A Última Seção À Esquerda

2 Capítulo 01: Cena do Crime


Cena do Crime

A velha e conhecida van branca de Lake Styde acabava de parar às bordas daquela solitária estrada contornada por cumes de neve da mata Wenkoc. Assim que Lambert puxou o freio de mão e desligou o motor do veículo, Taryn abriu sua porta e saltou do carro morrendo de curiosidade pra saber mais à respeito dos brutais assassinatos da noite anterior.

Os dois principais legistas da cidade chegavam por fim ao seu último serviço do dia: levar três corpos desfalecidos encontrados por turistas na respectiva região àquela manhã para o necrotério de Lake Styde, pois nas atuais circunstancias dos cadáveres não havia mais o que fazer num hospital.

Lambert desceu por sua porta calmamente e olhou brevemente para a localização do parceiro; e suspirou. Lá estava Taryn, dependurado numa das faixas de proteção da cena do crime todo bambo, vomitando céus e terras por conta do estado em que encontrou as vítimas. Realmente era uma ironia descomunal, reconhecia Lambert: o sonho de Taryn sempre fora trabalhar na recolha de corpos, apesar disso, mal conseguia beber água com gás sem fazer cara de nojo.

Ao virar-se para não acompanhar mais aquela cena grotesca, Taryn viu Lambert e sorriu desconfortável. O colega de trabalho revirou os olhos e seguiu em passos calmos até onde ele se encontrava.

— Está legal? — perguntou o vendo vomitar novamente, levemente preocupado.

— Acho que não almoço por 1 mês! — berrou após se recuperar do último enjoo, com uma das mãos frente à boca.

— Nada quetwo girls andonecup não resolva, certo? — E na piadinha interna do amigo, Taryn recomeçou a vomitar fulminantemente. — Aff! Deixa de ser fresco, aposto que nem estão tão ruins...

E ao continuar até a cena do crime, Lambert não conseguiu ficar sem sentir um brusco revirar no estômago. Realmente, um com a cabeça partida ao meio, o outro todo desmembrado... Se não fossem anos de experiências e desventuras com corpos daquela forma, ele poderia ter ficado pior que o parceiro. Ainda sim, o que mais lhe causava arrepios em tudo aquilo era o terceiro corpo.

Os braços e pernas daquele cujo possuía duas cabeças eram extremamente longos e grossos, isso tirando o fato de também serem desfigurados de uma maneira horrorosa. No lugar de duas das quatro mãos, o ser com uma estatura superior à 2,9 metros tinha em uma um grande bisturi que saia da carne viva do seu braço e que atualmente encontrava-se sujo por migalhas de ossos e muitas manchas de sangue seco por sua lâmina, e na outra uma corrente bem grossa, também vinda do interior de outro dos seus braços, que estava toda desorganizada sobre a neve ao lado do seu corpo e possuía um gancho bem afiado no final. Seus pés eram largos, aquela criatura devia ter uma força descomunal.

Mais descomunal ainda era o enorme buraco em seu crânio, que partira da testa de uma das cabeças — a qual possuía uma expressão de riso mesmo estando falecida, que mostrava forçadamente todos os dentes estragados de sua boca — até o cume da outra – a com uma feição de tristeza e lamúria, que fazia podê-la imaginar chorando de tão "vivo" o semblante de pesar.

Por dois dos braços serem virados para a esquerda e dois para a direita, obviamente podia-se notar que ali estavam duas pessoas, coladas por puro erro de genética uma de costas para a outra. E mais: eram gêmeas, pois mesmo apesar das diferentes expressões e deformidades, os traços genéticos presentes em seus olhos fundos e nas suas presas afiadas entregavam algum parentesco próximo.

Os dois homens sobre-humanos, apesar de cada um ter seus próprios braços, dividiam as duas mesmas extensas e altas pernas. Provavelmente cada um devia ter o controle de um dos pés, devido ao esquerdo ser voltado para o lado de uma das cabeças, e o direito para o lado oposto. E como eles deviam ser pesados!, Lambert imaginava só de olhar as expressões amargas de força dos policiais que colocavam o grotesco corpo sobre uma maca.

Realmente... Só de passar vagamente os olhos para os corpos dos dois homens comuns e compará-los com aquele gigante, o legista tentava imaginar o quão horrível teria sido o encontro das duas equipes.

— Caçadores. — Lambert foi tirado de sua inspeção pessoal por um dos policiais, que chegava pelo outro lado da faixa trazendo uma espingarda suja de sangue consigo. — Claramente o perseguiram achando que era um urso, ele decidiu se defender e deu no que está vendo. — concluiu o tira.

— E sabem "quem" é ele? — Lambert indagou.

— O "o que"... — Taryn chegou ao lado do colega com uma das mãos no estômago, de onde vinha um enorme desconforto, e tentou participar da conversa ignorando completamente os cadáveres além do policial.

— Dois irmãos, conhecidos pela região como "gêmeos Tayson". Uma rara deficiência os fez assim, presos um no outro e com um porte físico de ogro. As armas pelos braços foram feitas e postas ali pelo pai. Dois dos quatro braços não tiveram mãos, o velho caçador da família Tayson decidiu então dar aos membros extras dos filhos alguma utilidade para caça e os deixou de herança um bisturi e uma corrente. Cresceram e se tornaram caçadores sob o comando paterno, porém ficaram de saco cheio do pai e deram um fim nele com suas próprias armas. A partir de então viveram pra cuidar da mãe adoecida, vivendo somente da caça de animais...

— Não matavam gente? — O curioso Taryn interrompeu a história do oficial. Ele negou.

— Não, inicialmente não. Quando encontravam-se com pessoas, fugiam.

— Hm... — Lambert pôs-se a pensar. — Mas aconteceu alguma coisa que mudou isso, certo?

E o policial afirmou com um acenar.

— Um grupo de caçadores invadiu a antiga cabana onde moravam na tentativa de capturá-los, torturaram e mataram sua mãe quando não os encontraram em casa e daí seu ódio pelas pessoas aflorou. Na mesma noite mataram todos os caçadores presentes na floresta, um de forma mais brutal que o outro, incluindo até os que não tinham nada a ver com a brutalidade em sua cabana. Assassinaram crianças, idosos, casais de namorados que passeavam por estas estradas... Foi um verdadeiro inferno durante quase 1 ano. Muitos policiais que seguiram as pistas dos irmãos acabaram tendo o mesmo destino, dependurados de cabeça pra baixo por uma corda e estripados de cima a baixo.

— Que horror! Ainda bem que não trabalhava nessa área nessa época! — exclamou Taryn.

— E o que houve desde então?

— Não se sabe por qual motivo, mas sumiram do mapa faz quase 4 anos. Só agora reapareceram, e de que forma! — e o policial concluiu a história, deixando os dois rapazes do outro lado bastante surpresos. — Meu pessoal já está acabando de prepará-los para que vocês façam o transporte até a cidade. — disse, se virando. — E não se preocupem, eles estão mortos.

— Ah, como se só o estado dos corpos já não fosse suficiente pra fazer alguém ter um ataque cardíaco! — retrucou Taryn vendo o tira se afastar. Eis que o menor logo fitou Lambert, que ainda assimilava as informações a respeito dos gêmeos, e o tirou de seus devaneios: — A gente realmente vai ter que levar eles com a gente?

— Vamos, mas pode ficar tranquilo! — disse, num leve riso sarcástico. — Você terá apenas que ir junto deles no vagão de trás da van, nada de mais...

— MASOQ?! — O colega arregalou os olhos. — Lambert, cê tá brincando né? Não pode fazer isso comigo, eu tenho os meus direitos, sabia?!

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.