A Ansiedade Por Seus Desejos Me Devora
33 Me beija
Notas iniciais

Use Somebody — Boyce Avenue
“Quando na cumplicidade de um olhar, teu coração toca o meu, sinto que meus dias fazem sentido dentro dos teus versos e meu infinito amor se torna repleto de tua presença.”
– Reggina Moon
– Stiles essa comida está puro sal. — o xerife reclamou bebendo água e jogando os legumes no lixo.
– Não acredito! Que droga! Desculpe pai, eu só não estou muito concentrado hoje. — o menino recolheu a comida e jogou em um saco plástico.
– O que está acontecendo com você Stiles? Há dias eu tenho percebido que você fica mais e mais machucado, eu sei que tem esses treinamentos, mas seu cérebro também não parece muito intacto. — Stiles concordava, se sentia mal e sabia o porquê.
– Os treinamentos estão um pouco demais para mim, até faltei o lacrosse hoje para me recuperar e a semana de prova está me deixando louco. — ele falava sem parar uma mentira atrás da outra, nem ele mesmo queria admitir seu erro.
– E Derek? Vocês estão bem? — foi o suficiente para o menino que lavava a louça quebrasse um prato. — Cuidado! — o xerife levantou e tirou o menino de perto da louça partida, vendo que ele tinha se cortado. — Deixa que eu faço isso Stiles, hoje você definitivamente não está rendendo. — o menino assentiu e sentou na cadeira com a mão enrolada em um dos panos de prato.
– Eu não sei de Derek, acho que está ocupado reformando a mansão. — ele realmente não sabia de Derek, mas sabia o que tinha afastado o mais velho de si e sentia muito por não conseguir admitir que tinha um problema.
– Ele vai reformar? Bem que eu tinha escutado alguma coisa sobre a papelada do terreno quando fui entregar alguns relatórios na prefeitura. — o xerife podia sentir que seu filho não estava bem, mas ele mesmo não queria se intrometer na vida do garoto, não se isso tivesse a ver com Derek.
– É, todos estão ajudando. — Stiles estava com dor, sua mão não parava de sangrar. — Eu vou subir pai, fazer um curativo e dormir. Desculpe pelo jantar. — John concordou, beijou a testa do filho e o viu subir desanimado.
Stiles estava tentando fazer um curativo na própria mão, mas a mesma não parava de sangra o deixando irritado. De repente, as mãos ásperas de Derek estavam tomando o lugar da sua, que desajeitada mal conseguia limpar o ferimento. O lobo pegou a água oxigenada e limpou o corte, que não era profundo, mas sangrava bastante. Conseguindo diminuir o fluxo de sangue, ele passou algumas gazes e depois enfaixou, prendendo com esparadrapo bem firme. Stiles continuava mudo e olhando para o nada, estava com vergonha e confuso.
– Não vai falar nada? — Derek perguntou depois de jogar as gazes sujas no lixo.
– Eu tomei meu Adderall hoje. — a voz do menino trepidava de um jeito quase doloroso para Derek.
– Eu não quis te magoar, mais cedo. — o lobo hesitou, não esperava ver Stiles tão sensível.
– A culpa não é sua se eu estou tentando me matar. — o olhar de Stiles era duro, Derek não conseguiu sustentar aquele olhar.
– É isso que você quer? Morrer? — o menino riu.
– Está brincando comigo Derek? Porra! É lógico que não! Minha mãe morreu de uma forma tão horrível e dolorosa que eu faria qualquer coisa para tirar aquilo dela e você acha mesmo que eu intencionalmente ia parar de me medicar e ter uma morte lenta e dolorosa? TDAH nem mata! Meus ataques de pânico voltaram, eu ando extremamente irritado e cansado, minha mente não para de trabalhar um segundo sequer! Eu vejo tudo correr na minha frente, mesmo que não esteja nessa velocidade toda! Meu sono é uma droga e eu estou colocando sal na comida do meu pai! Você realmente acha que eu quero morrer e de quebra levar o xerife comigo? É isso? — Stiles estava fora de controle, ele não estava bravo com Derek, estava puto consigo mesmo.
– Eu acho que influenciei para que chegasse a esse ponto. Eu acho que não faço tão bem a você quanto eu deveria. — Stiles mordeu o lábio furiosamente e socou a escrivaninha.
– Agora você, o cara mais mau humorado do universo vem na minha casa com essa sua carranca e diz em meias palavras que está terminando comigo. Sabe Derek, se já terminou o que veio fazer aqui, se já me viu mal o suficiente pode ir. Já pode ir curtir sua vida de lobo sozinho! — Derek revirou os olhos e se aproximou, mas Stiles o afastou jogando alguns livros no chão.
– Stiles, você está cansado. Tem todo o direito de ficar puto, mas eu não estou terminando com você! Pelo contrário, eu quero cuidar de você e se eu fiquei tão irritado por você esquecer os remédio é por eu me preocupar! Será que você não enxerga isso? — o menino apertou os punhos e sentiu tudo dentro de si escurecer, estava irritado e não aguentava mais aquela dor.
– Eu não estou tentando me matar! Não estou! — não fazia o menor sentido o que Stiles dizia, Derek já sabia que o menino não estava tentando se matar.
– Stiles. — Hale se aproximou e viu o punho do garoto acertar a parede. — Stiles, está tudo bem. — o menino continuava a se debater no abraço forçado de Derek, batendo com força contra seu peito.
– Eu não fiz por mal. Não esqueci os remédios por mal. — as lágrimas, o desespero, o ataque de pânico, tudo estava deixando Stiles naquele estado.
– Eu sei. Respire, estou aqui agora. Vai ficar tudo bem. — o lobo tentava impedir que o menino se machucasse e este continuava a tentar se soltar e esmurrava o peito de Derek com força.
– Eu não quero morrer! Não estou tentando me matar, mãe! — Derek começou a entender melhor aquele acesso. — Eu só queria você aqui... — a fúria foi diminuindo até que Stiles estivesse soluçando no peito de Derek.
– Ela amava você Stiles. Sabe que você quer viver. — Derek manteve o abraço e acariciou os cabelos do menino em seus braços.
– Eu a matei Derek. Eu matei. — as palavras saíam entrecortadas por soluços.
– Isso não é verdade Stiles, ela estava doente. — o menino voltou a chorar alto e o xerife entrou no quarto observando aquela cena e recebendo um aceno discreto de Derek.
– Está tudo bem? — o xerife perguntou apenas deixando que o lobo lesse seus lábios. Derek apenas assentiu e John os deixou sozinhos de novo.
– Stiles sua mãe o amava, você não a matou. Ela estava doente, estava na hora dela. — Derek conhecia aquele sentimento de culpa, compartilhava da mesma dor.
O menino foi se acalmando aos poucos e já respirava melhor quando Derek o levou para cama e deitou ao seu lado alisando o rosto molhado do humano. Stiles ainda se recuperava e aquela sensação de culpa, angústia e desespero não saía de dentro de si. Queria chorar, queria gritar, queria sua mãe. Mas ela nunca mais estaria ali. Nunca mais.
– Eu desliguei. — o menino soluçou entre as palavras.
– O quê? — Derek continuou a soprar o rosto do menino e a alisar seus cabelos suados.
– Eu, — a pausa foi grande, Stiles nunca tinha contado a ninguém. — desliguei os aparelhos dela. — ele finalmente conseguiu completar a frase apertando os olhos e lembrando daquele dia terrível.
Sua mãe estava cada dia mais debilitada. Mesmo em casa, como os médicos recomendaram ficar, ela não se sentia melhor. Estava entubada, respirava com muita dificuldade e a quantidade de agulhas espetando suas veias doía no menininho de oito anos sempre ao seu lado, alisando sua mão fria e pálida e conversando.
Stiles falava por eles dois, não gostava mais de comer e queria estar ao lado da mãe a todo momento. Sentia a dor dela no olhar, chorava todas as noites sem que ela percebesse e rezava o tempo todo para que ela sobrevivesse. A fé dele acabou quando ele finalmente aceitou que sua mãe estava sofrendo muito e não melhoraria.
Ela mal reconhecia o menino, ou seu pai. O xerife ficava muito tempo trabalhando, estava lutando por uma promoção e tinha medo de ver a mulher morrer em seus braços. Desde essa idade Stiles já aprendera a cozinhar e a arrumar as coisas de seu pai e de si mesmo. Não queria dar trabalho e nem ser notado, para que pudesse passar mais tempo com sua mãe.
Um dia chegou da escola correndo, tinha sido liberado mais tarde e viu sua mãe respirando mal, como se estivesse puxando um ar imaginário e isso doeu no menino. Uma dor que ele sentiu o próprio ar se esvair e sem pensar muito agarrou os dedos da mãe e pediu desculpas. Seu dedo desligou aquele botão e deixou que os últimos segundos de desespero de sua mãe passassem e então teve certeza.
Ele religou os aparelhos e ouviu aquele bipe irritante que sinalizava que sua mãe não estava mais ali e não se permitiu chorar até estar em cima do corpo inerte da mulher e encostar o rosto no peito dela e não ouvir nada. Nem o ar puxado com dificuldade, nem as batidas fatigadas de seu coração. Stiles tinha deixado sua mãe partir e agora teria que conviver com a culpa de ter encurtado a vida dela.
Esse mesmo Stiles tremia e chorava no peito de Derek, sentia o ataque de pânico e como se tudo estivesse acontecendo agora, lembrava de como as noites de pesadelos eram intensas, como seu pai passou a beber, até que descobrisse o próprio problema cardíaco. O medo de dormir sozinho e as camas molhadas por lágrimas e xixi.
O escuro que se abateu sobre seu coração em todos os minutos que ele ficava sozinho, até que ele conseguisse conviver com aquilo. Até que seu pai o levasse ao médico e descobrissem seus ataques de Pânico, até que descobrissem seu TDAH, até que Stiles voltasse a tagarelar, porque o silêncio lembrava sua mãe, muda e morta naquela cama.
Stiles pensou que nunca mais seria capaz de ficar em silêncio e tinha razão. O silêncio, a morte, a dor, tudo o assustava e ele se agarrou ao homem ao seu lado, puxou o ar com força e chorou, chorou até que não restassem mais lágrimas dentro de si.
– Descanse Stiles, amanhã será outro dia e você vai se sentir melhor. — o maior aninhava o menino choroso em seu peito, sua camisa completamente molhada por lágrimas.
– Eu sou um assassino. — o menino se agarrou mais ao tecido e Derek podia sentir sua dor em si mesmo.
– Não Stiles, sua mãe amava você. Você apenas tirou seu sofrimento, como eu fiz com a Paige. Você se lembra do que eu fiz com a Paige? Lembra como ela me implorou em seu leito de morte para tirar sua dor? — Stiles encarou os olhos azuis de Derek e pode sentir a dor da lembrança. — Você só tirou a dor da sua mãe e ela pode ir em paz. É isso Stiles, você deu paz a sua mãe. Cláudia estaria orgulhosa pela força que você tem. Pelo homem que você se tornou. — Stiles queria acreditar nas palavras de Derek, queria poder se agarrar a isso. — Por favor, acredite nisso Stiles. — e ele tentou, se esforçou e quase conseguiu.
– Eu preciso de você Derek, preciso que me faça esquecer, que me faça acreditar. — o menino estava grudado no lobo e encarava os olhos azuis com desespero.
– Como? — os olhos de Derek voltaram ao normal e Stiles pode perceber a água transbordando pelas bolas de gude verdes de Hale.
– Me beija. — ambos estavam compartilhando a dor da perda, ambos estavam compartilhando a culpa e a cumplicidade.
O beijo era calmo, profundo. Levava Derek ao fundo das emoções de Stiles e o humano podia sentir todo o amor do lobo. Eles se amavam tanto que não precisaram de mais palavras naquela noite e não quiseram usá-las. Stiles entendeu, que não era o único com uma dor profunda dentro de si e Derek desatou suas amarras com o passado, entendendo que seus erros com sua família eram compreendidos. Compreendidos por Stiles. O humano pode sentir o sorriso da mãe saudável brotando em sua mente e Derek conseguiu ver também, ambos sorrindo entrebeijo, gostando do que viam e sentiam um pelo outro e por suas famílias. Derek via em si mesmo sua família feliz, Paige sorrindo e tocando na sala de música do colégio. Sua mãe dando bronca, sem muito afinco nele e em Laura que brincavam de lutinha fazendo bagunça no quarto. Eles choravam, se beijavam e aproveitavam seus momentos de cumplicidade.
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