Notas iniciais
Boa Leitura ♥

O céu clareou em tons de vermelho e laranja diante o denso nevoeiro que pairava a cidade naquela noite. Meus pés se paralisaram em choque por cerca de cinco longos segundos, aos quais me seriam essenciais momentos depois.

Um dragão avançava. As pessoas começavam a gritar desesperadas à minha volta, denunciando a aflição que se apoderava da cidade em busca de salvação.

Apenas poucos metros de pontes sinuosas e entulhos ardentes em chamas separava-me da minha família. Deixei o choque da sanidade me perturbar e corri em direção a minha casa mantendo os olhos na ameaça que avançava.

O dragão era realmente como as histórias contavam; feroz, voraz, era fogo e morte e tão grande que o céu parecia pequeno diante dele.

O caminho sinuoso daquelas valas podres tornou-se o maior dos obstáculos que já passei. O desespero tomou conta de cada poro do meu corpo enquanto minha consciência se esforçava para raciocinar. Corpos humanos boiavam sobre a água escura e gélida do lago tornando-o ainda mais tenebroso e horrendo. Nunca vira em toda a minha vida algo tão triste e medonho. A todo momento desviava-me das pessoas com queimaduras monstruosas em sua pele que tentavam a todo custo se proteger das rajadas contínuas do fogo que aquele maldito Smaug disparava feroz. Outras puxavam a barra do meu vestido implorando-me por ajuda enquanto agonizavam sobre o chão de madeira umedecida pela água e por sangue. Escorreguei em poças sangrentas e tropecei em alguns corpos antes que pudesse chegar a algum lugar para proteger-me. Smaug avançou no céu sobre mim e disparou suas chamas contra mais casas e eu pude sentir o bater de suas asas tão perto.

Diante daquele terror eu apenas conseguia pensar em minha família e implorei a mim mesma que estivem bem, que percebessem o que estava acontecendo antes que fosse tarde demais.

Escondida embaixo de um muro de pedra caído, olhei atenta ao meu redor após o fogo cessar um pouco. Estava quente como um inferno e os pelos de meus braços estavam chamuscados e minha pele ardia, porém ainda não havia me queimado até encostar de leve meu braço no muro quente que me abrigava.

Próximo a mim, vi Bard correr com arco e flecha em suas mãos como se quisesse alcançar o animal que sobrevoava ameaçador. Ele só poderia estar louco! O que faria com aquelas frágeis flechas? Temi pela vida de meu amigo, mas precisava continuar até meus pais. Eles estavam velhos e cansados já, precisavam de ajuda para sair dali.

Enquanto corria, juntando todas as minhas forças para continuar mesmo estando desesperada e morrendo de medo, meus pensamentos foram até Kirkel. Desejei em meu íntimo que estivesse bem, são e salvo, assim como meus pais e minhas irmãs.

Droga! Nunca havia reparado no quão difícil era chegar até minha casa, aquelas ruas podres se esvaíam sob meus pés e eu precisava tomar cuidado para não cair no lago gelado.

Ao finalmente me aproximar, vi a cena mais apavorante e desesperadora de toda a minha vida! O barco de Kirkel estava ancorado perto de minha casa que flamejava no pior incêndio de toda a cidade. A casa era muito grande e velha, havia muita madeira e papai sempre zelou para que ela permanecesse o mais seca possível. Da janela, pude ver Mirph e Matilda gritarem desesperadas ao lado de meus pais, que tentavam socorrê-las sem muito sucesso. Não pude deixar meus pés paralisados um segundo sequer diante aquela cena, eu precisava salvá-los!

— Fiquem onde estão! — ouvi Kirkel gritar para meus pais um andar abaixo antes que eu pudesse chegar à porta. Droga! Ele também estava dentro da maldita casa. Corri até a entrada e vi que era impossível invadir, todo o andar de baixo já estava consumido pelo fogo e fumaça.

— Vocês terão que pular. — Ouvi Kirkel gritando para eles, já no andar de cima. — Pulem no lago. Agora!

Minhas irmãs gritaram ainda mais alto, o lago estava cheio de blocos de gelo e eles se machucariam ao se chocar neles. Fui até ele com o remo do barco de Kirkel e empurrei alguns blocos, dando passagem para eles pularem em segurança.

A parte traseira da casa cedeu com um estrondo ensurdecedor e poderia jurar que meu coração parou enquanto assistia a poeira se dissipar. Por um momento, achei que havia perdido todos aqueles que amava de uma vez. Porém, Kirkel reapareceu na janela do andar que por pouco ainda não viera ao chão com Mirph no colo, se debatendo enquanto chorava em sua aflição.

— Pulem! — gritei com toda a minha força. Nossa casa caia toda a sua estrutura como se fosse feita de areia. Kirkel jogou Mirph e em seguida pegou Matilda no colo.

E eles pularam juntos enquanto a casa terminava de ceder, e junto com ela meus pés vacilaram e cai ao chão como jaca podre, sentindo dor se espalhar por minhas pernas quando senti os joelhos se chocarem no piso de madeira.

Meus pais! Onde estavam eles?

Quando Kirkel submergiu do lago, tremendo da cabeça aos pés de frio e medo, abraçou-me acolhida no chão enquanto eu assistia a casa morrer. Mirph e Matilda se apoiaram atrás de nós, desviando seus olhares da casa despedaçada e flamejante.

— Pensei que fosse tarde demais para você. Não a vi e entrei em desespero. — Kirk disse quase num gemido. — Sinto muito.

— Meus pais... — choraminguei baixinho, sabendo que o corpo de ambos queimava junto à casa.

— O cômodo cedeu em cima deles. — Kirkel explicou enquanto tentava controlar seus soluços. — Me perdoe por não conseguir salvá-los. Eu os pedi que pulassem, juro que tentei persuadi-los.

Meu rosto foi tomado por minhas lágrimas, meu peito ardeu como se o próprio fogo o consumisse. Meus pais estavam ali, seus corpos sendo incendiados e reduzidos a cinza!

Maldito dragão! Malditos anões, maldito seja o senhor dessa cidade que os acolheu e os ajudou.

E Thranduil... desgraçado! Não serviu nem para mantê-los presos e longe dessa maldita montanha. Rei inútil. Aquele coração de pedra cheio de ódio deve ter amolecido.

— Precisamos sair daqui. — Kirkel alertou-nos. O dragão ainda avançava sobre a cidade insistente e espalhava seu terror sem um pingo de dó.

Meu noivo pegou-me em seus braços e me colocou no barco sem maiores dificuldades, nesses poucos segundos fui uma marionete em suas mãos e mal senti o meu físico. Mirph e Matilda entraram com seus corpos tremendo até o dedo do pé e se encolheram ao meu lado enquanto Kirkel remava para longe da cidade. O lago estava repleto de corpos flutuantes, muitos desses eram crianças e mulheres. Escondi meu rosto em minhas mãos, não queria identificá-los e sentir ainda mais a perda desse fatídico momento.

Já longe da cidade do lago, quando juntei minhas forças de volta e ajudava Kirkel a remar mais rápido, minha irmã mais nova que observava atônita a visão do fogo consumindo as casas gritou:

— Olhem, olhem! O dragão está caindo...

Parei de remar e olhei para trás e vi o dragão que surgiu impetuoso nos céus cair dele sem seu vigor ardente de vida. Observei completamente paralisada quem era fogo e morte, tornar-se o próprio gelo sob seu óbito, porém eu sabia que a fama de Smaug permaneceria como uma lenda, ainda mais depois de destruir uma vila inteira depois de anos adormecido.

Já era dia quando nosso barco atracou nas margens do rio e lá as pessoas sobreviventes ainda se encontravam apavoradas. Desci para a terra seca e lá fiquei, apoiando meu corpo em uma árvore e deixando que tremesse de medo e dor enquanto ele queria. Kirkel ajudava minhas irmãs a saírem do barco, era incrível como ele era forte quando precisava e sensível ao mesmo tempo. Detive meu olhar nele, acatando sua imagem doce e gentil dentro do meu coração que eu não sabia como ainda pulsava, já que a vida tratava de me fazer sofrer beirando à morte a cada cinco segundos.

Suspirei profundamente e tentei afastar minhas lágrimas e reorganizar meus pensamentos. Meus pais morreram graças aqueles malditos soberbos. Era óbvio que um bando de anões e um minúsculo hobbit não conseguiriam domar um dragão sozinhos. O que estavam pensando quando deixaram aqueles malucos irem para lá? Certamente estavam com o coração cheio de cobiça para não conseguirem enxergar a verdade.

Tolos!

Mas isso não iria ficar assim. Tinha plena certeza de que isso era apenas o início de algo muito maior. E eu não podia perder meu tempo apenas observando esses insanos tomarem decisões absurdas sem abrir seus olhos, mais pessoas se machucariam e tenho plena certeza de que a vida de muitos ali ainda estava ameaçada. E eu não vou ficar esperando algum louco tomar mais decisões absurdas sobre mim e aqueles que eu amo. Não mais!

Observei o que as pessoas faziam ao meu redor. Os que conseguiam manter a sanidade distribuíam lençóis secos e túnicas e outras atavam as queimaduras dos mais feridos. De onde saíram tais mercadorias? Corri atrás da senhora dos lençóis e consegui alguns deles, não eram tão quentes, porém era melhor que morrer de frio. Matilda e Mirph ainda tremiam, suas poucas peças de roupa viraram cinza, e provavelmente as minhas que já estavam na casa de Kirkel também. O estado era de calamidade e as perdas, bem... ainda não era possível saber exatamente quem nos deixou, mas intimamente desejava que meus poucos amigos estivessem bem, sãos e salvos.

Perguntei a senhora que distribuía os lençóis quem os disponibilizou, e, com apenas um gesto seu, vi que eram os elfos da floresta. Agradeci a ela e quando dei meia volta me deparei com Legolas conversando com Bard. Alegrei-me ao ver que ambos estavam bem e meu coração encheu-se de orgulho ao perceber que Bard conseguira matar aquele maldito dragão. Queria me aproximar, fazer algumas perguntas e exigir algumas respostas, mas o clima entre eles não parecia muito bom, então joguei um dos lençóis por cima da cabeça e cobrindo metade do rosto caminhei lentamente até passar por trás e ouvir uma parte da conversa:

— Para onde vocês irão? — Perguntou Legolas, seu semblante parecia cansado e seus roupas estavam um pouco desgrenhadas.

— Para o único lugar que temos. — Disse Bard desviando os olhos para a direção da montanha, trajetória esta que Legolas também acompanhou.

Valle com certeza era o único refúgio que tínhamos, pois certamente o elfos não acolheriam humanos em Mirkwood, Thranduil não aceitaria. Se o tal anão Thorin escudo de carvalho mantivesse sua palavra pelo menos nós estaríamos livres da miséria. Levaríamos tempo para nos reerguer, mas a base nós teríamos e novamente seria sob os muros da cidade abaixo da Montanha Solitária. Mas por que os meus instintos me incomodavam e sopravam em meus ouvidos de que aquilo não seria tão simples assim?

Entreguei os lençóis a Matilda e pedi que ela e Mirph permanecessem onde estavam por mais um tempo. Ela encarou-me com um pouco de medo em seus olhos, mas assentiu.

Legolas saíra do lado de Bard quando finalmente decidi me aproximar. Por mais que eu o admirasse e fosse eternamente agradecida a ele pelo que fez por mim, me sentia desconfortável com sua presença e com as lembranças que ele me proporcionava.

— Bard! — chamei sua atenção antes de me aproximar.

— Mel! Céus, pensei que também a havia perdido. — Declarou aliviado enquanto me abraçava. — Está bem? Algum machucado? Onde estão seus pais, suas irmãs? E Kirkel?! Por favor, me diga que ele está bem...

— Meus pais não conseguiram fugir... — respondi com os olhos lacrimejados. — Os outros estão bem, Kirkel está pegando alimento para nós.

— Sinto muito, não consegui matá-lo antes que destruísse toda a cidade. — Ele lamentou e me abraçou novamente, limpando algumas gotas que desceram em meu rosto.

— Mas você foi muito mais valente e eficiente do que todos os outros. Bard, estou imensamente orgulhosa e agradecida a você. Sei que todos estão.

Bard agradeceu com um leve aceno de cabeça.

— Vamos para Valle? — questionei, direcionando o assunto para aquilo que queria inicialmente. — Não acha que deveríamos procurar outro lugar? Algo me diz que aqueles malditos anões não nos acolherão de bom grado como prometeram.

— Algo me diz isso também, porém é o único lugar que temos. E é de nosso direito, Mel. Brigaremos pela cidade e pela nossa parte no tesouro, se necessário, já que perdemos tudo o que temos graças a eles.

— Por que não me sinto segura sobre isso?

— Porque você é inteligente e bastante esperta. — Bard elogiou, mas seu semblante esbanjava preocupação. — Veja, por enquanto estou no comando e farei as negociações, já que o velho gordo que chamávamos de Senhor está morto — não me espantei com tal declaração, já era de se esperar. — Hospedei alguns anões em minha própria casa, um dos herdeiros estava quase morrendo. Acredita que nisso? O restante dos anões partiu sem seus herdeiros, sem ao menos se preocuparem se o mais novo ficaria bem. Mas isso não é o pior! Orcs estão atacando, eles já devem saber a esta altura que o tesouro está desprotegido e provavelmente virão atrás. E há Thranduil, eu não sei exatamente o que esperar dele, mas algo me diz que irá cobrar o seu valor também.

Claro, porque Thranduil era tão soberbo quanto o falecido senhor da cidade e dava valor a joias e a riqueza.

— Não deveríamos nos colocar mais no meio disso. — Cochichei. — Estaremos correndo riscos, e já houveram muitas perdas. No final pode ser que não haverá mais população para usufruir do tal tesouro.

— Mas é tudo o que resta para este povo. Não há alimento, roupas, teto... Não há mais esperança e a cidade está completamente destruída.

Suspirei e tentei controlar meu nervosismo. Ultimamente eu tenho que fazer isso muito frequentemente, mas Bard tinha razão.

— Mel, é tudo o que nos resta agora. — Ele completou, me olhando firme.

— Eu sei... claro. — Assenti. — Iremos para Valle então pleitear por aquilo que nos pertence.

Bard sorriu diante minha aprovação.

— Venha comigo? Quero você e Kirkel ao meu lado para as negociações. — Ele pediu, e me senti honrada pelo seu convite. — Está na hora de representarmos o nosso povo, aquele ao qual brigamos por seus direitos há anos.

Notas finais
Não sei se vcs lembram bem da Melrise no início da fic, mas vamos falar um pouco sobre ela: 1 - ela, assim como Bard, é uma rebelde. Kirkel também é, e os três são distribuidores das riquezas que o senhor da cidade sugava. 2 - ela brigava pelo direito do povo de adquirir educação, roubou livros da biblioteca e os distribuiu quando ela foi fechada. 3 - os melhores amigos dela são apenas Kirkel e Bard. 4 - ela acredita na liberdade das pessoas e no pensamento crítico. São essas as características que serão relembradas pelos próximos capítulos. E, quem ainda estiver por ai, grande beijo pela paciência Até o próximo!