A Alma
10 Em pedaços
Notas iniciais
Eu me sinta suja, suja de sangue. Sangue humano, o sangue de todos os humanos que nós, as Almas, colonizamos neste planeta, o sangue de Melanie. Olhava para as paredes e sangue escorria delas, o sangue manchava minhas roupas, minha pele, grudava em meus cabelos e impregnava todo o ambiente.
Doía, meu coração doía. A vontade de abrir meu peito e arranca-lo de lá não passava, talvez essa dor compensasse a outra.
Minha cabeça girava. Não consigo organizar meus pensamentos.
Não quero me lembrar.
Só quero dormir, e apago.
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Abro os olhos, a claridade que entra na janela me faz piscar. Olho ao redor e reconheço meu quarto. Minhas paredes azuis-claro, minha penteadeira marrom-escura, meu espelho arredondado, meu tapete dourado, minhas poltronas com estampas florais no canto, minha cama com colcha dourada, meus criados-mudo marrom- escuro, os abajures azuis. Tudo no mesmo lugar, tudo parecia igual, até que as lembranças de ontem voltam a tona.
Um nome ecoa em meus pensamentos.
Melanie.
Mel!
Mel estava morta.
Todos esses anos eu sonhava com o dia em que ela e Jamie voltariam para casa. Para mim. Mas agora tudo está perdido, ela está morta.
Há um buraco em meu coração que jamais será preenchido novamente. Trago minhas pernas em direção ao peito em uma posição fetal, como se isso distraísse o buraco que eu tinha.
Lágrimas escorrem por meu rosto,a dor me consome, nada faz sentido. Melanie não poderia estar morta. Pego o urso que ela e Jamie haviam me dado e me abraço a ele enquanto espero que a dor consuma o corpo que eu hospedava e o pequeno ser que eu sou.
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" Corra, corra " digo para mim mesma. Olho para os lados, as paredes são cor de ferro e há areia no chão, elas não mudam, esse lugar é um labirinto. " Preciso salvá-lo" Me pego pensando mas não entendo esse pensamento.
E então eu o vi. Cabelos castanhos, sentado em posição fetal encostado em uma parede bem no canto. Estava mais alto, mais bonito, mas ele chorava. Meu coração afundou.
– Jamie?!- pergunto.
– Julie — ele levanta o rosto e olha para mim. — Mel está m.. Mor... Morta — ele tentava falar contendo os soluços.
– Eu sei, e sinto muito. — Corro para perto dele e o abraço, querendo que ele para de chorar, tentando conforta-lo. Mas ele tira minhas mãos que envolviam ele. Como se eu estivesse suja. Olho para minha roupa e vejo sangue, sangue nas paredes, no chão, sangue em minhas mãos.
– Por que você fez isso?! Você destruiu tudo que eu amava. — Ele dizia olhando para algo que estava atrás de mim, acompanho seu olhar e fico em choque, corpos humanos mortos, sangrando o sangue que estava em minhas mãos, e em meio ao choque eu compreendo eu os havia matado, eu havia colonizado tantos planetas, tantos corpos, eu que havia organizado a invasão a este planeta. Eu a Alma Primordial. Eu havia começado isso, havia destruído a família de Jamie, tirado a liberdade dos humanos, e de todos os outro seres de outros planetas.
– Jamie, eu sinto muito.
– Não fale comigo! Eu te odeio! — ele disse e olhou para mim, em seus olhos eu via o ódio que ele tinha de mim. Não. Não. Jamie! Não suportaria isso, era demais.
Cai no chão em migalhas, pedaços, havia perdido Melanie. Havia perdido Jamie. Eu perdi tudo.
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Levantei rapidamente, assustada pelo pesadelo que eu havia tido.
– Querida? Esta tudo bem? Como você está? O que houve? — Mamãe apareceu na porta de meu quarto — Você estava gritando!
– Só foi um terrível pesadelo, mamãe — digo e ela vem em minha direção e me abraça.
– Vai ficar tudo bem, querida!
– Não acho, mamãe. Ela está morta!
– Eu sinto muito a falta dela, imagino com Linda deve estar ela perdeu sua filha e seu filho mas ainda tinha esperança que eles voltasse mas agora ela só pode esperar por Jamie — aquele nome me atingiu como uma facada, Jamie deveria me odiar assim como no sonho- eu não sei o que eu faria se perdesse você, sua irmã ou Justin! Seria o meu fim! — ela disse e me abraçou com força.
– Você não vai nos perder, mamãe- eu lhe abraço de volta.
– Esta com fome? Você não come a dias, está trancada aqui a quatro dias.
– Quatro dias? — Então esse inferno só havia durado quatro dias — Não estou com fome.
– Mas você vai comer alguma coisa!
– Amanha no café eu prometo! Quero voltar a dormir. Boa noite — digo me deitando.
– Tudo bem. Boa noite, minha flor. — Mamãe disse e me fez cafuné em minha cabeça até que eu adormecesse.
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Assim que acordei, resolvi que deveria voltar a vida, parecia que eu estava ressuscitando dos mortos. Tomei um bom banho e lavei meus cabelos, escolhi um vestido floral, sapatos baixos e sentei- me em frente a minha penteadeira para arrumar meu cabelo.
Liguei o secador hoje eu me livraria dos cachos.
– Bom Dia, Flor da Noite! — Bia disse colocando-se atrás de mim para escovar a parte de trás de meu cabelo.
– Sol Brilhante, Dia Longo- respondi.
– Como você está?
– Estou um pouco melhor. E você?
– Estou melhorando também. — Encarei o espelho que estava na minha frente e analisei Beatriz, seu cabelo loiro estava preso de forma desajeitada, havia bolsas embaixo de seus olhos e ela ainda estava de pijama. Ela estava péssima, sofrendo assim como eu, sofrendo pela perda da melhor amiga, irmã e vizinha. Sofrendo por Melanie. — Sabe de uma coisa, Julie, acho que a morte dela foi boa até, pois estávamos vivendo em uma ilusão assim que Melanie voltasse ela não seria mais a Mel que conhecíamos.
– Você esta certa. Bia?
– Sim.
– Você acha que colonizar esse planeta foi um erro?
– Não! Mas é claro que não! Fizemos a coisa certa, eles iriam destruir esse belo planeta.
– É verdade.
– Vamos mudar de assunto! Você irá fazer 16 anos daqui a alguns meses porque não fazemos uma festa?
– Não sei. Não estou no clima.
– Por isso mesmo! Vamos alegrar essa casa.
– Tudo bem, mas não sei nem como começar.
– Eu sei! Vai ser perfeito. — ela diz e me abraça por trás. — Eu te amo e não importa o que aconteça sempre estarei aqui.
– Eu também te amo, estaremos sempre juntas!
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" Trim, Trim, Trim "
Meu telefone tocava. Peguei-o e olhei o atendi.
– Alô? — eu disse.
– Julie! — escutei a voz conhecida de Pet.
– Olá Pet! Como você está?
– Estou ótima e você?
– Bem.
– Bom como você sabe minha festa de 16 anos está chegando.
– Eu vi, recebi seu convite pelo correio, eu irei.
– Aí que ótimo! Então eu estou te ligando para convidar você para ser a minha dama de companhia na festa. O que você acha?
– Iria ser ótimo, mas só com uma condição!
– Qual?
– Você tem que ser a dama de companhia da minha festa.
– Mas é claro que eu serei. Flor tenho que desligar, te vejo próxima semana. Tchau, Beijos.
– Adeus — eu digo antes que o telefone fique mudo.
Eu seria a dama de companhia do aniversário de Pet, da mesma forma que Bia queria que Mel fosse. Você sempre convida sua amiga mais especial para ser sua dama de companhia. Pet seria a minha.
– Quem era? — Mamãe perguntou aparecendo na porta de meu quarto.
– Pet perguntando se por acaso eu não gostaria de ser a dama de companhia da festa dela.
– E você aceitou?
– Só com uma condição.
– Qual?
– Que ela seja a da minha.
– Que ótimo! Já é um começo, adorei saber que você resolveu fazer a festa. Já sei que cor será!
– Azul — dissemos juntas.
– Vai ser muito bom! — ela disse e nos abraçamos.
Talvez a morte de Melanie tenha trazido algo de bom, eu e mamãe nunca fomos tão próximas, ela sempre preferirá Bia, e sempre me tratava como se eu tivesse que ser uma cópia de Bia. Agora eu sentia que ela me aceitava e me amava como eu era.
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