A Anomalia da Descontaminação
1 Capítulo Único
Sheldon Cooper sempre soube que o mundo não estava preparado para uma pandemia.
Ele alertou as pessoas.
Ele tentou educá-las.
Mas, como sempre, foi ignorado.
Agora, enquanto assistia ao noticiário na televisão, sentiu um frio percorrer sua espinha.
Ele engoliu em seco e virou-se lentamente para Amy.
— Amy, é oficial. A COVID-19 chegou a Pasadena.
Sem dizer mais nada, desligou a TV com um clique seco e encarou a esposa, que estava sentada no sofá do apartamento 4B, tentando manter a calma.
Amy respirou fundo, já prevendo o caos iminente.
— Sheldon, a gente já sabia que isso ia acontecer. Todo mundo está tomando precauções. Nós vamos seguir as recomendações médicas e…
— Recomendações médicas? — Sheldon a interrompeu, indignado.
Ele deu um passo para trás, como se o próprio conceito de "seguir recomendações básicas" fosse um insulto pessoal.
— Amy, o governo sugeriu que as pessoas lavem as mãos e fiquem a um metro de distância umas das outras. Você já viu como os humanos se comportam?! Isso não é suficiente!
Amy massageou as têmporas, reunindo paciência.
— E o que você sugere?
Um sorriso grande demais para o contexto surgiu no rosto de Sheldon.
— Vou construir algo.
Amy arqueou a sobrancelha, já antecipando que isso envolveria algo completamente irracional. Antes que pudesse responder, coçou levemente o nariz.
Sheldon prendeu a respiração.
Seus olhos se arregalaram.
Ele deu um passo para trás. Depois outro. Depois mais um.
— Por que você está coçando o nariz? — Perguntou, andando de costas em uma tentativa discreta de afastar-se dela.
Amy piscou, confusa.
— Por que meu nariz está coçando? — respondeu, pausadamente, como se fosse a explicação mais óbvia do mundo.
Sheldon prendeu o fôlego e cobriu o nariz com a gola da própria camisa.
— EU SABIA! VOCÊ FOI INFECTADA!
Amy mal teve tempo de reagir antes que Sheldon virasse nos calcanhares e saísse correndo pelo apartamento.
— Sheldon, eu não estou...
— MEU DEUS, NÓS VAMOS MORRER! — Sheldon gritou como se estivesse em um filme de desastre, disparando para o quarto e batendo a porta com força.
Amy ouviu o som do trinco girando.
Depois, barulhos de objetos sendo arrastados.
Ela suspirou, cruzando os braços.
— Ele está barricando a porta.
Ouvindo algo pesado cair no chão, ela massageou a testa e fechou os olhos.
— Essa quarentena vai ser um inferno.
***
12 horas depois…
Amy foi despertada por um barulho insistente e rítmico vindo da sala.
TUC-TUC-TUC-TUC.
Ela esfregou os olhos, confusa. Quem, além de Sheldon, poderia estar causando tanto barulho antes das oito da manhã?
Levantando-se com um suspiro pesado, ela seguiu até a porta do quarto.
O que viu a fez congelar no lugar.
Sheldon estava furiosamente martelando algo, cercado por rolos de plástico transparente, tubos de PVC e uma variedade desconcertante de equipamentos eletrônicos.
Sensores, cabos, uma tela de tablet acoplada a uma estrutura metálica…
Ele vestia um macacão Tyvek branco, usava óculos de proteção, um respirador e luvas cirúrgicas.
Amy piscou algumas vezes, tentando assimilar a cena.
— Sheldon… o que exatamente você está fazendo?
Sheldon ergueu a cabeça, radiante, como um cientista prestes a anunciar uma grande descoberta.
— Amy, apresento a você o Sistema Cooper de Descontaminação Residencial™!
Amy olhou ao redor, tentando entender o nível de insanidade dessa nova invenção.
— Você… transformou a entrada do nosso apartamento em um laboratório de quarentena?!
Sheldon ajustou os óculos de proteção com seriedade.
— Sim. E como primeira cobaia, você terá o privilégio de ser a primeira a testá-lo!
Amy desviou o olhar para a estrutura recém-instalada na entrada do apartamento.
Um pequeno espaço lacrado com cortinas de plástico estava posicionado entre a porta de entrada e o interior da sala.
No meio, um painel de controle brilhava em vermelho.
— O que acontece se alguém quiser entrar?
Sheldon pegou um controle remoto e apertou um botão.
PFFFFFF!
Uma nuvem densa de álcool em aerossol foi pulverizada dentro do cubículo.
— Primeiro, a pessoa é desinfectada com uma mistura de álcool 70% e luz UV.
Ele apertou outro botão, e um pequeno dispenser liberou um tubo de ensaio.
— Segundo, ela precisa fazer um teste rápido de COVID-19.
Sheldon apertou mais um botão.
Uma voz eletrônica robótica ecoou pelo apartamento:
"ALERTA: TESTE EM ANDAMENTO. POR FAVOR, NÃO INSPIRE PROFUNDAMENTE."
Amy arregalou os olhos.
— Sheldon, você tem um sistema de análise dentro do apartamento?!
Sheldon sorriu orgulhoso, como se estivesse apresentando seu mais novo Prêmio Nobel.
— Sim! Se o teste for negativo, a pessoa pode entrar. Se for positivo, o sistema emite um alerta sonoro e a tranca eletrônica permanece ativada.
Amy cruzou os braços.
— E o que acontece se o resultado for inconclusivo?
Sheldon apertou outro botão.
"ALERTA: CONTAMINAÇÃO SUSPEITA! SUJEITO DEVE RETORNAR AO SEU DOMICÍLIO IMEDIATAMENTE!"
Uma sirene disparou. Amy deu um passo para trás, assustada.
— Sheldon! Você quer traumatizar as pessoas?!
Sheldon inclinou a cabeça, genuinamente intrigado.
— Você não acha que isso é um pouco mais eficiente do que simplesmente dizer ‘por favor, lave as mãos’?
Amy olhou para o sistema, depois para Sheldon, que sorria empolgado como uma criança que acabou de ganhar um laboratório de química.
Ela soltou um longo suspiro.
— Sheldon… você não pode manter as pessoas presas do lado de fora só porque acha que elas podem estar contaminadas.
— Não posso? Claro que posso!
Amy cruzou os braços.
— E o que acontece se eu precisar sair e voltar? Você vai me obrigar a passar pelo sistema toda vez?
Sheldon sorriu como se fosse óbvio.
— Sim. E, para sua segurança, você receberá uma máscara de uso exclusivo e um traje descartável, que deverá ser incinerado ao retornar.
Amy esfregou as têmporas, sentindo uma enxaqueca se formar.
— Sheldon, você não pode incinerar lixo químico dentro do prédio.
Sheldon parou para pensar.
— Ok. Boa observação. Vou modificar isso para um sistema de descarte a vácuo.
Amy revirou os olhos.
— E o que acontece se alguém quiser nos visitar?
Sheldon ajustou a gravata, orgulhoso de si mesmo.
— Aí que está. Depois de passar pelo cubículo, ninguém vai mais querer nos visitar.
Amy arqueou a sobrancelha.
Sheldon hesitou, depois desviou o olhar para uma pequena caixa na mesa de centro.
— A propósito… aqui está seu teste de COVID.
Amy encarou a caixa, depois Sheldon.
— Sheldon, eu estou bem. Não estou sentindo nada.
— Amy, há casos assintomáticos. Sem contar que você não está exatamente assintomática…
Amy estreitou os olhos.
— O que você quer dizer com isso?
Sheldon apontou um dedo acusador para ela.
— Você coçou o nariz mais cedo. Se isso não é sintoma de contaminação, eu não sei mais de nada.
Amy encarou Sheldon, incrédula.
— Foi só uma coceira.
Sheldon balançou a cabeça.
— Não posso arriscar, Amy. Estamos no meio de uma pandemia.
Amy pegou a caixa, exasperada.
— E se o resultado for positivo?
Sheldon arregalou os olhos, animado.
— Ah, que bom que perguntou!
Ele apontou para um cubículo de vidro temperado no outro lado da sala.
Amy seguiu o olhar dele e… paralisou.
Ela não tinha percebido essa estrutura antes.
Dentro, havia uma cama pequena, um estoque de comida enlatada, revistas em quadrinhos, um tablet, jogos de tabuleiro e até uma cafeteira.
Sheldon bateu levemente no vidro.
— Aqui tem comida, jogos, artigos científicos… tudo que uma pessoa infectada precisa para passar o período da doença com conforto e segurança.
Amy ficou parada, estarrecida, encarando Sheldon.
— Não acredito que você tem coragem de colocar sua esposa nisso… — gesticulou para o cubículo.
Sheldon suspirou.
— Amy, eu sei que parece egoísmo…
Amy levantou uma sobrancelha.
Sheldon continuou.
— Mas eu só estou pensando na minha segurança.
Amy fechou os olhos por um instante, respirou fundo, depois pegou o teste.
— Passa logo isso. — resmungou, já bastante zangada.
Sheldon sorriu satisfeito, oferecendo-lhe uma máscara descartável.
Amy revirou os olhos.
***
Duas horas depois…
No apartamento 4A, do outro lado do corredor, Leonard digitava no computador, concentrado, enquanto Penny passava por ele com uma garrafa de vinho na mão.
Ele arqueou uma sobrancelha ao notar que ela se dirigia à porta.
— Você vai sair durante a quarentena? — perguntou, girando na cadeira para encará-la.
Penny deu de ombros, sem se preocupar.
— Eu só vou ali do outro lado do corredor conversar com a Amy.
— E beber, né?
— Bom, você viu no noticiário, o vírus não gosta de álcool.
Leonard revirou os olhos, cruzando os braços.
— Sheldon vai surtar quando não te ver. Ele não quer receber visitas. Você não leu o e-mail que ele mandou com todas as regras?
Penny bufou.
— Que pessoa em sã consciência lê os e-mails do Sheldon? Além do mais, eu estou usando máscara e lavei bem as mãos. Ele vai ficar orgulhoso quando me vir.
Leonard soltou um riso incrédulo, balançando a cabeça.
— Boa sorte com isso.
Penny saiu pela porta, fechando-a atrás de si.
***
Penny parou diante da porta do apartamento 4B e franziu a testa.
— Desde quando tem um interfone aqui?
Ela o encarou por um segundo, curiosa, mas decidiu ignorar. Em vez de tocar, simplesmente girou a maçaneta e entrou.
No mesmo instante, percebeu que algo estava errado.
O ambiente à sua frente não era a sala de estar, mas sim um cubículo transparente, isolado do restante do apartamento.
Penny olhou ao redor, desconfiada, mas não recuou.
— Oi, Amy! Trouxe um vinho pra gente beber e esquecer essa coisa de pandemia por uns min—
PFFFFFF!
Penny parou no meio da frase quando uma densa nuvem de álcool 70% foi pulverizada sobre ela, cobrindo-a dos pés à cabeça.
Ela tossiu violentamente, abanando o rosto enquanto tentava entender o que havia acontecido.
— AH, MAS QUE DIABOS?!
Ela tentou se virar para sair, mas a porta atrás dela trancou automaticamente.
— SHELDON! ME SOLTA DAQUI!
A voz eletrônica ecoou pelo cubículo:
"REALIZE SEU TESTE DE COVID-19 PARA CONTINUAR."
Penny arregalou os olhos e cruzou os braços.
— De jeito nenhum. Eu não vou fazer teste nenhum.
Sheldon ergueu uma sobrancelha e sorriu com superioridade.
— Então, Penny, receio que você permanecerá exatamente onde está.
Penny franziu a testa.
— O quê?
Sheldon girou o tablet nas mãos, exibindo um diagrama do Sistema Cooper de Descontaminação Residencial™.
— Ambas as portas permanecerão trancadas até que você complete o protocolo de entrada. Ou seja, sem teste, sem saída.
Penny bufou, indignada.
— Sheldon, você está me mantendo refém!
Sheldon deu de ombros.
— Penny, Penny, Penny… Se chamamos isso de ‘medida de segurança sanitária’, soa muito menos criminoso.
Amy apertou os olhos e apontou um dedo para Sheldon.
— Sheldon, isso já passou dos limites.
Sheldon levantou um dedo, como se estivesse prestes a dar uma palestra científica.
— Discordo, Amy. O limite é o que nos separa do caos microbiológico. E eu sou esse limite.
Penny bufou e pegou o teste à contragosto.
— Isso é um abuso de poder, mas eu só quero sair daqui.
Ela realizou o teste, resmungando o tempo todo, enquanto Sheldon monitorava o progresso com a empolgação de quem acompanha um experimento científico revolucionário.
Depois de alguns minutos, a tela brilhou em verde.
"VOCÊ ESTÁ 99,9% LIVRE DE PATÓGENOS. BEM-VINDO AO APARTAMENTO 4B."
A tranca eletrônica destravou automaticamente.
Penny saiu do cubículo bufando.
— Por que você fez isso comigo? — perguntou, com a voz chorosa.
Amy se aproximou, solidária.
— Oh, miguxa, fica assim não… — disse, abrindo os braços para abraçá-la.
Sheldon gritou de imediato, a voz carregada de urgência e autoridade.
— NADA DE ABRAÇOS! Ou você quer passar as próximas semanas no Z.E.P.?
Amy congelou no meio do movimento, franzindo o cenho.
— Z.E.P.?
Sheldon apontou para um cubículo de vidro temperado no canto do apartamento.
— Zona de Exclusão Patogênica. — anunciou com orgulho.
Amy estreitou os olhos, analisando a estrutura como se a visse pela primeira vez sob uma nova perspectiva.
— Então esse é o nome dramático que você deu para isso…
Sheldon assentiu satisfeito.
Penny deu um passo instintivo para trás, visivelmente apavorada.
— Eu… eu vou para minha casa.
— Isso! Decisão muito inteligente. — disse Sheldon, batendo palmas animado, como se estivesse parabenizando-a por uma escolha racional.
Enquanto Penny saía apressada, Amy se virou para Sheldon, os olhos faiscando de raiva.
Sheldon tentou desviar o olhar, fingindo-se de desentendido, mas sua expressão inocente não enganava ninguém.
***
Sheldon estava em êxtase. Pela primeira vez em sua vida, o mundo finalmente começava a seguir regras que ele já praticava há anos.
Ele abriu os braços, girando levemente sobre os calcanhares, como se estivesse absorvendo a perfeição do momento.
— Veja, Amy! Agora as pessoas lavam as mãos com a devida frequência, evitam contato físico desnecessário e se afastam umas das outras.
Ele sorriu encantado, os olhos brilhando de emoção.
— Mamãe sempre disse que o paraíso existia, mas eu não acreditava. Agora eu acredito!
Amy, ainda tentando se recuperar da humilhação pública que Penny sofreu no Sistema Cooper de Descontaminação Residencial™, apenas revirou os olhos.
— Sheldon, as pessoas estão sofrendo. Elas não podem sair, não podem ver suas famílias, estão preocupadas com o futuro. Isso não é um paraíso.
Sheldon balançou a cabeça, desdenhoso.
— O sofrimento delas não é culpa minha. Além do mais, agora elas podem salvar o mundo apenas ficando dentro de casa.
Ele ergueu as mãos teatralmente.
— Como pode algo tão simples ser tão difícil para as pessoas comuns?
Amy cruzou os braços, lançando-lhe um olhar cético.
— Você diz isso agora, mas daqui a duas semanas vai estar enlouquecendo por não poder sair de casa.
Sheldon arregalou os olhos, genuinamente ofendido.
— Eu? Enlouquecer?
Ele colocou as mãos nos quadris, indignado.
— Amy, minha casa já era praticamente um bunker antes da pandemia!
Ele fez um gesto amplo para o apartamento, como se estivesse apresentando um forte impenetrável.
— Não há nada que eu precise do mundo exterior.
Amy suspirou profundamente, exausta antes mesmo de tudo começar de verdade.
— Certo, Sheldon. Vamos ver.
***
Uma Semana Depois…
— ISSO É UM INFERNO!
Amy, sentada no sofá, olhou por cima do livro, observando seu marido marchar de um lado para o outro do apartamento como um hamster inquieto em uma gaiola minúscula.
— O que aconteceu com o “paraíso” que você estava vivendo?
Sheldon parou abruptamente, apontando dramaticamente para o calendário pendurado na parede, como se estivesse denunciando uma grande injustiça.
— Ocorreu um problema imprevisto.
Ele se virou teatralmente para Amy, os olhos arregalados em desespero.
— HOJE ERA O DIA DE LANÇAMENTO DAS NOVAS EDIÇÕES NA LOJA DE QUADRINHOS… MAS A LOJA ESTÁ FECHADA!
Amy arqueou uma sobrancelha, completamente impassível.
— Sheldon, você tem estantes lotadas de quadrinhos. Literalmente centenas.
Sheldon abriu os braços, escandalizado com a sugestão absurda.
— MAS NÃO SÃO NOVOS!
Ele gesticulou de forma exagerada, como se estivesse explicando um conceito básico para uma criança.
— O fluxo contínuo de histórias é essencial para minha sanidade! Como posso manter minha rotina de leitura sem um suprimento regular de novas edições?!
Amy respirou fundo, reunindo paciência.
— Já pensou em ler online?
Sheldon congelou, depois virou-se para Amy com uma expressão de puro desgosto, como se ela tivesse sugerido que ele comesse comida do chão.
— Quadrinhos digitais são a antítese da experiência física e tátil que um verdadeiro colecionador exige!
Ele levantou as mãos dramaticamente, como se tentasse invocar os deuses dos gibis.
— Eu preciso sentir o cheiro do papel, o peso da edição em minhas mãos, virar as páginas manualmente!
Amy fechou os olhos e mentalmente contou até três.
— E se você ligasse para o Stuart? Talvez ele tenha alguma solução.
Sheldon parou.
Sheldon piscou.
Sheldon arregalou os olhos, como se uma luz celestial tivesse iluminado sua mente.
Sem dizer mais nada, ele saltou até o telefone e começou a discar furiosamente.
***
Sheldon olhava impacientemente para o relógio, tamborilando os dedos sobre o tablet. Stuart já estava atrasado exatamente 3 minutos e 42 segundos.
Finalmente, um som ecoou pelo apartamento.
TOC, TOC, TOC.
Sheldon apertou um botão no tablet, ativando a câmera de segurança do corredor. Na tela, Stuart apareceu segurando uma sacola.
Sheldon apertou outro botão, ativando o interfone embutido na porta.
— Diga seu nome e motivo da visita.
Do outro lado da linha, Stuart soltou um suspiro longo, já arrependido de estar ali.
— Sheldon, sou eu. Stuart.
Sheldon estreitou os olhos.
— Como posso ter certeza de que você é o Stuart? Você está usando máscara, então só vejo seu rosto parcialmente.
Stuart levou a mão à máscara, prestes a abaixá-la, quando a voz de Sheldon ecoou pelo interfone:
— NÃO FAÇA ISSO!
Stuart congelou.
Um silêncio pesado preencheu o corredor. Stuart respirou fundo, fechando os olhos por um instante.
Ele realmente precisava desse dinheiro. Suas vendas haviam despencado desde o início da pandemia, e agora estava à mercê da paranoia de Sheldon Cooper.
— Eu sou o dono da loja de quadrinhos. Você fez um pedido de edições novas, e eu vim entregar. Agora, posso deixar a sacola, receber o dinheiro e ir embora?
Sheldon analisou a imagem de Stuart no tablet por mais alguns segundos.
— Hmmm… você parece ser Stuart.
— Porque sou eu! — Stuart exclamou, assustando-se com o volume da própria voz.
Sheldon não se convenceu.
— Ainda assim, preciso confirmar se você seguiu todas as exigências que enviei por e-mail.
Stuart bufou alto, fechando os olhos por um segundo antes de recitar as regras como um robô programado para a submissão total.
— Sim, Sheldon. Cada revista foi individualmente embalada em plástico filme, utilizando luvas descartáveis e exposta à luz UV para eliminar qualquer vestígio de patógenos.
Sheldon estreitou os olhos, analisando a expressão de Stuart com desconfiança.
— E você trocou de máscara antes de embalar as revistas?
Stuart hesitou por um segundo.
— Hã… sim?
Sheldon imediatamente ampliou a imagem no tablet, observando Stuart com atenção.
— Você hesitou.
— Eu não hesitei! — Stuart respondeu rápido demais.
Sheldon cruzou os braços, os olhos semicerrados.
— A hesitação sugere mentira. Você sabe que qualquer erro no protocolo pode comprometer toda a minha quarentena.
Do sofá, Amy revirou os olhos.
— Sheldon, só pega logo. Você vai limpar os quadrinhos de qualquer jeito assim que eles entrarem.
Sheldon ignorou Amy e apertou outro botão no tablet.
A porta se abriu com um clique mecânico, e Stuart entrou hesitante, percebendo tarde demais que estava dentro de um cubículo selado.
Sheldon, satisfeito, encarou o tablet em suas mãos.
— Iniciando protocolo de descontaminação.
Stuart ergueu as mãos, alarmado.
— O quê?!
PFFFFFF!
Uma nuvem densa de álcool 70% explodiu sobre Stuart, cobrindo-o dos pés à cabeça. Ele se debateu violentamente, tossindo e abanando as mãos em desespero.
— Acho que não preciso tanto assim desse dinheiro… — murmurou, lamentando suas escolhas de vida.
A voz eletrônica do sistema ecoou pelo cubículo:
"REALIZE SEU TESTE DE COVID-19 PARA CONTINUAR."
Stuart ainda se recuperava do banho químico quando notou que um dispenser embutido na parede liberava um teste rápido de COVID-19.
Ele virou-se para a câmera, os olhos semicerrados.
— Sheldon, isso é sério?!
Sheldon respondeu pelo interfone com a calma de um cientista observando um experimento.
— Totalmente. Agora, realize o teste e aguarde o resultado.
Stuart bufou, pegou o cotonete e fez a coleta de amostra, resmungando algo inaudível. Ele tossia ocasionalmente devido ao excesso de álcool.
Após alguns minutos, a tela do tablet brilhou em verde.
"VOCÊ ESTÁ 99,9% LIVRE DE PATÓGENOS. BEM-VINDO AO APARTAMENTO 4B."
A tranca eletrônica destravou automaticamente.
Mas Sheldon não abriu a porta.
Em vez disso, ativou um pequeno compartimento deslizante na base da porta, por onde a sacola com os quadrinhos foi empurrada para dentro.
Stuart ficou parado, perplexo.
— VOCÊ NEM VAI ABRIR A PORTA?!
Sheldon segurava a sacola com reverência, inspecionando cada embalagem como um arqueólogo analisando artefatos recém-descobertos.
— O risco ainda existe, Stuart. Prefiro manter nossa interação minimamente presencial.
Stuart limpou o rosto molhado de álcool e suspirou profundamente.
Stuart limpou o rosto molhado de álcool e suspirou profundamente.
— E o meu pagamento?
Sheldon apertou outro botão no tablet, e um pequeno compartimento lateral da porta se abriu, revelando um envelope hermeticamente selado.
Stuart pegou o dinheiro e franziu o cenho.
— Por que você selou o envelope?
Sheldon ajustou os óculos com superioridade.
— Porque antes de tocá-lo, ele foi higienizado em uma câmara de descontaminação com luz UV e vapor de peróxido de hidrogênio.
Stuart balançou a cabeça, exausto.
— Ah, ótimo. Então vou… embora, então.
Ele se virou e saiu, sem nem se despedir.
Do outro lado da porta, Sheldon já desembrulhava os quadrinhos com um brilho de felicidade no olhar, folheando as páginas com a devoção de um colecionador examinando uma edição rara.
Amy o observava incrédula.
— Você realmente está feliz agora, não está?
Sheldon suspirou profundamente, segurando um dos quadrinhos como se fosse um artefato sagrado.
— Ah, Amy… foi por isso que lutei tanto.
Amy se jogou no sofá, massageando as têmporas.
— Essa quarentena vai ser longa.
***
Os dias se passaram, e Sheldon assumiu o controle absoluto do apartamento 4B quando o assunto era prevenção contra a COVID-19.
Ele não apenas impôs regras rígidas dentro de casa, como também expandiu sua vigilância para além das paredes do apartamento.
Agora, nada passava despercebido aos olhos atentos de Sheldon Cooper.
Amy já estava acostumada com suas manias, mas desta vez, ele realmente havia se superado.
— Amy, você acredita que Leonard foi ao supermercado... DUAS VEZES NA MESMA SEMANA?!
Amy, que tentava ler um artigo no celular, baixou o aparelho lentamente, respirando fundo.
— Sim, Sheldon. Algumas pessoas precisam comprar comida.
Sheldon arqueou as sobrancelhas, indignado.
— Duas vezes, Amy! Isso duplica a probabilidade de exposição ao vírus! Ele deveria comprar tudo de uma vez e permanecer em casa pelo máximo de tempo possível!
Amy suspirou longamente.
Sheldon continuou seu desabafo sem se importar.
— Isso é falta de planejamento. É óbvio que não fizeram uma lista de compras e esqueceram algo importante.
Amy ergueu os olhos para o teto, reunindo paciência.
Sheldon pegou o tablet da mesa e deslizou os dedos pela tela, bufando.
Amy percebeu o brilho na tela e, por instinto, olhou para o tablet.
Na imagem, estava a cozinha do apartamento em ferente de Leonard e Penny.
Amy franziu o cenho imediatamente.
— O que você está fazendo? — perguntou, desconfiada.
Sheldon não desviou os olhos da tela.
— Apenas checando se Leonard lavou as mãos corretamente antes de entrar em casa.
Amy arregalou os olhos.
— Sheldon… você colocou câmeras no apartamento dos nossos amigos?!
Sheldon franziu a testa, como se a indignação dela fosse irracional.
— Amy, estamos em tempos de pandemia. Monitoramento é essencial para a sobrevivência da sociedade.
Amy cruzou os braços, sem acreditar no que estava ouvindo.
— E como você conseguiu instalar câmeras sem ninguém perceber?
Sheldon sorriu satisfeito, inflando o peito como um inventor orgulhoso de sua obra-prima.
— Ah, Amy… o que seria de mim se eu não tivesse desenvolvido habilidades avançadas ao longo de anos de experimentação doméstica?
Amy revirou os olhos.
— Isso é invasão de privacidade, Sheldon!
Sheldon gesticulou, indignado.
— Privacidade?! Amy, estamos falando de um assunto de saúde pública! Se as pessoas não seguem as regras, alguém precisa fiscalizar!
Amy apontou um dedo para ele, séria.
— Sheldon, se você não parar com esse monitoramento, eu vou avisá-los e você terá que arcar com as consequências.
Sheldon apertou os lábios, claramente contrariado.
Ele baixou os olhos para o tablet, relutante, e soltou um suspiro dramático.
— Tudo bem. — respondeu baixinho, de cara fechada.
Mas, no fundo, Amy sabia que isso não era o fim da paranoia de Sheldon.
***
O celular de Sheldon vibrou sobre a mesa. Ele pegou o aparelho, viu o nome de Leonard na tela e revirou os olhos antes mesmo de atender.
— O que você quer, Leonard?
Do outro lado da linha, Leonard soava exausto e furioso.
— SHELDON, DESLIGA ESSAS CÂMERAS!
Sheldon franziu a testa, fingindo confusão.
— Que câmeras?
— As câmeras que você instalou no meu apartamento!
Sheldon arqueou as sobrancelhas, fingindo indignação.
— E por que, exatamente, você acha que fui eu quem instalou essas câmeras?
Do outro lado da linha, Leonard bufou, incrédulo.
— Porque você é o único lunático que eu conheço capaz de espionar os próprios amigos em plena pandemia!
Sheldon revirou os olhos de maneira teatral, como se estivesse sendo acusado injustamente.
— Oh, Leonard… “Espionar” é um termo tão pejorativo.
Ele fez uma pausa dramática antes de continuar, com o tom de quem acredita estar prestando um serviço inestimável à sociedade.
— Eu prefiro chamar de monitoramento preventivo para o bem-estar comunitário.
— SHELDON, VOCÊ ESTÁ NOS VIGIANDO 24 HORAS POR DIA!
Sheldon soltou um suspiro pesado, como se Leonard estivesse sendo irracional.
— Sim, e devo dizer que estou profundamente decepcionado com seus hábitos de higiene.
Amy virou a cabeça na mesma hora, franzindo a testa.
Leonard gritou do outro lado da linha:
— VOCÊ NÃO TEM O DIREITO DE ME VIGIAR, SHELDON!
Sheldon ignorou a indignação e continuou calmamente:
— Por que você demorou apenas 18 segundos lavando as mãos ontem?
Amy arregalou os olhos e se virou completamente para Sheldon.
— Você cronometrava o tempo que Leonard lavava as mãos?!
Sheldon acenou com a cabeça, como se fosse óbvio.
— É claro. A OMS recomenda pelo menos 20 segundos. Leonard está falhando em sua missão sanitária.
Leonard parecia prestes a explodir do outro lado da linha.
— SHELDON, EU VOU AÍ AGORA RESOLVER ISSO!
Sheldon suspirou dramaticamente.
— Tudo bem, só não esqueça que vai ter que passar pelo Sistema Cooper de Descontaminação Residencial™ antes de entrar.
Do outro lado da linha, Leonard bufou audivelmente e desligou o telefone na cara de Sheldon.
Amy cruzou os braços, lançando um olhar mortal para o marido.
— Sheldon, já havíamos conversado e você disse que pararia de espionar nossos amigos.
Sheldon deu de ombros, completamente despreocupado.
— Você disse para eu parar, mas não disse quando.
Amy apertou os olhos.
Sheldon continuou, impassível:
— Eu vou parar… só que depois de ter certeza de que Leonard e Penny estão cumprindo as recomendações da OMS… e as minhas, que, diga-se de passagem, são mais rígidas e muito mais eficazes.
Amy massageou as têmporas.
***
20 Minutos Depois…
TOC TOC TOC!
— Sheldon. Abra essa porta!
Sheldon abriu a porta apenas o suficiente para que Leonard desse um passo dentro do cubículo antes que a porta se fechasse atrás dele.
PFFFFFF!
Uma nuvem de álcool cobriu Leonard dos pés à cabeça. Ele tossiu, abanando o rosto.
— MAS QUE DROGA, SHELDON?!
— Desinfecção inicial completa. Agora, por favor, pegue seu teste de COVID-19 no dispenser e realize a coleta de amostra.
Leonard olhou ao redor. O cubículo era sufocante, e a única coisa dentro dele era um pequeno tablet com instruções.
— VOCÊ ME PRENDEU AQUI?!
— Você sabia das regras antes de entrar, Leonard. Agora faça o teste e espere o resultado.
Leonard bufou, pegou o teste e passou o cotonete no nariz, entregando ao pequeno scanner embutido. Após dois minutos, o tablet brilhou em verde.
"VOCÊ ESTÁ 99,9% LIVRE DE PATÓGENOS. BEM-VINDO AO APARTAMENTO 4B."
A segunda porta se abriu, e Leonard cambaleou para dentro, irritado.
— Isso foi ridículo.
Sheldon acenou com a cabeça.
— Ridiculamente eficaz, você quis dizer.
Leonard respirou fundo, tentando se acalmar.
— Escuta… Você precisa parar com isso.
— Com o quê?
— Com essas regras malucas, com o monitoramento do prédio, com essa paranoia absurda!
Sheldon cruzou os braços.
— Leonard, eu prefiro chamar de medidas avançadas de contenção pandêmica.
Leonard bufou.
— E como você descobriu as câmeras?
Sheldon franziu a testa, genuinamente curioso.
Leonard soltou um suspiro pesado, já antecipando a reação de Sheldon.
— Não fui eu. Foi a Penny. — murmurou, baixando o tom de voz.
Sheldon estreitou os olhos.
— Penny?
Leonard passou a mão pelo rosto, exausto.
— Sim. Ela foi pegar um livro na estante e viu a câmera acoplada.
Sheldon arregalou os olhos, surpreso.
— Eu devo admitir… subestimei Penny.
Ele balançou a cabeça, impressionado consigo mesmo.
— Eu sabia que você, Leonard, nunca pegaria esse livro. Você não se interessa por Gravidade Quântica em Loop. Mas Penny…
Leonard revirou os olhos, cada vez mais esgotado.
— Ela pensou que tinha visto um rato e pegou o livro para matá-lo.
Sheldon arregalou os olhos ainda mais, assimilando a informação.
Por um instante, ficou em silêncio, processando a cena mentalmente.
Então, assentiu lentamente, como se tudo agora fizesse perfeito sentido.
— Ah! Agora sim.
Amy perdeu a paciência de vez.
— Sheldon, pare com isso agora. Pare de espionar nossos amigos!
Sheldon tentou argumentar.
— Amy! Leonard e Penny não estão cumprindo corretamente as medidas sanitárias. Eu observei falhas graves no comportamento deles!
Leonard cruzou os braços.
— Ah, claro que sim. E quais seriam essas ‘falhas’?
Sheldon pegou o tablet e começou a listar.
— Leonard, você toca no nariz em média nove vezes por hora. Além disso, ontem você coçou o olho direito sem antes higienizar as mãos.
Leonard piscou surpreso.
Sheldon ignorou a indignação dele e continuou:
— Penny, por outro lado, manuseia a máscara de forma incorreta. No dia 14, às 15h23, ela a puxou para o queixo enquanto falava com a senhora que passeia com o cachorro no prédio. Além disso, às 19h42, ela deixou a máscara pendurada em uma das orelhas enquanto atendia o entregador de pizza.
Leonard olhou para Amy, incrédulo.
— VOCÊ ESTÁ CONTANDO OS NOSSOS MOVIMENTOS?!
Amy levantou as mãos, furiosa.
— Sheldon, basta!
Sheldon abriu a boca para argumentar, mas Amy levantou a mão, cortando qualquer tentativa.
— Sem ‘mas’. Você vai pedir desculpas ao Leonard e desligar essas câmeras. Agora.
Sheldon ficou em silêncio por um momento. Ele olhou para Leonard e soltou um longo suspiro, como se estivesse cedendo contra sua vontade.
— Leonard… eu… peço desculpas.
Leonard estreitou os olhos. Sheldon não falaria mais nada, mas Amy lançou-lhe um olhar ameaçador.
Sheldon forçou um sorriso nervoso.
— Eu… fiz algo moralmente duvidoso, e aceito que preciso corrigir isso.
Amy cruzou os braços, impaciente.
— E?
Sheldon soltou outro suspiro dramático.
— Vou desligar as câmeras.
Amy o encarou firme. Sheldon fez bico, mas continuou.
— Agora mesmo.
Amy manteve o olhar fixo nele até que ele pegasse o tablet e começasse a desativar os dispositivos.
Leonard respirou fundo e acenou.
— Ótimo. Isso foi mais difícil do que deveria ser.
Sheldon manteve a expressão neutra.
— Se for de qualquer consolo, Leonard… posso enviar um relatório com todas as falhas sanitárias que você e Penny cometeram, junto com sugestões de melhoria.
Leonard revirou os olhos.
— Boa noite, Sheldon.
Ele saiu e fechou a porta sem olhar para trás.
Amy soltou um suspiro longo, exausta.
— Vou para o quarto. Isso tudo me deu dor de cabeça.
Sheldon apenas assentiu.
Amy se afastou, mas antes de entrar no quarto, parou por um instante e apontou um dedo para ele.
— Sem mais espionagem. Estou de olho em você.
Sheldon sorriu inocentemente.
— Claro, Amy.
Amy não parecia convencida, mas finalmente entrou no quarto e fechou a porta.
O apartamento ficou em silêncio.
Sheldon permaneceu sentado no sofá, com um brilho peculiar nos olhos.
Ele pegou um segundo tablet escondido atrás de uma almofada e o desbloqueou.
Na tela, várias janelas ainda exibiam imagens das câmeras do corredor e de outros ângulos do prédio.
Sheldon sorriu de maneira sutil, quase maquiavélica.
— Ah, Amy… um bom cientista nunca abandona um experimento antes da hora.
Ele tocou na tela, e as gravações continuaram.
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