A Ansiedade Por Seus Desejos Me Devora
44 Isso faz de você um homem bom
Notas iniciais

Pain — Three Days Grace
"A mágoa profunda tem menos poder para atingir O homem que dela faz troça, e não a carrega como um fardo."
– William Shakespeare
Stiles se assustou ao ver Derek pálido e atônito. Era como se seu corpo estivesse ali, mas a mente e a alma não. Ele estava por fora de tudo o que tinha acontecido nas cinco horas que ficou sozinho naquela casa e ele estava bastante aflito em ver aquele Derek na sua frente.
Hale apenas caminhou até o sofá e sentou, ficou parado olhando na direção oposta de Stiles, largado e sem vida. Stiles sentou ao seu lado, abraçou os joelhos e teve medo de perguntar o que aconteceu, teve medo de tocar no lobo e tirá-lo daquele estado e ver coisa pior e teve medo quando viu os ombros do lobo subirem e descerem em um soluço comedido.
– Derek o que aconteceu? — o menino finalmente perguntou, com medo, baixo e inseguro.
O choro baixo, repetição dos soluços e a respiração ficando desesperada alertou Stiles. Algo muito ruim tinha acontecido e Derek estava em choque. O menino tomou seu lugar no chão e segurou as mãos do maior que olhou em direção a elas como se fossem a nova bomba atômica.
– Der, olhe para mim. — o homem não olhou, as lágrimas manchavam seu rosto e Stiles não gostava daquilo. — Der não importa o que aconteceu, estou aqui. Com você. Por você. — aquela frase deixou Derek trêmulo.
– Por você... — ele repetiu como se a frase o queimasse, marcasse sua pele com fogo.
– Derek, você está me assustando. — Stiles tentou chamar sua atenção de novo e o homem recolheu as mãos, encarou o menor e sentiu o desespero tomar conta de uma vez.
Stiles não soube o que fazer ao ouvir o choro alto, ver a expressão de dor no rosto do namorado e o corpo tremendo. Derek estava tendo um ataque de pânico. Um ataque que ele costumava ter, não o lobo. Stilinski pegou o lobo e o colocou contra seu peito, como se pudesse embalar a estrutura corpulenta feito um bebê e ele não estava nem perto disso. Murmurou palavras de afeto, secou o rosto do maior e soprou seu rosto. Fez de tudo para que pudesse acalmá-lo e não conseguiu.
Por último, teve a brilhante ideia de colar seus lábios no do maior e fazer ele focar em qualquer outra coisa que o desespero. Sentiu aquecer as marcas que tinham feito um no outro e isso trouxe Derek para a realidade novamente. O lobo pareceu sufocar e puxou o ar com força, abraçou Stiles como se ele o estivesse impedindo de cair de muitos andares e isso aliviou Stiles. Qualquer reação era melhor do que um Derek em pânico.
– O que te deixou assim? — Derek estava consciente de que estava seguro nos braços de Stiles, se sentia assim.
– Eu matei, matei novamente um inocente. — os olhos do lobo estavam em um azul tão frio que Stiles podia sentir o gelo perfurar sua pele e sentiu medo de saber mais sobre o que Derek tinha feito.
– Vá em frente. — o menino pediu, mesmo que não quisesse saber por medo.
– A mulher que te atacou, ela não era humana. — Derek começou, mas voltou a ver o rosto saudável de Liss perambulando pela floresta com seu tio e isso o machucou.
– Está tudo bem Der, agora tudo isso acabou. — Stiles fez a cabeça do lobo deitar sobre seu colo e acariciou os cabelos escuros do namorado que chorava.
– Ela era um coiote e eu a matei. — o desespero começou a cortar sua respiração e Stiles tocou a marca novamente aberta no pescoço de Derek, isso pareceu relaxá-lo.
– Der, ela me atacou. Não era uma inocente. — Stiles ainda não entendia aquela culpa toda, em sua cabeça a mulher era uma louca e o tinha feito passar maus bucados.
– Ela era a mãe da Malia. — a mão de Stiles parou sem tocar Derek e ele tentou assimilar aquela informação.
Derek continuou a frase, contando como a conheceu e como a encontrou. Stiles ouvia, automaticamente acariciava o namorado, mas não estava ali. Lembrou da expressão da louca, do cheiro de podre e foi associando todas as reações dela como uma única coisa: medo. O menino avaliou suas próprias reações, seu comportamento exagerado e reconheceu que poderia ter tentado ajudar Liss. Poderia ter diminuído sua dor e se não fosse sua boca grande, ela não estaria morta e Derek não estaria assim.
Claro que ela teria que morrer, mas Malia não pediria isso a ele e o motivo não seria ela estar em débito com Derek, por machuca o companheiro. Stiles respirou pesado, sentia a dor de Derek por todos os poros, assim como podia ver o maior se acalmando com suas palavras de acalento. Ele queria não precisar ver um Derek tão abalado, mas ele não sairia por nada dali.
– Ela está em paz agora, acho que esse é seu único conforto. Matar um inocente nunca é uma coisa boa, mas ela estava sofrendo. — Stiles tentava justificar as ações do maior.
– Você realmente acredita nisso? Que estou livre da culpa por ela não sofrer mais? — a voz rouca pelo choro recém interrompido fez Stiles pensar.
– Da culpa não. — ele queria que a resposta fosse outra, mas não ousaria mentir. — Acho que matar alguém, inocente ou não sempre vai doer. Alguns menos e outros mais, muito embora, isso não vá mudar a sua visão de culpa e isso é uma coisa boa. Essa dor, significa que você é uma pessoa boa. Alguém que se importa. — Derek encarou o menino, sentia aquelas palavras realmente o reconfortarem.
– Obrigado. — o menino ficou surpreso, mas sorriu ao ver que Derek parecia melhor. — E não se sinta culpado. — a surpresa ficou estampada na cara de Stiles. — Você sabe que eu posso sentir. — o lobo sorriu e Stiles se enroscou nele no sofá.
O móvel era pequeno para os dois, mas fizeram caber. Se sentiam confortáveis com o calor do corpo do outro e Derek quase podia esquecer o remorso. Acabaram por adormecer assim, em meio a palavras e toques de carinho. Em meio ao amor dos dois passando por eles, os aquecendo e acalmando. Os levando a um nível de conexão além do que Stiles poderia achar ser capaz como humano e Derek nunca pensou em ser tão feliz ao lado de alguém. Dormiram com os corações inchados e felizes, mesmo em meio as inseguranças e dores de cada um se sentia completos e saudáveis um com o outro e não queria sair dali nunca.
Peter estava mal. Dentro dele o olhar apagado e a morte envolvendo o corpo do seu primeiro amor o abalaram. Ele não conseguia chorar, não depois de ver sua filha se desmanchando em seu abraço. Depois de horas dando fim ao corpo e deixando Malia em casa, ele se viu no quarto com tudo apagado e aquela sensação de que a imagem e o cheiro de Liss apodrecendo nunca deixaria sua mente.
Eram nesses momentos que Peter se sentia insano. Era como se toda a dor de ver sua família queimar, a mulher que ama partir e perder tudo estivesse ali, viva. Derek tinha feito o trabalho sujo, mas isso não mudava a porção de culpa e remorso que o loiro sentia. De longe sabia que Lydia estava tentando se aproximar desde que ele atravessou a porta da mansão, mas ele a repeliu.
Não com palavras, mas a ruiva sabia que o melhor era deixar o lobo sozinho. Ele então começou a beber, mas como lobisomem precisaria de umas dez garrafas daquele uísque para chegar perto de alterado. Jogou o copo contra a parede, deixou a sensação da perda o invadir, mas não conseguiu chorar. Por que ele não conseguia se deixar sentir o luto?
A resposta vinha clara em sua mente e ele ignorava. Sentiu o peito inflar e o ar sair com dificuldade. Ele não amava mais Liss, não sentia nada além de pena. Era isso que o impedia de chorar, porque ele queria chorar para se sentir humano, sentir empatia pela dor da mulher, pela dor da filha. Mas ele não seria capaz. Não conseguiria verter uma única lágrima pela coite morta, não depois de tanta mágoa, dor e desespero. Não depois dela ter escondido a filha. A mágoa era mais forte que a dor e isso fazia o peito de Peter apertar, mas nenhuma lágrima descia.
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