A árvore de memórias
9 08. A Árvore e o presente.
Notas iniciais
Os dias foram cinzas e indecisos até o final de semana. Natsume passou-os desanimado e tentando se concentrar nos estudos. Nesses dias, não parou para ensinar Itsuki e pouco falou com ela. Talvez isso fosse só uma falta de tempo, ou mesmo sem querer responsabilisasse sua existência por todos os momentos problemáticos até agora.
Nyanko se preocupou ao ponto de deixar seu orgulho de lado por alguns segundos e se desculpar pela brincadeira sem graça que havia feito, mencionou ser uma divertida aposta entre os outros yokais. Não adiantou muito, pois o desânimo do rapaz estava baseado na responsabilidade que ele se colocava por tudo.
Itsuki observava-o bastante preocupada. Sentia sua negatividade, mas temia em atrapalhar. Sentia-se também certamente solitária pela falta de aulas de leitura, mas já tinha em sua mente um repleto repertório — o suficiente para passar seu tempo lendo contos de besteiras humanas, muitas das quais lia sem entender o significado, para os yokais bêbados amigos de Madara. Eles, para retribuir, traziam revistas adolescentes que encontravam por aí, ou que roubavam de colegiais.
Itsuki adorava a cultura humana — principalmente suas roupas, gostava de copiá-las. Observava também os estudos de Natsume e, frequentemente, roubava seus livros de escola, para depois ser repreendida.
Quase 3 ‘meses humanos’ haviam passado desde que haviam se encontrado, mas para yokais eram como dias. Apesar de toda sua alegria, achou que era hora de perguntar como andava a investigação do rapaz.
O momento de preocupação os juntou como imãs, diante da árvore onde haviam se encontrado pela primeira vez. Era uma noite de lua cheia, e as estrelas brilhavam com fervor: indicavam que o dia seguinte seria de Sol.
— Eu descobri algo. — Começou o rapaz, sem dar chances à perguntas.
Itsuki parecia animada com a frase. Naquela noite, seus olhos verdes brilhavam, assim como suas pequenas sardas também pareciam cintilar à luz da lua.
— Isso é bom! — Falou segurando o rapaz pelos ombros em tom animado — Eu ia lhe perguntar isso agora mesmo! Não o fiz antes por vergonha, na verdade!!
A fala era cheia de exclamações de animo, isso ele podia perceber. Havia achado estranho a menina não perguntar nada sobre um assunto tão sério, mas agora, pensando sobre, sentia que ele próprio era parecido — tão acanhado quanto.
— Você não precisa disso... Somos amigos. — O rapaz sentiu a necessidade de falar, porque gostaria que alguém dissesse o mesmo para ele.
A menina andou um pouco para trás, ainda acanhada: tentando não olhar para o chão, prometeu que falaria tudo para ele a partir daquele momento. Depois, com um olhar ameaçadoramente compreensível e questionador, perguntou o porquê de ele não fazer o mesmo.
As palavras bateram como facas. Estava exigindo coisas que ele mesmo não cumpria. Em tom seco e desacreditado, respondeu que iria tentar. Se abrir era um processo complicado para alguém que sempre precisou fazer o contrário. Imaginava que para ela, seria o mesmo e, ao reparar na determinação que a yokai apresentava, seu coração se encheu de coragem por alguns momentos — Vou tentar! — respondeu novamente, desta vez com mais confiança.
— E então? — perguntou a menina, o encarando por um longo período.
— ...Agora? — Natsume respondeu, gelado, pois não esperava o desafio tão cedo
— É um bom momento!
Ele explicou rapidamente como se sentia. Como era grato por sua família, por estar estável num local depois de tantos anos passando de mãos em mãos. Não que culpasse os antigos guardiões — os entendia. Muito mais que compreender, Natsume se culpava. Quando era menor, enxergava a culpa como dos yokais, e depois de estabelecer certa amizade com alguns, a culpa restou para o único personagem da história que ainda havia restado: ele mesmo.
— Eu sou egoísta. Fico me colocando em problemas sem pensar na minha família. Foi assim com você — jogou a fala sem pensar, depois se arrependeu. suspirou e explicou — ... Não que você seja ruim, não é! mas é porque não a conhecia. Entende?
Itsuki acenou em tom positivo. Ouvia atentamente a história do rapaz e entendia muito bem pelo o que ele passava naquele momento. — Se você está pensando em tudo isso, Natsume-san, é sinal de que você não é egoísta.
Ele se surpreendeu, ela continuou:
— Você é uma pessoa que pensa muito nos outros. Pensou muito em mim e ainda pensa. Sou grata por isso. — Itsuki sorria gentilmente enquanto falava — Às vezes você pode ser ingênuo, concordo. Mas nunca egoísta. Sei que você está preocupado com a liberdade que tem se dado, os erros que tem cometido — deu um suspiro longo, como se explicasse pra si mesma também — mas veja, isso acontece quando nos abrimos pras pessoas. Só quando estamos confortáveis nos damos o direito de errar: E se você se permite errar, é sinal de que ama e confia nessas pessoas. E se até agora ninguém brigou com você... Vai ver é sinal de que você também tem o amor e a confiança delas...
O rapaz fitava para a yokai com os olhos bem abertos, de surpresa. Estava pasmo com a convicção e também com o raciocínio da garota — que apesar de ter menos contato com humanos, aparentava saber muito mais de relações afetuosas. Sem ter muito controle sobre as próprias ações, sua boca entreaberta balbuciou algumas palavras —...onde você aprendeu...?
Itsuki ainda com olhar reflexivo, respondeu sem pensar duas vezes:
— Com sua avó Reiko. E agora com você. — Deu um sorriso simples e sincero. E então, o silêncio permaneceu por alguns momentos, com cada um refletindo da maneira que puderam.
— Tenho algo pra você. — O rapaz interrompeu, colocando as mãos no bolso e tirando de lá um colar simples, onde uma camada de vidro envolvida por um metal antigo, protegiam uma folha de árvore.
— O que é isso? — perguntou a menina, com o olhar curioso enquanto pegava o objeto das mãos de Natsume.
— Um cordão. O galho da parte de dentro é de sua mãe... Achei que assim você poderia estar sempre perto dela.
A menina olhou para o objeto por um longo tempo. Logo, lágrimas começaram a cair de seus olhos sem parar. Ela tentava pará-las com as mãos, mas não conseguia. Logo, o cordão estava completamente molhado, então ela o limpou em suas roupas.
Natsume ficou obviamente sem graça. Não entendia muito bem o porquê de ela estar chorando tanto. Ficou confuso em saber se ela estava feliz pelo presente, ou se estava extremamente furiosa com o fato de ele ter arrancado um pequeno galho da árvore. Sua dúvida acabou quando Itsuki se jogou em seus braços, ainda chorando. Ela soluçava enquanto o abraçava, tentava dizer “Obrigada, Natsume-san”. A voz saia completamente abafada e estranha, como quando se está gripado. Takashi acabou por abraçá-la também, mesmo que sem jeito.
— Obrigado também, Itsuki-san.
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