A Única Exceção do Rei
15 Olhos Amarelos, Cabelos Flamejantes
Notas iniciais

Por todos esses meses eu me forcei a não pensar sobre esse ser que agora se encontrava à minha frente. Não queria lembrar de seus beijos, do seu toque, do seu cheiro ou da sua voz fria que percorria a minha espinha e me arrepiava num toque de luxúria. Ele ou Kirkel foram banidos de minha mente, apesar de eu me pegar lamentando a saudade que eu tinha do humano. Afinal, ele era meu amigo e me confortava sempre quando precisava e nunca havia tido nenhum tipo de constrangimento ao seu lado, ao contrário do elfo que, em menos de um mês, fez a minha vida ir do céu para o inferno tantas vezes.
Entretanto eu não podia recuar. Estava a trabalho e não poderia desprezar ninguém pura e simplesmente por causa dos acontecimentos passados. Rumei até ele, pé ante pé, com a feição paralisada e temerosa sob a sua.
— Majestade. – Minha voz saíra fria e baixa, porém não tremeu como eu temia. – Gostaria de um pouco de vinho? – Ofereci para Thranduil, que logo levantou a sua taça quase vazia com o líquido anterior.
— Claro. – Enchi-a com cautela, temendo derramar uma gota sequer. Exigia para minhas mãos não vacilarem, mas meus olhos se depararam por um segundo com os dele, que ainda me fitava curioso da cabeça aos pés.
— Com a sua licença. – Pedi e me virei para o senhor de Lindon que estava ao seu lado, enchendo a sua taça também. Contudo, o rei da Floresta não deixara seu olhar se perder de mim nem por um segundo.
Fora um momento constrangedor que eu jamais imaginei que passaria. Não estava pronta para vê-lo novamente, sequer para dirigir-lhe a palavra. Mablung pedira para eu o servir a noite inteira, mas aquilo seria impossível para mim.
Rodei mais uma vez o ambiente e, quando a garrafa de vinho de mais de dois litros secou, sai em direção às outras para fora da cabana.
Sentei por um momento e suspirei o ar gelado, sentindo as mãos tremerem de nervosismo mais uma vez. Não seria capaz de voltar para aquela barraca novamente, mesmo sabendo que aquele era o meu trabalho e era obrigada a fazê-lo.
— Você está bem? – Uma voz calma e melódica soou ao meu lado, notando minha prostração. Ao me virar, me deparei com uma elfa vestida como eu, de olhos curiosos e rosto redondo.
— Estou enjoada. – Comuniquei falsamente, só precisava de um tempo.
— Está grávida? – Ela questionou e eu ri.
— Não, apenas de estômago vazio. – Inventei mais alguma desculpa e tentei sorrir para ela. – Preciso servir aquela barraca, mas estou tomando um ar antes que derrame vinho nos convidados.
— Ah, a barraca dos reis. – Fitou a mesma ao longe, sorrindo para a mesma. – Quer que eu sirva para você? Assim come alguma coisa e não enfurece os beberrões elfos que lá se encontram.
— Faria isso por mim? – Surpresa e muito feliz, indaguei. Elfas eram, sem dúvida nenhuma, muito mais gentis do que a versão masculina.
— Claro! Só me diga qual destes vinhos eles estão bebendo.
Entreguei a garrafa pesada cheia para ela, que rumou para os aposentos saltitante. Pelo que conheço de elfos, ela parecia ser nova, pois tinha a feição de uma menina de quinze anos em idade humana.
Aproveitei a sua deixa e, após dois minutos controlando a minha respiração, rumei para o mar que balançava suas ondas calmas naquela noite. O ar estava frio, mas as suas águas estavam curiosamente quentes. Retirei os sapatos e deixei meus pés tocarem o chão desnudos e sentir a água salgada acalmar o meu ser com o seu ritmo lento.
— O que fazes aqui só? – Aquela voz grossa de tempos atrás me chamou a atenção. Seus olhos amarelos brilhavam mais claros do que a luz da lua. – Não deveria andar por estas bandas em solidão, menina formosa.
Senti um arrepio tomar a espinha novamente enquanto ele falava. Sua figura me dava medo e suas palavras eram maliciosas.
— Estou descansando os pés. – Esclareci e me afastei dois passos dele em precaução, demonstrando que a sua presença em nada me agradava.
— Não precisa ter medo de mim, senhorita. – Se aproximou e tocou os meus ombros, mirando seu olhar para o meu busto desnudo. Sua respiração estava pesada e suas mãos grandes me desconfortavam. – És mui bela. Sua figura me agrada.
Retirei suas mãos de mim com um pouco de dificuldade e o encarei firme.
— Não gosto da sua aproximação. Por favor, vá embora. – Pedi em bom som.
Ele sorriu ardiloso novamente. Parecia se divertir com minhas atitudes temerosas.
— Por quê? – Questionou e se encontrou perto demais da minha pessoa novamente. – Não sou suficientemente belo para você?
Franzi o cenho e desconfiei de sua imagem. Aquele era o elfo mais esquisito que já vira, e ele realmente não tinha uma beleza tão sublime quanto os outros.
— Preciso voltar para os meus deveres. Com licença. – Comuniquei e desviei de sua atenção por um segundo.
Contudo, no momento seguinte senti suas mãos puxarem-me pela cintura e uma delas tapar a minha boca antes que eu conseguisse gritar. Ele era rápido, astuto e muito forte. Seus olhos ainda mais brilhantes e mais amarelados pareciam de uma cobra peçonhenta me encarando e sua barba era pontuda e pinicava.
— Tão escorregadia. Não me agrada mulheres assim. Aprenda a ser mais delicada com um ser superior, senhorita. – Ele sussurrou, apertando sua mão em minha boca a ponto de doer o atrito entre meus lábios e meus dentes. – Afinal estás aqui para servir-nos, não é?
Tentava gritar entre seus apertões, mas não conseguia. Desesperada, chutei sua perna, mas ele mal estremeceu de dor.
— Nem tente. – Seu sorriso trincado aparecera novamente. — Venha comigo, quero ser mui bem servido por sua beleza.
O estranho me arrastou pela areia enquanto eu ainda tentava gritar em vão. O que ele queria comigo, afinal? Pensava que elfos não pudessem se deitar com ninguém a menos que houvesse consentimento. Será que aquela informação era irreal?
O ruivo de cabelos flamejantes me arrastara até o fim da praia com grande pressa, jogando meu corpo dolorido por causa da luta que eu travei contra ele na tentativa de fugir na areia entre duas grandes rochas. Rasgou um pedaço de minhas vestes e enfiou dentro de minha boca, amarrando outro pedaço depois em volta da minha cabeça. Estava impossibilitada de gritar, e me debatia contra o corpo forte dele, que me segurava como se eu não pesasse nada.
Aquele era o meu fim, tinha certeza daquilo. Este homem nada mais poderia querer comigo a não ser se deleitar com o meu corpo e, possivelmente, se livrar dele no mar sem deixar vestígios do seu crime.
Chorava incessantemente desesperada, sem ao menos poder suplicar pela minha vida e pedir piedade. Enquanto ele amarrava as minhas pernas com um pedaço do meu próprio vestido, tentei chutar-lhe a face, mas em vão. Era muito mais esperto do que parecia e certamente já tinha alguma experiência com aquele tipo de coisa. Estava ferrada. Seria mutilada, escorraçada e morta por um ser nojento e sem escrúpulos.
— Estava toda a noite louco por um momento a sós. – Ele sussurrou diante meu pescoço enquanto amarrava minhas mãos neste instante. – Venho observando-a desde o início. És a humana mais graciosa que já vi em minha vida. Que pele perfeita, que perfume.
Senti meu peito arder em meio aos gritos abafados pelos panos, perturbada em busca de alguma ajuda. Apesar dos elfos terem audição aguçadaa, sabia que o som da música os impossibilitaria de se atentar ao seu redor, ainda mais saindo tão baixo, tão inaudível.
— Pode chorar, menina. – Ele limpou as lágrimas que desciam pelos meus olhos com a sua língua deslizando pelo meu rosto. Senti nojo e repulsa, a ânsia estancada em minha garganta forçadamente para eu não vomitar e me sufocar. – Eu gosto assim mesmo. Trêmula, desesperada.
Mal podia acreditar que uma situação dessas poderia deixar alguém excitado. Senti seu corpo pesado em cima do meu, sufocando-me o peito e me deixando paralisada.
Neste momento nada passava em minha cabeça além do choro torrencial que tive ao negar Thranduil o cumprimento de sua proposta. Ele estava ali tão perto. Havia me negado a me deitar com ele por não querer que minha primeira vez fosse daquela maneira sem amor, sem algum sentimento de carinho ao menos, e neste exato momento perderia a minha pureza sendo forçada por alguém que mais parecia um demônio. Chorava por causa das minhas péssimas escolhas enquanto sentia o seu bafo de vinho, percebendo ele rasgar o meu busto neste momento com tanta sede que o vestido cedeu em apenas um puxão. Meus seios pularam para fora e foram apertados com força, os bicos beliscados e a dor lancinante subiu. Gritei abafada novamente, sentindo a alma querer ceder antes que o resto acontecesse, suplicando para mim mesma me deixar morrer antes do ato final.
O vestido azul fora retirado até a cintura, mas de repente ele parara. Suas orelhas mexeram curiosas para o lado e os seus olhos luminosos buscaram alguma coisa que parecia se aproximar.
O elfo se levantou num pulo e olhou todo o seu redor, ouvindo algo que era imperceptível para mim. Sabendo que possivelmente tivesse alguém por perto, tentei gritar a todos pulmões, produzindo apenas um ruído fraco.
— Pare com isso. – Senti a palma do infeliz ir de encontro com minha face. Minha cabeça rodou por um instante, notando a dor tomar conta dela repentinamente. Não feliz o bastante, o elfo desferiu outro golpe em mim, desta vez em meu peito desnudo, me fazendo perder totalmente o ar. Aquilo era o meu pior pesadelo se tornando realidade. Nunca em toda a minha vida imaginei que alguém fosse capaz de fazer algo assim, se até mesmo orcs não o eram.
A visão estava prejudicada, mas quando o ar foi se recuperando, vi aquele animal rodar sobre a pedra que nos escondia em busca de alguma coisa. Tentei me desamarrar, mas estava tão apertado que mal consegui mexer as mãos. Ele voltara furioso, encarando-me ali quase desmaiando de medo e dor.
— Não vai demorar nada. – Ele disse, tentando retirar o resto que faltava do vestido. – Vamos, menina, me ajude. Assim a sua partida será mais rápida.
Estava tentada a ceder na esperança de que terminasse logo. Assistindo suas mãos adentrarem meu intimo e me tocar, senti as batidas do meu coração aumentarem tanto a ponto de doer. Pedi perdão intimamente aos meus pais antes de ver meu corpo desfalecer e a minha alma ir de encontro com o desconhecido e, neste exato momento a imagem do rei aparecera clara em minha mente de novo, voltando a meses atrás quando nos beijamos pela primeira vez. Sua mão parada na porta me fitando, esperando que eu dissesse algo. Seus lábios indo de encontro com os meus, o gosto do seu beijo... que de repente virava o gosto dos lábios de Kirkel, numa imagem confusa que me fizera chorar ainda mais.
O elfo levantou-se bruscamente de novo, olhando ao redor praticamente certo de que havia algo por ali. Por um segundo meu coração se aliviou quando suas mãos pararam de tocar o meu corpo.
Eu olhava de um lado para o outro na esperança de que houvesse mesmo alguém por perto, para quem sabe o elfo estranho desistir. Eu preferia morrer afogada no mar do que ser tocada por ele, e se ele fosse esperto faria isso antes mesmo de ouvir algo se aproximando de fato.
Contudo tudo mudara de uma hora para a outra. De repente vi o ruivo cair entre minhas pernas, morto. Uma espada estava atravessada em seu coração, que por pouco não me atingira também quando ele veio ao chão. O seu sangue jorrava entre a minha pele e a dele quente, manchando a areia branca e o vestido azul abaixo de si. Não só tinha alguém por ali como estava ciente do que acontecia, pois não relutou em matá-lo antes de ouvir alguma coisa vindo de sua boca em defesa.
Poucos segundos depois, a cabeleira loura do rei da Floresta das Trevas apareceu. Sua feição estava severa, seus olhos faiscando de ódio. Me fitou ali, nua e amordaçada, desesperada em lágrimas e possivelmente roxa por causa dos maus tratos.
— Pelos céus. – Ele vociferou, tirando o imundo do meio de minhas pernas. Thranduil cuspiu em seu corpo e retirou a sua espada, sentindo tanto ódio e nojo dele quanto eu.
Retirou as mordaças de mim com cuidado para não me machucar mais, assistindo minhas lágrimas caírem torrenciais e sem freio. Quando o pedaço de pano saíra de minha boca eu o abracei, pedindo socorro nua em seus braços, gemendo seu nome agradecida.
— Está tudo bem. – Sussurrou terno para mim, me cobrindo com a sua capa prateada que retirara de si. – Acalme-se, por favor. Está tudo bem agora.
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