Notas iniciais
Voltei o/

Medo — Pitty

"Omedo rouba sonhos, destrói esperanças e te impede de viver. Vai deixar o medo vencer?"

– Autor Desconhecido

Noite bizarra. Noite totalmente bizarra. Era assim que Stiles definiu as últimas oito horas que passou na floresta. Seu coração ainda estava batendo em um ritmo frenético no peito e suas mãos tremiam. Ele todo tremia. A verdade é que ele não deveria ter ido até a mansão naquela noite. Não deveria ter tentado chegar nela e com todos os obstáculos que o impediram e o convenceram de abandonar seu Jeep e voltar correndo para casa com certeza foram o suficiente.

Derek tinha ido até Nova Iorque e Stiles estava entediado naquele final de semana. Férias de meio de ano sempre eram chatas, ainda mais quando seu namorado não pode passar todos os dias com você, ou quando seu pai resolve levar a esposa (não oficialmente) grávida para uma fazenda em Oregon, ou quando Scott resolve declarar a terceira guerra mundial tendo as brigas mais irritantes com Kira, bem no momento em que Stiles decide ficar um pouco na casa que deveria ser seu novo lar.

Então o menino decidiu depois dos três primeiros dias sozinho na casa que agora ninguém usava, só ele, por se recusar a dividir o quarto com o casal mais chato do universo, porque sim, Kira estava sempre presente, seja pelas reclamações de Scott, ou por mensagens, ou telefone, ou pessoalmente, ela sempre estava lá e eles sempre estavam discutindo algo extremamente bobo. Stiles decidiu que era melhor se juntar ao resto do Pack, que estava na mansão fazendo reuniões todos os dias e ficando até tarde jogando conversa fora.

Só que ele não contava com o que encontraria no caminho e ele ainda nem sabia o que era. Avaliou seu próprio corpo, agora nu em frente ao espelho e viu quanta sujeira tinha grudada em sua pele, como seus olhos estavam esbugalhados e assustados, como sua pele parecia mais pálida em comparação aos arranhões dos galhos, as mãos, cotovelos e joelhos ralados e seu pé que doía como nunca ao pisar no chão. Lembrou então como se machucara daquele jeito e mais ainda, lembrou o que fez aqueles arranhões em seu ombro direito, peito e bochecha esquerda.

Ele tinha trombado com alguma coisa no caminho, algo que estourou seus pneus de forma que os quatro estavam arriando, murchos e sem vida. Chutou uma das rodas e sentiu seu pé doer, reclamando em seguida por ser tão impulsivo. Não estava tão longe da estrada que levava a mansão, talvez uma meia hora de caminhada fosse a solução e decidiu pegar sua mochila depois, quem sabe com a carona de um dos gêmeos e suas motos. Outra hora pediria reboque ou Derek que chegaria no dia seguinte poderia ajudá-lo a trocar os pneus. A ideia de Derek sujo de graxa o animou, ele quase não se importou com o frio enquanto caminhava.

Stiles não se importou com nada nos primeiros dez minutos. Imaginou que com o imprevisto deveria ligar e avisar a alguém que estava indo para a mansão, mas seu celular fora esquecido no carro e ele não teve ânimo de voltar e buscar, dez minutos não eram muita coisa, mas ele ainda tinha vinte pela frente e o frio parecia aumentar agora que a imagem de Derek parou de esquentá-lo. Caminhou mais cinco minutos e sempre tropeçava em diversas pedras e galhos, o que deixava a caminhada mais irritante e dolorosa para o humano.

Sentiu-se ser jogado contra o chão e uma dor profunda em seu ombro, gritou e tentou se situar do que tinha acabado de acontecer. Não era possível que um animal selvagem o atacasse ali, com tantos lobisomens por perto. Tentou captar algum cheiro, tinha ficado melhor com seus sentidos depois de tanto treinar, mas não sentia nada além do cheiro de seu sangue e algo fedorento. Olhou ao redor enquanto levantava com cuidado, segurando o ombro e sentindo a ferida sangrar. Eram arranhões, mas nada grave. Pensou que fosse um lobo, mas quando viu a figura humana se jogar em cima dele, descartou a ideia.

A criatura fedia e tinha unhas enormes. Era totalmente humana e louca. Não esperava por um ataque humano e ficou alguns segundos sem reagir até que sentiu aquela pessoa o arranhar no rosto. Empurrou a criatura, ele julgou ser uma mulher, só podia ser, com aquele rosto tão fino e mesmo com os cabelos super maltratados e curtos, ele podia ver que ela era um pouco bonita. Se repreendeu por pensar na beleza de quem o atacava e tentou se livrar do corpo pesado dela que o pressionava no chão. Sentiu o gosto do próprio sangue nos lábios e rolou, jogando a mulher para o lado e levantou rápido.

Não tinha certeza de que estava fazendo o certo, mas correu. Tentou chegar até a mansão, mesmo que quinze minutos correndo só diminuísse um pouco, era sua melhor chance de se defender. Sentiu algo puxar sua camisa e uma língua inteligível ser pronunciada pela mulher estranha que o jogou contra a árvore. Ela parecia nervosa e era bastante agressiva. Stiles pensou rápido e a acertou com um galho de árvore pesado, ela cambaleou dando tempo para ele correr. Resolveu fazer de tudo para chegar a mansão, mas com a coisa o perseguindo ele acabou se perdendo em algumas trilhas.

Ele conhecia bem a mata que envolvia a mansão, mas a reserva que ficava dentro dessa mesma mata era mais densa e difícil de gravar, ele começou a fazer reconhecimento de território ali há poucas semanas com o Pack. Reconheceu uma das cavernas, lembrou que Derek o tinha levado para passar uma tarde ali certa vez, entrou nela e viu que ela dava exatamente na clareira que tinha passado um domingo maravilhoso com Derek. Respirou fundo e ouviu uma movimentação intensa na mata, sentiu medo, pânico na verdade. Ninguém poderia ajudá-lo e ele não tinha a menor noção de como apagaria a mulher.

A verdade é que ele não queria machucá-la. Não queria que ela se ferisse gravemente e nem queria matá-la como foi ensinado em tantos treinamentos. Ela era humana, tinha certeza disso. Ele só não conseguia ferir uma garota sem que ela o deixasse puto ou realmente com a vida na beira do precipício. Com isso o pânico foi aumentando ao ver que ela se aproximava e ele era tão burro que nem conseguia se defender. Seu senso de moral e ética o impedia de proteger a si mesmo, de defender sua própria vida, mesmo que isso significasse sair muito machucado dali. Vendo o cabelo da mulher ainda longe Stiles se jogou no rio.

Ele não pensou muito no que fez até sentir a água tão gelada o ferindo como agulhas, mas se agarrou a uma vegetação perto de uma pedra alta e ficou o máximo em silêncio que conseguiu escondido. Observando a mulher cheirar, revirar e caçar ele por todos os lados dali. Quando ela pareceu se afastar, o corpo de Stiles não respondia por ele. Estava hipotérmico e cansado. Os lábios roxos, o queixo batendo, os dentes trepidando e cada molécula sua congelada. Saiu com muita dificuldade do rio e ficou pelo menos quinze minutos em posição fetal tentando se esquentar.

A noite já tinha caído quando ele retomou a consciência e se viu quase seco e todo sujo de lama. Levantou ainda com muito frio, as roupas úmidas, o cabelo congelado e olhou ao seu redor. Parecia calmo, mas ele estava perdido. Mesmo quando saiu dali com Derek, não se deu conta de quais caminhos trilharam de volta para casa e demorou umas três horas para chegar onde seu Jeep estava. Quase chorou ao ver o carro e entrou nele sem pensar duas vezes. Estava se sentindo doente, sujo, derrotado e machucado. Poderia desmaiar de sede e fome ou morrer de frio.

Se obrigou a dar partida mas não foi muito longe. Nem dois quilômetros depois o Jeep não conseguia mais andar. As rodas raspavam direto no chão e os pneus tão murchos que poderiam virar asfalto sendo arrastados daquela forma. Stiles pegou o celular, estava sem bateria. Que ótimo, ele pensou. Jogou o aparelho no bolso, pegou sua mochila e saiu andando. Não tinha alternativa senão se arrastar para casa e quando finalmente chegou se sentia um lixo. Tomou sua dose de Adderall, uma outra de Ritalina e agora estava ali, reavaliando o prejuízo sobre seu próprio corpo.

Que porra de noite bizarra ele tinha tido. Em menos de uma hora o sol estaria brilhando no céu e ele não tinha conseguido falar com ninguém. Será que ninguém sentiu o cheiro do sangue dele na reserva? Será que estavam tão ocupados que não se deram conta dos gritos histéricos que ele deu? Ele estava cansado demais para pensar a respeito. Tomou um banho quente, bem quente e sentou no boxe. Poderia dormir ali se não tivesse tomado a Ritalina. Se sentiria melhor depois de comer, pensou. E mais uma vez se obrigou a levantar, fechar o registro e se secar.

Com um pijama quente e confortável ele foi até a cozinha, comeu um pouco do que sobrou do almoço que fez para si mesmo e voltou para o quarto, estava exausto. Se jogou no colchão e apagou. O que Stiles não pensava era que teria pesadelos tão vívidos com aquela mulher. Uma mulher suja, fétida e ameaçadora. Uma mulher que fez Stiles sentir o pânico em seu sono e o obrigou a gritar. O fez se debater e chorar ainda dormindo. Uma mulher que o deixava assustado e louco para que alguém pudesse ficar com ele naquele quarto. E quando sentou, suado e chorando se deu conta que passavam do meio dia e que Derek estava entrando em seu quarto pela porta.

O menino não hesitou em correr desajeitado e agarrar-se ao homem dez centímetros mais alto com violência. Tanta violência que Derek cambaleou e se assustou. Stiles estava em pânico e ele não fazia ideia do motivo. Stiles não queria conversar naquele momento, só sentir que não estava mais sozinho e que não sofreria nenhum ataque em lugares tão familiares. Stiles tinha se desacostumado com o perigo e não tinha certeza se aquela mulher era um constante ou só uma louca. Ele só queria esquecer, talvez explicasse depois, mas agora, ele só queria sentir Derek ali, com ele. Por ele.

Notas finais
E aí o que acharam?