A última Malfoy
12 O baile de inverno
Malfoy acordou e a primeira coisa que viu foi a caixinha cor de rosa em sua cabeceira, sorriu e revirou-se na cama lembrando de dois dias atrás. Continuava achando Matt Wood um idiota, mas não pode negar que ele se esforçou para convidá-la para o baile e ela adorou tudo. Logo o rosto de Tom bloqueou sua visão enquanto ele se ajoelhava ao pé da cama.
— Bom dia Malfoy. – Disse com um sorriso torto.
— Bom dia Riddle.
— Preparada para o baile?
— Não é nada demais. – Disse ela enquanto se levantava.
— Esse “nada demais” está tirando o seu foco. Já foi atrás do próximo objeto?
— A escola está cheia de Aurores depois que encontraram Marcus, preciso dar um tempo para não levantar suspeitas. Mas estou sempre focada. – Se defendeu a loira.
— Espero que Matt Wood não te desconcentre. — Disse ele revirando os olhos enquanto olhava para a caixinha cor de rosa.
Era impressão ou Tom demonstrava ciúmes? Ágata estava cada vez mais confusa com ele, e por esse motivo fazia alguns dias que não se falavam. Precisava colocar sua cabeça em coisas mais reais por um tempo e acabar com aquela paixonite por um garoto que não passava de uma memória fixada em um diário.
— Matt Wood continua sendo um babaca, o fato de irmos juntos a esse baile não significa nada. Tenho coisas mais importantes para pensar do que em um baile estudantil. – Explicou ela, tentando amenizar a situação.
— Falando sozinha de novo Malfoy? – Questionou Darla enquanto saía do banheiro.
— Estava pensando alto. – Disfarçou a outra.
— Se apresse porque precisamos descer para o café da manhã e depois encontrar as gêmeas.
— Com certeza querem falar sobre vestidos. – Disse Ágata em um tom de censura.
— Querem se certificar de que não correremos o risco de irmos vestidas iguais. — Confirmou Darla.
— Vamos lá então, mais uma vez passar pela loucura pré- baile de todos os anos.
Mais tarde ambas chegavam ao Salão Principal, e ao longe puderam ver Alex e Matt guardando um lugar na mesa da Sonserina. Se aproximaram e sentaram-se em frente aos garotos. Darla debruçou-se sobre a grande mesa tentando cumprimentar o namorado com um beijo rápido e quase virou uma jarra de suco de abóbora. Matt apenas deu uma piscadela para Malfoy que respondeu com um sorrisinho.
— Olha, Ágata de bom humor pela manhã, será que meu convite para o baile fez milagres? – Provocou ele.
— Cale a boca Matt. – Respondeu enquanto jogava uma torrada no garoto que a agarrou no ar.
— E então, vão encontrar as gêmeas no pátio para discutir os vestidos? – Perguntou Alex que já conhecia o ritual anual das duas malucas.
— E temos alguma escolha? – Disse Darla desanimada.
— Elas acabaram de sair. – Informou Matt.- A pobre da Lizzie não conseguiu comer nada porque a irmã não deixou.
—Melhor irmos senão as próximas vítimas da louca da Rosie seremos nós. – Disse Darla enquanto saía sendo seguida pela amiga que pegou uma maçã para comer no caminho.
— Até a noite garotos. – Se despediu.
— Quer que te espere na sala comunal? — Questionou Matt.
— Não, eu te encontro no salão.- Respondeu a loira.
Ela até podia ter aceitado ir acompanhada aquele ano, mas não significava que seguiria todas as tradições antiquadas do evento, não queria o seu par apressando-a. Praticamente correu com Darla até o pátio onde as gêmeas as esperavam.
— Finalmente. – Disse Rosie ansiosa. – Este é vestido que eu vou usar, marquem bem. – Disse enfiando o catálogo na cara de Darla.
Um vestido cor de rosa, tomara que caia. Bonito, porém muito rodado, a saia era enorme.
— Quero ver como vai conseguir andar pelo salão lotado com esse vestido gigante. – Disse Malfoy.
— Patrick vai dar um jeito. – Respondeu ela orgulhosa.
— Finalmente encontrou um par.
— Sim, Patrick é amigo de Benji da Grifinória.
— Que bonitinhas os dois melhores amigos com as gêmeas. – Disse Darla rindo.
— Não vejo graça nenhuma, pelo menos conseguimos ir com os mais populares e bonitos. Já que o mais lindo da Sonserina não convidou nenhuma de nós partimos para a Grifinória. – Disse Lizzie.
— Aliás, com quem Matt vai, vocês sabem? – Questionou Rosie. — Ouvi dizer que ele fez um convite e tanto para uma garota na sala comunal da Sonserina.
Darla abriu a boca para falar, mas Malfoy a interrompeu:
— Não tenho nem idéia.
Darla olhou para Malfoy questionando-a com o olhar e a menina apenas colocou o indicador sobre os lábios pedindo que a mesma não falasse nada a respeito.
— E então Ágata, estou louca para saber que vestido você vai usar. – Disse Lizzie animada.
— Ainda não sei e não acho que é relevante, na hora do baile vocês verão.
Era mentira, depois que Darla dormiu ela se levantou e provou vários vestidos que tinham chego para ela um dia antes enviados por sua mãe. É claro que ela não admitiria que estava um pouquinho animada com o baile.
— Eu hein! Vocês nem ligam para o melhor evento do ano.
— Como será que estará a decoração? – Disse Darla mudando de assunto, sabendo que falar sobre roupas irritava a amiga.
— Ouvi dizer que Medeia se superou. – Comentou Ágata.
— Eu dei uma espiadinha e parece que estão montando até um labirinto de gelo temático. – Disse Lizzie.
— Isso vai ser ótimo, porque com tantos aurores e professores circulando por aí teremos poucos lugares para dar uns amassos. — Comentou Rosie.
— Vocês só pensam nisso? – Censurou a loira.
— Todos sabem que o baile é quando todo mundo se solta e cria coragem para fazer coisas que normalmente não fariam. Eu saio com um namorado desse baile ou não me chamo Elisabeth Sophia Parkinson.
— Eu não preciso de um baile porque já tenho o Alex, então iremos sem pressão e vamos nos divertir muito. – Disse Darla com o risinho bobo e apaixonada que vinha mantendo nos últimos dias.
Depois de todas confirmarem que ninguém iria se vestir igual a Rosie, elas passaram o resto do dia se aprontando e se preparando para o evento. Mal tiveram tempo de ver os meninos. Passaram a maior parte do dia em seus quartos, inclusive Ágata que ficou o tempo todo deitada em sua cama enquanto Darla corria sem parar pelo quarto.
— Você vai se atrasar. – Disse Darla que já estava pronta, olhando a amiga ainda de robe jogada sobre a cama..
— Pode descer, eu encontro vocês lá.- Respondeu a outra.
Darla saiu do quarto e desceu apressada. Malfoy sentou-se em frente a um espelho e olhou-se de uma forma que a muito tempo não fazia. Observou as maçãs do seu rosto proeminentes, os lábios rosados pela maquiagem, e os olhos cobertos de sombra preta. Porte altivo e postura impecável, realmente ela havia mudado muito desde o início daquele ano. A maior mudança ela podia sentir dentro de si: uma escuridão que começava a tomar conta e endurecer e esfriar ainda mais seu coração. Principalmente depois que sacrificou a alma de Marcus Skeeter. A cada passo que dava em direção ao seu objetivo seu interior se enegrecia cada vez mais. A única chama que ainda brilhava pequenininha bem no fundo era o sentimento que nutria por Tom. Ela sabia que não podia ser algo real, tinha que apagar aquilo e seguir adiante.
Levantou e se vestiu. Um vestido branco, de alças finas, levemente rodado que lhe dava um ar delicado e forte ao mesmo tempo. Deu uma última batida na ponta dos cabelos que caíam em cachos platinados por seus ombros.
— Está linda. – Tom se materializou atrás dela.
— Obrigada. – Agradeceu corando levemente.
—É uma pena que eu não possa acompanha-la. Matt tem muita sorte de tê-la como par.
— Sabe que eu escolheria você sem pestanejar se isso fosse possível. – Disse ela sorrindo carinhosa.
— Só tome cuidado, tem muitos Aurores pela escola e é fácil perder a noção quando estamos nos divertindo.
— Não se preocupe, sei quais são as prioridades.
— Me desculpe mas preciso fazer isso.
Ele se aproximou, segurou em sua mão e chegou mais perto. Malfoy sabia o que ele estava prestes a fazer e paralisou sem saber se ia em frente ou interrompia. A coisa mais sensata a se fazer era ir embora, mas não conseguia se mover. Se sentia presa naqueles olhos profundamente negros. Ele estava tão perto que ela podia prever a sensação do seu toque. Antes que houvesse tempo de desistir ela avançou e o beijou. Foi um beijo cálido e leve, apenas um encostar de lábios pois ela não sabia o que esperar. A sensação foi boa, porém diferente, ela não conseguiria explicar completamente. Pode sentir seus lábios nos dela, pode tocá-lo, mas não completamente, tudo tinha que ser muito suave. Era como se ele pudesse se desfazer em fumaça a qualquer momento caso ela aprofundasse mais o beijo ou tentasse abraça-lo mais forte. O tempo todo ela não conseguiu esquecer de que ele não estava verdadeiramente ali.
— Você está atrasada. – Disse ele depois de interromper o beijo.
Aturdida com o que havia acabado de acontecer ela saiu do quarto. Foi um beijo diferente de tudo o que ela já havia experimentado. Sentia no peito um aperto de quem fez algo que não deveria. O que estava pensando? Ele não era real, e nem pode beijá-lo direito por isso. Como seria se realmente levasse aquilo tudo a diante, como amaria e viveria com alguém que ela mal podia tocar? Ela precisava reorganizar seus sentimentos e deixar de lado qualquer coisa que sentisse por Tom. Aquilo não era certo e não era real.
Passou pela sala comunal e pelos corredores. Todos os lugares estavam vazios pois todos já deviam estar no baile. O barulho de seu salto alto ecoava pelo corredor. Escutou algo atrás de si, virou-se abruptamente, mas não havia ninguém. Devia ser pirraça tentando emboscar algum aluno em suas pegadinhas. Apressou o passo e ao longe já pode ouvir a música vinda do Salão Principal. Chegou até as escadas e se deparou com o salão ricamente decorado. Flocos de neves caíam magicamente do teto e se desfaziam antes de chegar ao chão, estalactites que pareciam cristais azul pendiam aqui e ali, e no meio do salão vários alunos já dançavam animados.
Parou no topo da escada, tirou sua capa e entregou para um elfo que aguardava ao lado. Do alto pode ver as gêmeas que deixaram seus pares de lado e aparentemente discutiam. Usavam vestidos iguais e Ágata presumiu que esse deveria ser o motivo. Depois de todo o cuidado que Rosie teve, a própria irmã devia ter se confundido e usado o mesmo modelo e cor.
Em um canto, Darla e Alex estavam sentados conversando intimamente bem de pertinho, pareciam muito apaixonados. E por fim ao pé da escada estava Matt, nervoso aguardando. Quando viu a menina, por um momento ele sentiu seu queixo cair. Ela estava linda, toda de branco, com os cabelos prateados caindo em ondas perfeitas pelos ombros. Em seu rosto uma maquiagem leve, com destaque apenas nos olhos que com uma sombra preta aumentava seu olhar. Parecia uma Veela, um anjo. Quem a via assim nem imaginava o quantas perversidades aquele rostinho meigo já cometera, e aquilo era o que Matt mais gostava na menina.
Ela desceu as escadas em direção ao garoto que continuava a olha-la de boca aberta.
— Feche essa boca Wood, está parecendo idiota. – Disse ela quando parou de frente para ele.
Percebendo que estava mesmo fazendo papel de bobo ele se recompôs.
— Sai dessa Malfoy, você se acha demais. – Disfarçou.
— Se é assim, fique sozinho então. – Disse ela começando a se afastar.
— Espera. – Ele segurou sua mão com delicadeza, fazendo-a parar. — Vamos dar uma trégua está noite.
— Tudo bem, acho que podemos passar algumas horas sem trocar farpas.
— Você está linda.
— Você também não está mal. – Disse ela com indiferença.
Na verdade, ele estava lindo com suas vestes de gala e gravata borboleta. Juntos cruzaram o salão e a menina percebeu que ainda estavam de mãos dadas. Passaram pelas gêmeas que logo pararam de brigar e fitaram os dois dos pés à cabeça.
— Malfoy, você disse que não sabia com quem Wood iria. – Comentou Rosie com a inveja transparecendo na voz.
— Que vestido maravilhoso. – Elogiou Lizzie.
— Obrigada meninas, vocês também estão lindas. E não sei porque estão concentradas em saber sobre o meu par quando os de vocês parecem estar indo embora. – Disse rindo e apontando para Patrick e Benji que sumiam no meio dos alunos.
— Patrick espere. – Gritou uma da gêmeas enquanto as duas saiam feito loucas e empurrando as pessoas para abrir caminho e quase tropeçando em seus vestidos extremamente rodados e bufantes.
Enquanto isso, fora do castelo uma figura misteriosa acabara de chegar. Carregava um malão e vestia couro dos pés à cabeça, nos pés tinha botas pesadas e enlameadas. O garoto tinha em torno de uns dezenove anos, acabara de se tornar Auror e já tinha uma missão que coincidira com um desejo pessoal. Foi mandado a Hogwarts para capturar o que quer que tivesse atacado o menino Skeeter e também confirmar se não havia nenhum professor ou pai lidando com magia negra. As palavras de seu superior foram claras: “ Não queremos outro Voldemort surgindo em Hogwarts. ” Estremeceu, ele odiava a história e qualquer coisa que tinha haver com Voldemort, ou como ele já havia lido em alguns lugares: Tom Marvolo Riddle.
Thomas Gaunts grunhiu irritado ao perceber que tinha aparatado muito longe do castelo. Sabia que ali dentro não conseguiria aparatar de novo e teria que caminhar. Ao longe pode ouvir música e avistou uma espécie de jardim ou labirinto de gelo. Chegara bem no dia do baile escolar. Ele nunca havia tido essa experiência, estudara em Durmstrang, e sendo uma escola só para garotos não fazia sentido organizar bailes. Ao invés disso tinham outros eventos que os faziam competir e combater entre si o que os fazia melhores como bruxos e os disciplinava.
Torceu o nariz ao se dar conta da dificuldade que teria para localizar a tal Diretora Medeia. Fora mandado com o disfarce de orientador de duelos, para os alunos que estavam nos últimos anos. Apesar de ser muito jovem tinha um grande conhecimento de combate e por isso fora mandado para aquela missão assim que saiu da academia de Aurores. Ele não podia falhar, era sua primeira missão e ele sentia que ali havia muito mais do que imaginavam, alguém estava lidando com Magia das Trevas. Ele podia sentir esse tipo de coisa e se amaldiçoava por isso, amaldiçoava a família que havia nascido.
Nunca conhecera sua mãe, fora entregue ao seu pai trouxa assim que nasceu. A mãe morrera no parto. Quando completou a idade certa foi chamado para a escola de Magia. O pai contara ao menino o pouco que se lembrava da mãe que o seduzira com poção do amor para que pudesse ter um herdeiro. Aparentemente nunca houve amor da parte de nenhum dos dois, pois nas poucas vezes que o pai falava sobre ela era com repúdio e raiva.
Na escola apenas o diretor sabia sobre sua mãe e seus antepassados. Logo no primeiro dia chamou o jovem Thomas e lhe contou tudo. Também orientou o menino que nunca contasse a ninguém sobre o passado de sua família, para que não sofresse nenhum preconceito. Ele acatou o conselho, sempre foi muito discreto, estudou o máximo que pode e se formou com honras. Tornou-se Auror, fazendo da sua vida uma missão de combater bruxos das trevas e lutar para que a fama da família não o precedesse. Apesar de tudo isso, ele sempre sentia uma sombra negra sobre sua cabeça que constantemente o atraía para o lado errado.
E era essa a sensação que sentia aumentando cada vez mais a cada passo que dava. Um vento frio soprou bagunçando os cabelos totalmente castanhos exceto por uma mecha azul na parte da frente, um traço que diziam ter herdado de sua mãe. Quanto mais se aproximava do castelo mais sentia uma sensação estranha tomar conta de seu peito. Sentia que aquele lugar iria mudar sua vida para sempre.
Dentro do castelo Ágata se divertia sem ter noção de que a vida da garota também estava prestes a mudar.
— Quer dançar? — Perguntou Matt estendendo-lhe a mão.
— Claro.
Ele a conduziu até a pista de dança. Darla e Alex vendo-os, também se aproximaram e os quatro dançavam juntos ao som animado da banda “ Meninos perdidos de Azkaban”. Matt se perguntou como o Ministério permitiu que uma banda com esse nome tocasse no evento da escola, já que eles restringiam praticamente tudo. Logo as gêmeas se juntaram a eles dançando loucamente e puxando seus pares que pareciam não saber o que fazer já que mal conseguiam chegar perto delas por causa do vestido rodado e bufante. Além disso, a todo momento se confundiam sobre quem era quem pois as duas estavam idênticas.
A música acabou e banda começou a cantar uma melodia romântica, mais calma. Logo todos formaram pares e começaram a dançar. Malfoy fez menção de sair da pista, mas Matt a puxou para junto de si.
— Não precisa sair, te convidei para uma dança inteira comigo e não meia dança em grupo.
— Não gosto muito de dançar. – Disse ela.
— Finalmente achamos algo em que você não é boa? — Questionou ele rindo.
— Não seu imbecil. – Respondeu ela. – Faço aulas desde os seis anos. Antes de aprender a montar uma vassoura aprendi a dançar. Minha mãe dá muita importância a bailes e eventos e sempre me exigiu o máximo, principalmente na dança.
— Então é por isso que não gosta, por lembrar a sua mãe?
— É difícil não ter raiva de uma atividade quando sua mãe te obriga a aprender para que um dia a use para encontrar um marido.
— Relaxe! Sua mãe não está aqui e nem eu estou querendo sua mão em casamento. Só tente se divertir como uma garota normal de quinze anos.
— Está insinuando que eu sou anormal?
Ele abaixou-se para sussurrar no ouvido dela.
— Garotas normais não tem um Dementador para usar quando quiserem.
— Como você...? – Perguntou ela confusa sem conseguir terminar a frase.
— Eu deduzi, depois de você ter me escondido o resto do plano percebi pelo estado em que encontraram Marcus. Fique tranquila, não vou contar a ninguém.
— Esse não é assunto de uma garota normal de quinze anos. – Desconversou ela. – Eu nunca fui como as garotas da minha idade, então que tal você me mostrar hoje como é?
— É claro senhorita Malfoy. — Disse ele animado enquanto começava a girar com ela pelo salão.
Enquanto giravam ela teve um vislumbre de alguém que parecia ser Tom Riddle. Olhou novamente e não havia ninguém. Devia estar ficando louca, vendo o garoto por todos os lados. Era impossível que ele estivesse ali já que o diário estava em seu quarto bem guardado em sua cômoda.
— Está tudo bem? – Perguntou Matt preocupado.
— Preciso de um pouco de ar.- Respondeu ela apoiando-se nele.
— Vamos dar uma volta lá fora.
Ele a conduziu pela cintura e ambos foram para o labirinto de gelo, mas não entraram, ficaram sentados em um banco próximos ao castelo. Dentro do labirinto eles conseguiam ouvir risinhos e cochichos dos casais.
— Está se sentindo melhor? – Perguntou Wood novamente.
— Bem melhor,obrigada.
— Estou muito feliz que aceitou ser meu par para esse baile, eu não poderia pensar em ninguém melhor para estar aqui. – Ele pegou sua mão e apertou carinhosamente.
— Confesso que estou me divertindo. – Disse ela sorrindo.
— Eu não acredito que a Malfoy está admitindo que gostou de estar comigo. – Disse ele com a mão no peito fingindo emoção.
— Não vá se apaixonar. – Brincou ela.
— Tarde demais, acho que já me apaixonei. – Sussurrou ele olhando fundo em seus olhos enquanto se aproximava colocando a mão em sua nuca e puxando-a mais para perto.
Novamente ali estava ela com alguém tentando beijá-la, e novamente não soube como reagir. Quanto mais tentava organizar suas emoções, mais coisas apareciam para confundi-la. Ele parou a alguns centímetros, provavelmente aguardando o consentimento da garota. Estava tão perto que ela podia sentir sua respiração, e podia ver cada tom de verde que coloria os olhos do garoto. Nesse momento, enquanto ela tentava decidir se o beijava ou não, uma sombra cobriu-lhes. Sentindo que alguém estava próximo a eles ela se afastou de Matt e levantou o rosto para ver quem estava ali: Era Tom!
— O que você está fazendo aqui? – O espanto foi tanto de vê-lo ali que até se esqueceu que Matt não podia vê-lo.
— Perdão? – Perguntou ele confuso.
— E o que houve com as suas vestes da Sonserina, não sabia que você tinha a possibilidade de mudar de roupa no seu estado.
— Malfoy pare de ser louca. – Disse Matt sorrindo amarelo. – Em que podemos ajuda-lo senhor? – Perguntou levantando-se e olhando para o rapaz.
— Você consegue vê-lo? — Perguntou olhando confusa para Matt.
— É claro não sou cego!
— Thomas Gaunts. – Disse o rapaz apertando a mão do garoto.
Enquanto isso, Ágata totalmente pasma aproximou-se tocando o rosto do rapaz, primeiro com o dedo indicador e depois apalpando com as duas mãos. Ele era exatamente igual a Tom Riddle. Exceto por uma mecha de cabelo azul que pendia bagunçada em sua testa.
— Ela está bem? – Pergunto o rapaz constrangido, tentando afastar as mãos da garota para longe de seu rosto.
— Provavelmente não. – Disse Matt olhando assustado. – Malfoy, para com isso!
Percebendo que estava parecendo maluca aos olhos dos dois, a menina tentou se recompor.
— Ágata Malfoy. – Disse ela e o rapaz apertou sua mão também.
— Estou procurando a Diretora Medeia. – Disse ele ainda olhando para ela como se ela fosse morde-lo a qualquer momento.
— Está lá dentro com os outros professores, eu posso leva-lo até ela. — Disse Wood.
— Seria ótimo obrigado. – Respondeu o rapaz pegando sua mala.
— Você vem? – Perguntou Matt para a menina que ainda os olhava de forma estranha.
— Pode ir, preciso ficar um pouco sozinha aqui. — Respondeu aérea.
— Tudo bem, volto já. – E junto com o estranho misterioso que era idêntico a Tom Riddle ele entrou no castelo.
Ágata ficou sentada olhando a noite. Estava intrigada demais, como alguém poderia se parecer tanto com Tom? Estaria ela ficando maluca e vendo ele em todos os lugares? Talvez fosse coisa de sua cabeça e eles nem fossem iguais. Porém ela não tinha como pedir uma segunda opinião já que ninguém mais podia vê-lo. Precisava saber quem era aquele rapaz, de onde viera e principalmente o que estava fazendo ali quase no final do ano letivo.
Alguns minutos se passaram e ela estremeceu protegendo os braços da noite fria. Logo ouviu a voz do zelador Willian’s no labirinto:
— Nada de amassos!
Um casal passou por ela correndo e rindo.
— Vocês estão encrencados, eu sei seus nomes! – O velho gritava e erguia os punhos enquanto tentava, em vão alcançá-los.
Parou para tomar ar e viu a menina sentada sozinha.
— E você o que está aprontando?
— Nada, eu juro. – Respondeu ela.
— Então vá para dentro do castelo, com os últimos acontecimentos não é bom que ande sozinha por aqui.
Suspirando irritada ela obedeceu. “ Se ele soubesse”, pensou consigo mesma enquanto acariciava o anel em seu dedo. Enquanto entrava no castelo viu que alguém a observava ao longe pela noite: Um dos Aurores mais velhos do grupo que estava vigiando a escola. Lembrou-se que nos últimos dias ele sempre esteve por perto. Talvez fosse ele quem estava observando-a no corredor mais cedo. Ela tinha que fazer algo a respeito. Olhou mais uma vez e ele continuava a encará-la de forma implacável. Era muito alto, tinha cabelos compridos e negros presos em um rabo de cavalo e uma cicatriz que cortava sua face da testa até o queixo. Ela desviou o olhar e seguiu para dentro do castelo. Estava na hora de encontrar mais seguidores dispostos a abraçar sua causa e realmente formalizar tudo. Precisava de aliados antes que os Comensais descobrissem que ela tinha algo a ver com o que houve com Marcus. Teria seus próprios Comensais da Morte, mas não os chamaria assim, não queria ser uma cópia de Voldemort.
— Onde estava? – Alex veio ao encontro dela preocupado.
— Saí para tomar um ar.
— Você viu que chegou alguém novo? – Disse Darla olhando o rapaz que conversava com Medeia.
— Será que é aluno? –Perguntou Alex.
— Quase no final do ano letivo? Duvido. – Respondeu Darla.
— O nome dele é Thomas Gaunts, e ele é muito maneiro. – Disse Matt se unindo ao grupo.
— Como você sabe?
— Eu o ajudei a encontrar Medeia.
— E o que ele faz aqui? – Perguntou a Malfoy.
— Não sei, não me deixaram ouvir a conversa. Mas sei que veio para ficar, pois Medeia se ofereceu em pessoa para leva-lo até o dormitório dele.
— As coisas estão mudando por aqui. – Disse a loira pensativa.
— Também estava pensando nisso, tem muitos Aurores e logo precisaremos alimentar aquilo de novo. – Sussurrou Darla.
— Vamos precisar de mais aliados, quero aumentar nosso número de “ amigos” e formalizar tudo.
— Como assim? — Questionou Alex.
— Só me consiga bons seguidores, leais, inteligentes, de sangue puro e deixe o resto comigo.
—Melhor mudar de assunto. – Disse Matt ao ver um dos Aurores passando por perto.
— Sim, aliás temos algo inacabado. – Disse a menina rindo para ele e segurando sua mão.
Ele sorriu de volta e a conduziu até a pista de dança:
— Vamos dançar antes que apareça mais alguém para interromper nosso momento.
E ao som de uma música agitada os quatro dançaram a noite toda. No final só havia no Salão uma meia dúzia de alunos e Willian’s reclamando da bagunça. O dia estava quase amanhecendo.
— Vem, quero te mostrar algo. – Disse Matt enquanto a pegava pela mão.
— Precisamos ir para os dormitórios.
— Hoje podemos tudo, a Medeia nem reclamou de ficarmos até agora no salão. Vá para o seu quarto, troque de roupa e me encontre no campo de Quadribol em dez minutos. – Disse ele extremamente animado.
Ela subiu correndo para o dormitório, trocou o vestido por calças compridas e casaco. Não havia nem sinal de Tom, e no fundo ela ficou aliviada. Tentaria dar uma chance a Matt para que pudesse esquecer Riddle e o sentimento absurdo que sentia. Se fosse preciso se afastar um pouco dele ela o faria. Não deixaria que nada estragasse seus planos nem tirasse o seu foco.
No campo, Matt a esperava com duas vassouras na mão.
— Sabe voar de vassoura? – Perguntou ele com uma sobrancelha levantada.
— Que pergunta, sou filha de Scorpius Malfoy o maior jogador da Sonserina na época, voar está no meu sangue.
— Então vamos Malfoy, me siga.
Ela sentou e deu impulso na vassoura levantando voo. O vento gélido batia contra seu rosto mas ela não se importou. Fazia anos que não voava assim, só subia na vassoura durante as aulas de voo. Matt subia cada vez mais alto com ela em sua cola. Foram em direção ao castelo e pousaram no telhado da ala leste.
— Isso era o que queria me mostrar, o telhado? – Perguntou ela.
— Não sua boba. Olhe em volta. – Ela virou-se e dali dava para ver tudo: O lago negro congelado, o salgueiro lutador e a floresta proibida.
O sol lutava para abrir caminho entre as nuvens, e os primeiros raios chegavam dando fim ao inverno. Ela fechou os olhos para sentir o calor que emanava. Matt puxou uma sacola com um cobertor de uma fresta ali perto e estendeu.
— Vem Malfoy, não quero que caia do telhado por minha culpa.
Ele sentou-se sobre o cobertor e a menina se alojou entre suas pernas, recostando nele.
— Aqui não tem nenhum novato para nos interromper. — Comentou ele.
— Percebi que o cobertor já estava aqui a algum tempo, quantas garotas você costuma trazer? – Perguntou ela em tom de brincadeira.
— Para falar a verdade nenhuma. – Confessou ele. – Gosto de subir aqui a noite para pensar.
— No que costuma pensar? – Perguntou ela enquanto entrelaçava seus dedos com os dele.
— Sobre a minha situação com Mathew. Não quero destruir meu próprio irmão, mas também não quero perder o controle do meu corpo outra vez.
— Eu não vou deixar ele tomar o controle. – Disse ela em tom de promessa. – Talvez não seja justo, mas sobrevive o mais forte, é assim que funciona.
— Porque escolheu a mim e não ele?
— Porque você é mais forte, decidido e determinado. Além disso é exatamente o tipo de pessoa que preciso ao meu lado. Mathew era fraco.
— E para que exatamente precisa de mim?
— Quero ser a nova sucessora de Voldemort. Preciso dos melhores comigo, para me proteger e lutar quando chegar a hora.
— Finalmente confiou em mim para contar algo! – Respondeu ele. – Eu já sabia disso sobre Voldemort.
— Como?
— Você me contou aquele dia quando te dei poção do amor.
— Não me lembre disso porque tenho vontade de te jogar daqui de cima.
— Foi ousado eu sei, mas não me julgue, você faria o mesmo ou até pior para obter o que quer.
— Tem razão. – Concordou ela.
— Estou disposta a te seguir Malfoy, te proteger e fazer de tudo para que alcance seu objetivo.
— Porque?
— Quero poder, e você tem de sobra. Eu me lembro das maldições que lançou no duelo, eu preciso aprender com você.
— Se eu pedisse, me deixaria fazer minha própria marca negra em você? – Perguntou enquanto virava-se para olhá-lo nos olhos.
— Vai em frente. – Concordou ele estende-lhe o braço e puxando a manga das vestes.
— Aí não. Pensei em um local mais discreto, que possa ser coberto mais facilmente e passe despercebido.
— Onde?
— No dedo anelar.
— Um verdadeiro compromisso, como um casamento. — Brincou.
— Mais profundo que isso. – Disse ela. – Vocês serão mais fiéis a mim do que a esposa que um dia terão e a falta dessa lealdade será punida com a morte.
— Vá em frente não tenho medo, vou ser o seu primeiro Comensal da morte.
— Comensal não. Vocês serão meu Demônios da noite. – Disse ela enquanto encostava a varinha em seu dedo anelar e conjurava o mesmo feitiço que Voldemort usara para marcar o braço de seus seguidores.
Ao invés da famosa caveira com uma cobra saindo da boca ela desenhou apenas uma serpente que subia por todo o dedo em formato de “S”.
— Jura ser leal a mim até a morte? – Perguntou solene.
— Eu juro. — Disse ele, enquanto tentava ignorar a dor que aquela magia causava. Era como se ela tivesse tatuando sua pele com brasa recém tirada do fogo.
— Jura nunca me trair e nem esconder nenhuma informação que possa ser importante para nossos objetivos?
— Juro.
— Jura sempre seguir minhas ordens sem questionar ou sem fraquejar, não importa qual seja?
— Eu juro.
Finalmente ela terminou e ele olhou para a cobra agora tatuada em seu dedo que já estava sumindo, no lugar ficou apenas uma cicatriz branca com o desenho. Enquanto isso ela conjurava a mesma magia em si mesma.
— Vamos testar. — Disse ela.
Calmamente ela encostou a ponta da varinha em sua própria tatuagem e logo Matt sentiu a sua arder como fogo em seu dedo, a cobra reapareceu nítida como se tivesse sido tatuada com tinta negra.
— Perfeito! Sempre que sentir isso e ela voltar a cor normal, significa que estou convocando vocês. Parabéns Wood, você é o primeiro Demônio da noite.
Antes que ele pudesse responder algo ela virou sua cabeça em direção a ele e o beijou. O sol iluminou seus rostos, trazendo consigo os primeiros sinais da primavera que estava por vir. Ele sorriu e a abraçou mais forte, aproveitando cada segundo daquele momento. Mal podia acreditar que tinha a Malfoy para si, estava feliz mesmo sabendo que se envolver com ela dessa forma poderia ser o seu fim.
No castelo a maioria dos estudantes e professores repousavam descansando do baile. Em uma das salas abandonadas do corredor Oeste, Darla e Alex também assistiam juntos pela janela os primeiros raios de sol. Atrás das arquibancadas do campo de Quadribol as gêmeas beijavam sem parar seus pares do baile e em um dos dormitórios Thomas Gaunts lia um livro qualquer tentando se acostumar com seu novo quarto. No povoado os comércios começavam a abrir para mais um final de semana. Todos estavam tranquilos e felizes, acomodados, sem saber que naquele momento uma nova era de trevas se erguia sobre a comunidade bruxa.
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