A 36ª Divisão
1 Capítulo Único
Notas iniciais
— Sakura! – Tenten chegou até a porta da pequena varanda e parou em frente à mulher de longos cabelos ruivos de tom claro, tão claro que chegava a ser chamado de rosa. A morena tinha urgência em falar algo, seus pulmões queimavam pela corrida. Sua boca se mexia, mas sua voz apenas sussurrava. Sakura já havia entendido parcialmente sua urgência. Tenten lhe estendeu um papel retangular branco.
— Quem mandou isso? – A ruiva temia. Sabia quem morava perto de Tenten.
— Sua mãe. – Aos poucos recuperava o ar, seus olhos começavam a lacrimejar. O semblante de Sakura se esfriou, sabia o que estava acontecendo, sentimento era a última coisa que precisaria nesse curto espaço de tempo que tinha.
— Vá Tenten. – A morena continuou parada. – Vá, Tenten!
Como num susto, a morena voltou a correr pelo caminho de volta com o mesmo pique que havia chegado.
Sakura entrou em casa com rapidez, não teria tempo. Desdobrou o papel e seus olhos começaram a passar por cada palavra com atenção, não teria tempo para releitura.
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“ Senhora Uchiha,
A trato por seu nome de casada, a trato como uma mulher, uma mãe e esposa, que assim como eu, vai colocar sua família em primeiro lugar. Não a trato como minha Sakura, porque tudo que eu faria seria implorar para que pegue Sasuke e Sarada e fuja, mas sei que não há saída para nós, judeus, mas Sasuke e Sarada não terão problemas (maldito sangue abençoado). É nesse momento que toda cautela que tomamos não se mostra em vão...”
Sakura puxava uma caixa grande de madeira frágil, cheia de roupas, fotos, cartas e documentos.
“... Faça aquilo que planejamos há tempos, faça a razão pela qual acendemos tantas velas e tantas vezes colocamos nossos joelhos no chão para que não acontecesse. Apagaremos as provas formais de nossa existência. Nossos rostos foram marcados por eles, assim como nossas roupas...”
Levou todo o conteúdo para a área de trás da casa, nevava e o chão estava escorregadio. Seus pés, descalços, vez ou outra deslizavam, mas conseguia manter o equilíbrio até chegar numa fornalha que usava para tentar fazer alguns itens de cerâmica, nunca mais iria poder tenta-los novamente...
“...Imploro para que não olhe as fotos, nem cartas, apenas os queime. Javé se encarregará de manter essas lembranças vivas. Seja fria como eles são com nossa gente...”
Jogava roupas, fotos e cartas na fornalha, que já tinha fogo alto. Seu nariz e pulmão ardiam pelo cheiro de fumaça.
“...Não deixe nenhum sinal do que foi queimado...”
Após se livrar de tudo que tinha, voltou para dentro, colocou alguns livros velhos sem importância dentro da caixa e a colocou em um canto, pegou suas chaves e saiu o mais rápido que pode assim que trancou a porta, após correr alguns metros em meio a um mato rasteiro e algumas árvores, separou as chaves uma a uma, e as jogou aleatoriamente pelos lados, sem deixar de correr.
“... e volte ao seu lar de origem, estarei te esperando.”
Ao chegar, sua mãe já a esperava na porta, não haviam expressões em seus rostos, estavam suaves, se mantinham com a mente em branco, como em modo automático.
— Entre... – A mulher mais velha deu passagem à sua filha e deixou a porta encostada enquanto adentravam.
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— O Reich deve ter enlouquecido! – Sasuke suspirou, estava cansado de dizer ao homem caucasiano ao seu lado para tomar cuidado, ainda mais pelo mesmo ser incapaz de controlar o volume de sua voz. – Dirlewanger!?? Logo Dirlewanger!? Um doente! Alcoólatra drogado! Depois de tudo o que ele fez! Sabe o que ele fez, Uchiha?
Sasuke esticou a frente da farda e continuou a andar mantendo a postura imponente, enquanto Naruto praticamente puxava os cabelos e o encarava. Suspirou de novo.
— Uzuma...
— ESSE CARA MONTOU UM BATALHÃO COM ASSASSINOS, ESTUPRADORES, LADRÕES! COMO O REIC... — Sasuke o puxou pela gola.
— É a última vez que lhe aviso; abaixe o a voz ao falar do Reich e, de preferência, silencie-se ao criticá-lo. Também não sou o cara mais familiarizado com Adolf, mas sabe bem o que acontece com traidores. – o soltou e voltou a andar- E sobre Dirlewanger, esse cara não me importa, o batalhão não deve possuir conhecimento em batalha, logo morrem.
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— ... Mebuki deixou Sarada comigo junto com uma carta explicativa, já a queimei. Disse que Sakura já estaria voltando pra casa e que não haveria muito tempo, que você já saberia o que estaria acontecendo. – Sentiu um frio na espinha, suas pernas não obedeciam o comando de ir até a fornalha.
— Faz muito tempo?
— Ino chegou em minha casa cerca de uma hora depois, estava em prantos, céus, como chorava. Disse que passou pela casa de Mebuki, eram três dos homens de Dirlewanger, estavam levando-a até o carro, tem quase certeza de que Sakura já havia sido posta dentro. – terminou quase em um sussurro. Sasuke continuava encarando a caixa de madeira com livros mal colocados. – Se precisar de algo, não hesite bater em nossa porta, Sarada precisará de apoio.
Hinata colocou uma Sarada sonolenta no centro da cama do quarto, a cobriu com delicadeza.
— Sasuke... – Naruto levantou a mão na direção do ombro do amigo que continuava em pé. Desistiu ao ouvir Hinata suspirar encarando-o e a seguiu em direção à saída. O quarto ficou silencioso, até que ouviu-se um mexer de lençóis na cama e um leve ressonar.
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— Me perguntou se eu sabia sobre Dirlewanger... – Sasuke quebrou o silêncio de horas que, surpreendentemente, Naruto soube respeitar.
— Sasuke...
— Me diga o que sabe.
— Ele era combatente... – Falou baixo- ... Depois que voltou louco foi diagnosticado com problemas psiquiátricos. Um alcoólatra e viciado. Foi expulso e preso depois de estuprar uma garota de quatorze anos. Se alistou na Waffen-SS, os idiotas viram potencial nos surtos dele e promoveram o bastardo, agora ele tem um batalhão formado por bastardos iguais a ele. O Reich liberou para serem a divisão 36, os chamou de SS-Sturmbrigade Dirlewanger. Você já deve imaginar o que esses idiotas fazem... Sasuke, você não planeja resgatá-la não é? –silêncio, Sasuke se levantou. – Sasuke! – Naruto levantou a voz, porém o moreno ignorou e começou a andar. Naruto se apressou e o puxou pelo braço – Sakura e a família dela fizeram de tudo pra encobrir o sangue judeu que corre na Sarada. Sabe que se for atrás vai pôr tudo a perder! Se você for, vão levar Sarada e vão colocar justamente a 36ª divisão pra te fuzilar! – Naruto encarou Sasuke que se mantinha imóvel com o olhar vazio para frente. — Eu sinto muito, cara, mas Sakura já pode ser considerada morta. Não deixe Sarada perder o pai e a própria vida. Saia dessa merda sem levantar suspeitas e vá embora com ela. – Naruto se afastou, mas ainda não tinha certeza se havia conseguido convencê-lo, Sasuke voltou a andar com o mesmo olhar sem expressão.
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Sakura foi separada de Mebuki. Quando a tiraram do carro, pôde ver pela janela um trecho de grama, talvez devesse ser verde, uma instalação amarelada com um tento amarronzado, pode ver grades com “Arbeit macht frei” (o trabalho liberta). Disseram para sua mãe descer e ela obedeceu, mantendo a frieza, estava dando o exemplo à sua filha. E ela desceu, sem derramar uma lágrima, sem olhar pra trás nem se despedir.
Enquanto os homens conversavam dentro do carro, sentia o corpo dar leves sacudidas pela estrada, tentava se lembrar o nome daquele lugar, havia visto uma vez, nos filmes nazistas que mostravam os planos futuros, prisioneiros em prisões humanizadas.
— Ela me lembra uma garota, Oscar devia vê-la. – ouviu a frase solta enquanto tentava se lembrar... Ah sim, era Dachau.
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Sakura foi levada até Oscar Dirlewanger, o homem no carro tinha razão. Oscar (um homem magro, com olhos fundos e caídos, um bigode ralo e cabeça em formato esquisito), realmente a achou parecida com a tal garota. Sakura temeu, desejava ser morta o mais rápido possível ou, ao menos, ser colocada em um campo como sua mãe, mas seguiu seu exemplo e não deixou transparecer seu medo. Um quarto homem, de quepe preto com um totenkopf (um crânio, insígnia da SS) entrou alertando-o que havia um homem mandado pelo próprio Reich para mandar um recado. Dirlewanger mandou que os outros três entrassem numa segunda porta para que os deixassem a sós.
— ...causam muitos problemas... São indisciplinados em demasia... não serão mais tolerados, trago a ordem do próprio Reich, toda a divisão deve ir para a Bielorrússia... Não aceitarei mais ser interrompido pelo senhor! Ou leve a 36ª divisão para Bielorrússia, ou serão todos presos novamente! – ouviu-se o som da porta se fechar.
— ... O que faremos com a mulher, senhor?
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Sakura foi levada junto com a divisão, para seu alívio, não foi mantida perto de Dirlewanger. Ouviu, por noites e noites, soldados contando seus roubos e estupros, os ouviu compartilhar uns com os outros sobre seus feitos, até que um levantou-se e contou com sorriso sua brilhante ideia de incendiar hospitais, e sobre como seria engraçado ver os enfermos tentarem escapar. Um homem chegou até a área que os homens de Dirlewanger estavam (um campo aberto, cercavam uma fogueira que estalava baixinho), ele contou que Adolf soube da mulher ruiva que estavam com eles, disse que não queria distrações, deveriam deixa-la no campo de Buchenwald.
— Oscar não vai gostar de saber disso, Ilse não vai sossegar.
Já havia ouvido aquele nome... Ilse... Ilse... Ilse...
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Entrar no carro novamente a fez lembrar de sua mãe, mas não queria pensar nela, mudou o rumo de seus pensamentos para a paisagem através das grades, anoitecia e pouco dava pra ver pelas vistas cansadas, piscou os olhos e já amanhecia, a grama, verde, ficava azulada com o nascer do sol sob o céu fechado.
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A ajudaram a descer e conduziram para dentro do campo, era diferente do que tinha assistido, era cinza (apesar de saber que a entrada era uma construção marrom e bege), fedia, a madeira sempre era rachada, murmúrios quase silenciosos, era fúnebre, como num enterro, sempre era funeral. De tempos em tempos a chaminé soltava uma fumaça preta. Todos os dias mulheres sumiam, sempre as mais bonitas e jovens, homens tatuados também sumiam, estes não tinham faixa etária definida.
A neve começou a cair mais cedo naquele ano, ou talvez estivesse longe demais de casa e a rotina não se aplicasse. Fora chamada, assim como as outras foram, então ela se encaixava naquele padrão. Ela passou pelo mesmo procedimento que as outras haviam passado. Tiraram-lhe as roupas, olharam seus dentes, unhas, cabelo, pupilas, a mandaram seguir numa fila, está sem padrão, com homens e mulheres, alturas aleatórias, idades aleatórias. Andaram para fora da cobertura, seus corpos começavam a tremer, seus pelos se eriçaram. Seus olhos se incomodaram com o reflexo branco da neve. “Aquela! Algema e leva”. Foi retirada da fila, colocaram algemas geladas e a conduziram em direção à neve. Seus pés afundavam no gelo, seus ossos tremiam, seus dentes batiam por mais que tentasse segurar. “Vamos logo, antes que seus pés congelem”. Andou por dezenas de metros, passou por entre algumas árvores, e pararam em uma área mais aberta, havia um banco, uma mesa pequena fixa ao chão e um tonel com água congelada. Foi deixada sozinha, também não teve muito tempo pra pensar, uma mulher ruiva apareceu, andou rápido até ela, carregava uma manta, grossa e pesada, a mulher a envolveu, passava rapidamente a mão por cima da manta tentando aquecê-la. Sakura a olhava neutra, mas sua mente não processava o fato de alguém tentar ser bondoso com uma judia, não alguém de farda. Logo chegou mais três homens, um carregava uma bolsa, outro um martelo.
— Não precisavam tê-la deixado nua, não quero que ela congele... Vamos, vamos, quebre isso! O que espera!? – Um dos homens, que estava com o martelo, quebrou o gelo superficial da água e a maior parte que estava líquida pôde ser vista. A mulher a guiou até o tonel. Um dos homens pegou lhe as mãos e mergulhou-as na água gélida.
— Tudo não! Apenas os dedos, imbecil! – O homem tirou suas mãos dá agua e as mergulhou novamente, mas apenas os dedos, e repetiu diversas vezes. Negava a todo custo que sentia dor, não daria esse gosto, até porque, não sentia mais, estavam azulados, não conseguia mais mexê-los, não importava a quantidade de força que fizesse.
— Acho que já chega. – a mulher a encarava com os olhos estreitados. Talvez esperava ouvi-la implorar, gritar ou no mínimo chorar, mas Sakura já havia deixado de olhar para os próprios dedos e encarava a mulher de modo neutro. – Já que esse olhar não se quebra, talvez eu deva quebrar outras coisas, quero a marreta. – Sinalizou com os dedos, andou até a mesa, um dos homens colocou a bolsa por cima e a mexeu, encontrando o objeto.
— Aqui está, Senhora Koch. – Ah sim! Ilse Koch, já havia ouvido falar dela, mas não se lembrava o quê.
Ilse mandou que colocasse as mãos sob a mesa. E com o martelo em cima da segunda falange do dedo anelar direito, golpeou-o de uma vez. Ouviu o barulho de seu dedo se quebrar, mas não gritou, não havia sensibilidade, mas Ilse parecia não compreender, seus olhos transmitiam raiva. Como se fosse uma brincadeira, a mais sádica das brincadeiras. Ilse passou o martelo dedo à dedo, parando na base do polegar, a olhava nos olhos e depois golpeou novamente. Um baque mais fechado e seu polegar jazia em um formato estranho. Ilse chamou um dos homens fardados, mandou-o que lhe cortasse os longos cabelos rosados.
— Eu soube que Dirlewanger a escolheu pra acompanha-lo, mas sabe, estou fazendo apenas uma brincadeira – ouvia a lâmina da tesoura se abrir e fechar- apenas uma pequena brincadeirinha de amigos de trabalho. Vou estragar seu brinquedinho – sentia um leve roçar nas costas e escorregar até o chão. — ver a cara velha dele surpresa será hilário, tenho certeza que ele voltará para busca-la.
Ilse começou a rir, antes uma risada tímida, que evoluiu pra gargalhadas, um sorriso enorme estampado, enquanto escolhia qual dedo da mão esquerda começaria.
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Estava vestida com uma roupa desbotada, com as mãos enfaixadas, doidas e inflamadas quando um dos homens de Dirlewanger chegou. Ilse mostrou-se insatisfeita por Oscar não ter ido pessoalmente. Primeiro mostrou-se insatisfeita como um amigo que não à visita por anos, depois, como numa bipolaridade, mostrou-se irritada e agressiva, como se tivesse se segurado pra não fazer coisas piores apenas para ser cortês. Foi convencida de que Dirlewanger estava ocupado o suficiente pra não buscar seu mais esperado brinquedo novo. Sakura foi colocada no carro novamente, que a conduziu de volta para os braços da 36ª divisão.
Ao chegar, Dirlewanger estava no acampamento improvisado (numa área aberta bem parecida com a que ela havia saído), ele estava sentado com as costas arcadas, tinha um cantil prata arranhado e aberto na mão direita, seus olhos estavam mais cansados do que se lembrava, a boca aberta meio torta, olhava pro chão, lembrava as histórias dos homens sem almas que havia lido algumas vezes. Um brilho ao longe, quase ofuscado pela luz fraca do dia (talvez só tivesse percebido pelo tempo nublado), lhe chamou a atenção, a havia lhe chamado de volta a realidade, uma guerra estava acontecendo, sua raça perdia, sua gente estava morrendo a cada segundo, em Buchenwald devia ter amanhecido tanto quanto ali, Ilse deveria estar terminando seu dejejum animada para mais um dia de tortura. Lhe foi oferecido algumas das comidas de gosto amargo, ela recusou educadamente. Oscar não havia se interessado nela, o que foi boa coisa.
À noite, Dirlewanger a procurou, tentou arrastá-la para o mato que aumentava de tamanho conforme adentrava. Porém, mesmo Sakura não oferecendo resistência, o velho estava cansado, aparentava estar bêbado, murmurava coisas incompreensíveis, logo desistiu e murmurou gesticulando para que voltasse a onde estava anteriormente.
Ao cair da madrugada, acordou com uma movimentação esquisita. Os homens guardavam as coisas rapidamente, o fogo já estava apagado, a iluminação era fraca. A colocaram no carro e todos seguiram em direção onde havia visto os clarões mais cedo.
Chegaram ao ponto de conflito na Bielorrússia, seguiram pelas trincheiras, havia muitos homens fardados e magros demais, apesar de todo o barulho que a guerra poderia oferecer, ecoava em seus ouvidos a respiração pesada e difícil dos combatentes, muitos estavam doentes, suas feridas abertas, inflamadas, mal enfaixadas, alguns era visível a carne esverdeada, eles apodreciam antes mesmo de morrer. Explosões ocorriam sem intervalos e irregularmente, gritos de ordem eram ouvidos, vez ou outra ouvia um outro idioma, enfermeiros tentavam socorrer os feridos para que esses voltassem a lutar, se locomoviam pelas trincheiras com dificuldade, muitas vezes não dava tempo de socorrer. Os tiros disparados pelo lado oposto acertavam o chão perto de onde estava, pedaços da terra caiam sobre ela, um pedaço maior havia caído em seu braço, sujando-a de sangue, só então olhou pra cima e viu um braço branco, sujo de terra, desfalecido. Havia corpos pelo chão. Ouviu alguém gritar que as tropas inimigas estavam avançando pelas “Terras de ninguém”, muitos começaram a correr como ratos em direção a passagem para a outra trincheira pisando sobre os corpos e os mais enfermos. Alguns sabiam que não haveria tempo e escalaram até a superfície e corriam para pular para a outra trincheira. Sakura se juntou a estes, muitos homens estavam a sua frente e outros atrás, até que alguns começaram a cair, tentou correr mais rápido, a trincheira parecia nunca chegar, mas 2 homens atrás de si caíram a derrubando junto, a fraqueza também a derrubou e perdeu a consciência.
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Acordou com um som esquisito, um pouco familiar. Ouvia estalos, algo quebrando e se afundando na lama da chamada Terra de ninguém, ouviu trovoadas ao longe, estava escuro como numa tarde chuvosa, a primeira coisa que viu foi o tempo; nublado, nuvens escuras, quase negras, os raios de sol que conseguiam passar iluminavam trechos do chão como uma lanterna. Olhou à sua direita e observou um tanque de guerra das tropas inimigas passar, havia vários pelo horizonte, era dele que vinha o som, passava por cima dos corpos para que não houvesse sobreviventes, os estalos eram dos ossos quebrando e se afundando sobre a terra. Ouviu um homem em sua frente suspirar, mal abria os olhos, ele devia ser, no mínimo, 10 anos mais novo que ela. Ele também assistiu à cena, chorou o máximo que seu corpo perfurado e fraturado permitia; apenas um escorrer de lágrimas. Sakura esticou uma mão, suja de lama, até os cabelos do rapaz, lhe fazendo um leve carinho.
— Não se preocupe, um dia... Um dia ganharemos – disse antes de olhar para o horizonte, sua respiração falhou, os olhos verdes opacos se abriram o quanto puderam, um tanque se aproximava.
— Não... Estamos sozinhos... De nós eles ganharam.
Notas finais
não deixem de comentar.
Beijinhos!
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