A Última Valsa

1 A Última Valsa


A Última Valsa

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Na calada da noite entre as árvores de algum lugar os pés bailavam delicadamente levando ao corpo a bela harmonia. Os cabelos loiros flutuavam sobre o vento gélido contornando-lhe o rosto de menina. Os lábios rosados em formato de maça faziam soar da pequena garganta a voz adocicada que compunha o ritmo de notas clássicas de uma valsa da meia noite.

Dava pequenos rodopios seguidos de saltos sobre as folhas secas que forravam a grama, e amassavam abaixo de seus pés.

A luz da lua era como o seu sol, bronzeava-se de sua frigidez e respirava o ar que congelava a copa das árvores. O rosa de seu vestido era o único que se ressaltava dentre aquela escuridão sombria. O tecido fino parecia dançar em seu corpo branco, pálido, até o momento em que as mãos o tocavam num ato de reverência ganhando a graciosidade dos grandes bailes da nobreza inglesa.

Em mais um leve rodopio juntou as mãos ao alto feito uma bailarina. Era lindo. Encerrou-se pausando os pés. Fechou os olhos oferecendo a mão como se houvesse um companheiro para a continuação de sua valsinha. Foi aceito por um toque frio e macio.

O pequeno coração pulsou mais intenso em seu peito. Os olhos abriram-se exibindo a vivacidade de um verde ávido.

O rumorejar das árvores abrandou-se tomando a alma do lugar num canto erudito. Belíssimo. O ventou bailou com as folhas ao nosso redor, rodopiando como casais da realeza ao som de violinos.

Olhamo-nos. Sua pele alva destacava os lábios vermelhos como o sangue de uma caça recém-morta, me dando a incontrolável gana de senti-los.
Seu olhar me causava espasmos e um súbito descompasso do órgão que batia em meu peito, apesar de ser triste e dócil. Eram negros como a noite, mas vivos como o dia. Indescritíveis.

Num sorriso ao cair de uns fios em sua testa, puxou-me para o início de uma valsa.

Vozes suaves sussurravam poesias junto ao vento em nossos ouvidos. A vida parecia dançar ao ritmo das árvores.

Seus pés bailavam levemente dando a sensação que flutuavam. As mãos os acompanhavam lindamente com a delicadeza do mover perfeito dos corpos, tinham a beleza da dança.

Os cabelos loiros voltaram a esvoaçar desenhando-lhe a face. Os lábios sussurravam melodicamente as notas de uma valsa. O tecido fino de sua veste pairava sobre o ar acompanhando o perfume lhes cercavam.
Sorriam a cada passo executado na perfeição da orquestra de vozes. Divino.

A luz do sol retornou para fazer morrer a escuridão. Finos raios transpassavam nos espaços entre as folhas dando a claridade e o prenúncio de um dia bonito.

As vozes se acalmaram junto com a magia da noite. E num beijo ele se foi, silenciando a minha voz e pausando a dança de meus pés.

Deu-se o fim a última valsa.
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