A Ansiedade Por Seus Desejos Me Devora
70 Eu só preciso de você

Wonderwall — Oasis
“No amor e na guerra ambas as partes tem o direito de usarem as mesmas armas.”
― Marco Antonio Alvarenga
O natal estava animado na mansão. Diga-se de passagem o Pack desajustado de Scott, era no mínimo bastante festeiro. Em suma formado por adolescentes, incluindo seu alpha o mais jovem da história, eles só pensavam em se divertir. Entre brincadeiras, a ceia farta, o amor todo especial que envolvia aquele amontoado de pessoas, nem todas tão humanas assim se percebia que formavam de fato uma família.
John estava orgulhoso daquelas pessoas. Orgulhoso da família que formou, de fazer parte dessa coisa que seu filho chamava de Pack e de ter novamente pessoas com quem compartilhar aquele natal. Gostava de ver o sorriso nos lábios de Melissa, de ver o pai de Scott mesmo contra a vontade do filho arrancando sorrisos de todos, incluindo ele. Gostava de ver Chris aceitando a relação estranha da filha com os dois lobisomens. Gostava do sorriso de Isaac que nunca teve nenhum tipo de amor na infância.
Melissa se sentia igualmente feliz pela festa, pelas pessoas, pelos filhos. Stiles e ela andavam cada dia mais unidos, por causa da Cláudia, mas também pelo menino começar a finalmente se sentir em casa, se sentir a vontade com a nova família dele. Algumas vezes até ouviu da boca do garoto que ela era como uma mãe para ele e que estava muito mais que feliz por fazer parte da família. Ela se sentia grata por Scott ter tomado um rumo, assumido responsabilidades e provado mais uma vez que ele é mais que um adolescente movido pelo coração.
Ref se sentia um pouco deslocado no meio daquele mundo sobrenatural. Quando recebeu o perdão do filho, pensou bem no que faria e decidiu por partir mais uma vez. Era um dos pedidos de Scott, não se meter com seu Pack nem na felicidade de sua mãe. Melissa estava casada e tinha uma filha com John e Ref podia entender isso, podia aceitar e achar bom a ex-mulher estar feliz em seu novo lar. Ele só não conseguia cultivar a confiança do filho, mas ainda tinha esperança. Como sentiu algo esquentar seu coração quando o filho ligou o convidando para a ceia de natal. Havia esperança, Ref sabia que sim.
Chris tinha adotado de certo modo todos os lobos daquela cidade. Mesmo Derek quem sentenciou sua esposa a morte, tinha um espaço cativo dentro dele. Hale não era má pessoa e hoje Chris entendia o que levou o lobisomem a morder sua mulher, como tantas vezes viu o mesmo lobisomem salvar a vida da filha ou dos demais adolescentes naquela sala. Gostava de ver a filha feliz, no fundo tinha um incômodo dançando em sua mente por ela ter dois namorados e os dois serem lobisomens, mas isso passava quando via os olhos da Argent mais nova brilhar perto dos garotos e por isso ele era grato. Grato por ter uma família ainda e ver seu maior presente feliz.
Derek e Stiles estavam distantes nessa noite. Distantes por estarem assustados, distantes por discordarem da forma como Stiles queria levar as coisas. Derek esperava que amar alguém como ama e se sente amado por Stiles seria mais fácil e seria se ele não fosse um lobisomem azarado e namorasse um humano tão azarado quanto ele. Já passavam das duas da manhã e todos tinha ido dormir, queriam abrir os presentes bem cedo na manhã seguinte, aproveitar o natal de fato. Muitas histórias foram contadas naquela noite, muitas lembranças, mas ele sentia que nada daquilo o havia tocado. Nada era importante, não sem Stiles próximo o suficiente para ele sentir o calor da pele do adolescente tocando a sua tão quente quanto.
– Eu gostava de vir até a árvore de madrugada e ver algumas fotos da minha mãe. Gostava de fazer isso todos os anos, desde que ela se foi. — Stiles sentou ao lado de Derek perto da janela, mas estava de frente para a grande árvore que ocupava uma boa parte da sala da mansão. — Eu trouxe para você. — o menino entregou um copo de leite para o lobo e deixou um prato de biscoitos entre eles. — Foi Melissa quem fez os biscoitos, estão tão gostosos quanto os da minha mãe. — o menino sorriu ao lembrar de como era bom passar o natal perto da mãe.
– Senti sua falta a noite toda. — Derek se virou para a mesma direção que o garoto e tocou os dedos frios e compridos do menino.
– Naquele ano em que você me viu na delegacia, minha mãe descobriu a doença dela. Ela tinha ido ao médico naquele dia, tinha ido descobrir o que a mataria aos poucos pelos três anos que se seguiram. As vezes, eu só penso que eu não quero sofrer o mesmo que ela. Que eu não suportaria sofrer e fazer alguém sofrer como foi quando aconteceu com ela. — Derek ouviu atentamente as palavras de Stiles.
– Você sempre foi um garoto muito forte. — os dedos deles estavam entrelaçados agora.
– Nós vamos viajar e aproveitar ao máximo o que temos, eu não quero esquecer desses nossos momentos quando eu sentir dor, quando eu começar a implorar para receber uma mordida sua. — Stiles riu amargo. — Eu nunca quis sabe? Não é diferente agora, mesmo que eu ainda queira que mantenha sua promessa. Eu nunca desejei ser um lobisomem. — Derek sabia disso e faria de tudo para evitar.
– Você precisa parar de carregar o mundo nos ombros. Existem muitos do seu lado. Você tem uma família. — Derek sentiu a cabeça do menino repousando no seu colo e os dedos dele passando lentamente pelo seu joelho.
– Eu só não quero ver ninguém chorando quando eu morrer. Porque mesmo que demore muito, eu vou morrer um dia. — ele brincou e Derek começou um cafuné nos cabelos agora crescidos do menino.
– Vamos parar de falar da sua morte, não quero pensar nisso até que aconteça. — era verdade, Derek odiava esse assunto. — Nos natais aqui da mansão, minha mãe sempre reunia todo mundo na sala durante a noite e contava alguma história sobre os lobos que não conhecíamos. Era tipo o bônus do que aprendíamos naturalmente. Ela sempre contava alguma curiosidade, algo que não imaginávamos que fosse real. — Stiles entregou um biscoito para o namorado que aceitou.
– Existe alguma coisa que vocês achem que não exista? — Derek riu e mordeu o biscoito.
– Existem muitas coisas que são só imaginação, mas existem muitas outras que eu não faço ideia se são ou não reais. — o lobo bebeu um pouco de leite e viu Stiles comendo.
– Qual foi a história do último natal? — Stiles perguntou sentando no vão entre as pernas de Derek e se aconchegando no lobo para comer e beber melhor.
– Algo sobre companheiros. Os diferentes tipos de companheiros. Uma história complexa sobre o cio. Eu não consigo me lembrar de tudo, eu bloqueei a maior parte das lembranças da minha família. Pensar neles machuca. — o lobo admitiu e recebeu um afago do humano.
– Eu entendo, não precisa forçar nada. A gente podia dormir aqui, o que acha? Eu adoro essa lareira e ficar perto da árvore. — Stiles parecia uma criança pedindo um doce para o pai na hora errada.
– Vou buscar uma manta para cobrir você. — Derek fez menção de levantar, mas foi segurado pelo menino.
– Eu só preciso do seu corpo para ficar quente. — o lobo abraçou o menino e eles continuaram a trocar experiências de natal até estarem cansados demais para falar e então caíram no sono.
Fale com o autor