A Última Música
1 A última música
Antônio Santana, brasileiro, soteropolitano, 74 anos, desesperado. Naquele instante, ajoelhado na beira de uma cama, compreendia que o branco também poderia preencher o luto, assim como acontecia na tradição chinesa. Um feixe de luz, vindo de uma grande janela, iluminava o ambiente, tornando ainda mais alvas as paredes, os lençóis e o monitor cardíaco. No leito, o seu marido, o senhor Bernardo Figueiredo, que possuía a mesma idade.
Bernardo era a personificação da teimosa e, por isso, não ouvia aqueles que recomendavam a realização de consultas periódicas. Sentir-se saudável era o suficiente. Para as dores de coluna, recebia várias indicações de amigos de quais eram os melhores remédios. Testava todos. Para as dores de cabeça, também outros comprimidos. Sem contar com os remédios para diabetes e hipertensão. Com um arsenal de medicações aleatórias, sentia-se imbatível. Mas o tempo passou e, com ele, trouxe alguns alertas estranhos. Perdeu peso rapidamente, faltava-lhe apetite, tornou-se fraco e vivia com o abdômen inchado. Depois de muita insistência, procurou um médico. Após os exames, constatou: estava com cirrose hepática. Mais tempo se passou. Mais rapidamente a doença tomou conta de Bernardo. Resultando no seu atual estado, lutando, a cada segundo, para continuar vivo.
Antônio nutria pelo marido um imenso amor. Ainda que hoje não se tenha extinguido o preconceito contra homossexuais e outros LGBTs, é inegável que, na sua época, como gostava de contar, a situação era ainda pior. Bernado foi o primeiro rapaz a roubar-lhe toda a atenção, ainda que se sentisse atraído por outros. Conheceram-se como colegas de classe, em mais uns daqueles dias animados de início das aulas, em que se conhece uma pessoa e, boa parte das vezes, ela lhe acompanha durante todo o ano letivo. Aproximaram-se rápido, pois possuíam interesses parecidos. Ambos gostavam de ler e escrever poemas.
Com quatro meses de amizade, em um dia nem tão belo assim, Bernardo apareceu triste. Não estava a fim de conversar e sequer prestava atenção na aula, parecia viajar por outras terras, estar em um tempo distinto, fora de sincronia com a realidade. Antônio lhe perguntou o motivo de tanta quietude e melancolia, e a única reação do menino foi negar a impressão do outro e desviar o assunto. Permaneceu dessa maneira por um longo período, até que, de forma inesperada, Antônio recebeu um envelope na sua caixa de correspondências, tendo este, como remetente, o Bernardo. Diversos poemas foram trocados entre si, porém, nenhum fora endereçado ao outro, como aquele. Uma surpresa. No papel, continha:
"As gaivotas invadem o céu
Enfeitando o inexplorado horizonte
Mantenho os meus pés pesados na terra firme
Sonhando com o dia em que também voarei
Enquanto o tempo escorre
Arrastando-me para o extremo oposto do azul-celeste
Onde a natureza é morta e não há alegria
Apenas a culpa por simplesmente pensar
E arriscar conhecer o sabor do fruto proibido"
O que tanto afligia o rapaz? Era necessário saber. Uma grande interrogação se formou nos seus pensamentos já nebulosos: o que o poema queria dizer? Não era um grande feitio, não era um daqueles poemas indecifráveis, não era nada de tão complexo, mas o desenrolar dos dias fazia com que cada sinal se tornasse um mistério a ser desvendado, sendo somente um grande detetive capaz de solucioná-lo. Pelo bem do seu amigo, descobriria. Antônio, então, respondeu o poema com um outro:
"A dúvida corrói o meu pensamento de gaivota
Ao mesmo tempo em que desejo abraçar a infinitude do céu
Está fincada na terra uma parte do meu sentir
Como boa gaivota não posso voar
Se a consciência não me deixa em paz
Preciso de uma resposta para já"
A carta fora enviada na sexta-feira, dois dias após Antônio receber a mensagem do Bernardo. Durante o final de semana, nada aconteceu. Nenhuma palavra dita, nenhuma carta, nenhuma visita. Somente uma grande preocupação, sabia que o amigo não se abalaria por pouco.
Na segunda-feira, as gaivotas se encontraram. Durante a aula de Português, trocaram bilhetes, a fim de combinar um local para conversarem, assim que o intervalo começasse. Marcaram em um local próximo ao banheiro masculino.
— Bernardo, estou muito preocupado. Há dias tento solucionar o problema, estipulo situações que podem lhe ter ocorrido, mas não obtenho resposta. Quero que fale sobre o poema, quero que me responda. — parou um instante, deixando um silêncio constrangedor — Você sabe que gosto muito de você, que a sua amizade é importante. Pode me contar o que é, quero lhe ajudar.
— Você não entenderia, Antônio… É muito pior do que você pode imaginar. — respondeu, cabisbaixo.
— Já disse que pode confiar em mim, por favor!
Esse foi o ponto em que o jogo começou a fazer sentido: o olhar. Os olhos são as portas para uma infinidade de sentimentos íntimos, e estes são revelados em um simples — mas sincero — olhar, responsável por conectar a alma de dois indivíduos, trazendo a eles uma percepção aguçada que liga todos os fatos passados ao fato presente, com a importante constatação: é ele que eu amo. Os olhos marejados do Bernardo, a maneira como tentava se conectar com a alma de Antônio, todo o seu desejo ardia através daquele instante. Era o tipo de olhar descritos nos livros, os quais conheciam apenas em teoria. Sentindo-se vulnerável, sabendo do entendimento que o seu ato silencioso ocasionou, completou dizendo que sairia dali, e que Antônio não precisava mais olhar na sua direção, para excluir, completamente, a sua existência dos seus pensamentos.
O problema é que, antes de toda a confusão acontecer, os sinais eram claros; os olhares desviados, os toques que emitiam ondas estranhas, a grande atenção e o singular afeto. Todos excluídos da história, de suas mentes, relembrados meramente no flagrante conclusivo. E ambos nutriam pelo outro uma consideração que ia além da amizade. Em segredo. Em absoluto segredo. O embaraço foi o estopim para o beijo, iniciado por Antônio, dando uma resposta ao caso.
Aceitar-se homossexual não foi um grande empecilho, afinal, os olhares para outros rapazes aconteciam desde cedo, para ambos. Durante a infância, refletiram sobre seus sentimentos, sobre as consequências de ser um gay. Mas se apaixonar pelo melhor amigo não estava entre umas das possíveis consequências. Embora não tenham pensado com tanto cuidado, tudo se sucedeu bem entre os dois.
Por anos, mantiveram o relacionamento em segredo. Não podiam sequer pensar na hipótese das famílias saberem do envolvimento. Era um absurdo. Um absurdo que explodiu e devastou toda a esperança que se tinha de caminhar por um percurso menos cruel. Já adultos, com emprego, mas ainda sem moradia própria, foram vistos por aí, em um momento mais íntimo: um simples beijo. Um toque entre seus lábios, que não durou mais de um segundo, acabou com a paz na família de Antônio e Bernardo. Obrigados a saírem de suas casas, ou melhor dizendo, expulso delas, precisaram procurar uma casa de aluguel. Apresentaram-se como amigos e, mesmo assim, foi difícil de encontrar. Os salários, somados, não eram suficientes. Por vezes, passavam fome ou não conseguiam pagar algumas contas. Isso se manteve até que Antônio arrumou um outro trabalho, com salário maior, e passou a, além de trabalhar numa empresa, escrever.
Conquistaram amigos, uma casa própria, o amor se fortaleceu, mas jamais foram perdoados, por suas famílias, pelo erro de amar alguém. E, ali, ajoelhado na beira da cama, Antônio revivia a história ao lado do seu amor, como instantes de um belo filme de romance. O tempo passou depressa. Parecia que ontem estava com 25 anos, cheio de sonhos e disposto a passar por todas as dificuldades, se isso significasse permanecer com Bernardo. O tempo escorreu pelas suas mãos e o trouxe até as suas lágrimas. Estava cumprindo uma promessa, porém, a infelicidade o consumia. Os casais juram fidelidade e amor, até o fim de suas vidas. Até o fim, e este estava a um palmo do seu rosto, com a foice prestes a levar a alma daquele a quem dedicou a vida.
O monitor cardíaco apitava, era a música ambiente. No instante em que parou de chorar, admirou a face do seu parceiro de juramento, e este lhe analisava com um sorriso no rosto. Um sorriso de contentamento, como quem cumpriu a sua missão. A felicidade tomou conta do seu coração por poucos segundos, porque olhá-lo era como esquecer do tempo, dos problemas, inclusive de que um dia a morte bateria na porta. Mas o seu êxtase não durou muito, porque a música parou, e então ele soube: a partir da última batida, seria preenchido pela eterna saudade de olhar aqueles olhos castanhos e se sentir feliz apenas por isso.
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