A Última Seção À Esquerda
1 Prólogo: Caçador ou Caça?
Caçador ou Caça?
— Atira Rick! — esbravejou Joseph vendo que o novo companheiro de caça estava com o alvo na mira. Era uma chance em um milhão, dada a noite fria e gelada, onde a gélida e intensa névoa sobre a região era só mais um dos grandes empecilhos para aquela caça. E pela agilidade do urso que perseguiam, que perambulava entre arbustos e galhos cheios com avidez, o sucesso daquela missão era bem improvável. — Atira logo! Vai acabar o perdendo!
E foi o que aconteceu. O jovem rapaz dos 23 anos – cujo companheiro tinha quase que o triplo da sua idade – estava tão tenso em sua primeira caçada que suas mãos trêmulas nem coragem tinham para apertar o gatilho da gigantesca espingarda que trazia consigo. O urso sumiu em meio às árvores e Joseph revirou os olhos para o companheiro.
— Desculpa... Ele fugiu. — Rick disse, com a garganta meio entalada.
— Mas claro! Com você nessa moleza ele deve ter ido fazer tricô! — Joseph, aos bufos, passou pelo menor e o empurrou pra trás, como se quisesse tomar a deixa para mostrá-lo como se caça um urso de verdade. Retirou das mãos do garoto iniciante a espingarda e deu-o a pequena colt que até então trazia consigo. Então, fitou-o brevemente antes de seguir para onde o animal foi quando fugiu. — Me siga e vê se aprende algo!
Rick, engolindo em seco, assentiu com a cabeça e pôs-se ao encalço do veterano. Enquanto observava Joseph atento à mira da arma, vasculhando cada arbusto ao arredor deles, tentava arrumar coragem para esclarecer – ou pelo menos tentar – todas as suas dúvidas referentes aquela ocasião, mas de modo a não fazer o parceiro lhe dar um tiro por estar mais atrapalhando que ajudando.
— Ei, Joseph... — chamou-o.
— Que foi? — o sussurro do outro não demonstrou muita vontade de bater papo. Ele sequer chegou a desfocar sua atenção do cano da arma.
— Ursos... eles são "assim mesmo"? — questionou.
— "Assim mesmo"? Como assim? — O maior seguia focado em possíveis sinais da localização da presa.
— Tipo, sei lá... Achava que eles costumavam ser gordinhos e cheios de pelos... O que estamos perseguindo parece ter uns 3 metros e patas tão peladas quanto as de humanos.
Joseph então desviou o foco da caça para centrar-se a seu pupilo.
— Da onde tirou isso, garoto?
Rick recuou um pouco, receoso pelo tom impaciente do parceiro.
— É que... Na hora que eu tive a oportunidade de atirar nele, eu o vi por reflexo, mas o vi... Ele parecia ser uma pessoa, uma pessoa bem musculosa, mais pra um "ogro"!
Joseph arfou e revirou os olhos, lançando um olhar que por só já dizia tudo e mais um pouco. Em seguida, deu passos pesados de volta até Rick e tomou num puxão a colt que o dera segundos antes.
— Pare com essa idiotice e volte para o carro! A partir daqui eu termino a caça sozinho!
— Mas... — e ao focar no fundo dos olhos de Joseph, Rick percebeu que o parceiro não estava muito afim de discussão e resolveu acatar a ordem. — Tudo bem.
Rick deu as costas para o velho barbudo e iniciou o trajeto contrário ao que vieram. Antes que se afastasse de forma a perder até mesmo o som do recarregar da espingarda do veterano, ouviu partindo deste as últimas ordens para a noite:
— Quando chegar ao carro, aproveita e amole as facas para quando eu chegar com o nosso urso!
E deu um sinal com uma das mãos, captando o recado. A partir dali, Joseph deu um longo suspiro, recuperando toda a seriedade e atenção para com a sua caça, e seguiu em frente. Tornou a prender os olhos no cano de mira da arma e deu leveza a seus passos, fazendo o menor ruído possível com seu corpo.
— Onde está você, amiguinho? Apareça... Juro que só te darei "um na cabeça" e depois você nem vai sentir quando eu começar a te cortar como um açougueiro fazendo bife...
"AHHHHHHHHHH!"
O grito de terror de Rick ecoou de uma forma tão repentina e drástica por aquela floresta noturna que até Joseph, um homem que não se assustava facilmente, sentiu um aperto no coração. À princípio, desvinculou-se da espingarda para atentar-se mais ao gruído do companheiro. Ele se estendeu por mais alguns instantes, era um grito de pavor misturado com gemidos de dores insuportáveis. Rick podia ser inútil numa caça, mesmo assim o velho caçador via o jovem como um filho que possivelmente viria a se tornar no futuro alguém tão bom de caça quanto ele — após ensinar-lhe tudo o que sabia, claro. Assim, levou dois dos dedos para o gatilho da arma e disparou-se a correr no sentido por onde mandou que o menor fosse.
— Rick! — o chamou. Os gritos dele, porém, já chegavam ao fim. — Rick! Cadê você?!
O homem olhava de um lado para o outro atônito, a cada galho que atravessava com o peito desejava encontrar Rick seguro do outro lado e iria rir quando descobrisse que toda àquela gritaria do parceiro não se dava a nada mais que um rato do gelo. Mas não, sentia que não era isso, sabia intuitivamente que algo muito mais apavorante estava ocorrendo.
Sem ideia de pra onde seguir ou do que fazer, ver as pegadas fundas deixadas por Rick sobre o vasto tapete de neve ao chão da mata foram como uma luz no fim do túnel. Rapidamente, Joseph se manteve em passos rápidos ao encalço das pegadas até que as mesmas foram subitamente interrompidas pelo começo de uma trilha de sangue e uma varredura no meio da neve, como se alguém bastante ferido tivesse sido arrastado por ali.
Joseph engoliu em seco, sentindo um medo que raramente teve em seus quase 70 anos de vida. Esse mesmo medo, segundos após, acabou se tornando uma tremenda fúria voltada ao urso, que provavelmente tinha feito algo à Rick.
— Seu desgraçado! Hoje eu como a sua cabeça crua! — berrou, tratando de seguir a trilha de sangue com um ódio incalculável. — Eu só espero que você tenha apenas arranhado o Rick, se não vai se ver comigo, desgraçado!
Ao longe, o caçador pôde notar com certa facilidade um brilho forte ficando cada vez mais intenso conforme continuava pela trilha. Antes que saísse dentre as árvores de início de mata e chegasse à estrada, ele não tinha dúvidas de que aquelas eram as luzes dos faróis do seu velho jipe.
Um pouco cansado, pois já não estava na melhor forma física para toda aquela adrenalina e correria, parou rente aos faróis do carro e inspecionou o arredor, sentindo um grande arrepio na espinha ao ver que o rastro de sangue se alargara ainda mais nas proximidades do carro e seguia diretamente para trás deste.
— Rick? — Joseph chamou mais uma vez o companheiro, desejando para que este desse ao menos um sinal de vida. Nada. — Rick, está aí?
Sem respostas, ele apertou os punhos ao redor do corpo da espingarda em suas mãos, semicerrou os olhos e forçou os dentes de cima contra os de baixo, finalmente seguindo caminho em passos cuidadosos para a traseira do jipe. Ver todo aquele sangue fresco escorrendo para os poços mais fundos da neve no chão criava-o uma preocupação e um medo aterrador. Jamais pensou que um simples urso o faria passar pelo que passava atualmente.
— Rick? — o indagou novamente já chegando bem próximo da traseira do veículo, olhando com temor para o que estava prestes a encontrar ao fim daquela trilha rubra. — Está aí?
E com os olhos sobressaltados e os batimentos cardíacos desordenados, Joseph se deparou com o corpo do seu pupilo dividido em três partes distintas próximo ao pneu traseiro do outro lado do carro. Seu tronco, suas pernas e sua cabeça pareciam peças de um quebra-cabeça ainda em fase de montagem, estavam todas mutiladas e ensanguentadas. O urso, ou o que quer que fosse, tinha feito de Rick vários bifes.
Enquanto ficou paralisado de horror com a cena que acompanhara, os olhos de Joseph penetraram profundamente na expressão de terror no rosto de Rick e acabaram trazendo pra ele a mesma sensação de assombro que Rick teve antes de morrer, provavelmente ao ver a face da coisa que o fez em pedaços. A espingarda ainda estava à disposição do caçador, no entanto, seus braços haviam perdido a mobilidade, parcialmente pelo frio que fazia e devido também ao que tinha diante de seus olhos.
Sem conseguir se expressar, tamanho o impacto que aquilo causou em seu sistema nervoso, Joseph limitou-se apenas a dar passos para trás, afastando de toda aquela brutalidade. Queria daquela forma prosseguir até que chegasse tão distante que já não pudesse mais ver qualquer sinal do seu jipe ou daquele espetáculo de horror. No entanto, algo inesperado interrompeu seus planos.
Ele sentiu quando colidiu com algo sólido pelas costas, entretanto, não chegou a ver exatamente o que era a coisa que o apunhalou de supetão com uma arma tão afiada que penetrou por suas costelas e se tornou visível ao centro de seu peito. Ele não gritou de dor, não chegou a senti-la na hora. Sem que pudesse fazer nada, sentiu que o seu predador levantou-o do chão de forma que nem seus pés tiveram mais contato com a neve, e tudo isso apenas forçando o bisturi que o penetrara para cima.
Joseph sentiu um pequeno ardor quando a hemorragia interna começou a tomá-lo por dentro. De sua boca logo percebeu uma fina garoa de sangue escorrendo, que com o passar dos segundos foi transformando-se num lago, dada a maçante quantidade de sangue que congestionava sua garganta.
Repentinamente, sentiu quando o ser ao seu encalço moveu-se bruscamente com as mãos, jogando-o fortemente alguns metros longe. Quando seu corpo escorreu pela adaga, o caçador notou o momento em que a lâmina afiada passou cerrando alguns de seus ossos e alargando ainda mais o buraco que ela tinha feito em seu corpo ao entrar.
Caindo diante das luzes frontais do jipe, em seu leito de morte Joseph horrorizou-se ao dar-se conta de tamanha força vinda da criatura que o pegou. Não conseguindo se mexer muito bem, ele continuou deitado da mesma forma que caiu, apenas escutando os passos brutais do outro vindos para cada vez mais próximos de si. O brilho dos faróis não o deixara ver nem de relance o rosto daquilo que o cercara, mas nem de longe era um urso. Distinguira bem seus braços e pernas musculosos, seu corpo colossal... Já não sabia se era porque estava morrendo, mas o ser também parecia ter membros a mais... Quatro braços, duas cabeças...
A lâmina, viu quando ele subiu a lâmina do bisturi o mais alto que pôde deixando claro que pretendia descê-la para dar fim a sua velha e monótona vida de caça. Recordou-se de tudo o que viveu até então, de Rick – a pessoa que mais chegou perto de ser como um filho pra ele -, da forma tão horrenda quanto este morreu... Sentiu, junto a uma onda de dor que começava a mostrar sinal de vida através das áreas mutiladas de seu corpo, um sentimento de vingança tão poderoso que conseguiu até mesmo retomar alguns movimentos. Iria morrer ali, mas iria vingar Rick.
— É por você, filho! — foi o que disse.
A partir de então, quando viu aquele bisturi descendo para picá-lo como se fosse um de seus antigos ursos, puxou vorazmente a espingarda para frente ao peito, mirou-a no que pareciam ser as cabeças daquela coisa macabra e puxou o gatilho.
O som cortante de uma navalha atravessando ossos humanos como se fosse uma tesoura fatiando papéis se fundiu ao eco do estalo feito após o disparo da arma. Um segundo depois, a cabeça de Joseph se abriu ao meio como se fosse uma rosa aflorando, onde cada metade ficou pendurada por uma fina camada de pele que a manteve fixa ao pescoço, e as partes de seu cérebro encontraram-se expostas. Mas o último esforço do veterano não foi em vão.
O buraco que o chumbo da arma abriu na cabeça do algoz foi tão largo que dava para atravessar com uma vara de bambu mediano. Era claramente visível o painel de vidro do jipe que tinha do outro lado das cabeças da criatura, que ficou todo preenchido por gotas de sangue e migalhas da massa craniana deste, olhando pelo buraco.
E a coisa que fosse também veio ao chão, tombando primeiramente de joelhos e logo em seguida vindo a óbito — provavelmente — bem ao lado do corpo do caçador. Seria este o final da história? Não, infelizmente não.
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