A Última Lume
2 Dias de Cão
♪ Pass Them By — Agnes Obel
A noite caiu e o frio ficou mais intenso.
O armazém tinha muitas prateleiras com caixas ainda. As que conseguimos pegar, por estarem mais próximas do chão, já haviam sido abertas. Usamos os papelões para forrar o chão e as caixas inteiras fizemos um cercado para diminuir um pouco da corrente de ar frio que vinha dos buracos que havia no lugar. A pouca iluminação que ultrapassava as janelas no alto do barracão, vinha dos postes de luz do lado de fora. E por azar, o celular que usamos para chegar até aqui estava com carga baixa, assim que ligamos a lanterna ele logo desligou.
Ficamos amontoados para nos esquentar.
— Se soubéssemos fazer ao menos uma fogueira, não passaríamos tanto frio — reclamou Camilla, abraçada com Anne: a segunda mais nova do grupo, que cobria as orelhas com seus cabelos longos e castanhos escurecidos, tentando se manter aquecida.
— Fogueira Camilla? Nem gravetos a gente tem pra queimar — retrucou Brenda, a loira escura de pele bronzeada e olhos verdes.
— Acho que uma fogueira agora não seria o ideal, chamaria muito a atenção, talvez, por conta da fumaça — opinou Emilly, uma garota de pele escura, que estava arrumando umas das traças que havia se soltado. Me lembro até hoje do dia em que ela aprendeu a fazê-las; fizemos uma fila para ela trançar o cabelo de cada uma de nós. Aquele foi um dos poucos dias divertidos em que passamos juntos naquele lugar; me senti indo a um salão de beleza.
“Salão de beleza?”, essa palavra é nova, não me lembro de ter pensado ou falado antes. Bom, acho que é um sinal de que estou lembrando de mais alguma coisa — pensei.
— A Emilly tem razão, alguém poderia ver a fumaça e nos encontrar aqui — disse Joaquim, um jovem de cabelos cacheados pretos.
— Por mim o primeiro fósforo que achassem podiam acender. Melhor arriscar do que morrermos de frio — disse Hannah.
— Arriscar no momento não é uma opção Hannah — respondeu Ingred, a jovem de olhos azuis e cabelos longos castanhos, que usava uma camisa xadrez por baixo da jaqueta de couro — Estamos só a 1 km e pouquinho da Clínica, é questão de tempo até que nos achem! E eu não quero nem pensar no que vão fazer com a gente quando nos encontrarem — disse aflita.
— Ingred, você tá sendo pessimista — disse Camilla.
— Pessimista? Nós fugimos de uma clínica cheia de guardas e um bando de loucos que nos mantinham ali só pra tentar acha a porcaria de uma cura. Acham mesmo que eles não sair procurar pelos fantoches deles?! — Ficamos em silêncio — Não deveríamos ter fugido…
— Você queria ter ficado pra eles continuarem mexendo com sua cabeça, te picarem várias vezes no dia com aquelas malditas agulhas, “etc”, “etc”, e você não podendo fazer nada? — perguntou George para Ingred.
Ingred abaixou o olhar fitando o chão.
— Sei lá. — Foi a única coisa que ela disse.
Todos estávamos tensos. Não sabíamos o que viria daqui pra frente, ou daqui a algumas horas, se nos acharem.
Sair da Clínica foi uma libertação, mas agora do lado de fora estávamos expostos tanto a ela quanto ao Polaris, um vírus que, segundo os médicos da Clínica, está vagando pelo estado da Carolina do Norte.
Mas sinceramente, prefiro encarar o vírus, do que agulhas novamente.
O clima ficou estranho. Alguém, ou até eu, precisava dizer algo para tentar melhorar o ânimo…
A barriga de alguém roncou alto.
— O que foi isso?! — perguntou Felícia, que levou um breve susto.
Apertei os lábios segurando o riso.
— Foi a minha — disse Emilly levantando a mão.
— Estávamos tão preocupados com outras coisas que nem lembramos de procurar por comida — disse Brenda.
— Ei! Por que não olhamos o que tem naquelas caixas do alto? — propôs George — Talvez encontremos algo pra comer. — Ele se levantou.
— Eu acho uma boa ideia — respondi.
Ele saiu do cercado de caixas, e eu, Emilly e Brenda o seguimos e paramos em frente a prateleira mais próxima. Eram 6 andares, contando com a do chão, de prateleiras.
George colocou as mãos na barra da prateleira e pulou dando impulso para subir; mas falhou.
— Nossa, George, você já foi mais ágil que isso — zombou Hannah, se aproximando de nós.
Eu segurei o riso quando ela falou. Aquilo foi quase que um insulto para George; ele era praticamente o atleta do grupo, tendo um porte robusto e alto.
Embora fossemos “ratinhos de laboratório”, nós éramos bem saudáveis. A clínica nos mantinha em boas condições; alimentação balanceada e exercícios físicos e mentais diários. Se bem que, os exercícios pra mim não eram muito eficazes…
George virou o rosto para Hannah, a olhando com cara fechada por cima do ombro, mas não disse nada. Ele não iria responder à ruiva ardente de língua afiada. Os dois eram da mesma idade, 18 anos, e tinham naturezas fortes, sendo Hannah a mais estourada.
Ele se preparou para mais uma tentativa. E dessa vez ele conseguiu subir! Porém, aquela não era a que ele precisava, porque nessa, por estar no baixo, as poucas caixas que sobraram ali estavam todas abertas e vazias. Ele precisava subir na terceira, onde havia mais caixas fechadas.
Percebi que mais um se aproximava de nós; era Ingred.
— Eu sei que vocês vão me chamar de pessimista e portadora de más coisas; e reconheço sinceramente meu papel… — ela começou, mas Hannah a interrompeu.
— Ingred, fica de boa, alguém nesse grupo precisa avisar a gente dos perigos — ela disse, tentando não fazer Ingred se sentir mal.
— Sim, fica tranquila, a gente entende — disse Emily. Eu e Brenda concordamos com a cabeça.
Ingred deu um sorrisinho, feliz por compreendermos ela.
— Certo, então… não se importam se eu questionar sobre o fato dessas estruturas que o George tá subindo, estarem um pouco enferrujadas, né? — ela perguntou.
Analisamos elas por alguns segundos.
— Ah, só um pouquinho — respondeu Brenda.
— Você fala por conta do George correr o risco de pegar tétano? — disse Hannah. — Se for isso, não se preocupe, lembra que somos vacinados contra; contra isso e milhares de outras possíveis infecções. — Hannah revirou os olhos. — Se um dia eu chegar a pegar alguma doença, eu processo aquela Clínica por me picar inutilmente!
— “Processo” ? O que é isso? — perguntei.
— Eu sei lá, ouvi um dos funcionários dizer uma vez, parecia perigoso — respondeu.
— Ah…, mas — balancei levemente a cabeça negativamente — acho que não era isso, de pegar uma infecção, que a Ingred quis dizer. Acho que ela está questionando se a gente não acha que esses ferros podem desabar — falei.
— Acredito que não — sugeriu Emilly. — Pelo menos não por agora… — falou olhando para cima onde estava George, que havia conseguido com custo chegar na terceira prateleira.
Ele encontrou uma caixa lacrada; tão bem lacrada que ele teve dificuldades para abrir.
— O que tem nela? — perguntou Hannah em tom alto.
— Uma coisa deliciosa — ele disse pegando algo na caixa.
George ergueu na mãos uma caixa de sabão em pó… Era visível minha expressão de decepção, eu estava faminta; todos nós, na verdade.
— Aff — expressou Hannah.
— Tem mais uma caixa aqui, talvez tenhamos sorte — disse George.
— Vê se tem algo escrito nela antes de abrir, dizendo o que tem dentro — sugeriu Emilly.
George se direcionou até a outra caixa, e procurou pelas informações nela.
— Achou? — perguntei.
— Sim, — respondeu George — tem água sanitária nessa.
— Será possível que viemos parar um depósito de produtos de limpeza?! — disse Hannah com indignação.
— Talvez nessa seção seja só de limpeza — deduziu Emilly.
— Devíamos olhar as outras até achar a de alimentos — sugeri.
George desceu das prateleiras e se dirigiu até nós.
— Olha, eu consigo subir em mais algumas pra procurar, mas não todas porque são muitas — disse George — Vou precisar de ajudar.
Olhamos umas para as outras.
— Dafne, — Hannah me chamou — você que deu a ideia — sugerindo que eu fosse.
— Ainda estou me recuperando da corrida, escalada e longa caminhada de hoje — respondi tirando o corpo fora — Talvez a Brenda devesse ajudar, ela se dava bem nas atividades físicas — sugeri.
— Ah! E se esse negócio despenca comigo em cima dele?! — questionou Brenda.
— Não vai despencar — afirmou Emilly — Os ferros não estão com buracos.
Brenda ficou brevemente pensativa.
— Certo… — ela concordou — Mas precisamos de mais alguém.
— Mais alguém se oferece? — perguntou Hannah — Joaquim?
— … Tudo bem, eu vou — Joaquim se levantou e saiu do cercado de caixas, se aproximando de nós.
— Vou ajudar também — se ofereceu Emilly — Quanto mais gente procurando, mais rápido encontraremos comida.
— Olha, acho que eu também posso ajudar, de alguma forma — eu disse — Eu não queria subir nessas estruturas, mas eu posso procurar por algo que esteja no baixo e nos arredores do barracão.
— Bom, se for assim, eu também me voluntario — se ofereceu Ingred.
— Então vamos fazer assim: George, Brenda, Joaquim e Emilly, vão ficar com as prateleiras; Eu, Dafne, Camilla e Ingred, ficamos com a parte de baixo — determinou Hannah.
— E enquanto nós duas?! — questionou Felícia, que havia saído do cercado, juntamente com Anne.
— Vocês duas vão ficar entre essas caixas aí — disse Hannah apontando para o cercado.
— Mas por quê? — questionou Anne — Queremos ajudar também.
— Vão ajudar ficando onde estão. Não queremos correr o risco de vocês aprontarem alguma — disse Camilla.
— Quando foi que a gente fez algo? — perguntou Felícia.
— Preciso mesmo falar?! — questionou Hannah.
— … Não … — respondeu Felícia, que bufou em seguida e se virou para voltar onde estava — Eu falo pra você Anne, só porque somos as mais novas, eles fazem da gente de gato e sapato — ela resmungou para Anne.
Hannah cuidava de Felícia como sua irmã; o mesmo fazia Camilla com Anne. Por isso eram um pouco duras com elas; e também porque eram o Pinky e o Cérebro ocasionalmente.
Demos inicio a procura por comida e algo que fosse útil.
Eu fui para os fundos do barracão. Tinha alguns entulhos e lixos pelo chão, mas nada interessante, pelo menos o que deu para ver, porque ali onde eu estava, a claridade da luz do poste não alcançava.
Acabei chutando algo no chão que rolou para frente. Eu não iria colocar as mãos no chão para procurar; então foquei bem meu olhar para tentar achar.
Estava bem difícil… Até que, por sorte, acabei pisando em cima do objeto. Eu me abaixei para pegá-lo; ele tinha um formato cilíndrico e algo que parecia um botão na lateral. Apertei o botão, e uma luz iluminou meu rosto. Havia encontrando uma lanterna!
Dei um riso de felicidade. Nem acreditava que tinha achado algo que poderia nos ajudar ainda mais. Agora seria muito mais fácil. Só esperava que a carga dela estivesse cheia…
Eu iluminei o restante do caminho que havia determinado, e acabei encontrando o que parecia ser uma empilhadeira, ela estava um pouco empoeirada e com teias de aranha. Acredito que se soubéssemos usar, ela seria bem útil. Apesar que eu nem sei para que usaríamos…
— Encontrei! — Alguém gritou.
Voltei correndo para nosso ponto.
Joaquim havia encontrado uma caixa com pacotes de bolachas.
— Cara, eu nem acredito! — Joaquim disse empolgado, levantando os pacotes nas mãos.
— Achei uma caixa com sucos também! — gritou Emilly de cima de uma prateleira.
— Parece que teremos um banquete está noite! — declarou Hannah.
— Dafne, o que está segurando? — Camilla me perguntou.
— Encontrei uma lanterna — eu disse com um sorriso, enquanto mostrava.
Passaríamos esta noite tranquilos e de barriga cheia. Até mesmo do frio havíamos esquecido, porque nossos corpos se aqueceram enquanto andávamos por esse armazém.
Nós nos sentamos em círculo, em cima dos papelões para evitar o chão gelado, e os pacotes e sucos estavam no meio. Ninguém mais conversava, só se ouvia o barulho das bocas mastigando.
Até que Hannah levantou a caixinha de suco que estava tomando. Nós a olhamos sem entender.
— Essa é para aqueles que duvidaram da nossa capacidade de sobrevivência! — ela declarou.
Acho que o que ela estava propondo um brinde; vimos um filme uma vez que havia uma cena assim, mas acho que os outros não se recordavam. Então levantei a minha caixinha para acompanhá-la. E assim os outros repetiram nossa ação.
— Salute! — declaramos.
— Mas quem exatamente duvidaria da nossa capacidade? — perguntou Brenda.
— Sei lá, talvez os médicos estejam achando que não vamos aguentar nem mais um dia aqui do lado de fora. E voltaremos correndo para a clínica como bichinhos apavorados — respondeu Hannah.
Então eu bocejei. Estava cansada. Tinha sido um dia tenso e atípico.
Quando percebi, os outros também estavam com caras de sono. Nós nos ajeitamos onde estávamos mesmo. E ali dormimos, amontoados para nos manter aquecidos. Esperando que veríamos o amanhecer.
Fomos acordados por um barulho estrondoso de buzina.
Ficamos apavorados; uns querendo chorar e outros prontos para correr.
— Nos acharam! Nos acharam! — gritou Ingred, quase começando a chorar.
Eu fiquei com um enorme medo quando acordei e quis sair correndo, mas…, aquele barulho, parecia tão familiar, como se eu já tivesse ouvido ele.
Resolvi me levantar e ir até uma das portas de metal para saber o que estava fazendo todo aquele barulho. George e Emilly decidiram me acompanhar.
Subimos só um pouco a porta, apenas para verificar se não havia ninguém ali na frente dela ou nos arredores.
Olhamos pela fresta aberta e por Deus não havia ninguém. Então nós três nos arrastamos por debaixo da porta para sairmos.
Havia nevado de madrugada e estava tudo branquinho e o céu acinzentado como sempre. A casa de máquinas tampava um pouco a vista, mas assim que olhamos para o lado esquerdo vimos que era um enorme trem que estava passando.
Não sei se isso era bom ou ruim, mas aparentemente ele não apresentava nenhuma ameaça. Ficamos um pouco aliviados.
Voltamos para avisar o grupo do que se tratava o barulho.
— O que era?! — perguntou Camilla assim que nos avistou chegando.
— Apenas um trem — respondi.
Ingred soltou um suspiro aliviada, como se tivesse tirado um peso de cima dela.
— Escolhemos bem o dia para fugirmos — disse Emilly — Nevou durante a noite, se fosse hoje ficaria muito mais complicado se movimentar.
— Ainda bem que deu tudo certo — disse Brenda.
Como o susto foi esclarecido, nós nos organizamos para tomar o café da manhã.
Aquele suco estava muito mais saboroso agora do que no jantar. Porém, eu sentia uma sensação estranha ao tomá-lo, e talvez não tenha reparado na primeira vez que tomei porque estava com fome. O sabor dele me dava a sensação de algo familiar. Como se eu já tivesse tomado-o antes em algum período da minha vida…
— Vocês…, — comecei — sentiram uma sensação esquisita bebendo esse suco?
Alguns ficaram em dúvida; talvez não haviam reparado no sabor.
— Eu senti… mas, comendo as bolachas… — disse Joaquim — Acho que uma mulher, que eu chamava de “Mãe”, trazia delas pra mim…
— Sim! — concordei — Acho que tive uma “Mãe” também. E ela fazia um suco bem parecido com esse, quase idêntico — falei em um tom de empolgação.
Era como se eu lembrasse das coisas, mesmos não tendo nenhuma imagem delas.
— Será que já tivemos uma família? — questionou Ingryd pensativa.
— Ou uma vida normal antes da clínica? — disse Camilla.
O silêncio voltou a nos perturbar.
Aquelas eram perguntas que ocasionalmente fazíamos quando estávamos juntos: como era nossa vida antes de tudo aquilo?
Nós não lembrávamos de como chegamos na clínica, apenas acordamos lá um dia. Com as mentes em branco, colocados em um só quarto grande com beliches, vestindo camisetas e moletons verdes, com uma identificação do lado esquerdo no peito. Nem nossos nomes sabíamos, até que fomos chamados por eles; mas, acreditava que não eram os verdadeiros.
Se tínhamos família ou algum parente procurando por nós; não sabíamos. Se eram vivos, também não sabíamos.
As poucas memórias que tínhamos ocasionalmente, apesar de nos deixarem entusiasmados, nos deixava a dúvida se foram reais, ou só mais alguma coisa que a O.N.C.E.I.P, colocou em nossas mentes. Cogitamos até a possibilidade de termos sido criados no laboratório.
A O.N.C.E.I.P, era o nome da clínica que nos manteve todo esse tempo, indeterminado. Com a promessa de que eramos a esperança da humanidade; uma chance de salvar vidas, possibilitando a criação de uma cura.
George então se posicionou em relação aos questionamentos, pela primeira vez.
— Acho que deveríamos parar com isso; com essas perguntas sobre o passado que provavelmente nunca teremos uma resposta — ele começou — Acredito que nosso foco agora deveria ser em pensar para onde iremos, porque não podemos ficar aqui por muito tempo.
— E se pegássemos o trem? — eu sugeri rapidamente, — Ele está indo pra algum lugar. Talvez…, poderíamos segui-lo pelos trilhos.
— Andar por uma linha férrea que não sabemos aonde irá dar, e ir atrás de um trem que passou apenas uma vez aqui? — Emilly protestou — Não sei se é uma boa.
— Concordo com a Emilly — disse Camilla — Não fomos nem para o outro lado por que não sabíamos o que iriamos encontrar lá; quem dirá seguir adiante nesses trilhos.
— E se ao invés de seguimos o trem pelos trilhos, por que não esperamos ele passar de novo? — sugeriu Joaquim — Talvez conseguíssemos entrar em algum vagão aberto ou sei lá.
— E quem garante que ele irá passar de novo? — disse Hannah.
— Ele vai! — eu disse com convicção. Os outros me olharam até com um certo espanto, nem eu esperava afirmar nesse tom.
Por que afirmei com tanta certeza? — pensei. Esperava mesmo que ele passasse, senão eles me matariam…
— Ok…, vamos esperar então até que ele volte — disse Hannah, finalizando o assunto.
— O que faremos enquanto isso? Sair ou continuar trancados? — perguntou Brenda.
Ficamos pensativos por uns estantes.
Hannah percebeu algo.
— Cadê a Felícia?! E a Anne?! — Hannah perguntou em um tom espantando.
Quando ela se manifestou foi quando percebi que as duas não estavam mais entre nós.
— Elas devem estar explorando o armazém — deduzi.
— Pra terem saído de fininho? Com certeza não — disse Camilla se levantando rapidamente.
Hannah estava pronta para chamar por elas, mas eu tapei ligeiramente a boca dela.
— Por Deus, não grite! Iria chamar a atenção! — eu disse, logo tirando a mão da boca dela.
— Mas é essa a intenção! Chamar a atenção das duas, pra voltarem pra cá! — disse Hannah um tanto alterada.
— Acho melhor procurarmos por elas sem fazer escândalo — George sugeriu indiretamente para Hannah — O barracão é bem grande, então vai ser mais fácil alguns já procurarem do lado de fora, e outros aqui dentro.
Nós nos dividimos. Resolvi que iria procurar pelo lado de fora.
O barracão tinha uma calçada alta e larga que o rodeava; mas eu queria ir por fora dela, andando pela neve. Meus pés começaram a afundar um pouco a cada passo e estava bem ruim. Achei melhor voltar para a calçada. Quando coloquei um pé para subir, algo caiu no chão perto de mim.
Era minha lanterna. Coloquei a mão no bolso da jaqueta onde ela estava, e percebi que havia rasgado. Quando me abaixei para pega-la, vi algo gravado nela, que eu não percebi a noite pela falta de luminosidade.
Era uma letra: T; que estava gravada. Com certeza pertencia a alguém que tinha um nome começado com a letra T.
Voltei a guarda a lanterna, dessa vez no bolso da calça. Mas, algo me fez tirá-la rapidamente para olhá-la novamente.
Eu a analisei e passei o polegar na inicial gravada, e como um flash, veio à minha mente:
— Thomas? — pensei em voz alta, franzindo o cenho.
De onde tirei esse nome? — pensei em seguida.
Fiquei por um momento pensativa, tentando me recorda onde havia escutado esse nome. Ele soava tão familiar.
Fui tirada dos meus pensamentos quando escutei um assovio.
Levantei a cabeça na direção e vi que era George, no final da calçada, me chamando, avisando que haviam encontrado as duas. Voltei a lanterna para o bolso da calça, subi na calçada e corri na direção dele.
— Elas estão bem? — perguntei me aproximando dele.
— Sim. Estão na parte de trás do barracão — ele respondeu, e logo começou a andar rapidamente me guiando para onde elas estavam.
Eu estava acompanhando o ritmo dele, até que ele começou a correr. Odiava quando faziam isso e me deixavam pra trás.
Apressei um pouco mais o passo até que cheguei nos fundos do barracão.
♪ Dog Days Are Over — Florence + The Machine
Algo gelado atingiu meu rosto violentamente.
Alguém havia jogado uma bola de neve em mim. Quando virei o rosto, vi o pessoal com bolas de neve nas mãos, rindo. Eu me abaixei rapidamente para fazer uma também antes que jogassem mais em mim.
Eu me aproximei deles e joguei na direção da Camilla, acertando-a. E assim começamos uma guerra de bolas de neve mutuamente.
Como era boa aquela sensação de liberdade… Sem câmeras, ou guardas nos vigiando o tempo todo. Sem paredes e portas de ferro nos prendendo. Queria que aquilo durasse por um bom tempo…
De repente, um barulho de ferros rangendo soou de dentro do barracão.
Brenda, que estava mais perto da porta de incêndio do barracão, foi para verificar o que estava acontecendo.
Assim que ela ficou a um passo da porta entre aberta, um estrondo alto de ferros caindo de uma só vez soou e uma nuvem de poeira passou pela porta. Brenda saiu rapidamente dali.
— Meu Deus! O que foi isso?! — disse Ingred espantada.
— Pelo barulho, parece que foram as prateleiras que desmontaram! — deduziu Joaquim.
— Com certeza foram! — disse Brenda com os olhos arregalados e tensa.
— Que bom que a Ingred nos alertou sobre a estrutura estar frágil — disse Hannah se aproximando de Ingred — Viu como você tem um papel importante no grupo — ela deu um leve sorriso.
Ingred retribuiu, também, com um leve sorriso, mas que se desfez rapidamente quando Felícia gritou por Hannah.
Nós nos viramos na direção do grito, e fomos tomados por uma sensação de pavor.
Homens usando roupas pretas e capacetes, saíam de todos os cantos e nos encurralavam, apontando as armas para nós. O grupo foi ficando cada vem mais junto, enquanto os homens fechavam um círculo em volta de nós. Eu consegui ver o que estava escrito no uniforme de um deles: O.N.C.E.I.P.
Eles haviam nos achado!...
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