobo fraquejar e sua respiração falhar algumas vezes até a voz sair.

– Estou esperando um filho, um filho seu. — Derek encarou o mais novo se afastar e entrar em choque.

– Um bebê? Nós... nós vamos ter um bebê? — o estômago do garoto deu algumas voltas e o gosto de bile o atingiu. — Mas... nós não... como? — Stiles se apoiou na maca e Derek se encolheu.

– O dia que eu invadi o seu quarto, acordei em forma de lobo mas, não lembro de tudo. Aconteceu. — Stiles colocou as duas mãos sobre a boca, não se sentia menos do que em pânico. — Eu não queria estragar sua vida, não queria que você soubesse e me deixasse. — Stiles voltou a si e encarou o lobo frágil, pálido e doente na sua frente.

– O quê!? Você tem passado por isso pelos últimos três meses por medo de ser abandonado? — claro que o garoto estava apavorado, mas toda a fragilidade de Derek parecia sobrepor isso.

– Eu sei que você não queria isso, lembro quando você deixou isso bem claro no México, não queria que nada disso tivesse acontecido. — Derek abraçou os próprios joelhos e sentiu a ferida no pescoço doer, reprimiu um gemido mas fez uma careta.

– Eu disse que não queria transar com um animal, mas eu já fiz isso e não me lembro direito. Der, — Stiles agachou em frente ao lobo e tocou seu rosto com carinho. — olhe para mim. — ele pediu e relutante o lobo o encarou. — Eu te amo e nada nesse mundo vai me fazer ir embora. — os olhos de Derek estavam brilhando em lágrimas. — Não faça mais isso, tudo bem? Não me afaste. — Stiles sentou ao lado do lobo e o puxou para um abraço, aninhando o corpo do maior em seus braços.

Claro que Stiles estava surtando, com medo e não fazia ideia de como explicaria aquela situação para os amigos e o pior, para o seu pai, mas estar com Derek e mantê-lo seguro era o mais importante e ele ainda precisava entender muitas coisas naquela gravidez para torná-la saudável e segura e sabia que nada poderia fazê-lo mudar de ideia a respeito disso. Ele queria o bebê, queria porque era dele e queria porque era de Derek, era o elo entre eles e agora que estava feito parecia menos assustador.