Amanheceu. Já não se viam no céu os inúmeros pontos cintilantes que antes recobriam a imensidão azul-escura do estado de Wyoming.

Quando chegavam as primeiras horas da manhã, as estrelas todas iam-se embora. Substituíam-nas o barulho das cigarras, um Sol que quase não surgia em tempos de inverno, o canto de um ou outro pássaro que pudesse sobreviver à neve que inundava os pinheiros da região. O frio era cortante. E anunciava a chegada da única época do ano que Ennis del Mal relutava em recepcionar: o mês de Janeiro.

O motivo era óbvio: não havia motivos. Ennis não via os motivos de ter de comemorar o fim do ano e o início de um novo se a única razão pela qual levava a vida já não estava em Terra. Ainda assim, Alma Jr. insistia.

Pegou a correspondência que a filha enviara-lhe no começo da semana; Alma Jr. pedia encarecidamente para que ele se fizesse presente em sua casa para as datas comemorativas daquele final de ano. Não era que Ennis não prezasse a sua companhia – chegava a reconhecer nos olhos da filha mais velha os seus próprios –, mas como fazê-la compreender? A cada dia, tornava-se um homem mais recluso. E não lhe agradava a ideia de deixar o trailer por qualquer motivo que fosse. Ou então... Bem, ou então Ennis considerasse deixá-lo. Por uma única exceção.

Ergueu-se da cama. Ainda era cedo. Dirigiu-se à janela mais próxima e fez o que fazia todos os dias, àquela hora da manhã: abriu a fina cortina que separava o interior do seu trailer dos fracos raios de Sol e encarou o céu límpido com esperança de encontrar algo ali. Ou alguém. Por mais que houvesse frio e houvesse neve, a coloração do céu mantinha-se igual àquela do verão – insuportavelmente azul.

Um azul tão profundo, tão sereno, que chegava a causar-lhe dores no peito. Azul como os olhos da pessoa que perdera há cinco anos; e cuja morte permaneceria insuperável pelos próximos cinco, dez, trinta. Quanto mais os anos se passavam, mais as memórias de Jack Twist confundiam-se e diluíam-se na sua mente. E talvez esse, esse fosse o motivo da sua fraqueza.

Não tinha mais certeza do timbre da sua voz. Já não sabia exatamente qual era o tom do azul dos seus olhos. A cada dia mais, o sorriso que iluminara seus dias em Brokeback Mountain perdia-se por entre as suas lembranças. Como podia ter coragem para encarar o início de um novo ano se a fonte da sua força parecia esgotar-se a cada dia? Escutara uma vez que as feições das pessoas mais queridas perdiam-se conforme prosseguiam os anos da sua morte, mas nunca chegara a acreditar que aquilo realmente pudesse vir a acontecer com Jack Twist. E a verdade era que o esquecimento daquelas feições, muito antes de acalentá-lo, faziam-no mais infeliz, mais fraco, mais recluso. Mas Ennis del Mar não iria render-se àquele esquecimento.

O fato era que, depois da morte de Jack Twist, muito havia mudado na vida de Ennis. O arrependimento de ter vivido com medo durante toda a vida batera-lhe na porta; e agora, ele sentia que precisava agir, impedir que as memórias que lhe davam força escapassem por entre os seus dedos. De que forma? A resposta veio de imediato na sua mente.

Brokeback Mountain ficava a uma distância considerável do lugar que reconhecia como seu lar, e a temperatura local, durante o mês de Dezembro, era pouco convidativa. Mesmo assim, era preciso. Se ir a Brokeback Mountain faria com que pudesse reavivar na memória os traços e o sorriso de Jack Twist, então iria fazê-lo. E não haveria inverno rigoroso o suficiente para impedi-lo.

[…]

A vegetação de Brokeback Mountain era basicamente composta por gramíneas e algumas coníferas que se espalhavam de forma desigual por toda a sua extensão. Agora, depois de mais de cinco anos sem revê-la, Ennis dava-se conta que ele próprio havia envelhecido muito mais do que a montanha em si. Enquanto os seus pés pisavam sobre aquela terra, era como se o tempo não tivesse passado; e era estranha a sensação de saber que Jack Twist não estaria ali para revê-lo.

Optou por não passar pelo local de acampamento. A dor de não poder tocá-lo, não poder sequer vê-lo de longe ou sentir a sua presença perto de si já eram ruins o suficiente; assim, optou por permanecer em um ponto alto, onde o seu campo de visão incluísse o extenso local das pastagens, além de uma imensidão verde que se estendia por adiante. Estava fragilizado.

Por dentro do colarinho da camisa que Ennis vestia, a garganta parecia fechar-se lenta e naturalmente em uma reação de choro. Os olhos chegaram a umedecer-se, mas ele os impediu de prosseguir; utilizou uma das mãos para pressioná-los, considerando que a pressão talvez pudesse frear o que estava por vir. Inútil. Se as lágrimas podiam ser contidas, o mesmo não se dizia dos soluços que escapavam ocasionalmente do seu peito. Que estava fazendo?

“Jack...”, murmurou para ninguém, enquanto o vento gélido acariciava sutilmente o seu rosto. Não havia ninguém.

Mas por mais que não houvesse ninguém, havia o desejo de falar. Algumas memórias pareciam agora retornar aos poucos. De olhos fechados, Ennis tentou imaginar como seria se Jack Twist estivesse mesmo ali – e pudesse mesmo ouvir as suas lamentações.

“Não posso...”, prosseguiu, ainda em voz alta. Comprimia os próprios olhos como desejava poder comprimir o seu coração. Apertá-lo, espremê-lo até que toda a dor, todo o sentimentalismo saíssem em forma de líquido e aquele órgão ficasse murcho e úmido. Então, Ennis poderia apenas pendurar o coração deixá-lo secando, reutilizá-lo no futuro. Mas aquilo era mesmo impossível.

“Não posso... Mais um ano, não posso...”, repetiu, em sussurro. “Sem você...”

Logo, porém, deu-se conta: perguntou-se novamente o que estava fazendo. Por que estava dizendo aquilo? Por que estava gastando seus preciosos momentos imaginários com Jack Twist com aquelas lamentações, se na verdade devia mostrar-se forte à frente dele? Precisava mostrar que ainda merecia o seu respeito; a sua admiração – e não que estava morrendo diariamente sem a sua presença.

“Desculpe, Jack”, corrigiu-se, após um pigarro. Aliviou um pouco a pressão sobre seus olhos, sem ainda permitir-se descobri-los. “Não vou ficar me lamentando. Você não merece ouvir”.

E foi nesse momento que o inesperado aconteceu. Enquanto enxergava nada além da escuridão das suas próprias pálpebras, Ennis del Mar escutou o sussurro que veio da montanha:

“Desculpas aceitas, Ennis”.

Mas era estranho que a montanha soubesse seu nome e se dirigisse a ele com tanta intimidade.

Com o coração acelerado, Ennis abriu os olhos e virou a cabeça na direção do sibilo. Encontrou nada além de grandes olhos de cor turquesa – olhos que pareciam tão úmidos quanto os seus próprios –, feições delicadas e bem definidas e bochechas tipicamente rosadas pelo frio intenso que se fazia presente. Jack Twist sorria de forma discreta na sua direção; o seu sorriso, porém, não deixava transparecer alegria alguma, mas o oposto. Ennis conhecia o sorriso de infelicidade de Jack Twist.

Ennis não pôde falar. Abriu e fechou a boca diversas vezes, sem produzir ruído algum. Piscou os olhos castanhos com força, na tentativa de entender se estava mesmo vendo o que parecia ver. Mas não era possível. Enquanto tentava convencer-se de que estava vendo aquela pessoa ao seu lado, Jack fez um sinal negativo e desviou os olhos em direção ao horizonte. Concluiu, em um sussurro:

“Você não devia ter vindo...”

“Jack...”

“A essa época do ano... Ennis, você precisa voltar”.

“Eu... não... consigo”, respondeu Ennis, amargurado. Em uma questão de segundos, seus olhos voltaram a se encher de lágrimas. Umedeceu os lábios para prosseguir em sua fala; a voz saiu-lhe mais grave e mais trêmula do que de costume. “Não consigo... mais. Não consigo viver... Não posso superar.”

“Você precisa”.

“Não...”

Pulou de susto ao sentir que Jack Twist estava tocando a sua mão. Literalmente tocando a sua mão. Na sequencia, suspirou de alívio ao reconhecer aquele toque suave que fazia com que seus pêlos se arrepiassem e os músculos relaxassem. Encarou mais uma vez os olhos grandes. Olhos insuportavelmente azuis.

“Você precisa seguir em frente, Ennis...”

“Eu não quero seguir em frente”, soluçou o outro.

Jack mostrou os dentes em um novo sorriso, mais espontâneo:

“Quer sim...”

O vento frio bateu mais uma vez e percorreu a espinha de Ennis. Era difícil suportar o frio quando parecia haver ao seu lado uma pessoa disposta a aquecê-lo. As suas mãos tremiam a ponto de não conseguir segurar com firmeza as do seu amado, e o coração, descompassado, parecia incapaz de se recuperar daquele momento. Agiu por instinto: virou o corpo topo de frente para o mais baixo e tentou aproximar-se mais dele, com medo do que se seguiria. Jack Twist não se afastou.

“Eu não quero... esquecer...”, sussurrou Ennis. Sentia e via agora as mãos de Jack sobre o seu rosto. Estavam a poucos centímetros de distância.

“Não é esquecer. Ennis...”, murmurou ele em retorno. Aproximou os lábios de um dos ouvidos do mais alto e disse algumas das suas últimas palavras daquele dia. “Eu vou esperar. Quarenta ou cinquenta anos... Não me importam. Mas você não pode desistir”.

Ennis del Mar fez um sinal negativo com a cabeça.

“Não posso...”, começou a repetir as palavras que acabava de ouvir. Foi, entretanto, interrompido pelo toque dos lábios daquela pessoa. Lábios que, tão logo selaram a sua boca, afastaram-se imediatamente. “M-Mas Jack...”

Quando Ennis abriu os olhos pela segunda vez, não havia mais nada.

Viu as pastagens, as gramíneas e coníferas; viu a neve e o topo de outras montanhas. Não viu Jack Twist. Chamou algumas vezes por aquele nome, e olhou ao seu redor; mas não havia Jack Twist. Ao invés de ver ou ouvir a razão pela qual levava a vida, ouvia o barulho das cigarras. Ouvia o canto de um pássaro ou outro que sobrevivia à neve que inundava os pinheiros da região. E observava, ao longe, a timidez de um Sol fraco que quase não aparecia àquela época do ano.

Com o coração cheio de dor – e, ainda assim, cheio de esperança –, planejou a resposta que daria à carta de Alma Jr. Naturalmente, não recusaria um pedido da filha para passar as comemorações do fim do ano ao seu lado; principalmente quando, agora, tinha vívido na memória o toque dos lábios mais macios que um dia já experimentara. Lábios que o esperariam pelo tempo que fosse.

E como era estranho pensar que Jack Twist, já morto, era ainda a sua razão para seguir em frente.

Notas finais
Reviews???? ;;;
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!