A Única Exceção do Rei
4 Na Floresta
Notas iniciais
Na hora do jantar, papai vinha trazendo as costumeiras maçãs para nós quando deparou-se com as compras que fiz com o dinheiro que Kirkel me deu. Uma moeda de prata dava para comprar o suficiente para uma família de cinco pessoas comer, com moderação, mas ainda assim bem, por pelo menos cinco dias. Seus olhos enchem-se de satisfação todas as vezes que Kirkel tenta lhe agradar com algo. Sabe que aquele moço de cabelos castanhos bem claros seria muito bem-vindo à família, e gostaria que fosse o mais rápido possível.
— Kirkel também deu uma moeda de prata para Mel guardar, para comprar o vestido do casamento. – Mirph disse cheia de inveja.
— E provavelmente dará muito mais até o casamento. – Matilda completou.
Senti meu rosto corar e uma vergonha súbita surgir com aquele assunto. Por mais que eu tentasse me esquivar, ele sempre aparecia pra me fazer sentir ainda mais culpa por não estar apaixonada por Kirkel. Afinal, ele era mesmo o melhor que eu conseguiria.
— Isso é muito interessante! – Papai emitiu feliz. – Além de tudo, vejo que ele mesmo pagará pelo casamento de vocês e me livrará da obrigação.
— Soube que ele já mandou construir alguns móveis novos para o quarto de vocês. – Dessa vez mamãe pronunciou-se. – Tudo de primeira! Terá uma bela casa, minha filha.
Fingi um sorriso. Cada dia que se passava, mais os feitos de Kirkel eram elogiados em minha casa.
Ele era um grande amigo, disso eu não discordava. O conheci quando tinha treze anos, quando eu trabalhava na casa de sua avó na tentativa de sobrevivência. As coisas não iam bem em minha casa, e Kirkel aparecera para oferecer ao meu pai um emprego nos campos depois, ao qual mamãe também quis. Ele me vira ser repreendida por um comprador de joias uma vez quando eu tentava vender os restos que minha avó deixara de herança, e defendeu-me, levando-me até minha casa e percebendo que as coisas não iam bem para aquela família que ainda aparentava ser uma das mais ricas da cidade por causa da imensa casa.
Mais tarde, com o convívio, numa noite de lua cheia e festança na cidade sob o sofá velho e rasgado de minha sala quando não havia ninguém em casa, eu o beijei. Sentia uma imensa vontade de descobrir como era ser beijada, como nos contos de fada que sempre lia, e cometi a imensa burrice de roubá-lo um beijo.
E ele se apaixonou por mim. Ou, talvez, já estivesse apaixonado e com meu ato teve a coragem de se declarar.
Meus olhos fixavam num ponto qualquer. Meu pai dizia algo, mas eu não escutava por estar com os pensamentos em outro lugar.
— Não deve confrontá-lo dessa maneira! Imagina se ele lhe expulsa? Não há quem possa lhe trazer de volta. – Ele estava com o rosto vermelho em fúria.
— O quê? – Perguntei sem entender o que estava acontecendo ali.
— Estou falando sobre o que aconteceu! Como pode ser tão imprudente? Se Kirkel não chega a tempo, você seria expulsa da cidade.
Suspirei. Aquele assunto já tinha sido esquecido por mim.
— O mestre exagera. Foram apenas alguns livros infantis. – Respondi.
— Não quero que faça mais isso. – Papai bateu com os pulsos na mesa. – Está me entendendo? A partir de agora, será disciplinada! Obedecerá, ou será expulsa dessa casa.
Revirei os olhos com a ameaça. Nunca fui de obedecer, de ficar calada perante as injustiças do mundo. Não me admira ter poucos amigos, e entre eles o Bard e o Kirkel, que são revolucionários prontos para atacar a qualquer momento. Que não se calam perante o mestre, e que protestam a falta de qualidade de vida dos cidadãos da Cidade do Lago. Porém, eu também não gostava de contrariar meu pai – pelo menos em sua frente -, e sempre concordava com suas ordens, mesmo que não as obedecesse.
Fiz que sim com a cabeça, e voltei a fixar meus olhos num ponto qualquer.
A vida tem muitas regras. Ou você as aceita e vive do jeito que lhe impõem, ou tenta fazer as suas próprias e vive do jeito que dá. E eu odiava saber que já planejam toda a minha vida com Kirkel e seus benefícios.
No quarto, retirei todas as roupas da cômoda, e com um lençol, embrulhei-as. Minha mente me permitia fazer as coisas sem analisar as consequências, pois sabia que eu não as temeria mesmo sendo elas quais fossem.
Peguei a moeda de prata que Kirkel me dera e esperei até todos se acomodarem em seus quartos e dormirem.
Por volta de meia noite, desci as escadas com cuidado. Fui até a porta de entrada tentando localizar o pequeno barco de madeira que meus pais usavam. Tomei-o, tendo o cuidado de não fazer movimentos bruscos e barulhentos.
A noite estava fria. Aqui e ali, via-se algumas pedras de gelo na água, e a névoa não ajudava muito. Não era experiente em navegar sozinha, e muito menos à noite, porém eu estava disposta a sumir. Nem que fosse por um tempo, até botar meus pensamentos no lugar, e talvez aceitar a ideia de que me casar com Kirkel é a melhor solução de meus problemas.
Desembarquei e amarrei o barco, com muito cuidado para não fugir do local, e deixei um bilhete dizendo a quem pertencia. Não escrevi mais nada. Gostaria de deixar algo para Kirkel, porém achava que seria ridículo. Estou mesmo fugindo de um futuro que não aceito, de um casamento que me consumiria por inteira.
No imenso pasto perto das plantações cavalos ruminavam e descansavam em paz. Sabia o quão era errado pegar um deles, porém eu precisava de algo para me mover que não fossem apenas as pernas.
Rubel era o garoto que tomava conta dos animais, e sempre estava de guarda. Ele era gentil, já o conhecia por meio de Kirkel.
— Rubel. – Chamei-o, despertando sua visão para focar a garota que se escondia na escuridão.
— Melrise? O que faz aqui a essa hora? – Ele perguntou-me.
— Não posso dizer, mas eu tenho um pedido. Preciso de um cavalo, e só posso lhe pagar uma moeda de prata pelo aluguel. Prometo que o devolverei. – Respondi, deixando implícito o tempo pelo qual usaria o animal.
— Não está fugindo, não é? – Ele desconfiou.
— Não. Eu prometo que lhe devolverei o cavalo, e lhe dou a moeda. – Disse, retirando a moeda e entregando-lhe.
— Esses animais são do Mestre. Se precisa de um aluguel, precisaria falar diretamente com ele ou seu assessor.
— Por favor, Rubel. É urgente! – implorei.
Ele olhou-me desconfiado.
— E Kirkel sabe que a noiva dele está por aqui a essa hora?
Suspirei. Aquele papo me traria um bom atraso. Senão, despertar outra pessoa pelo que está acontecendo, caso Rubel não fosse o único cavalariço do local.
— Se não vai me alugar, então eu mesmo o pego! – Ameacei, indo em direção a um dos animais.
— Senhorita, não faça isso. Eles não lhe pertencem!
— Pertencem pelos altos impostos que pago para aquele velho gordo. – Respondi, tomando um animal pela crina.
— Eu não posso permitir. – Rubel aproximava-se, tomando-me pelo braço.
— Se tentar me impedir rasgo minhas roupas e grito alto. Vão achar que está tentando me possuir. – Ameacei.
Rubel fitou-me confuso. Quando percebi que ele não se oporia, montei o cavalo.
— Fique com a moeda. – Ele devolveu. – Porém, eu contarei à Kirkel assim que o sol nascer.
Fitei o moço, apreensiva, mas não me importava. De qualquer forma, Kirkel saberia da minha partida.
~***~
O frio tomava conta da floresta. Não sabia porque, mas aquele local era ainda mais gelado do que as águas da Cidade do Lago. Demorei algumas horas até perceber que estava um pouco mais da entrada da floresta, e tentei me acomodar da melhor maneira possível.
Nunca ouvi histórias sobre o lugar em si, apenas sobre o reino de Thranduil que se escondia no meio das árvores. Homens não ousam pôr o pé aqui, afirmando que o rei é severo demais quando se trata de suas terras e suas posses, porém eu precisava de uma pausa.
Juntei um pouco de lenha e tentei fazer uma fogueira. Havia uma trilha que eu tratei de não perdê-la de vista. Deixei o cavalo descansar, prendendo-o em uma árvore perto da fogueira, que acendi com muita dificuldade.
Surpreendentemente o fogo alastrou-se, e a luz tomou conta de todo o local. Parecia algo mágico, as chamas brilhavam mais do que o normal, e suas faíscas eram como fogos de artifícios caindo dos céus. Nunca vira nada mais estranho em toda a minha vida. Provavelmente aquelas árvores tinham algo diferente dentro, que ocasionava aquelas imensas chamas.
Distraí-me olhando para elas. O cavalo deitara, e parecia também hipnotizar-se pelas chamas. Os ventos que passavam por entre as árvores não abalaram a fogueira, foi quando algo dentro de mim despertou-se. Aquilo era muito estranho, e meu corpo anestesiava-se aos poucos.
Um barulho estava chegando perto. Algo se mexia entre as folhas e vinha em minha direção. Senti um calafrio percorrer a espinhas, e foi quando percebi a tamanha ignorância de minha parte. Estava numa floresta e era óbvio que haveriam animais nela.
O mais rápido que pude tratei de apagar a fogueira. A única luz disponível voltara a ser a da lua que era parcialmente encoberta pelas árvores.
Desamarrei o cavalo, e tentei ajudá-lo a ficar de pé, este que protestava em cansaço. Provavelmente também sentia seu corpo parcialmente anestesiado e duvidei que ele não ficara sonolento sob as chamas da fogueira, e parcialmente hipnotizado, como eu.
Um barulho de garras aproximou-se e um grunhido despertou o cavalo, que se levantou assustado. Subi nele, mirando a trilha para sair daquele local. Porém o animal vinha de lá, forçando-me a virar e adentrar ainda mais pelo reino da floresta.
Não é à toa que se chama Floresta das Trevas – pensei. Em pouco tempo dentro dela, e já me assustava muito mais do que em toda a minha vida.
O cavalo corria, e percebi o animal aumentar seus passos também. Ouvia-o me seguir agora, me fazendo temer pelo que estava por vir. Talvez esbarrasse em outros animais pelo caminho, mas entre voltar e encarar aquele maldito animal e me surpreender com outro, eu preferia continuar fugindo.
Bati em diversos galhos de árvores, estes que me arranharam pelo corpo todo, incluindo meu rosto que ardia à medida que o cavalo continuava. Por não haver sela, quase caí do cavalo por diversas vezes, forçando-me a agarrar em sua crina e o animal protestar pela dor a cada puxão.
A luz da lua ia sendo cada vez mais diminuída quando adentrava mais a floresta. Em pouco tempo não enxergava nada e apenas podia contar com os instintos do cavalo, que também fugia da criatura.
Percebi que o barulho vinha das árvores. O cavalo parou desnorteado sobre onde deveria ir, e eu não sabia como guiá-lo também. O farfalhar das folhas fazia meu coração acelerar ainda mais pela adrenalina e medo do que estava por vir. Um baque na árvore acima de mim revelou que o animal já estava pronto para me atacar, então fui forçada a dar galope ao cavalo para o desconhecido.
Uma clareira logo à frente, bem pequena, revelou-se. Segui em frente até alcançá-la, e floresta por todos os lados foi o que me apareceu nela, porém senti um peso enorme sair dos pulmões assim que o ar que vinha de cima bateu. Não eram só os animais estranhos que fazia daquela floresta um péssimo local, mas também o ar carregado e as substâncias alucinógenas daquelas árvores densas e estranhas.
O animal não desistira de continuar a me perseguir, e em poucos segundos pude ver que ainda corria perigo. Suas enormes patas eram como pinças mortais que agarravam suas presas e as deixavam sem escapatória. Em sua boca, mais garras assustadoras, e pude perceber seu corpo ser revestido de algum material muito forte.
Eu não temia as aranhas que dominavam o sótão de casa, porém aquela era a criatura mais assustadora e horrenda de todo o mundo. Ela vinha correndo talvez rápido demais até para meu cavalo, incansável e sanguinolenta, fazendo-me ter um súbito ataque de medo e forçando o cavalo a seguir para dentro da floresta outra vez.
Senti a escuridão tomar conta de meus olhos, o cavalo corria outra vez seguindo seus instintos. A aranha tomara as árvores outra vez, e em pouco tempo me alcançaria.
Contudo, ouvi mais barulho vindo delas, estes que não pareciam ser provocados pelo vento. Mais aranhas vinham, com toda a certeza.
Foi como se minha vida estivesse passando pelos meus olhos no meio do cansaço e da escuridão, tentando lutar pela minha vida em vão.
Meu cavalo grunhiu quando suas pernas foram atingidas, e este veio ao chão, me jogando para longe. Senti minhas costas irem de encontro com um galho e logo após cair no chão, alastrando toda a dor pelo meu corpo. Os passos ao lado eram diferentes das enormes pinças das aranhas, eram quase inaudíveis, mas eram perceptíveis.
Vozes falavam coisas que eu não entendia.
Tentei correr no meio da escuridão, falhando miseravelmente e sentindo meu corpo entregar-se ao chão mais uma vez quando meus pés entrelaçaram-se uns aos outros.
Senti braços segurarem-me com firmeza. Algum Orc? Algum Ogro? Talvez. Se os elfos permitem aranhas andarem livremente por seu reino, por que não tais criaturas?
— O que faz em minhas terras? – Uma voz fria e ao mesmo tempo forte perguntou.
Tentei enxergar do que se tratava, em vão.
— Socorro. – Foi tudo o que consegui dizer antes de desmaiar nos braços da criatura.
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