A Única Exceção do Rei
37 Palavras Vazias
Notas iniciais

Kirkel e eu dormimos naquela noite cheios de cólera. O ouvi praguejar o elfo por tantas horas a fio que estava começando a ficar cansada dele também. Pedi — implorei — para que esquecêssemos daquilo pelo menos no dia do nosso casamento. Depois disso, pensaríamos melhor no que faríamos com aquelas peças. Nunca imaginei que Thranduil faria aquilo pela segunda vez. Algo me dizia que era uma espécie de provocação não destinada para mim, mas sim para meu marido. De alguma maneira ele sempre fazia questão de ser lembrado.
Entretanto, eu sou humana e não uma elfa. Consigo perfeitamente enterrar esse amor e deixar o meu por Kirk crescer e florescer, e deixar Thranduil ardendo em seu ódio pelo resto da vida sozinho. Estava decidida a tomar as rédeas da minha vida e guia-la para um novo rumo.
O dia amanheceu e eu estava mais disposta. Afinal, fiz um enorme esforço para preparar aquele casamento e estava determinada a aproveitar cada segundo dele da melhor maneira possível, exatamente como minha mãe sonhara um dia.
— Bom dia. — Ouço uma voz desanimada ao pé do meu ouvido. Aparentemente Kirkel passara a noite quase inteira acordado e pensativo, pois seus olhos estavam fundos e um pouco roxos.
— Ah, não! — Censurei. — Não fiquei meses preparando nosso casamento para você começar o dia assim. Por favor, meu amor, não vamos deixar que os acontecimentos da noite anterior nos desanimem. Quero aproveitar cada segundo do nosso dia da melhor maneira possível, afinal, passamos meses planejando cada detalhe.
Ele espreguiça e toma fôlego. Coça os olhos e tenta espantar o sono visível em sua face. Seu corpo esculpido delineava os lençóis no curto espaço de nossa cama.
— Amo você. — Cochichei para ele segundos depois. Kirkel retomou sua atenção para mim.
— De verdade agora? — Questiona e passa os dedos em minha bochecha delicadamente.
— De verdade. — Sorrio e afirmo com a cabeça. — Amo cada pedacinho seu, e dessa vez juro que não é apenas um amor fraternal. O amo como meu homem.
Um leve sorriso de satisfação aparece em seus lábios, logo após ele me beija a testa carinhosamente.
— Sempre a amei e sempre vou amar. — Finalmente responde, deixando o ar pesado de lado.
— Eu sei. — Reconheço. — Se não me amasse tanto, não estaria aqui, pois não sou digna sequer de sua amizade.
Ele me analisa e passa a mão em meus cabelos, afagando-os.
— Não conheço no mundo mulher mais merecedora de mim do que você. — diz com sentimento melancólico na voz. — Afinal, há reis e senhores de outras cidades nesta disputa, pelo que eu sei.
Rio por um momento do seu sarcasmo até perceber que ele estava falando sério.
— Nenhum deles é tão merecedor quanto você. — Elogio, acatando seu abraço repentino. — Precisamos nos levantar. O dia está raiando lá fora e temos um milhão de coisas a fazer.
Ouço ele grunhir algumas palavras e finalmente se dar por vencido. Coloca um sorriso no rosto e busca suas calças para vesti-las. Avista o baú no chão e fecha a cara novamente.
— O que fará com aquilo? — Indaga, apontando para o móvel de madeira. — Esconda-o bem. Teremos muitas pessoas em nossa casa no dia de hoje.
Assinto enquanto pego meu roupão. Uma boa xícara de café era o que precisávamos para encarar o dia com ânimo. Deixaria os problemas para amanhã ou depois. Hoje, eu só queria ter um pouco de paz e felicidade.
Kirkel fora para outro lugar no exato momento que as mulheres o expulsaram de casa, alegando que o noivo não poderia ver a noiva antes do casamento. Bobagem, eu sei, já estamos praticamente casados e esse era apenas um ritual para celebração do mesmo. Ficaram apenas eu, as duas filhas de Bard, a arrumadeira e minhas irmãs. Todas muito contentes, saltitantes e falantes, pareciam até mais alegres do que eu — o que não duvido muito.
A tarde fora para arrumar meu cabelo, me banhar, preparar minha pele, unhas e mais uma centena de caprichos que eu confesso que adorava. Era a senhora da cidade e gostava de ser bem vista. No final da tarde, flores brancas adornavam meus cabelos cuidadosamente caindo em cascatas e o vestido estava prestes a ser colocado.
— Uma bela lingerie para a noite. — Matilda fala enquanto alisa a seda das peças. — Não que algo seja novidade para o noivo, não é?
— Matilda! — Mirph censura a irmã. — Até parece que você também é pura.
Me choco com a informação. Matilda quase tem um ataque ao ouvir seu segredo sendo revelado pela irmã do meio.
— Não precisava espalhar assim pelos quatro ventos, não é? — Ela choraminga.
— Mesmo depois de tudo o que as ensinei? Matilda, não eras tão imprudente! — me manifesto, tomando cuidado com o tom de voz para as filhas de Bard não ouvir. A mais velha já tinha lá seus 13 ou 14 anos, entretanto não queria criar problemas.
— Até parece, Melrise. O sujo falando do mal lavado. — Ela retruca, cruzando os braços. — Também sabemos que Kirkel não fora o seu único. — Sussurra, me surpreendendo mais uma vez.
— Como é?
— Ora essa! — Mirph exclama postando-se ao meu lado. — Sabemos que o rei da floresta andou flertando com a senhorita naqueles tempos de viagem. Uma vez o vimos sair do seu quarto de madrugada! Não somos ingênuas, Melzinha.
Fiquei tão chocada com a informação que não consegui palavras para retruca-las.
— Mas... eu não. Quer dizer... — tentei montar argumentos plausíveis que me tirassem dessa, entretanto, se me defendesse dizendo que tinha planos com Thranduil naquela época bem diferentes do que elas estavam pensando, possivelmente teria que dar mais explicações, e eu não estava nem um pouco afim.
— Mas, mas, mas...? — Matilda debochou.
— Meus encontros com o rei da floresta não são da conta de vocês e de ninguém mais! — tentei dar o assunto por encerrado. — E se espalharem essa história por aí, as deixo sem um tostão no bolso pelo resto de suas vidas, estão me ouvindo?
Ambas ficaram sem cor em suas faces com a última bronca. Era só o que me faltava! Minhas irmãs saírem por aí fazendo fofoca sobre algo que não aconteceu — pelo menos não naquela época.
A senhora adentrou meu quarto com o vestido nas mãos. Ele era perfeito: rodado, com detalhes floridos em sua extensão, justo na cintura. Quando finalmente foi colocado em meu corpo, me vi emocionada pela beleza de minha figura nele.
Toquei no tecido e em seus detalhes vagorosamente, me recordando dos vestidos perfeitos que Thranduil me adornava em seu palácio. Este fora totalmente feito por mim, para mim, para este momento.
A cerimônia começaria em pouco tempo, então tratamos de nos apressar. Pedi que minhas irmãs fossem na frente com Sigrid e Tilda para checar se estava tudo nos conformes antes de eu sair de casa. Fiquei só no quarto, aguardando o chamado de Bard. A senhora fora embora com seus apetrechos emocionada pelo belíssimo trabalho que havia feito em mim, agradecendo pelas moedas de ouro a mais que dera a ela.
Alguns segundos depois ouço batidas na porta. Ansiosa, corro até ela com cuidado para não tropeçar no imenso vestido.
— Chegou mais cedo do que imaginava. — Disse para Bard antes mesmo de abrir a porta. — Está mesmo desconfiado que eu iria fu...
A frase não fora completada, pois não era Bard ali. Thranduil, em roupas simples de couro marrom e uma capa preta, apareceu diante mim. Seus olhos fixaram-se aos meus tão azuis e brilhantes, muito mais do que eu me lembrava.
— O que faz aqui? — Perguntei com voz falha, sentindo meu corpo paralisar de repente.
Sem ser convidado e sem se dar ao trabalho de me responder primeiramente, o elfo adentrou o recinto, retirou minhas mãos da maçaneta e fechou a porta.
— Estás belíssima. — Finalmente ouço o som da sua voz, que me atinge como um jato de água fria em meu corpo. Sinto a pele responder arrepiando-me da cabeça aos pés.
— O que faz aqui? — questiono mais uma vez, forçando minha voz a ficar firme.
— Sou apenas um velho amigo desejando-lhe boa sorte. — Responde cínico, sem retirar o seu olhar do meu. — Nunca a vi tão bela. Estás perfeita. — Elogia mais uma vez.
— Não somos amigos. — Reitero. — Nunca fomos e nunca seremos.
— Podemos até não ser, mas se não se recorda — ele continua, dessa vez desviando seu olhar para o resto da casa — temos acordos. E segredos. Então, creio que é bom para ambos de vez em quando recordarmos disso.
— No dia do meu casamento? — Indago, fazendo uma força absurda para não desabar perante ele e permanecer equilibrada.
— Não sei se notou, Melrise, mas já fez um bom trabalho. — Ele se volta para mim e retira a capa de seus ombros.
— Do que está falando?
— De Kirkel. Ele cedeu, não é? Todas as minhas exigências foram supridas, assim como dos demais homens e anões. Não precisa mais ficar ao lado dele para seguir com esse plano. Basta. Pare por aqui antes que cometa a loucura de se casar. — Suas palavras entraram afiadas em meus ouvidos e fizeram meu corpo estremecer.
Thranduil só podia estar maluco.
— Loucura de me casar? — Reafirmo surpresa. — Acha que só estou me casando com ele por causa do seu plano?
— Por que mais se casaria? — pergunta, e se senta em uma das poltronas da sala. Invejo sua postura e firmeza, e desejo profundamente ser tão emocionalmente estável quanto ele por um segundo. — Você presa pela sua liberdade, não é? Era o que vinha em primeiro lugar. Não creio que se casará com quem não ama.
— Está muito equivocado em achar que eu não o amo. — Respondo-o, sentindo que uma lágrima iria ceder. Sinto-a descer pelo meu rosto delicadamente, deixando um rastro de amargura causada pelo elfo. — As coisas mudam, majestade. Os humanos seguem em frente, amadurecem e mudam de ideia.
A face do rei se petrifica em uma expressão amargurada. Thranduil se levanta e volta a me fitar de igual para igual.
— Não o ama. — Ele continua. — Não como ama a mim.
Rio dele. Das conclusões dele. Só podia estar de brincadeira! Tento manter meu olhar firme perante o seu quando digo:
— Não o amo mais. — Sinto o coração bater descompassado, irritado, prestes a me fazer desmoronar. — Não estou seguindo com o seu plano, estou me dando a chance de ser feliz.
Dessa vez ele riu. Sua pele alva do rosto começava a ficar vermelha.
— Não, apenas se acomodou. Uma mulher como você nunca está satisfeita com o monótono. Em pouco tempo verá que o que fez é burrice e se arrependerá. — Passou os dedos em meus cabelos cuidadosamente penteados. Me afastei dois passos para ele não desfazer o trabalho de uma tarde inteira.
— Por favor, vai embora. — Pedi, engolindo a angústia que queimava minha garganta. — Vá!
Berrei para ele, sentindo mais lágrimas descerem pelo meu rosto e colo.
Thranduil se aproximou mais uma vez com um pouco de cautela. Senti minhas pernas vacilarem ansiosas. O perfume dele tomou conta dos meus sentidos e era como se me levasse de volta para lá, para a cabana no meio do nada, onde nos perdíamos entre os corpos um do outro por horas a fio. Elevou minha cabeça para encará-lo de novo com a ponta do dedo em meu queixo e, covardemente sussurrou:
— Não me ama mais? — seu rosto chegou um pouco mais perto do meu. Sua mão permanecia firme em minha cabeça para não me deixar desviar o olhar.
Tentava responde-lo convicentemente, mas falhava. Porque eu o amava tanto que não suportava a dor de tê-lo tão perto e ao mesmo tempo tão longe. De saber que por algum tempo eu o tive apenas para mim, em meus braços, e ainda assim não podia despertar nele o amor que merecia.
O rei soltou meu queixo e alisou meu rosto. Seu toque macio fez mais lágrimas descerem, molhando meu vestido no busto. Suspirei, tentando me controlar e deixar que aquela sensação irritante de impotência não tomasse mais conta do meu ser.
— Pegue suas coisas e venha comigo. — Ele sugere, me surpreendendo com o seu pedido. — Melhor, não pegue nada. Tudo o que você precisar eu darei novamente. Vamos viajar, conhecer o resto do mundo. Não me importo com que os outros pensarão, Ris. A vida humana é tão curta. Aproveite a sua ao meu lado.
— Se me queria de volta, por que não disse quando estávamos juntos em Bree? — Questionei, me recordando dos dias que passei ao seu lado. — Por que me descartou mais uma vez como se não me quisesse mesmo ao seu lado? Me empurrou novamente para os braços de Kirkel, e agora quer que eu fuja?
— Porque naquela época eu precisava de você aqui. — Ele argumenta calmo, deixando sua mão repousada em meu ombro direito. — Mas agora não preciso mais. Está livre.
— Não, não estou. — Retiro sua mão do meu corpo e me afasto mais uma vez. — E não me trate como se fosse uma peça do seu xadrez, que você move de acordo com as suas necessidades. Sou dona de mim, Thranduil. Fazia loucuras por você, e confesso que ainda faço. Kirkel nunca soube de nossos acordos, de suas exigências, porque decidi poupá-lo. O influenciei de acordo com suas imposições de anos atrás e o ajudei a obter sucesso, entretanto, vidas dependiam disso. Mas é só. Não farei mais nada a seu favor. E, se não se lembra, não me amas. Como pode ser tão cínico e me escrever aquele bilhete? Pediu alguém para escrever a palavra amor, ou será que consegues mentir por cartas?
— Amor, amor, é tudo o que lhe importa? — Aumenta o tom de voz e me assusta por um segundo. Meu medo era que alguém chegasse e visse aquela cena lastimável, — Acha mesmo que o amor suprirá todas as suas necessidades restantes? Pois eu lhe afirmo: o amor dói, acima de tudo! Não é o mar de rosas que você tanto imagina. Kirkel a ama, mas se a visse nesse estado, aos prantos por minha causa, a primeira coisa que ele irá sentir é dor. Assim como sinto agora, vendo-a vestida de noiva, prestes a se casar com outro homem. Isso não lhe diz nada?
Thranduil terminou de dizer visivelmente desesperado. Aproximou-se nervoso, seu olhar denunciava o quanto de esforço ele estava fazendo para deixar aquelas últimas frases saírem de si. Puxou-me pelos ombros e me fez encará-lo, como se aquele ato me fizesse cair de amores por ele mais uma vez e me convencesse a acreditar naquelas palavras vazias.
Contudo, antes de qualquer coisa sair dos meus lábios o rei tomou-os para si. Um choque entre nossas línguas me fez guardar as suposições da minha mente e, pelo que eu jurei ser o último beijo daquele que um dia entreguei todo o meu amor, deixei-me levar. Tocou-me o pescoço e subiu pelos meus cabelos, fazendo uma das flores caírem no chão. Segurava firme minha cintura, nossos corpos se tocaram violentos e eu pude senti-lo se excitar mais uma vez. Entretanto, não me deixaria levar, não mais. Aquela era a última vez.
Sabia que Thranduil costumava usar até a última de suas armas para conseguir o que queria.
— Bela tentativa. — Soltei-me dele com alguma dificuldade, suspirei alto e controlei minha voz. Sequei as lágrimas do meu rosto e busto, ajeitando o vestido logo após para que ainda parecesse impecável. — Mas, felizmente, sei que é apenas um joguinho seu. — O rei franziu o cenho e passou suas mãos por sua face visivelmente chateado. — Você não gosta de perder, Thranduil. Mas reconheça que dessa vez está passando dos limites. Não apele para o amor, já não é mais capaz de senti-lo. E eu... irei seguir em frente. Estas lágrimas que me viu derramar por sua causa serão as últimas. Esse beijo; guarde-o como o da nossa despedida. Com amor ou sem, irei em frente. E não é o sentimento por você que me fará decidir do contrário.
O elfo se alinhou firme em minha frente mais uma vez. Comprimiu os lábios e tomou fôlego.
— Se é o que prefere. — Disse, engolindo em seco. Algo que parecia uma lágrima rolou em sua face. Nesse instante meus pensamentos e dúvidas recomeçaram a borbulhar. Ele limpou-a antes que atingisse suas roupas.
Espantei minhas incertezas que recomeçaram a pairar a mente e alinhei meu vestido no corpo. Peguei a rosa do chão e tentei recoloca-la nos cabelos.
— Me deixe com isso. — Thranduil tomou-a para si.
Assenti com a cabeça e me pus a marchar até a porta. A abri decidida a ir por mim mesma até a cabana perto do lago onde seria a cerimônia do meu casamento. Deixei o rei elfo para trás em minha casa e segui em frente sem olhar para os lados. Desfilei por toda o vilarejo sozinha, em passos largos e confiante do que estava prestes a fazer.
Chegando lá, vejo Bard prestes a ir de encontro comigo com uma rama de flores nas mãos.
— Perdi a paciência. — Anunciei para ele assim que a frase começava a formar em seus lábios. — Podemos ir em frente ou demora muito mais?
Kirkel já estava no altar aguardando. Estava belíssimo em seu traje cinza escuro, quase preto. Era ele a quem eu deveria jurar amor eterno e dedicar meus dias. Pois era ele, e apenas ele, quem um dia me amou de verdade exatamente como eu sou.
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